Thiago Cortês

@SouDescortes

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Quem invadiu as escolas: os alunos ou os partidos?

O dia 04 de dezembro ficará marcado na História como o dia em que o governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, foi derrotado por uma constelação de grupelhos que invadiram escolas e fecharam ruas na capital paulista contra a “reorganização escolar”.

Não me interessa, aqui, defender o governo Alckmin, que errou gravemente ao tentar implantar o projeto sem observar os cuidados políticos necessários. O que me interessa é levar ao leitor algumas hipóteses e dúvidas sobre o movimento de “ocupações”.

A reorganização nada mais é do que a separação dos estudantes por faixa etária, o modelo vigente nos países onde a educação é considerada de qualidade.  O projeto paulista previa a transferência de alunos para escolas em até 1,5 km de distância de suas casas.

Os grupelhos militantes, contudo, interpretaram o projeto como “fechamento de escolas”: tal interpretação veio a calhar em um momento no qual as entidades estudantis mais pelegas do Brasil estão, desesperadamente, tentando recuperar seu protagonismo.

Os militantes sabem com quem estão lidando: Alckmin é conhecido por se render facilmente a qualquer pressão de seus adversários como atesta sua patética reação à “acusação” de ser um “privatista”, na corrida presidencial de 2006.

Alckmin sempre esteve mais para Neville Chamberlain do que para Winston Churchill.  Os militantes traçaram suas estratégias pensando nisso. E obtiveram sucesso.

Este texto é uma compilação de flagrantes que deixam dúvidas sobre o movimento de invasão das escolas: foi espontâneo ou orquestrado por entidades, coletivos e bases sindicais intimamente ligadas a partidos que fazem oposição ao governo Alckmin?

De tal modo que, após ler e reler tudo com atenção, o leitor talvez fique com algumas dúvidas sinceras que eu mesmo tenho no momento:

O que aconteceu em São Paulo foi um movimento espontâneo, de baixo para cima, ou um conjunto de ações orquestradas por partidos, entidades e coletivos de esquerda?

Quanto o movimento “espontâneo” de “ocupações” foi influenciado, nos bastidores, por deputados que disputarão a reeleição ou pleitearão outros cargos em 2016?

Por que os estudantes invadiram escolas contra a reorganização, mas nada fizeram até agora contra os cortes bilionários no orçamento da educação no governo Dilma?

PCdoB, UBES e o Manual de Ocupação das Escolas

O PCdoB foi um dos partidos que mais se beneficiou do caos nas escolas. Quem conhece o movimento estudantil sabe que PCdoB e entidades estudantis são a mesma coisa.

Mas durante as “ocupações” o PCdoB foi muito além dos seus braços estudantis, “participando” de assembleias dentro das escolas! Veja com seus próprios olhos:

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“PcdoB Capela do Socorro/Parelheiros presente na assembleia de ocupação da escola estadual Tancredo Neves no Jardim Novo Horizonte”

As lideranças locais do partido “participaram” da assembleia de “ocupação” na escola do Jardim Horizonte ou, na verdade, a conduziram?

Quantas ações nas escolas tiveram a “participação” de diretórios do PCdoB?

De toda maneira, vale notar que as lideranças do PCdoB da Capela do Socorro/Parelheiros parecem muito próximas do deputado federal Orlando Silva e da deputada estadual Leci Brandão. Nada de ilegal nisso. Mas nos fazer pensar bastante…

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O PCdoB também divulgou muitos vídeos e vinhetas estilizadas sobre as invasões das escolas, incentivando ou comemorando as invasões. Nesta o tom é claramente de celebração:

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#‎Ocupamania. O movimento de ocupação nas escolas paulistas ganha um clipe musical em apoio à resistências dos estudantes que tem deixado muita gente orgulhosa. O vídeo foi divulgado pela União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes) no Facebook e o Portal Vermelho, em apoio ao movimento, compartilha.

Os militantes da UJS participaram de invasões não apenas de escolas, mas de outros prédios públicos como Diretorias Regionais de Ensino. E não hesitaram em divulgar suas “façanhas” como no caso da invasão da Diretoria de Ensino de Sorocaba.

Barraca da foice e do martelo em ocupação de escola. (Reprodução do facebook)

Barraca com a foice&martelo, símbolo oficial do PCdoB, em uma das escola invadidas de São Paulo. (Reprodução do facebook)

Aliás, é curioso o tom um tanto competitivo “quem fez o que primeiro” das publicações dos invasores. Aqui os membros da União Sorocabana dos Estudantes Secundaristas celebram: “a primeira cidade a ter a sua diretoria de ensino ocupada!”

Não por acaso a União da Juventude Socialista (UJS), do PCdoB, lançou muitas vinhetas usando uma retórica de guerra contra o “ditador” Alckmin. ( A UJS apoia a ditadura cubana e tem no guerrilheiro Che Guevara uma referência moral e política).

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A UJS aproveitou o embalo do clima de confrontos para contrabandear para a pauta do movimento a “desmilitarização” da Polícia. Imagino o quanto um conflito sério entre estudantes e policiais seria “positivo” aos militantes para efeitos de marketing.

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A União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), historicamente ligada ao PCdoB e ao PT, passou os últimos dias incentivando e celebrando invasões e fechamento de ruas:

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Foi um ótimo momento para as lideranças estudantis de entidades pelegas. Camila Lanes, eleita presidente da desacreditada UBES, tomou carona nas ações do movimento e pôde atrelar seu nome à “luta contra o fechamento de escolas”.

Ela é, antes de tudo, militante do PCdoB, partido que lançou sua candidatura para a UBES.

No site do PCdoB a presidente da UBES é assim descrita:

A paranaense Camila Lanes é fruto da geração de mulheres que não se calam e que cada vez mais disputam os espaços de poder. Indicada pela UJS a presidir a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), apesar de jovem, a presidenta da União Paranaense dos Estudantes Secundaristas (Upes), já possui uma bagagem de lutas, afinal, o governador do seu estado, o tucano Beto Richa, vem promovendo o desmonte da educação […]

A UBES teve grande papel mobilizador no movimento de “ocupações” das escolas de São Paulo.

Camila Lanes e Dilma Roussef, segundo reportagem do jornal Paraná Hoje

Camila Lanes e Dilma Roussef, segundo reportagem do jornal Paraná Hoje

A UBES de Camila Lanes, a moça que “enfrentou Beto Richa”, chegou ao cúmulo de lançar um “Manual de Ocupação das Escolas”, que você pode conferir aqui.

