Yashá Gallazzi

@YashaGallazzi

Vale a pena lutar por nossos valores

Uma das minhas maiores divergências com o dito pensamento libertário (nada contra, inclusive tenho amigos que são) é a certeza que eles têm de que cada país deve ficar quieto no seu canto, sem intervir em nenhum outro – exceto, claro, em caso de prévia e injusta agressão sofrida. É inclusive por isso que libertários são contra a chamada Guerra ao Terror: eles não acham correto que indivíduos devam ser forçados a financiar uma expedição militar do outro lado do mundo.

Antes de prosseguir, um esclarecimento: é evidente que não quero – nem posso – sintetizar no parágrafo acima toda a filosofia libertária. A ideia nem é essa. O que pretendo é apenas ilustrar uma das principais divergências que eu, pessoalmente, tenho diante dela. E, a partir disso, explicar por que entendo que uma das funções dessa ficção social denominada Estado deve ser, sim, garantir a vigência dos valores sobre os quais se erigiu o Ocidente. Mas já me desviei demais. Retomo.

Certa feita me acusaram de ser favorável ao imperialismo. Perguntei: “Você fala do ponto de vista prático, ou estritamente acadêmico?” Diante da falta de reação do interlocutor, falei algo que repito desde então, sempre que a questão me é reproposta: sou tão contra o imperialismo, que no meu mundo ideal, nem Grandes Navegações teriam existido. A Europa continuaria sendo “apenas” Europa, a riquíssima cultura oriental seria cultivada pelos orientais e os nossos índios estariam até hoje batendo os pés no chão para trazer os mortos de volta à vida… Mas o mundo não é como eu o idealizo. Ele é como é e devemos lidar com os problemas que estão postos após milênios de história.

Mas qual o ponto disso? Simples: é evidente que, dependesse apenas da minha vontade utópica, as mazelas decorrentes da colonização jamais teriam existido. Por outro lado, sendo imutável o fato de que ocorreram, me é impossível deixar de notar que era preferível a França oprimindo a Algéria com Descartes, que a barbárie instituída depois da saída dos europeus…

Da mesma forma, é evidente que no meu mundo ideal nós ficaríamos quietos no nosso canto, pagando poucos impostos e vivendo nossas vidas. Mas não acho possível que o Ocidente assista impassível enquanto o Irã enforca homossexuais em praça pública, ou enquanto Saddan extermina uma inteira etnia. Acho, sim, que é necessário intervir! Acredito que se nós, indivíduos livres, aceitamos democraticamente limitar nossas liberdades em nome dessa coisa chamada Estado é, inclusive, para defender a prevalência do nosso alicerce moral.

Eu não pretendo defender toda e qualquer guerra declarada pelos Estados Unidos em nome da liberdade. Longe disso! Quero dizer que não concordo com a lógica do “isso não me diz respeito”, pois uma violação às liberdades individuais em um lugar é uma violação às liberdades individuais em todo lugar.Família

O Ocidente não precisa impedir que mulheres sejam apedrejadas até a morte em alguma teocracia islâmica porque isso é o melhor para elas. Não! O Ocidente precisa impedir porque isso é o melhor para nós. Porque a partir do momento que algo assim deixar de ser motivo para intervir, significa que as pedras fundamentais sobre as quais foi erguido o nosso sistema de liberdades democráticas começaram a ruir.

Não vejo como seja possível ficar indiferente diante do recrutamento de crianças para funcionarem como homens-bomba, no mercado de carne humana mantido pelo fascismo islâmico. O imperativo moral não é intervir apenas para impedir que um menino palestino se torne mercadoria a serviço do Hamas, mas para que possamos continuar olhando nos olhos nossos próprios filhos sabendo que somos sinceros quando passamos a eles os valores de liberdade e justiça.

“Nossa, mas esse texto parece muito filo-ocidental.” Como assim, parece?! Este texto é filo-ocidental! Eu não pretendo esconder minhas convicções e uma das coisas que aprendi a admitir sem medo do consenso politicamente correto é que o Ocidente, com todas as suas mazelas e seus defeitos, ainda é, sim, superior às alternativas. Aqui é possível pegar um megafone e ir na frente da Casa Branca esculhambar o Obama. Experimente fazer isso na Coreia do Norte. Aqui travamos calorosos debates para que mulheres de origem islâmica possam andar em nossas ruas trajando suas vestes típicas. Agora me digam que mulher ocidental pode andar em Teerã usando minissaia e decote? Aqui, fazemos passeatas pedindo paz quando um míssil atinge, por engano, um alvo civil deles. Lá, eles saem às ruas para comemorar quando dois aviões atingem de propósito um alvo civil nosso.

