Yashá Gallazzi

@YashaGallazzi

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A intolerância dos tolerantes.

Não tem uma bandeira do Brasil…

Desde os famosos protestos de junho de 2013, a esquerda brasileira se sentiu assustada ao perceber que não detêm mais o controle da indignação coletiva. Acostumados a liderar os protestos populares, o PT e suas linhas auxiliares (beijos, Lu Genro!) perceberam que as pessoas não apenas podiam se organizar para ir às ruas sem a permissão das esquerdas, como podiam ir às ruas para criticar e cobrar essas mesmas esquerdas.

A raiva quase primitiva deles ao se deparar com passeatas coloridas de verde-amarelo e não de vermelho encontrou seu ápice há alguns dias, quando CUT, UNE e MST, em resposta às manifestações contrárias à presidente Dilma, promoveram um “ato contra a direita”. E é aqui, no nome dado à mobilização, que toda a natureza deles se revela.

Não deixa de ser interessante perceber a intolerância que brota dos que se pretendem mais justos e tolerantes: eles não saíram às ruas contra um partido da oposição, um político ou uma agenda político-ideológica. Eles saíram às ruas para pedir que uma parte inteira da sociedade (a direita) seja extirpada.

Essa é a natureza doentia do progressismo brasileiro: o outro lado – o lado adversário – não apenas é tratado como parte ilegítima na disputa política, como deve ser destruído, varrido do mapa, exterminado. No mundo ideal deles, não existe contraditório, oposição ou disputa. Existe apenas O Partido. E nada fora d’O Partido é admitido.

Notem que nós, os perigosos Reaças, não defendemos o fim de quem nos faz oposição. No nosso mundo ideal, tem lugar para todos, porque prezamos o sistema de liberdades individuais sobre o qual se ergueu a civilização ocidental. Eles, por outro lado, não prezam. Eles toleram e engolem, por enquanto. Mas o tratam como uma “invenção burguesa” que precisa ser superada. Como? Com balas nas nucas dos outros, é o que nos ensina a história.

O corolário está aí, claro como a luz do dia: aqueles que somos chamados de intolerantes aceitamos a existência dos que nós são opostos, por entender isso como parte do debate democrático. Eles, que se autoproclamam tolerantes, só não mandam toda a direita para um paredão porque não podem. Mas vontade não lhes falta.

Por isso sou um conservador. Porque é mais cômodo estar do lado que não depende do extermínio do outro para provar sua superioridade político-ideológica. De fato, a história está aí cheia de exemplos do quão horrenda pode ser uma sociedade onde a esquerda consegue se impor até o nível da hegemonia máxima, extirpando quem lhe é contrário. Nós, porém, não precisamos recorrer a isso porque o embate político o vencemos apresentando doutrinas, números e resultados.

Sou um conservador porque toda ideia que encontre um indivíduo para defendê-la merece existir e fazer parte do debate político. E não apenas as ideias e os indivíduos que me agradam. É por isso que defendo os direitos de todos os negros e de todos os gays, por exemplo. Não apenas dos que se tornam militantes de uma causa coletivista que possa servir de bandeira para as esquerdas.

Os progressistas que não se animem: nós, reaças, continuaremos a existir e a defender aquilo que acreditamos. E faremos isso, ao contrário deles, dentro das regras do jogo democrático, sem precisar perseguir a eliminação do outro. E lutando avidamente para que eles continuem sem os meios para extirpar do debate quem se ergue contra os interesses deles e de suas agendas coletivizantes.

A melhor parte de ser reaça é não ter nenhum bandido de estimação pra defender.

Ser reaça tem muitas vantagens. Nós temos tempo de cultivar hábitos pequeno-burgueses como escutar música clássica e usar produtos de higiene pessoal, por exemplo. A maior de todas as vantagens, porém, é mais afeita ao campo dos chamados valores morais: ser reaça significa ter no nosso íntimo a reconfortante certeza de que, aconteça o que acontecer, haja o que houver, nós jamais seremos obrigados a defender crimes “do bem”, cometidos por “bandidos de estimação”.

Bandido amarrado a poste e agredido por populares, no Rio de Janeiro.