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Página da UBES tem manual que ensina a invadir escolas em São Paulo

A UBES também foi contra tentativas de negociação entre funcionários da educação, comunidade e estudantes. Uma tentativa de diálogo foi assim descrita pela UBES:

Neste momento na E.E Moacyr de Campos acontece uma reunião chamada pelo diretor com os professores, pais de alunos e estudantes em frente a escola. O intuito é colocar a comunidade escolar contra a ocupação e desestabilizar os estudantes. Não passarão! Os estudantes estão lá pra defender a educação paulista e resistem ocupados!

Talvez por sua importância estratégica no campo estudantil, Camila Lanes tem a “simpatia” de vários deputados e senadores do PT e do PCdoB. Veja aqui a senadora paranaense Gleisi Hoffman protestando contra a prisão de Camila.

Aliás, Gleisi foi ela mesma uma importante líder estudantil antes de ingressar na política institucional, seguindo o caminho trilhado por vários presidentes da UNE, UBES, outras entidades controladas pelo PCdoB/PT. Será este o destino de Camila Lanes?

A atual presidente da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (UPES), Angela Meyer, também é outra liderança que conseguiu capitalizar dentro do movimento de invasões de escolas em São Paulo. Confira aqui um perfil dela.

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Angela Meyer (UPES) e Dilma Roussef. (Reprodução do facebook)

Militante da UJS, Angela Meyer já tentou várias vezes cavar trincheiras eficazes de combate ao governo Alckmin. Ela já havia apelado até ao desafio do gelo. Sim, confirme aqui.

A presidente da UPES comemorou, cheia de marra, o recuo do governador:

Reprodução facebook

“A escola é nossa”, postou Angela Meyer. (Reprodução do facebook)

Angela Meyer também confirmou o apoio de movimentos sociais e sindicatos diretamente ligados ao petismo ao “espontâneo” movimento de invasão de escolas em São Paulo:

Esse é um movimento encabeçado por estudantes e professores, sobretudo, e temos tido apoio de outros movimentos sociais. Representantes da CUT e do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) foram até nossa assembleia dizer que estão conosco.

Posso estar errado, mas aposto que Camila Lanes e Carina Vitral dificilmente realizarão algum protesto contra os cortes na educação promovidos pelo governo Dilma.

UNE: tudo contra Alckmin; nada contra Dilma

A presidente da oficialíssima União Nacional dos Estudantes (UNE), Carina Vitral, também ofereceu todo suporte e solidariedade a Camila Lanes. A UNE lutou contra todos os presidentes do Brasil desde que foi fundada, com exceção dos petistas.

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A participação da oficialíssima UNE no movimento de invasão de escolas em São Paulo veio acompanhada de visitas de artistas descolados que jamais passariam perto de protestos pelo impeachment. Gente como Jefferson “Dilma Bolada” Monteiro e Tico Santa Cruz.

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Carina Vitral e Tico Santa Cruz em escola invadida. (Reprodução facebook)

Carina Vitral chegou a comemorar a demissão do secretário de Educação de São Paulo, Herman Voorwald, como uma vitória do movimento estudantil.

Mas a presidente da UNE já protestou contra os cortes bilionários na educação promovidos pelo governo Dilma? Já pediu a demissão de algum dos ministros de plantão em Brasília?

Carina Vitral e Dilma Rousssef. Foto: agência Brasil

Carina Vitral e Dilma Rousssef. Foto: agência Brasil

De acordo com a reportagem “Educação é o ministério que mais perde com cortes do governo”, o ministério da Educação perdeu R$ 7 bilhões com a onda de cortes federais.

A imprensa também noticiou, timidamente, que o governo Dilma fez cortes na educação que podem “comprometer a obrigatoriedade da matrícula [nas creches]”, conforme a reportagem “Dilma corta verba para a pré-escola e creche; vagas eram promessa eleitoral”.

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Meme da página Libertroll. (Reprodução facebook)

Quando a UNE protestou contra os cortes de verbas na educação? Qual a motivo da paralisia da entidade diante do desmonte da educação a nível federal? Não sei…

O que sei é que desde 2003 a UNE recebeu quase R$ 12,9 milhões, 11 vezes a mais que o montante repassado nos dois mandatos do tucano FHC.

Meme da página Bolsonaro Zuero. (Reprodução facebook)

Meme da página Bolsonaro Zuero. (Reprodução facebook)

Carina Vitral (UNE) e Camila Lanes (UBES) nunca ocuparam escolas ou universidades para protestar contra qualquer corte na educação promovido por Dilma Rousseff.

O PcdoB celebra Carina como uma de suas principais lideranças jovens, como mostra o texto de quando a jovem paranaense disputou a presidência da UNE:

Comunista convicta, Carina é o quadro mais jovem do Comitê Central (CC) do Partido Comunista do Brasil e vê com bons olhos essa confiança que o Partido deposita em sua juventude. “Eu tenho a honra de ser do CC e isso mostra que o PCdoB é um partido que empodera seus jovens e suas mulheres”, afirma.

Vale lembrar que Camila e Carina também são companheiras do governador do Maranhão, o comunista Flávio Dino, cujo estado tem a pior infraestrutura de ensino do Brasil.

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Escola de taipa no Maranhão. (Foto: reprodução)

É verdade que o Maranhão agonizou durante décadas nas mãos da família Sarney, cujo chefe, José Sarney, foi um dos grandes aliados de Lula e, por tabela, do petismo.

Mas Flavio Dino foi eleito prometendo sanar os graves problemas da educação no Maranhão e até agora não mostrou muito resultado. Confira nota de um blogueiro maranhense:

O programa “Escola Digna”, lançado desde o dia 21 de maio deste ano pelo governador Flávio Dino, para os municípios com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) no Maranhão, até agora ainda não se viu um prego, muito menos paredes nessas mais de mil escolas que foram inscritas no programa.

Explica-se: ainda existem, em pleno século 21, dezenas de escolas feitas de taipa no Maranhão, onde crianças e adolescentes sofrem com temperaturas e falta de higiene.

Flavio Dino denunciou tudo isso em sua campanha e com toda razão! Ocorre que, até agora, não enfrentou o problema estrutural com eficiência. Quando Camila Lanes e Camila Vitral farão uma manifestação em defesa dos estudantes maranhenses?

PSTU: “Cada escola é um quilombo”

O Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) também soube aproveitar bastante o festival de invasões de escolas em São Paulo. A Juventude do PSTU lançou vídeos até mesmo sobre a rotina dos invasores dentro das escolas.

