Thiago Cortês

@SouDescortes

“Submissão”: autópsia do Ocidente pós-cristão

“Submissão” é uma distopia elaborada pelo escritor francês Michel Houellebecq. Aliás, a fatídica edição de Charlie Hebdo (que motivou os ataques terroristas contra cartunistas e jornalistas) trazia elogios rasgados a Houellebecq.

O livro traz lições importantes para o mundo de hoje, a começar da desconstrução da visão romântica que se tem do multiculturalismo, do secularismo e, é claro, do próprio Islã e da capacidade do Ocidente de entendê-lo.

Antes de tudo, “Submissão” é uma tradução para a palavra Islã e é contra ela que Houellebecq se levanta.

O protagonista, François, é um acadêmico de meia idade, sem família ou amigos íntimos, especialista em Huysmans, autor que percorreu o caminho espinhoso do niilismo para a mística.

É uma mensagem sutil de Houellebecq sobre o desenrolar da trama.

Charlie Hebdo elogiava o autor em sua última edição. Ele fugiu de Paris

Charlie Hebdo elogiava o autor em suas edições, inclusive na última. Ele fugiu de Paris.

A narrativa se passa em uma França devastada por uma espécie de anemia social: tudo o que antes conectava os indivíduos foi colocado abaixo em nome dos valores do secularismo. Com isso, a identidade nacional do povo francês foi para o lixo.

François personifica o típico sujeito atomizado da democracia liberal moderna: “emancipado” da família e das obrigações matrimoniais, “livre” do amor monogâmico, “libertado” da religião e da crença em uma identidade nacional, enfim, o estágio último de toda a “autonomia” que a modernidade promete.

Ele não é o único: em uma das várias metáforas brilhantes do livro, Houellebecq descreve Paris como uma cidade repleta de prédios decadentes. François observa da varanda os apartamentos com luzes acesas, cada qual simbolizando outro solitário como ele.

É da perspectiva de François que acompanhamos a chegada ao poder de Ben Abbas, o líder do partido da Fraternidade Muçulmana. É um típico reformista que combina características pessoais que seduzem a esquerda ( ele é o “outro”, portador de uma sabedoria “alternativa”) com um programa político de rupturas.

Engenharias sociais

Muito carismático, inteligente, charmoso e convicto, Ben Abbas manipula a opinião pública com sua postura supostamente moderada e generosa. Não, não lembra o Obama. Ben Abbas é muito mais inteligente.

Ele sabe que toda a sociedade se constrói através da cultura e, principalmente, da educação.  E não abre mão de uma reforma completa no ensino público da França a fim de garantir que as próximas gerações não tenham dificuldades em adotar o modo de vida muçulmano.

Aliás, o único ponto de atrito entre o Partido Socialista e a Fraternidade Muçulmana é justamente o tema da educação: ambos os grupos querem moldar a sociedade através dela, o primeiro com o ensino secular; o outro com o ensino confessional islâmico.

Na academia, agora os intelectuais devem escolher entre a submissão ao Islã – o que permite continuar escalando a hierarquia institucional das universidades – e o ostracismo.

François enfrenta este dilema na mais profunda solidão. A sua aluna/amante, por ser judia, percebe os riscos da chegada ao poder da Fraternidade Muçulmana e vai para Israel. É neste momento que François diz a frase mais emblemática do livro: “Não há um Israel para mim”.

Da secularização ao Islã

Sozinho e melancólico, François testemunha nos detalhes a transformação da sociedade francesa. As mulheres começam a esconder suas curvas em roupas cada vez mais próximas de uma burca. As lojas, a paisagem do shopping, a relação entre alunas e professores, tudo muda.

Ao ver uma jovem vestindo uma típica calça jeans “colada”, François se pergunta se no futuro terá a oportunidade de ver algo parecido de novo. O Islã começa a se espalhar na sociedade francesa através dos buracos do tecido social, mudando gradualmente os comportamentos.

Em seu filme "Submission". Theo Van Gogh (assassinado em 2004) abordou a opressão da mulher sob o Islã

Em seu filme “Submission”,Theo Van Gogh (assassinado em 2004) abordou a opressão da mulher sob o Islã

As mudanças são lentas, mas muito eficientes. Ben Abbas percebe que a França, como toda a Europa, é uma sociedade em frangalhos, na qual os indivíduos estão sedentos por ordem, sentido e pertença. A maioria disposta a pagar – sem pestanejar – qualquer preço pelo pacote completo.

O Islã conquista não apenas o poder político, mas cultural e social porque a França é uma sociedade anêmica, estéril, na qual não existe mais nenhuma tradição capaz de ligar os indivíduos ou oferecer a eles um conjunto de valores permanentes.