A imagem acima rodou a internet, os jornais e as televisões nos últimos dias. Nela, vemos um rapaz sem roupas amarrado a um poste, depois que populares reagiram a uma ação criminosa dele. A imagem despertou os mais diversos graus de revolta, como não poderia deixar de ser: o instituto da vingança privada, onde o ofendido resolvia “com as próprias mãos” sempre foi uma das marcas da barbárie. Superar isso, criando instituições destinadas a deter o monopólio do uso legal da força a fim de assegurar a paz social, é um dos pilares da nossa civilização. O problema surge quando esse ente encarregado de fazer valer as leis e a ordem deixa de cumprir sua função essencial e abandona os indivíduos à própria sorte…

Eu não endosso linchamentos, claro. Acho que responder barbárie com mais barbárie é dinamitar as bases do nosso próprio sistema de liberdades individuais, o que vai terminar por comprometer ainda mais nosso modo de vida. Não aprovar a prática, porém, não me torna cego a ponto de não permitir que eu entenda por que ela aconteceu naquele caso do Rio de Janeiro – e vai continuar acontecendo, a menos que o Estado cumpra seu papel.

Chamem-me de insensível, mas o que mais me chamou a atenção no episódio do rapaz preso ao poste, no Rio, foi a reação pronta, rápida, sistemática e organizada dos vários grupos da – como é mesmo que eles chamam? – sociedade civil, sempre desejosos de analisar todo e qualquer evento social a partir da luta de classes. Não demorou nadinha e o bandido agredido logo se tornou vítima da desigualdade e da opressão social, ambas fruto – claro! – da sociedade capitalista e exploradora. Não bastou aos vários intelectuais e estudiosos ouvidos tratar os fatos como aquilo que eram: uma ação violenta (e, por isso mesmo, errada!) respondendo a uma outra ação violenta (e, por óbvio, também errada!). Não! Eles precisam sempre de um oprimido para chamar de seu e de um opressor para apresentar como vilão – de preferência alguém da classe média, essa pobre coitada tão odiada nos meios acadêmicos tupiniquins.

Linchar uma pessoa e prendê-la a um poste sem roupas é errado porque vai de encontro aos preceitos de civilidade mais básicos, não porque quem fez isso resolveu com violência aquilo que as várias Marilenas Chauís do Brasil consideram um problema social ligado à exploração da força de trabalho do proletariado. Quando um Ivan Valente aparece sugerindo que aquilo é “a volta do Pelourinho”, como se a reação guardasse relação com ódio de classes ou etnia, e não apenas com a revolta generalizada da sociedade, abandonada à mercê da total insegurança pública, percebemos a glamurização da bandidagem que certa esquerda promove, sempre que lhe convém.

Quando é Che Guevara que amarra alguém a um poste, nenhum progressista critica.

Eu fico muito curioso, por exemplo, para saber por que o tal de Ivan Valente não acha um absurdo nauseabundo o que vai retratado na imagem acima… Por que amarrar alguém a um poste no Rio de Janeiro é tão revoltante, mas amarrar alguém a um poste em Cuba, não? Vale lembrar que no Rio o bandido amarrado não foi executado. Os modernos opressores que, segundo Valente, estariam emulando os antigos senhores de escravos, mostraram-se, afinal, mais piedosos que os bravos revolucionários cubanos.

Ser reaça é saber que as duas fotos que ilustram este post devem provocar repulsa em quem vê, pois ambas representam a subversão dos direitos e garantias individuais sobre os quais se ergueu o Ocidente. É, enfim, não fechar os olhos para uma ditadura amiga, ao mesmo tempo em que se fazem discursos pseudo-indignados contra a violência – afinal os linchadores brasileiros, se comparados a Che Guevara, não passam de moleques travessos.

Nós, os reaças, somos aborrecidamente previsíveis, como já mencionei no passado. Carregamos sempre os mesmos valores morais, que se mantém firmes independente do momento político ou das conveniências eleitorais da vez. Os progressistas são mais – se me permitem… – “versáteis”. A moral deles é maleável e se ajusta aos interesses de ocasião com bastante facilidade, sem que eles sintam sequer um mísero comichão de vergonha.

É por isso que essa gente consegue levantar a voz para condenar um linchamento no Rio, comparando cidadãos cegos de fúria em razão da omissão estatal a senhores de escravos, ao mesmo tempo em que militam em partidos que não apenas defendem os fuzilamentos praticados até hoje em Cuba, como se propõem a implementar no país um regime como aquele da ilha dos irmãos Castro. São os mesmos que chamam de fascistas as pessoas que votaram no “não” no referendo de 2005, mas abrem as portas do Palácio do Planalto pro MST, um dia depois do bando stalinista de João Pedro Stédile agredir policiais e ameaçar invadir prédios públicos em Brasília. A lógica deles é sempre a mesma: há os bandidos e há os bandidos de estimação. Nada novo… Orwell ensinou, no sensacional livro chamado “A revolução dos bichos”, como funciona a mente sociopata dessa gente: “todos são iguais, mas uns são mais iguais que outros”.

Sobre ser conservador

“Estou respondendo perguntas sobre política e religião.”