Foto: reprodução da página Juventude do PSTU

Foto: reprodução da página Juventude do PSTU

O PSTU clamou, em editorial no seu site, que os estudantes fizessem “de cada escola um quilombo”, aproveitando para pedir o desmonte da sociedade:

A juventude está mostrando que é possível se organizar e fazer uma escola para os trabalhadores, onde o povo pobre e preto possa se ver refletido nela. Mas para que isso ocorra, é necessário lutar por uma verdadeira reorganização na sociedade, que de fato atenda às necessidades dos jovens e dos trabalhadores, que sirva para organizar os de baixo para derrubar os de cima!

Como é de seu feitio, o PSTU é o setor que mais radicalizou na luta por meio do seu “comando de escolas ocupadas” (um tanto stanilista, hein, companheiros?) e se recusou a deixar as escolas até um o recuo oficial de Alckmin.

Abusando do tom épico, a Juventude do PSTU celebrou a “resistência histórica” dos estudantes. Nunca sem deixar de ameaçar: “se fechar, nóis [sic] ocupa”.

Zé Maria, presidente nacional do PSTU e porta-voz da síntese do pensamento do partido: “Contra Burguês, Vote 16”, declarou pessoalmente seu apoio à “luta dos estudantes paulistas”, tirando também sua casquinha do movimento.

O PSTU sabe usar imagens e frases de efeito e Zé Maria divulgou uma delas, exemplo das narrativas épicas do bem contra o mal com as quais o partido seduz a juventude:

Foto: reprodução do facebook

Foto: Sergio Koei

O partido também fez questão de entrar no clima sakamotiano “e se morrer um estudante?” com esta foto de um agente de segurança pública reagindo à tentativa de “estudantes” (ou seriam militantes profissionais?) de bloquear seu veículo.

A democracia “Duas Caras” do PSOL

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Página oficial Ivan Valente. (Reprodução facebook)

O deputado federal Ivan Valente, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), fez um discurso estridente no Congresso para denunciar o “autoritarismo” do governador Alckmin.

Tais medidas não são à toa. Revelam o que há anos o governo tucano vem demonstrando: intransigência, autoritarismo, violência com movimentos sociais, soberba, manipulação, desresponsabilização com a educação. O governo quer uma “guerra” contra a população, a quem deve seu mandato, e tal postura é abominável.

Trata-se do mesmo Ivan Valente que, questionado por Fernando Holiday a respeito de sua posição sobre o impeachment, ordenou aos seguranças do Congresso Nacional:

“Pode dar voz de prisão para esses caras!” 

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Uma resposta que deixaria Stalin orgulhoso. É a democracia de duas faces do PSOL: acampamento do MBL em Brasília: fascismo; invasão de escolas: estamos juntos!

O deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL) também protestou vigorosamente contra o demoníaco Geraldo Alckmin, como atesta a nota chapa branca do Viomundo:

Para o parlamentar, que é membro titular da Comissão de Educação e Cultura da ALESP e vem percorrendo dezenas de escolas ocupadas em apoio a esta ‘primavera árabe’ promovida pela juventude estudantil paulista, a medida do governo fecha escolas, turnos, demite profissionais da Educação, desestrutura a comunidade escolar, superlota salas de aulas e não resolve a questão da oferta e qualidade de ensino na rede pública de Educação.

Carlos Giannazi é membro da Frente Parlamentar de Solidariedade a Cuba na Assembleia Legislativa de São Paulo. É um bufão que se esforça para conseguir atenção da mídia, chegando ao ponto de protocolar um pedido de impeachment de Alckmin.

O motivo? A crise hídrica. Giannazi poderia ter se esforçado mais para conseguir um motivo melhor, mas limitou-se a usar a falta de chuva mesmo. A problemática a respeito das licitações do metrô paulista não teria sido muito mais interessante?

De minha parte, penso que não seria nada mal a saída de um frouxo como o tucano do comando de São Paulo, mas o caso é que desejar o impeachment de Alckmin e não o de Dilma já não é mais política séria: parece um caso de esquizofrenia mesmo.

Giannazi é o Tio Sukita do PSOL: perdeu a graça quando ainda estava no PT, mas ainda se sente na crista da onda. O deputado vive realizando eventos com a juventude, mas é claro que nunca convidou para o debate jovens como Kim Kataguari e Fernando Holiday.

Também não faltaram “educadores” a elogia os invasores, o provavelmente serviu de estímulo para quem participou das ações e também uma espécie de “até os professores nos apoiam”.

A narrativa “Jovens protagonistas” X Idade penal

O professor Braz Rodrigues Nogueira destacou a capacidade, a competência e a inteligência estratégica de adolescentes e até de crianças no movimento de invasões:

Isso é um fato novo. Enquanto educador, fico bastante feliz, bastante alegre. Isso vem comprovar que crianças, pré-adolescentes, adolescentes e jovens são seres competentes e têm que ser protagonistas. A primeira coisa que o governo tinha que ter feito era ter consultado essas crianças, esses adolescentes, esses jovens e isso não foi feito.

Os jovens que "protagonizaram" o movimento são ou não capazes de responder por seus atos?

Os jovens que, segundo a esquerda, “protagonizaram” o movimento de forma tão competente são ou não capazes de responder por seus atos?

Eu só gostaria de saber a opinião do ilustre professor Braz Rodrigues Nogueira sobre a redução da idade penal: jovens tão competentes são responsáveis ou não por seus atos? Crianças capazes de peitar um governador são ou não conscientes do que fazem?

A esquerda jura solenemente que o movimento de invasões de escolas foi “espontâneo” (veja mais abaixo) e que partiu dos estudantes secundaristas. Se for verdade, está aí uma evidência de que nossos jovens são intelectualmente capazes e responsáveis por seus atos.

“Se quer guerra, vai ter guerra!”

Várias postagens de militantes pareciam clamar por um confronto grave entre estudantes e policiais. Não apenas as suas postagens, mas suas ações. Eles ultrapassaram o cenário das escolas para ocupar diretorias de ensino, inviabilizando a estrutura da educação.

Foto: reprodução facebook

Foto: reprodução facebook

Uma postagem da UBES resume a minha dúvida: os militantes se esforçaram para ocupar prédios públicos onde são realizados trabalhos essenciais na estrutura da educação, sabendo que a Polícia teria de intervir e que haveria conflito?

Cenário de Guerra: Na manhã dessa quinta-feira (3), os estudantes das escolas de Santo André ocuparam a Diretoria de Ensino da Região em protesto pacífico contra a reorganização. Para intimidar o movimento, cerca de 15 viaturas da polícia militar cercaram os secundaristas que permanecem ocupando o prédio.