Sou mesmo um conservador… Não acho que os estupros coletivos, usados como arma de guerra pelo exército oficial do Congo, devam ser ignorados e tratados como “particularidade cultural” daquele lugar. Eles não me afetam direta e imediatamente, mas virar as costas para isso é condescender com a presença da barbárie mais primitiva e atroz no mundo. E esse tipo de concessão acabará irremediavelmente por dilapidar os nossos valores. É em nome deles que a liberdade e a busca da felicidade devem ser protegidas e garantidas não apenas aqui, no meu universo particular. Mas em qualquer parte do mundo.

Torturando a democracia até que ela desista

O brasileiro indignado padrão não merece respeito. É aquele sujeito que passou semanas a fio nas redes sociais, nos corredores do trabalho e nas mesas de bar esculhambando o deputado/pastor Marco Feliciano e exigindo a saída dele da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

Feliciano, como até as obras frígidas de Niemeyer sabem, é um sujeito obtuso. Tornou-se conhecido por proferir algumas afirmações capazes de tornar o (também deputado!) Tiririca um respeitado pensador e de alçar o (também deputado!!!) Romário ao patamar de intelectual de renome. Mas Feliciano também é outra coisa que o brasileiro indignado padrão se nega a reconhecer: um legítimo representante das dezenas de milhares de pessoas que o levaram, com o voto democrático, ao Congresso Nacional.

Assim funciona a democracia, esse sistema onde deve ser assegurado e respeitado o legítimo direito que o povo tem de votar mal. É próprio desse sistema o surgimento de um Tiririca e também de um Feliciano. Assim como a eleição de Genoíno e João Paulo Cunha. O estranho da democracia “sui generis” do Brasil é que o indignado padrão se incomode tanto com Feliciano, por conta do que pensa o deputado/pastor responsável pela Comissão de Direitos Humanos de uma das casas do Legislativo, mas não diga nada sobre a presença dos petistas Genoíno e J. P. Cunha, condenados criminalmente pelo STF, na bem mais importante Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.

Feliciano, com a profundidade intelectual de um pires, pode no máximo gargantear suas “verdades” e aumentar a quantidade de simpatizantes das causas às quais se opõe abertamente. Já Genoíno e Cunha, os condenados, sentados em um dos postos mais importantes do Congresso Nacional, podem ajudar diretamente a violar a Constituição brasileira, a vilipendiar o regime democrático e a sabotar o sistema de liberdades individuais. Por que eles fariam isso? Porque é da natureza dessa gente; é a “jihad” deles. E tudo começou lá atrás, com um italiano chamado Antonio Gramsci…

Gramsci foi o sujeito responsável por entender – e revelar – a principal (dentre as várias…) asneira proferida por Karl Marx e, uma vez feito isso, mudar definitivamente o foco e os rumos da então chamada esquerda revolucionária. Em resumo, o CDF italiano percebeu que convencer o tal proletariado a pegar em armas pra fazer revolução era bem mais complicado do que faziam supor os poéticos textos do barbudo alemão. Seria mais fácil “conscientizar” o trabalhador acerca da importância de se construir o “outro mundo possível”, do que botar um trabuco na mão dele e querer que ele mate o patrão.

Percebeu-se, então, que mais valia ocupar os centros de produção do conhecimento e difusão cultural (daí as escolas e universidades onde impera apenas uma linha de pensamento), além das instituições próprias do Estado, do que tentar sair no tapa diretamente. Por isso se faz necessário para eles o assalto à máquina pública: para garantir que tudo esteja sob o controle d’O Partido, de modo a reproduzir a linha de ação deste.