Há poucas certezas na vida. Listo algumas abaixo:

– Você pagará impostos;

– Você morrerá um dia;

– Todo governo do PT estará, cedo ou tarde, envolvido em alguma mutreta;

– O fluminense sempre irá se valer do tapetão;

– O vasco sempre será vice-campeão;

– E, se você é um conservador, precisará cuidar para que o mundo continue funcionando, enquanto seus amiguinhos revolucionários (à esquerda e à direita) brincam de planejar um amanhã glorioso.

É curioso como se reconhecer conservador, por mais incrível que possa soar a ouvidos mais incautos, é algo libertador: a gente passa a entender, de uma vez por todas, que o mundo não é um laboratório de Dexter, à disposição de cabecinhas maluquinhas ávidas por testar suas teorias de transformação social, todas apaixonadamente defendidas, apesar de empiricamente rejeitadas. Aí você se esforça para manter a Terra girando e as coisas funcionando, lidando com os problemas do mundo real que estão aí, colocados para os adultos. E você algumas vezes até fica cansado e sem paciência, mas fazer o quê? Não adianta deixar as coisas de adulto para as crianças, né? Melhor deixá-las brincando de planejar a vida em comunidade na era do pós-Estado, afinal, como disse Jach Nicholson naquele filme “Questão de honra”, eles can’t handle the truth!

Eu sou um conservador essencialmente por três razões fundamentais. Em primeiro lugar, acho que o indivíduo – e, portanto, seu direito à vida – é a pedra angular da civilização. Em segundo lugar, porque nenhum coletivismo de manada consegue me parecer, ainda que remotamente, uma alternativa aceitável ao sistema de liberdades individuais construído pelo ocidente. E, em terceiro, porque me recuso a acreditar em soluções mágicas, dessas que uns e outros vivem apresentando nos debates políticos como alternativas viáveis, sem que haja nenhuma base histórica capaz de corroborar os argumentos deles.

Mais de uma vez, conversando com amigos afeitos a teorias revolucionárias, o papo descamba pra zoação. E acontece isso porque os revolucionários, sabendo que não possuem argumentos concretos para sustentar, na prática, a viabilidade de suas idéias, preferem tentar diminuir o outro. O ás que costumam sacar sempre da manga nessas horas é aquele de apontar uma suposta incoerência entre se dizer liberal em economia, mas ser um conservador em matéria de moral. Para isso, pegam literalmente qualquer coisa que um conservador defenda e que dependa do Estado para apontar o dedo pra gente e falar: “Ahá, seu socialista!” Você, então, tenta agir como adulto e falar que não é bem assim e o camarada leva às mãos aos ouvidos e: “Blá-blá-blá! Socialista! Socialista! Eu não tô ouvindo nada! Socialista! Socialista! Nã-nã-nã-nã! Socialista! Pediu mais Estado é socialista!” Aí dá uma preguiça… Eu até explicaria de bom grado que planificar a economia ou criar campos de concentração é diferente de estabelecer políticas de Estado para tentar impedir Bin Laden de jogar aviões em nossas cabeças, mas eles estão lá, com as mãos tampando os ouvidos, repetindo que “Qualquer Estado é socialismo, blá-blá-blá!”

E aí é como quando meu filho insiste em dizer que é o super-homem: eu explico uma vez que ele não é. Se ele começa a gritar e teima que é, eu só me preocupo em evitar que ele saia se jogando do alto de prédios, na esperança de voar. Mas cortar a brincadeira dele pra quê?! Assim faço com os amigos revolucionários (sejam de esquerda, ou de direita). No final das contas, melhor deixá-los planejar como será o amanhã glorioso depois da eleição do Ron Paul, ou da revolução comandada por Plínio de Arruda. Deixa eles lá, explicando como tudo será perfeito sem lei nenhuma, sem polícia nenhuma, sem, enfim, Estado nenhum. Enquanto eles imaginam as coisas baseado no “Vai dar certo! A gente sabe que vai dar certo!”, nós, os conservadores, temos um mundo para manter funcionando. É assim desde sempre.

Longe de mim duvidar das boas intenções de alguém. Eu até acredito que no mundo ideal de um revolucionário tudo seria como num festival de Woodstock ambulante, onde as pessoas estariam com os cornos cheios de maconha (legalmente comprada, afinal um dia depois da legalização o Marcola terá se tornado um grande empresário e abandonado a vida de criminoso) e preguiçosos demais para sequer sair às ruas e cometer um crime. Não teríamos coisas aborrecidas como a guerra ao terror, afinal sabemos que o ser humano é essencialmente bom e que logo depois de o ocidente anunciar que não caçaria mais a Al Qaeda, o fascismo islâmico desistiria de nos explodir.