A invasão da EE Maria José também é um exemplo interessante. Observe neste vídeo a “aluna” que grita todo momento com os policiais “N-ã-o tem arrego!”. A provocação contra a PM é sistemática, continuada e a postura da garota beira a histeria.

Enquanto isso um dos “estudantes” tenta obstruir a passagem dos policiais, que reagem como era de se esperar. Neste momento outro “aluno” vai correndo para fora da unidade e chama várias pessoas com câmeras para registrar o conflito.

Talvez sem querer, neste vídeo, deixaram explícita sua estratégia.

“Se quer guerra, vai ter guerra” é o título da postagem que comemora a paralisação da Avenida Rebouças, ato supremo de autoritarismo, como uma provocação ao governador, ignorando que os maiores prejudicados são os próprios cidadãos.

Foto: fanpage Mal Educado. (Reprodução facebook)

Foto: fanpage Mal Educado. (Reprodução facebook)

O fechamento de via pública só pode gerar dois resultados: promover um congestionamento catastrófico ou terminar com a intervenção da Polícia Militar, cujos atos são fotografados e filmados com voracidade pelos militantes profissionais com suas câmeras Full HD.

É neste cenário que a tropa de choque do peleguismo entra em campo nos blogs da paz, amor e da democracia. Leonardo Sakamoto, que gosta de tirar fotos com guerrilheiros no Timor Leste, perguntou: “E se morrer um estudante?”

A descabida morte de um estudante por asfixia após levar um mata-leão de um soldado rodaria o mundo tal qual a foto do corpo de uma criança síria que surge afogada ao tentar fugir de um conflito sem sentido. E, infelizmente, o que é catarse pode se transformar em convulsão social.

Mesmo preocupado com a vida alheia, Sakamoto não disse aos invasores: “vamos deixar isso pra lá!”. Nada disso. O que fica subentendido no texto é que o governador é que deveria recuar para impedir uma tragédia. Será que Alckmin leu o texto?

O trecho que me deixou realmente intrigado foi essa espécie de salvo-conduto ideológico:

É claro que há ocupações ligadas a movimentos sociais – o estranho seria se não houvesse, uma vez que educação é tema transversal que permeia tudo.

Mas o que está acontecendo não é uma ação coordenada com um “comando central de ocupações”. Quem pensa dessa forma realmente não entende como brotam e se organizam novos movimentos.

Será mesmo? Deixo a questão para o leitor responder: o governador do Estado de São Paulo foi derrotado por alunos que agiram espontaneamente ou por um movimento coordenado que contou com a participação de partidos e entidades de esquerda?

Quem invadiu as escolas: os alunos ou os partidos?

PL 5069: contra a cultura de estupro

No sábado, dia 07, a partir das 14h00, São Paulo sedia uma manifestação no vão livre do MASP, na Av. Paulista, em defesa do PL 5069, que combate a cultura de estupro no Brasil.

Trata-se de uma mobilização da maior relevância para o enfrentamento da violência sexual contra as mulheres, assim como para a viabilização da punição dos seus agressores.

O projeto de lei 5069, de autoria de 14 deputados, tem como finalidade ampliar o atendimento a mulheres vítimas de violência sexual e identificar os seus agressores. Apesar disso, de maneira inexplicável, o projeto tem sido atacado por feministas e criaturas relacionadas.

É difícil entender o motivo pelo qual feministas não querem uma lei que obriga a identificação de estupradores. Uma explicação possível: elas gostariam que os procedimentos reservados às mulheres vítimas de estupro estivessem disponíveis como método anticoncepcional.

Rodrigo Gurgel deu um depoimento esclarecedor sobre o que está em jogo e as contradições daqueles que priorizam a luta pelo aborto em detrimento da defesa das mulheres.

É este o poder da ideologia: colocar militantes para lutar contra aquilo e aqueles que supostamente defendem. Em nome de uma agenda ideológica, as feministas estão se posicionando contra um projeto de lei que combate a cultura de estupro.

Em nome de uma agenda ideológica, elas estão espalhando as maiores mentiras a respeito do PL 5069. São muitos os absurdos ventilados nos últimos dias. Por sorte, o jornalista Felipe Melo desmontou os piores deles em um artigo brilhante.

Felipe começa por iluminar a verdade que as feministas querem esconder: o PL 5069 faz do Boletim de Ocorrência uma forma de identificar estupradores e em nada atrapalha ou desestimula o atendimento às vítimas de violência sexual.

Eis uma das falácias desmontadas pelo autor do artigo:

2) O PL 5069 só permitirá atendimento às mulheres que primeiro denunciarem a violência sexual à polícia

Mentira. O próprio art. 1º da Lei 12.845, que não sofrerá qualquer alteração pela aprovação do PL 5069, indica claramente que os serviços de saúde “devem oferecer às vítimas de violência sexual atendimento emergencial e multidisciplinar”. O PL 5069, inclusive, demonstra grande preocupação na identificação e punição do responsável pela violência sexual, tanto que sugere a seguinte alteração ao art. 3º, III, da Lei 12.845 (grifos meus):

III – encaminhamento da vítima, após o atendimento previsto no art. 1º, para o registro de ocorrência na delegacia especializada e, não existindo, à delegacia de polícia mais próxima visando a coleta de informações e provas que possam ser úteis à identificação do agressor e à comprovação da violência sexual.

O PL 5069 não apenas mantém o atendimento às vítimas de violência sexual: toma uma postura ainda mais vanguardista ao propor meios de identificação de seus agressores.

O Boletim de Ocorrência viabiliza a identificação do criminoso, pois ele permite a realização do corpo de delito que ajuda na coleta de material genético do estuprador.

Contra a cultura da morte

A verdade é que as feministas têm motivos claros para se opor ao PL 5069 e à qualquer alteração na Lei 12.845, que trata do tema do atendimento às vítimas de violência sexual, mas que tem brechas inconstitucionais que possibilitam o aborto irrestrito.

Confira no hangout com a professora Fernanda Takinati no Terça Livre:

Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que transformar um procedimento destinado às vítimas de violência sexual – em casos já previstos pela lei – em método anticoncepcional de uso livre para todas as mulheres representa um desrespeito à Constituição.

Mas é o que as feministas, ao arrepio da lei, querem que aconteça no Brasil. E pior: ao invés de comunicar claramente seu desejo de promover o aborto, elas preferem tomar o caminho da desinformação e atacar o PL 5069 tomando-o por aquilo que ele não é.

Elas se opõem à supressão de um termo obscuro e ambíguo na Lei 12.845 que daria brechas para o aborto: a “profilaxia da gravidez”. A profilaxia nada mais é o uso de procedimentos e medicamentos para a prevenção de doenças. Ou seja…

A Lei 12.845 trata da gravidez como uma doença e diz que o Estado deve, portanto, ofertar às mulheres os meios necessários para prevenção desta terrível praga. É o que diz o texto atual, que deve, sim, ser alterado por ser claramente inconstitucional.