Houellebecq parece apontar para o fato de que os países europeus onde o processo de secularização foi mais acelerado e profundo são justamente os países onde o islamismo se tornou mais presente e vigoroso.

Neles, a dominação islâmica é dada como certa em um futuro próximo. É o retrato da França distópica, secularizada, vazia, sombria e vulnerável de “Submissão”. Neste contexto, as pessoas se submetem facilmente a qualquer coisa que restaure o que perderam.

Houellebecq foi acusado de atacar o Islã para defender um retorno místico ao cristianismo. Mas a acusação não se sustenta: o autor é agnóstico e já declarou que acha um retorno impossível, embora acredite que sua distopia ainda não foi realizada.

Inês é morta

François é homem de ostensiva erudição, de gosto literário refinado, mas nada disso remedia sua crônica solidão. Nada o livra de, na última e mais importante fase de sua vida, não saber o que fazer com sua “autonomia” acumulada.

Todo o processo de contínua “libertação” e “desconstrução” promovida por intelectuais, burocratas, agentes culturais e militantes do secularismo transformou a sociedade francesa em um mero ajuntamento de indivíduos sem história, sem referências ou valores comuns. François é solitário em todos os níveis.

Ele não é o único. Seus colegas e amigos – professores universitários, intelectuais, funcionários de alto escalão do governo – são todos órfãos de tradição e acabam “marginalizados” quando o Islã se torna o ponto de ligação entre os franceses.

Com exceção, é claro, dos que preferirem se tornar “colaboracionistas”: desprovidos de força moral interior e perseguindo carreiras de sucesso no mundo acadêmico e institucional, acabam aderindo a uma religião que abre portas para cargos públicos bem remunerados.

A classe intelectual é a primeira a se submeter, de bom grado, ao Islã.

É como se Houellebecq estivesse dizendo: “Vejam, o Ocidente é uma noivinha bem arrumada, adornada, perfumada, sofisticada, maquiada, mas morta”.

Petistas em desespero

Hoje é fácil identificar um petista nas redes sociais. É o cara resignado que prega que somos todos – eu, você, sua mãe, a minha, nossos amigos e familiares – igualmente canalhas e que todos os governos foram e/ou são corruptos.

Diante das evidências e acusações diárias de corrupção no governo Dilma, o petista rememora o escândalo no governo Nixon, o primo crente que roubava a avó, o vizinho tucano que, vez ou outra, passeia com seu cachorro, mas não recolhe as fezes etc…

Os petistas refugiaram-se no medíocre e folhetinesco nicho da crítica comportamental: “O Fábio Jr. critica a Dilma, mas já casou seis vezes!”; “Meu cunhado é conservador, mas furou a fila no banco!”.

Foto compartilhada no facebook

Foto compartilhada no facebook

A esquerda anda tão desesperada que precisa flagrar um antipetista cometendo infração de trânsito para tentar vender a ideia de que habitamos o mesmo lamaçal daqueles que roubam bilhões e interrompem protestos pacíficos com facadas.

É uma tentativa, desesperada, de nivelar a todos por baixo. Diante dos escândalos de corrupção, agora só resta ao petista devolver: “Mas não somos todos corruptos?”.

A antropologia petista ensina que todos os brasileiros sofrem de um caráter defeituoso, uma espécie de “mal da raça”, e utilizam tal crença contra a própria política.

É por isso que os militantes se retiraram do debate político e agora só conseguem articular críticas comportamentais e ataques pessoais contra seus adversários.

É por isso que o programa “CQC” agora se dedica ao papel inquisitorial de enviar repórteres para confrontar pessoas que publicam opiniões politicamente incorretas nas redes.

Eles trocaram a política pela missão de provar que não temos moral para criticar seus governantes, e passam o dia caçando racistas, xenófobos, ultrarreacionários, etc.

Os petistas estão no bunker, amedrontados, ouvindo os últimos delírios do seu líder antes carismático e agora decadente. Só lhes resta procurar os “traidores”.

 

Quem matou os 56 mil?

O ativismo de facebook tem uma nova causa: a chacina de Osasco/Barueri.

Os ataques ocorridos em 13 de agosto nas cidades de Osasco e Barueri resultaram em 19 homicídios. Em pouco mais de duas horas, atiradores atacaram dez locais diferentes nas duas cidades. Suspeita-se da participação de policiais no caso, que segue aberto.

Embora existam indícios da participação de policiais nos ataques, a Secretaria da Segurança Pública ainda não descartou o envolvimento do crime organizado.