Nós, conservadores, sabemos que o ser humano é cheio de vícios (os cristãos dirão que é um pecador) e que há que se estar sempre vigilantes para que regras básicas de convivência sejam observadas. Não falo de nenhuma novidade. Nada que não tenha sido revelado a Moisés, por exemplo. Mas o revolucionário escarnece do cristianismo e dos valores que ele legou ao mundo, fingindo não ver que ali estão algumas das bases daquilo que hoje podemos chamar de civilização.

Antes que se crie alguma confusão, esclareço: não pretendo igualar todos os revolucionários. Longe disso! Entre revolucionários de esquerda e de direita há as mais gritantes diferenças. A principal delas, afeita ao campo dos valores, pode ser assim resumida: um revolucionário esquerdista é o camarada que quer matar você e sua família. Um revolucionário direitista é aquele que não tá nem aí pro fato do socialista matar você e sua família, desde que deixem ele em paz lá no sofá dele, curtindo um Planet Hemp.

“E um conservador?”. O conservador é aquele que, como bem observou Chesterton, entendeu que a melhor forma de manter em bom estado os postes brancos de uma rua é pintando-os periodicamente, não substituindo-os por postes brancos novos. Essa metáfora é uma obra de arte e revela que as experiências adquiridas ao longo da história devem servir para nos ensinar como agir no presente, bem como a planejar o que será do futuro. Ela nos mostra que nem sempre grandes revoluções são o melhor caminho. Aliás, raramente o são. “Não haveria totalitarismo não fossem as massas e suas rebeliões”, ensinou Ortega y Gasset, como já mencionei uma outra vez, aqui mesmo neste site.

Um revolucionário de esquerda, ao contrário do que ensinou Chesterton, quer criar o Ministério dos Postes Brancos, empregar um manada de companheiros nos cargos públicos e ganhar uma grana por fora nas licitações para aquisição de postes brancos novos todo mês – que será usada para cooptar a base aliada e garantir o projeto de poder do partido. Já um revolucionário de direita acha que se não existir nenhum tipo de Estado, melhor. Aí cada pessoa vai cuidar do poste que estiver em frente à sua própria casa como preferir. E dane-se se fulano pintar de branco, sicrano de preto e beltrano derrubar o poste e pronto: ninguém tem nada com isso. Não adianta você argumentar dizendo que derrubar os postes é, na melhor das hipóteses, um uso estúpido da liberdade individual, porque o revolucionário já está a essa altura com as mãos nos ouvidos: “Eu não tô ouvindo nada! Nã-nã-nã-nã-nã!”

A tradição é rica demais para ser ignorada. Ela ensina, dentre outras coisas, que a política do mundo real é a arte de se fazer o possível, não de ficar esperneando até conseguir o brinquedo dos sonhos. É entender, por exemplo, que, ao ser confrontado com a ameaça nazista, o ocidente pôde escolher entre a guerra e a desonra. E escolheu a desonra! Ainda bem que o mundo tinha o conservador Churchill, para consertar a coisa toda (olha os conservadores salvando os traseiros de todos mais uma vez!). O velhote deve ter achado um aborrecimento enorme levantar da cadeira e largar o copo de uísque, mas ele entendeu que nenhuma mão invisível seria capaz de deter o sociopata austríaco.

Reagan, Thatcher e João Paulo II poderiam cada um ter cuidado de seus Estados, deixando que a URSS caminhasse – como caminharia inevitavelmente – para o colapso econômico e social. Mas eles entenderam que não existem as nossas liberdades individuais e as liberdades individuais dos outros, porque a agressão a um indivíduo é a agressão a todos os indivíduos. Eles entenderam, enfim, que você não faz um mundo melhor nem tratando traficante como vítima da opressão capitalista – como querem os revolucionários da esquerda -, nem querendo fazer dele um empresário da noite pro dia – como querem os revolucionários da direita.

A desenvoltura com que certo pensamento simplesmente jogaria na lata do lixo séculos de experiência política em nome de um amanhã utópico, que ninguém sabe explicar de forma concreta como aconteceria na prática, me assusta bastante. Ainda bem que existem os conservadores, para garantir que a vida siga normalmente, enquanto as crianças brincam de qual utopia é melhor. E os conservadores continuarão tentando tomar pela mão as crianças para ajudá-las a caminhar no mundo real (aquele onde bandido não está esperando por um CNPJ, mas por uma chance de matar você), mesmo que as crianças insistam em tampar os ouvidos e gritar, histericamente. Porque os conservadores são pacientes e, principalmente, têm fé: eles acreditam que as crianças cedo ou tarde vão crescer.

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