É por isso que devemos sair às ruas no dia 07 de novembro: contra a cultura do estupro, que neste caso é desprezada pelas feministas, e também contra a agenda da morte daquelas que dizem lutar pelos interesses das mulheres, mas não querem estupradores presos; apenas bebês mortos.

Em sua coluna na Gazeta do Povo, Carlos Ramalhete captou com precisão este sentimento inumano que move as feministas em sua luta desesperada contra vida:

Mesmo assim, os estupradores ainda têm aliados entre pessoas cujo ódio à vida é maior que o parco e ressequido interesse que ainda tenham pela feminilidade. É o caso dos abortistas que aqui e ali, para gáudio dos defensores midiáticos da cultura da morte, protestaram contra o PL 5.069, que faz da comunicação do estupro à polícia – sem a qual não pode haver investigação, sem a qual o estuprador certamente continuará a agir! – condição necessária para que não seja punido o aborto da pobre criança gerada nessas circunstâncias. Amam tanto a morte que preferem que não haja nem sequer investigação dos estupros… desde que possam matar mais bebês.

Como ser um conservador (em tempos de barbárie)

Foi providencial terminar a leitura de “Como ser um conservador”, de Roger Scruton, quase no mesmo momento em que foi divulgado o vídeo em que um professor universitário confessa seu desejo de fuzilar conservadores e poucos dias depois que jovens racialistas invadiram uma sala de aula da USP para vomitar seu ódio contra quem cometeu o crime de nascer branco.

Os dois episódios revelaram muito para o público em geral.

O fato de terem sido protagonizados, o primeiro, por um professor e, o segundo, por estudantes universitárias desnuda a causa e o efeito perversos da doutrinação ideológica nas escolas e universidades do Brasil: o mestre instila o ódio e este é reproduzido com devoção pelos jovens pupilos.

Além disso, tais flagrantes de ódio iluminam a verdadeira motivação da esquerda em sua guerra contra nossas tradições, instituições e regime político: o desejo de destruir a civilização através do uso instrumental da barbárie.

Mauro Iasi, o doutrinador, em ação: causa e efeito

Mauro Iasi, o doutrinador, em ação: causa e efeito

É contra a barbárie que Roger Scruton escreveu uma das obras contemporâneas mais assertivas em defesa do conservadorismo. Com uma prosa sofisticada, mas sem afetações, Scruton demonstra que a filosofia conservadora representa justamente a defesa da civilização contra as hostes de bárbaros que já vivem entre nós e lutam pelo fim de tudo que amamos.

Defender os valores civilizacionais nos nossos dias – quando nos defrontamos com professores que desejam nos fuzilar e estudantes que exigem a nossa alma – é uma missão que demanda coragem, resiliência e, acima de tudo, sabedoria.

E sabedoria é o que Scruton tem para nos oferecer.

A começar por trazer à luz os equívocos filosóficos e as mentiras políticas que sustentam o frágil arcabouço teórico dos militantes do ódio e da barbárie, estes que se travestem de humanistas com a finalidade exclusiva de nos emboscar em nossa própria casa, escondidos no Cavalo de Tróia das boas-intenções.

É necessário enfatizar, de saída, que Scruton não é um intelectual engagé e não está interessado em guerrilha política; o filósofo britânico não está entre aqueles que acreditam que devemos lutar contra o Diabo usando as armas do Diabo.

Muito pelo contrário, o autor parece nos dizer que é no campo das ideias, e também por meio do exemplo, ao adotarmos uma postura civilizada e instrutiva, expondo as mentiras políticas e morais dos que nos odeiam, que vamos derrotar o Diabo.

Scruton lembra algo de muito valoroso: o modo de vida civilizado demanda uma habilidade para conviver e dialogar com quem pensa (diametralmente) diferente de nós – civilização é convivência ou não é nada. E isso só pode ser alcançado por meio da empatia, ou seja, a capacidade de se colocar no lugar do outro.

De forma magistral, Roger Scruton constrói toda a cadeia argumentativa dos seus adversários para, em seguida, desconstruir tudo o que merece ser desconstruído. Antes, contudo, ilumina o que há de valor nos princípios e pensamentos dos seus adversários.

Scruton: a filosofia conservadora representa a defesa da civilização

Scruton: a filosofia conservadora representa a defesa da civilização

Com um didatismo elegante, Scruton identifica o que há de verdadeiro no socialismo, no liberalismo, no multiculturalismo, no ambientalismo e no internacionalismo. Da mesma maneira, o autor expõe tudo o que há de falso nessas correntes políticas e culturais.

É um exercício filosófico por excelência que consiste em separar o joio do trigo. Há insights relevantes no campo adversário e apenas o sectarismo nos impede de enxergá-los. Isso não significa, é claro, comprar todo o pacote ideológico de quem quer que seja.

Roger Scruton se colocou no lugar daqueles que estão no extremo oposto de tudo aquilo em que ele acredita. Fez isso para melhor compreendê-los, mas também para conceder a eles a legitimidade intelectual que um adversário merece em um verdadeiro debate.

É claro que este nível de respeitabilidade intelectual não merece ser concedido aos advogados da violência, como Mauro Iasi , e aos militantes do ódio racial, como as jovens da USP que pretendem roubar nossas almas quando, na verdade, o que lhes falta é cérebro.

Mas existem certos ramos e certas figuras da esquerda que, embora equivocados sobre economia e outros temas, não podem ser colocados entre os bárbaros. Recusar esta verdade elementar é aderir ao barbarismo que enxerga o mundo por meio de uma empobrecida visão binária, que nos divide entre nós e eles.

A cultura de repúdio

Scruton faz uma forte denúncia da causa do ódio na política e na cultura: os impulsos destrutivos que a esquerda multiculturalista manifesta em relação à própria civilização onde ela nasceu e permanece protegida – apesar da sua tentativa de destruí-la.

Talvez muitos leitores se surpreendam com o tom elogioso com o qual Scruton aborda a origem e o desenvolvimento do Iluminismo, mas ele o faz com toda razão e para provar que os valores ocidentais são singulares no mundo na medida em que incluem os não-ocidentais.