Ora, a esquerda é especialista em apontar culpados e culpar suspeitos mesmo quando os inquéritos ainda estão abertos. Basta lembrarmos a morte do jovem Kaique Augusto dos Santos, encontrado desfigurado embaixo de um viaduto no centro de São Paulo.

Na época, Jean Wyllys nem sequer esperou qualquer conclusão do trabalho pericial para afirmar que se tratava de um “ataque de homofobia” e, desta forma, usou o garoto morto como cabo eleitoral. Pouco tempo depois do circo de Wyllys, a própria família de Kaique se convenceu de que o jovem havia cometido suicídio.

Foto: revista VEJA

O jovem Kaique: usado como cabo eleitoral por Jean Wyllys. Foto: revista VEJA

Diante da possibilidade de envolvimento de policiais na chacina, a esquerda novamente despertou para a trágica realidade da violência no Brasil. Mas trata-se apenas de mais uma oportunidade para o ativismo-fotos-com-legenda de acusações genéricas.

A investigação sobre a chacina de Osasco/Barueri esbarrou em um dado peculiar: as cápsulas de munições deflagradas nos ataques são de uso restrito, ou seja, só podem ser utilizadas pelas Forças Armadas, policiais e por guardas civis metropolitanos.

Na maioria quase absoluta dos homicídios cometidos no Brasil são utilizadas armas e munições que são contrabandeadas sem grandes dificuldades pelas nossas fronteiras. Dados levantados pelo Ministério da Justiça (MJ) no início da década de 2010 revelaram que mais da metade das armas que circulam no país é oriunda do tráfico.

Quem matou os 56 mil?

A fronteira brasileira tem 17 mil km de extensão e faz a divisa de 11 Estados com 10 países, um vasto território explorado por traficantes de armas e drogas.

O governo federal nunca levou a sério a conexão entre as mortes nas cidades e os enormes buracos nas fronteiras.

Em 2011, por exemplo, o governo Dilma fez um corte no orçamento da Polícia Federal que afetou a fiscalização policial nas regiões fronteiriças. O corte de verbas facilitou a vida dos narcotraficantes e dos contrabandistas de armas.

Em 2011 até mesmo a governista Folha de S. Paulo criticou em editorial:

“Parecem preocupantes os relatos de agentes da Polícia Federal de que cortes no orçamento da instituição neste ano, determinados pelo governo Dilma Rousseff como parte do esforço fiscal, têm afetado a fiscalização nas fronteiras”

Os problemas com as fronteiras já eram evidentes no governo Lula e antes, mas nada foi feito. Qual foi o resultado prático de décadas de negligência diante do problema?

Em 2012 o Brasil quebrou um recorde: teve o maior número de pessoas mortas em um ano, segundo dados do Mapa da Violência 2014, que compilou dados de 2012. Ao todo, foram 56.337 mortes, o maior número desde 1980.

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Gráfico: Revista Veja

Os mais de 56 mil homicídios registrados em 2012 resultam em uma média de 154 mortes por dia. O total supera o de vítimas no conflito da Chechênia, que durou de 1994 a 1996. O crime mata mais por dia no Brasil do que o conflito entre Israel e Palestina.

Para a esquerda, não interessam os 154 mortos por dia. Só os 19 que supostamente foram assassinados por policiais, que já foram presos pela Corregedoria.

Em 2014 o Brasil foi considerado o país com o maior número de homicídios no mundo, segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra. De cada 100 assassinatos no mundo, 13 são no Brasil.

Para a OMS, na verdade aconteceram mais 64 mil homicídios no Brasil em 2012. O governo federal, é claro, contesta a informação.

Gráfico: Globo News

Gráfico: Globo News

Segundo os padrões da OMS, a violência no Brasil pode ser considerada “epidêmica”. E, obviamente, o contrabando de armas pelas fronteiras tem papel fundamental nesta trágica realidade. Porém, a esquerda jamais perguntará: quem matou os 56 mil?

A violência urbana só vira pauta para o ativismo de sofá quando representa uma oportunidade para partidarização ou munição para a campanha de ódio e intolerância contra policiais.

Aliás, as ONGS que pedem que não se julgue ninguém pela cor de pele estão sempre julgando as pessoas pela farda que vestem. Para elas, todo policial é culpado até que se prove o contrário. Ou mesmo que não se prove o contrário.

É uma pena que a esquerda brasileira não esteja à altura das questões urgentes que afetam a todos nós. O ativismo de facebook é seletivo, oportunista e irrelevante.

 

 

 

 

Contra as palmadas e pelo infanticídio: eis a esquerda

Para a esquerda brasileira, um bebê vale menos do que uma tradição. A vida humana vale menos do que uma cultura. E comunidades têm o direito de exterminar crianças.