É na esteira dessa política que aqui, sob o governo atual, já vimos reiteradas tentativas de controlar a imprensa (eles chamam de “democratizar os meios de comunicação”…) e vemos agora, por meio da PEC 33, uma tentativa descarada de controlar o Poder Judiciário. Não! Eu não estou exagerando. A idéia do PT com aquela PEC é, na prática, suprimir o Supremo Tribunal Federal como última instância em matéria de controle e interpretação da Constituição. A consequência imediata disso seria assassinar o princípio da separação dos poderes republicanos, coisa que é proibida pela Carta Magna vigente (art. 60, § 4º, III).

Mas se é proibido pela Constituição, há chance de passar? Ouso dizer que não. Pelo menos não da forma agora pretendida. Um projeto legislativo flagrantemente contrário à Constituição pode ser sustado pelo STF (e ele – ainda… – tem a palavra final sobre isso) por meio de ação judicial proposta por qualquer partido ou parlamentar de oposição. A questão aqui não é o risco de amanhã ser aprovada a PEC 33 e acordarmos num país onde um Congresso a serviço do PT decidirá quando uma decisão da suprema corte tem validade, ou deve ser jogada na lata de lixo. O problema real, a meu ver, é menos técnico-jurídico e mais ideológico: o partido do governo (e maior partido do país) mostrou, uma vez mais, seus claros traços fascistóides e lançou um “balão de ensaio”. Assim ele testa a reação da imprensa, dos tais formadores de opinião e das demais forças institucionais (pro povo ninguém liga porque o povo não tem a menor idéia do que seja uma PEC e marchará contra o STF e isso lhe for ordenado por quem paga a Bolsa Família), preparando-se para quando a oportunidade surgir de verdade.

E quando será isso? Difícil dizer… Mas com as maiorias que vêm sendo conferidas aos governos do PT, não deve demorar muito. Vale lembrar que mais de uma vez falou-se nos tais órgãos de regulação da mídia e, mais de uma vez, lançou-se o boato em torno de uma “Constituinte Exclusiva” para fazer as tais “reformas que o país tanto precisa”. Se algo assim vingar, quem vocês acham que estaria nessa tal Constituinte? Se o PT recebe ampla maioria agora, por que deixaria de receber caso se decidisse formar uma assembléia paralela? “Ah, mas a Constituinte seria composta apenas por ‘notáveis’, desvinculados dos partidos.” Ok, e eles seria recrutados onde? Nas universidades, nos veículos de produção cultural e na tal sociedade civil. Preciso dizer qual o partido do coração dessa turma toda (ou da maioria dela, pelo menos)?

O PT nunca negou sua tradição socialista (está no estatuto do partido até hoje). Eles não toleram que o Estado exista acima dos partidos e apesar deles, porque precisam que o Estado exista em função d’O Partido. Eles não toleram que o STF condene à prisão líderes históricos d’O Partido, porque O Partido, apesar de “tropeços” como o mensalão, é o portador da verdade redentora que conduzirá ao “outro mundo possível”. Eles precisam, enfim, segurar as rédeas e conduzir a manada acéfala, pois O Partido está aí para dar um rumo à coletividade.

A PEC 33 é só mais uma amostra de como o sistema de liberdades democráticas encontra-se, ainda hoje, sob contínuo ataque. É para eles uma verdadeira “jihad”, como mencionei alhures: o indivíduo livre é o infiel que deve ser varrido do mapa, afinal cada pessoa livre é uma trincheira em potencial a frear e deter a marcha deles. Eles não são assim porque são maus. São assim porque essa é a natureza deles.

A natureza do ser humano, porém, é a liberdade. Por isso, a tendência natural é sempre resistir às investidas do Estado contra as garantias individuais. Por isso eles não gostam de seres humanos, mas amam as “causas”; por isso não suportam indivíduos, mas adoram todos “grupos organizados”. Sempre que houver uma coletividade capaz de desnaturalizar a pessoa, lá estarão eles, segurando-a pela mão e conduzindo-a ao “outro mundo possível”. O mundo onde ser politizado é criticar Feliciano por falar asneiras, mas é golpismo denunciar que dois condenados como Genoíno e João Paulo Cunha dão aval a uma tentativa de assassinar a Constiuição.