Como resultado do Iluminismo e de tudo aquilo que este significou para a civilização ocidental, comunidades podem ser absorvidas e integradas em nosso modo de vida, mesmo quando chegam trazendo deuses estranhos. Tal virtude de nossa civilização, no entanto, exibida de forma tão clara nos Estados Unidos, foi utilizada justamente para repudiar nossas pretensões de civilização com argumento de que, em nome do multiculturalismo, devemos marginalizar costumes e crenças que herdamos, e até descarta-los, para nos tornamos uma sociedade “inclusiva” em que todos os recém-chegados se sintam em casa.

No fabuloso capítulo dedicado ao multiculturalismo, Scruton expõe as raízes da agenda politicamente correta e sua degeneração em formas de censura e totalitarismo cultural. Em resumo, a esquerda multicultural acredita que para sermos inclusivos devemos denegrir “aquilo que mais sentimos, acima de tudo, como nosso”.

Scruton cita alguns casos, entre eles o diretor geral da BBC que, recentemente, condenou a própria emissora por fazer programas “para a classe média branca”, os acadêmicos que desprezam o currículo universitário definido por Dead White European Males (Homens brancos europeus mortos) e uma instituição de caridade britânica dedicada às relações raciais que condenou como “racista” a ideia de uma identidade nacional britânica.

Para Scruton, “a bondosa defesa da inclusão disfarça o desejo de repudiar o legado cultural que nos define”. É o que ele chama de “cultura de repúdio”, que surgiu da corrupção dos nossos valores, especialmente do valor fundamental da tolerância.

Como disse G.K. Chesterton, “o mundo moderno está cheio de velhas virtudes cristãs enlouquecidas. As virtudes enlouqueceram porque foram isoladas uma da outra e estão circulando sozinhas”. O enlouquecimento da tolerância gerou o multiculturalismo.

O Iluminismo, que parece conduzir por vontade própria uma cultura de repúdio, destrói a explicação ao debilitar as convicções sobre as quais foi fundada a cidadania. É o que temos testemunhado na vida intelectual do Ocidente.

Os jovens racialistas da USP, por exemplo, são completamente ignorantes do fato de que apenas no Ocidente podem realmente mudar o curso do seu destino porque são tratados como indivíduos e não como membros de uma raça ou de uma classe.

Tudo isso só é possível porque prosperaram entre nós os valores da tolerância cristã – exemplificados na parábola do Bom Samaritano – e da visão iluminista da natureza humana, que enxerga todos os indivíduos como autônomos e responsáveis por suas vidas.

Mas a tolerância cristã e o individualismo foram corrompidos de tal forma que hoje, em nome do reconhecimento do próximo (ou do outro), o establishment intelectual repudia aquilo que nos permitiu acolher diferentes culturas dentro da nossa: a liberdade intelectual.

A cultura de repúdio marca, de outros modos, a desintegração do Iluminismo. O espírito do livre exame está, agora, desaparecendo das escolas e universidades do Ocidente. Livros são inseridos ou retirados do currículo com base no politicamente correto; códigos de fala e serviços públicos policiam a linguagem e cursos são elaborador para transmitir uma conformidade ideológica.

Inflação de Direitos

Para Scruton, o multiculturalismo é fruto da incapacidade do liberalismo político resolver suas próprias contradições. O capítulo no qual ele aborda os dilemas liberais vale outro artigo. Mas em resumo o autor ensina que o conceito moderno de direito sofreu várias mudanças ao longo da História e hoje, irreconhecível, serve apenas para fins de agenda ideológica.

Em sua visão tradicional, o liberalismo concedia direitos negativos aos indivíduos. Hoje as  democracias são quase completamente pautadas pelos direitos positivos. No primeiro caso falamos, basicamente, de coisas que o Estado não deve fazer (torturar, perseguir, censurar seus cidadãos, etc) e no segundo caso falamos de coisas que o Estado deve fazer (conceder cotas, oferecer programas sociais, serviços públicos, etc).

É óbvio que o Estado se alimenta de direitos positivos como um carnívoro se alimenta de carne. Quanto mais direitos positivos, maior é o tamanho da máquina estatal.

Scruton observa que a inscrição dos direitos positivos na Declaração Universal de Direitos Humanos resultou na emergência do Estado moderno como um ativista incansável que está diuturnamente criando novas trincheiras de conflitos políticos com a desculpa de promover o apaziguamento das tensões sociais, e se esmiuçando sobre a vida dos indivíduos, sempre escudado pela mentira segundo a qual está promovendo a liberdade.

A igualdade perante a lei foi jogada no lixo em favor da agenda das minorias. Hoje o membro de um determinado grupo étnico pode desfrutar do direito que é negado aos demais em nome de uma falsa e vulgar noção de igualdade e do surrado discurso de justiça social.

A “inflação de direitos”, que é como Scruton chama o resultado da epidemia de reivindicações dos tais grupos minoritários, resulta em divisões e tensões cada vez maiores na sociedade moderna, embora os defensores de tais políticas se apresentem como paladinos da tolerância, da igualdade e da paz social. Scruton desmascara suas premissas e intenções.

Conservadorismo contra a barbárie

É sabido que os conservadores, ao contrário dos liberais, não caem no erro de encarar com o otimismo a natureza humana. O pessimismo antropológico os afasta da tentação progressista de elaborar quaisquer políticas que dependam da evolução de seres guiados pelo autointeresse, limitados em virtudes e conhecimento, em criaturas angelicais.

O negócio do conservadorismo não é corrigir a natureza humana ou moldá-la de acordo com alguma concepção ideal de um ser racional que faz escolhas. O conservadorismo tenta compreender como as sociedades funcionam e criar o espaço necessário para que sejam bem sucedidas ao funcionar. O ponto de partida é a psicologia profunda da pessoa humana.

A maior prova de tolerância do pensamento conservador é o de reconhecer e aceitar o ser humano como ele é, ao invés de negá-lo em nome de abstrações ou promessas utópicas.

A esperança conservadora não reside em um programa político, em um líder carismático, em um partido ou governo. O conservador é, antes de tudo, um cético. E como tal resiste à tentação de depositar sua fé em políticos, por mais bem intencionados que pareçam.

Mas, então, o que sobra? A própria sociedade.

Na visão conservadora – que não é pautada por dogmas, mas pela realidade – os seres humanos ao longo da história, e de forma bastante natural, se associam livremente e formam meios de ajuda mútua para enfrentar os desafios da sobrevivência.

"Como ser um conservador": apologia da civilização

“Como ser um conservador”: uma importante e necessária apologia da civilização

Scruton observa, em uma belíssima passagem, que “da matéria-prima do afeto humano construímos associações duradoras com regras, ocupações, cerimônias e hierarquias que atribuem às atividades um valor intrínseco”.