O plenário da Câmara dos Deputados aprovou na noite de quarta, 26, o Projeto de Lei 1057/07, também conhecido como Lei Muwaji, que coíbe a bárbara e sanguinária prática do infanticídio em comunidades indígenas.

Pelo texto aprovado, que altera o Estatuto do Índio, cabe ao Estado agir para proteger crianças, adolescentes, mulheres, deficientes e idosos de práticas que atentem contra a vida. O projeto segue agora para o Senado.

Explica-se: em certas culturas indígenas, crianças que nascem com deficiências são enterradas vivas. Em algumas culturas, quando nascem gêmeos (acredita-se que um deles é o demônio), os pais também são obrigados a se livrarem de um dos filhos.

Crianças deficientes são enterradas vivas com apoio do PT, PV, PCdoB e PSOL

Crianças deficientes são enterradas vivas com apoio do PT, PV, PCdoB e PSOL

Parece óbvio que todo ser humano em pleno uso das suas faculdades mentais e dotado de caráter deve se opor a esses atos bárbaros. Não é o caso dos deputados do PT, PSOL , PC do B e PV que votaram contra a Lei Muwaji e em defesa do barbarismo.

A proposta foi aprovada por 361 votos a favor, 84 contra e nove abstenções. Os que votaram contra, é claro, são todos das fileiras da esquerda, incluindo os verdes.

O projeto foi batizado de Lei Muwaji em homenagem a uma mãe indígena que se revoltou contra sua tribo e salvou a vida da filha, Rarani, que seria morta por ter nascido com deficiência física. Para os esquerdistas, Rarani deveria estar morta.

Muwaji e Rarani: para a esquerda, a menina deveria estar morta

Muwaji e Rarani: para a esquerda, a vida da menina nada vale

Vale aqui lembrar: são os mesmos esquerdistas patéticos que se apressaram em apoiar o horrendo projeto de lei que criminaliza a palmada.  São os mesmos partidos que acham que um pai não tem direito sobre a educação do próprio filho.

Na cabeça deles, índios têm o direito de matar seus filhos, mas nós não temos o direito de educar nossos filhos com aquelas palmadinhas pedagógicas…

Montagem encontrada no facebook

PSOL: contra as palmadas; em defesa do infanticídio. Montagem encontrada no facebook

A esquizofrenia moral da esquerda foi dissecada no breve, mas mordaz comentário de uma amiga, Talita Ferreira, que é mãe e não concebe como o “respeito à tolerância” pode justificar enterrar crianças vivas:

“Jean Wyllys acredita que devemos respeitar todas as culturas e aceitar práticas como o infanticídio em nome da tolerância. Sr. Deputado, devemos também respeitar culturas onde é crime ser homossexual e tolerar que gays sejam enforcados ou jogados do alto de prédios?”

A sua brilhante pergunta me lembra de algo que dizia Sir Karl Popper, um saudoso liberal para quem temos de proclamar, em nome da tolerância, o direito de não sermos tolerantes com os intolerantes. Jamais.

Devemos tolerar culturas que enforcam gays?

Devemos também “tolerar” as culturas que enforcam gays?

Os novos eugenistas

Os petistas, seus filhos e primos ideológicos estão dizendo que entendem que a vida de uma criança indígena vale menos do que a vida de uma criança brasileira. Em uma escala de direito à vida, as crianças indígenas estão abaixo de zero.

Os neo-eugenistas do PT, PV, PCdoB e PSOL partem de um relativismo moral selvagem – calcado no pior da antropologia – para dizer que não temos o direito de intervir em uma cultura já constituída – com seus ritos, hábitos e tradições – só para salvar algumas tantas crianças cujas vidas são desvalorizadas pelos seus próprios povos.

Alguém poderia ter dito que os Aliados não tinham o direito de intervir na cultura alemã – com seus ritos, hábitos e tradições – para salvar uns tantos judeus.

Eugenia é eugenia em qualquer lugar, na Alemanha nazista ou na tribo indígena

Eugenia é eugenia em qualquer lugar, na Alemanha nazista dos anos 1940 ou nas tribos indígenas do Brasil do século 21

Os defensores da eugenia em comunidades indígenas em nada diferem dos defensores da eugenia na Alemanha nazista. Ambos se baseiam em considerações filosóficas para defender que a vida de um indivíduo de determinado grupo vale menos.

É claro que PT, PV, PSOL e PCdoB farão pressão no Senado contra a Lei Muwaji. É imperativo que as pessoas mentalmente sãs, moralmente ativas, que acreditam que nenhuma tradição é mais importante do que a vida de uma criança fiquem alertas sobre os desdobramentos no Senado.

Os canalhas não tiram férias. Nós também não podemos.

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