Certa vez

Certa vez, durante um desses debates políticos que surgem numa roda de amigos, o mais metido a revolucionário da turma, devidamente trajado com sua camisa do Che e suas sandálias de couro, perguntou-me quando exatamente eu me tornei um “maldito reaça”. Minha reação natural foi rir do lugar-comum; do zap que todo progressista brasileiro saca quando quer trucar qualquer um que critique o fiasco que foram as várias experiências socialistas – de modo geral – ou mesmo o governo do PT – em particular.

Mas eis que depois, refletindo, descobri quando exatamente me tornei um reaça: foi no momento em que compreendi que Alexander Soljenitsin não é igual a Marcola; que Wladmir Herzog não é igual a Fernandinho Beira-Mar; e que Nelson Mandela não é igual a Elias Maluco. Em outras palavras, diferentemente da safra atual de progressistas brasileiros (com raras e louváveis exceções), este reaça aqui sabe bem a diferença entre um preso político e um mero delinquente. Meu mundo ideal, dizem os humanistas da esquerda, é o do consumismo e da exploração. Eu digo que é o dos antibióticos, da água encanada, da escrita e da literatura. O deles é o da construção do “novo homem” e do “outro mundo possível”, sem dar importância a coisas pequeno-burguesas como a liberdade de imprensa, a democracia representativa ou mesmo o sabonete neutro e o desodorante…

Uma outra característica que me torna indiscutivelmente um reaça é o fato de ter apenas uma moral. Sim, nós, os reaças, somos aborrecidamente previsíveis: temos sempre um único norte moral, que não enverga de acordo com os ventos de ocasião. “Eles”, os progressistas, são diferentes: têm várias morais! Por isso conseguem, sem nenhum assombro, passar de ferrenhos críticos de Sarney, Collor e Maluf, a aliados fraternos destes. Para mim, que sou um tanto mais ortodoxo, não é possível conviver com bandidos de estimação. Deixo todos eles para a esquerda, que já tem know how quando o assunto é defender a escória do mundo.

Descobri que já era um reaça incurável quando percebi que, à luz dos meus valores, Yoani Sanchez é apenas uma moça querendo o direito de divergir de mais longeva ditadura do planeta, lutando contra a opressão imposta pelos irmãos Castro. E ao meu crime soma-se a agravante de achar que não haveria nada demais, caso ela fosse mesmo financiada pelo governo americano (risos), afinal eu também defendo o livre-comércio.
Eis aí a diferença essencial entre nós – que eles chamam de “burguesia”, “reacionário”, “porcos direitistas”, etc. – e eles, os progressistas: abraçamos a democracia e a liberdade como valores básicos, perenes e inegociáveis. Não consideramos as instituições democráticas meras invenções da classe dominante. Sabemos, ao contrário, que são criações da sociedade civilizada, aquela que tem por obrigação conter os bárbaros revolucionários.

Ser reaça não significa hastear bandeiras americanas na frente das casas, ou criticar sempre o Brasil. Essas são só algumas das lendas que contam a nosso respeito. Ser reaça é apenas compreender que as garantias e liberdades do indivíduo estão acima de qualquer distopia coletivista pregada por uma manada acéfala. É, enfim, entender que “não haveria totalitarismo, não fossem as massas e suas rebeliões”, como aprendi com Ortega y Gasset, que nove entre dez esquerdistas brasileiros acreditam ser uma dupla sertaneja.

São valores morais, vocês hão de convir, absolutamente normais e – por que não? – lógicos. Por que deveria me sentir mal em os defender abertamente?! Só porque o consenso politicamente correto passa a me chamar de reaça? Que nada! Defender as liberdades individuais, sobre as quais se erigiu a civilização ocidental, é libertador! Não gosta de ser chamado de reaça?! Deixe disso! “O que é um nome? Aquilo que chamamos de rosa, caso tivesse outro nome, guardaria o mesmo perfume.”, diria Shakespeare.

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Há milhares de pessoas espalhadas por todo o mundo, cientes de que os gulags são uma mancha na história humana; pessoas conscientes de que Fidel Castro e Che Guevara não passam de sociopatas; homens e mulheres como eu e você, leitor amigo, certos de que não se deve tolerar o apedrejamento e a mutilação de mulheres no Irã, em nome da “autodeterminação dos povos”. Enfim, há indivíduos em toda parte exercendo seu sagrado direito de defender os valores da liberdade e da democracia. Os haters dirão que somos reaças por agir assim. Eu digo que somos livres!

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