Não é por acaso que a esquerda, majoritariamente, se levanta contra igrejas, clubes, fraternidades e tudo o mais que esteja fora do raio de ações do Estado. É o caso, lembrado por Scruton, da organização de escoteiros de Boston, nos EUA, que perdeu o direito de utilizar um prédio público porque supostamente “promove a homofobia”.

Scruton chama de “esferas de valor” a religião e a família, pois nelas e delas são produzidos valores que estão fora do alcance da esfera estatal e que transcendem qualquer possibilidade de engenharia social.  É por isso que tais instituições são constantemente atacadas.

Mas a livre associação não pode ser sufocada, pois emerge de todos os segmentos sociais sem nenhuma necessidade de grandes estruturas ou financiamento. É a na vida comunitária, no espírito civil, no modo de vida descentralizado, na religião, na família e nas associações de ajuda mútua que construímos nossas trincheiras de resistência.

A verdade no conservadorismo repousa nessas ideias. A livre associação nos é necessária não só porque “nenhum homem é uma ilha”, mas porque os valores intrínsecos surgem a partir da cooperação social. Não são impostos por alguma autoridade externa ou incutidos pelo medo. Crescem de baixo para cima por relações de amor, de respeito e de responsabilidade.

Scruton lembra que mesmo aqueles dentro de nós que não têm qualquer crença religiosa – e o conservadorismo não é monopólio de nenhuma fé – devem ser amigos da religião, pois ela representa a maior barreira de defesa contra a engenharia social estatal.

Os valores são produtos das tradições, dos costumes e das instituições, e a primeira dentre essas tradições e instituições é a religião, afirma Scruton, “que faz brilhar a luz de nossos sentimentos sociais”.

A nossa luta contra a barbárie passa, necessariamente, pela afirmação da nossa identidade e pela defesa vigorosa da nossa herança espiritual atemporal.

Para que serve a OAB?

A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) acabou. O que existe hoje é uma paródia macabra do que a entidade significou em um longínquo passado de glórias. A pergunta do título refere-se, portanto, a esta paródia que hoje leva o seu nome. Para que ela existe?

De fato, é estranho que a OAB tome partido – se é que me entendem – em certas batalhas e se ausente de tantas outras. No mesmo timing do Palácio do Planalto, a entidade muitas vezes volta seus olhos para questões tão polêmicas quanto fugazes, e que roubam (até isso!) a atenção da opinião pública da epidemia de corrupção que enfrentamos no país.

A OAB agora reage até mesmo a posts malcriados de adolescentes babacas nas redes sociais e “manifestações de ódio” contra Dilma. É sério mesmo. Confira clicando aqui.

E sobre o fatiamento da Operação Lava Jato? E sobre a sórdida tentativa de desmantelamento da investigação do maior esquema de corrupção da história do Brasil?

Bem, sobre isso a OAB não diz absolutamente nada. Mas se o juiz Sérgio Moro escrever um post negativo sobre a comida típica Paraíba é certo que a entidade fará um escândalo internacional e exigirá que Moro seja punido de alguma forma.

Dois trilhões não contabilizados pelo governo Dilma e a OAB gastando energias com posts e tuítes de gente mal-educada, classificados gravemente de “crimes de ódio”…

Qualquer babaquice que alguém poste em uma rede social ganha repercussão nacional graças ao governo federal, à OAB e outras entidades que lançam holofotes potentes para evidenciar qualquer bobagem vomitada por perfis que nem sequer sabemos se são reais.

A OAB e o governo federal dão cobertura total à qualquer bobagem dita nas redes sociais

A OAB e o governo federal dão cobertura total à qualquer bobagem dita nas redes sociais

Aliás, fica a dica: se você quiser ficar famoso escreva um post falando mal da comida nordestina, das mulheres cariocas, da hospitalidade sulista: a OAB e o governo Dilma farão o seu marketing.

Críticas contundentes

Não é a toa que importantes juristas e operadores de Direito critiquem publicamente a entidade da qual fizeram ou fazem parte, salientando que, comparada ao passado recente, a OAB parece caminhar para a total irrelevância.

É o caso do jurista Modesto Carvalho, especialista em direito econômico e mercado de capitais, que criticou a OAB em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura:

“Onde é que anda a OAB? A OAB não trata desse assunto da corrupção? A OAB foi a promotora do impeachment do Collor e hoje está completamente quieta. Ela sumiu? A OAB está em férias? Porque eu nunca vi uma entidade que tem a sua história sem nenhuma manifestação, sem nenhuma mobilização a favor dessas investigações”

É compreensível que o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, tenha criticado de maneira tão dura a entidade no julgamento da ação direta de inconstitucionalidade proposta pela OAB com objetivo de acabar com financiamento privado de campanha.

Mendes acusou a OAB de se deixar manipular pelos interesses do PT. Os próprios advogados não estão contentes com a atual situação da OAB.

O advogado Leandro Mello Frota, mestrando em Ciência Política em Relações Internacionais pelo IUPERJ, sócio da Gomes & Mello Frota Advogados, falou ao Instituo Liberal, do qual é diretor jurídico, sobre a tomada da entidade pelos governistas:

“A OAB deveria ter um papel de vanguarda na luta pela liberdade; defendendo os advogados e com uma participação mais efetiva nos assuntos que afligem a sociedade. Nossa OAB no passado exerceu um papel fundamental no retorno ao regime democrático, além de ter se posicionado ao lado do povo no impeachment do ex-presidente Collor. [Hoje] temos uma OAB fraca, submissa e atrelada aos interesses do PT e do governo. Nossa OAB tem virado as costas para nós, advogados”

Leandro Mello não está sozinho. A fala dele representa a frustração de muitos estudantes de Direito e de advogados que atuam há décadas no Brasil. Percebe-se que tanto para a nova geração quanto para a mais antiga a OAB tornou-se uma fonte de decepções.

O desprestígio da OAB é tamanho que até mesmo lideranças políticas de expressão nacional começam a questionar de forma contundente as contradições da entidade. Em um passado não tão distante, nenhum político ousaria bater de frente com a Ordem.

Ao questionar a credibilidade de uma pesquisa encomendada pela OAB que aponta 74% dos entrevistados contrários ao financiamento empresarial de partidos, o presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha aproveitou para questionar a ausência de democracia interna OAB:

“A OAB é um cartel, é um cartel de uma eleição indireta, que responde a uma série de poder feito com movimento de milhões sem fiscalização. Então, a OAB tem que ser questionada em muitos pontos. Ela precisa ser mais transparente”

O presidente da Câmara foi preciso ao expor as contradições da entidade:

“A credibilidade deles, que não têm eleição direta, que não prestam contas como autarquia que eles são, esse roubo do exame da Ordem, com aqueles que não conseguem ter o direito a exercer a profissão pela qual eles prestaram vestibular, exerceram a faculdade e se formaram, a OAB tem uma série de questionamentos”.

