Thiago Cortês

@SouDescortes

Da revolução sexual ao estupro coletivo

Nas últimas semanas acompanhei a proliferação de “análises” e “teses” sobre o caso do estupro coletivo no Rio de Janeiro. Outros casos parecidos supostamente aconteceram no Piauí nos últimos dias.  Mas ainda estão sendo apurados.

Senti falta de uma leitura menos abstrata e mais “empírica” dos episódios, mas não conseguia verbalizar nada. Até que decidi reler alguns livros de Theodore Dalrymple.

Dalrymple é um psiquiatra inglês que trabalhou em hospitais da periferia e presídios nas cercanias de Londres, além de ter percorrido o Terceiro Mundo e regimes totalitários como a Coréia do Norte e os países fechados da época da Cortina de Ferro.

Dois livros do psiquiatra, “A vida na sarjeta – o círculo vicioso da miséria” e “Nossa cultura…ou que restou dela”, ambos da “É Realizações”, podem nos ajudar a debater a questão.

Algumas considerações iniciais: o estupro é um ato de inominável violência que nunca pode ser justificado. Não há uma vírgula neste texto colocada com o propósito de relativizar qualquer ato de barbárie; defendo a punição exemplar de todos os estupradores.

O que este texto propõe é apenas iluminar o fato de que – uma vez que a Revolução Sexual se realizou – muitos dos tabus que cercavam a sexualidade foram destruídos e, com eles, a proteção que o bom senso oferecia contra abusos e práticas sexuais nefastas.

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Até mesmo a expressão “práticas sexuais nefastas” é uma blasfêmia que a nossa intelligentsia e seus jornalistas amestrados combatem com notável ferocidade. Não existe mais sexo nefasto, errado ou feio. Tudo o que importa é alcançar o orgasmo.

Ficou estabelecido o dogma segundo o qual o sexo deve ser sempre livre. Livre das convenções sociais, dos freios morais, das restrições afetivas. Isso nem sequer é mais debatido.

Quais são as consequências?

Ao tomar contato com o autodestrutivo modo de vida da subclasse inglesa – marcada por um empobrecimento mental, moral, cultural e espiritual –, Dalrymple percebeu que uma das fontes de sofrimento da subclasse é o fato dela adotar e viver na prática ideias perversas criadas na academia por intelectuais movidos à abstração e distantes da realidade.

Uma das maiores perversidades gestadas na academia e que hoje envenena as relações humanas é a ideia de que o sexo deve ser livre de constrangimentos morais ou mesmo de restrições legais e que no campo da sexualidade o que vale é apenas o exercício da vontade.

Em seu contato diário com a subclasse inglesa Theodore Dalrymple viu de perto as consequências práticas do “sexo livre”, leia-se descompromissado, que torna todos os relacionamentos e – por consequência todas as pessoas – descartáveis.

 “Se alguém quiser ver como são as relações sexuais livres de obrigações sociais e contratuais, dê uma olhada no caos das vidas das pessoas que compõem a subclasse. Aí, toda a gama de tolices, perversidades e tormentos humanos pode ser examinada livremente – em condições, recordemos, de prosperidade sem precedente”

(“A vida na sarjeta”)

O psiquiatra prossegue:

“Temos abortos realizados por golpes de kung fu no abdômen; crianças que têm filhos em números dantes desconhecidos em épocas precedentes ao avanço da contracepção química e da educação sexual; mulheres abandonadas pelo pai das crianças um mês antes ou após o nascimento; ciúmes insensatos, que são o reverso da moeda da promiscuidade geral e que resultam na mais odiosa opressão e violência; uma grande parcela de padrastos seriais que acabam violentando física e sexualmente as crianças; e todo tipo de perda de distinção do que é sexualmente permissível ou não”  

Animalização do sexo: o retorno do homem das cavernas

O que Dalrymple viu na realidade da subclasse inglesa certamente encontra eco na realidade estupidificante das subclasses brasileiras. Não podemos dissociar os crimes sexuais brutais que acontecem nas periferias do contexto de promiscuidade geral e libertinagem sexual na qual crianças e adolescentes crescem e desenvolvem sua visão-de-mundo.