Goste-se ou não de Cunha, as críticas dele à OAB são válidas. No interior da entidade pululam em todos os níveis os conflitos por poder, as guerras de facções e disputas territoriais.

Microfísica do poder

Até mesmo nas pequenas cidades as subseções da OAB muitas vezes são capturadas por pessoas que se servem delas para seus projetos pessoais, o que gera conflitos entre aqueles que almejam utilizar-se das subseções para fins particulares.

A obsessão pelo poder, somada ao afã de estar sempre próximo dos poderosos e agradá-los sempre que possível, com certeza é um elemento que contribuí com a destruição da imagem pública da entidade ao longo dos últimos anos.

A OAB abandonou todos os grandes temas que estão fora da agenda do governo. A crise política e institucional só aparece no radar da entidade para municiar o discurso em favor de do financiamento público de campanhas e outras bandeiras petistas.

O presidente problemático

A OAB hoje é presidida a nível nacional por Marcus Vinícius Furtado Coelho. Além da sua discurseira sem fim em defesa do governo Dilma, Coelho tem até mesmo na sua prática profissional uma fonte de controvérsias.

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Coelho esteve na mira da Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça

Em 23 de fevereiro de 2015, a revista Época noticiou os fatos inconvenientes envolvendo o presidente da OAB. Segundo a revista, as merendeiras e os professores do Piauí, que recebiam menos de um salário mínimo nos 1990, ganharam na Justiça indenização de R$ 400 milhões.

Mas um grupo de advogados, liderado por Marcus Vinícius Furtado Coelho, estava faturando – e antes de muitos dos trabalhadores – R$ 108 milhões desse total. Ainda de acordo com Época, a corregedoria do Conselho Nacional de Justiça considerou irregulares os honorários dos advogados e mandou suspender os pagamentos:

“Cada vez mais candidato a ministro do Supremo Tribunal Federal, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Marcus Vinícius Furtado Coelho, atuou para que um grupo de advogados do Piauí descolasse honorários superlativos – e, segundo a corregedoria do Conselho Nacional de Justiça, irregulares – num processo de R$ 400 milhões. Os R$ 400 milhões constituem uma dívida reconhecida pelo governo do Piauí a professores e merendeiras da rede pública do ensino, como forma de compensação por algo básico que eles não tiveram durante um período da década de 1990: ganhar um salário mínimo”

O mais surpreendente no caso é que Coelho nem sequer foi advogado no processo. E mesmo assim – detalhou Época – ganhou mais do que os beneficiários do processo:

“São 11.401 beneficiários que, ao contrário dos advogados, não ficarão milionários com o pagamento da dívida. A média de pagamento, para os sindicalizados, é de pouco mais de R$ 30 mil – alguns beneficiários vão levar anos até receber o dinheiro. Coelho nem sequer foi advogado no processo pelo qual ganhou os honorários. Foi advogado dos advogados.”

É o mesmo Coelho que tira da cartola a força, o simbolismo e a representatividade da OAB para, escorando-se na suposta independência da entidade, ofertar vereditos “imparciais” à imprensa e fazer a defesa do governo sempre que necessário.

Quando o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, se encontrou com advogados que representam investigados da Operação Lava Jato, o notório presidente da OAB apressou-se defender Cardozo, considerando o encontro “natural”.

Coelho e Cardozo: onde começa o Ministério da Justiça e onde termina a OAB?

Coelho e Cardozo: mas onde é que começa o Ministério da Justiça e onde é que termina a OAB?

Na época o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa chegou a cobrar a demissão do ministro, por uma suposta contaminação do processo pela política:

“Nós, brasileiros honestos, temos o direito e o dever de exigir que a presidente Dilma demita imediatamente o ministro da Justiça. Reflita: você defende alguém num processo judicial. Ao invés de usar argumentos/métodos jurídicos perante o juiz, você recorre à Política?”

Coelho estrela, vez ou outra, as manchetes da blogosfera da Petrobrás, sendo apresentado como uma voz isenta que representa uma instituição séria. É o mesmo uso instrumental que a esquerda faz de FHC, Alckmin e outras figuras “isentas”, “imparciais”, etc…

Graças à notoriedade do cargo que exerce, Coelho ganha espaços generosos no próprio site do PT com suas estripulias retóricas em defesa do governo Dilma:

O presidente da OAB, Marcus Vinicius Furtado Coelho, posicionou-se contra o movimento golpista e defendeu o mandato da presidenta Dilma Rousseff. “Até o momento, a OAB não tomou conhecimento da prática de ato criminoso por parte da presidente da República”.

Em 2014, Coelho esteve cotado para ser candidato a Senador pelo PP (Partido Progressista), da base do governo Dilma. A dobradinha seria com o petista Wellington Dias. Coelho negou a coisa toda. Talvez a coisa toda tenha sido um teste junto à opinião pública.   

Leite derramado

O fato é que só agora, aos 45 minutos do segundo tempo, a OAB decidiu “constituir uma comissão para avaliar se a presidente Dilma Rousseff cometeu crime de responsabilidade”. É claro que é uma tentativa inútil de colocar o leite derramado novamente dentro da garrafa.

A credibilidade da OAB está em sintonia com a popularidade do governo Dilma.

De acordo com o Estatuto da Advocacia e da OAB, a entidade tem por finalidade “defender a Constituição, a ordem jurídica do Estado democrático de direito, os direitos humanos, a justiça social, e pugnar pela boa aplicação das leis, pela rápida administração da justiça e pelo aperfeiçoamento da cultura e das instituições jurídicas”.

Estatuto da Advocacia e da OAB

Estatuto da Advocacia e da OAB: defender a Constituição; nada sobre defender governos

Para exercer sua missão, a OAB deveria primar pela imparcialidade e se voltar à defesa desapaixonada das instituições e não de um partido ou de uma agenda ideológica.

Porém, são muitos os episódios que nos fazem suspeitar do aparelhamento ideológico da OAB, entre eles o papel ridículo do presidente da OAB do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, que pediu a rejeição do registro de advogado de Joaquim Barbosa.

Por anos a OAB se comportou como um grêmio estudantil – ou melhor, como o Departamento Jurídico Informal do PT – e agora, quando os anjos tocam as trombetas do Apocalipse, a entidade decide “constituir uma comissão” para avaliar se é mesmo o fim.

Para que serve a OAB?

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