O sexo descompromissado, desinibido e desenfreado foi idealizado pelos profetas da Revolução Sexual como uma forma de destruir os “tabus opressivos” da sociedade e, assim, de se conquistar a felicidade humana plena para homens e mulheres.

Nós, modernos, aprendemos que a única preocupação que devemos ter no que tange ao sexo é simplesmente a de alcançar a mais completa realização dos nossos desejos.

Ora, o resultado prático de jogar no lixo o significado unitivo do sexo é a total animalização do relacionamento entre homens e mulheres. É o retorno do homem das cavernas.

Graças à Revolução Sexual, fomos reduzidos a animais em busca do coito perfeito.

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É dessa brutal animalização do relacionamento entre homens e mulheres que surgem muitas das “patologias sociais” listadas por Dalrymple: meninas que engravidam cada vez mais cedo e de vários parceiros, gerando filhos que sofrem abusos de padrastos que passam por suas vidas de maneira tão rápida quanto brusca, deixando marcas e traumas terríveis.

“Na verdade, a maioria das patologias sociais apresentadas por essa subclasse tem origem em ideias filtradas da intelligentsia. Nada é mais verdadeiro que o sistema de relações sexuais que atualmente prevalece na população da subclasse, cujo resultado é de 70% de nascimentos ilegítimos no hospital em que trabalho.” (“A vida na sarjeta”)

A violência contra as mulheres

É claro que ao reinaugurar entre nós, modernos, a sexualidade desinibida e indomável do “saudoso” tempo do homem das cavernas, os profetas da Revolução Sexual deixaram as mulheres, literalmente, em maus lençóis.

Isso porque os homens não engravidam – o feminismo ainda não conseguiu dobrar a biologia – e podem ter várias parceiras ao mesmo tempo sem maiores preocupações. E, nos conflitos domésticos cotidianos, os homens prevalecem por conta da sua força física superior.

As brigas por ciúmes – que a ideologia também é incapaz de erradicar – representam a causa da maioria das internações de mulheres no hospital em que Darlymple trabalhou.

“Assim, continua a ser verdadeiro o fato de um hospital, como o em que trabalho, ter experimentado nas últimas décadas um aumento enorme no número de maus-tratos à mulher, a maioria dos casos resultado da violência doméstica”. (“A vida na sarjeta”)

Christopher Hitchens dizia que pouco importa o que se pensa, mas como se pensa. E as feministas, senhoras e senhores, pensam errado. Muito errado! Elas enxergaram o que há de pior no mundo masculino e quiseram importar para suas próprias fileiras.

As feministas perceberam que muitos homens usam e descartam as mulheres, mas não enxergaram nisso necessariamente um comportamento errado a ser combatido. O que elas enxergaram foi apenas e tão somente uma injustiça a ser corrigida.

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Diante do “homem comedor” acrítico e sexista, agora as feministas reivindicam para as mulheres o direito a serem “vadias” politizadas e autoconscientes que buscam não se proteger da promiscuidade, mas a democratização da promiscuidade sexual.

É óbvio que os homens levam a melhor nessa.  A maternidade nunca será para eles uma ameaça possível no horizonte e os deveres da paternidade podem tranquilamente ser compartilhados com um generoso Estado de Bem Estar Social.

Para os homens promíscuos, a vida nunca foi tão boa. As mulheres que se virem com seus filhos bastardos e o acúmulo de traumas e violências trazidos por vários parceiros sexuais, todos extremamente violentos e possessivos, que se impõem pela força.

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Dalrymple é enfático ao dizer que as mulheres e as crianças são as maiores vítimas da Revolução Sexual. Algo que as feministas, certamente, jamais poderão admitir.

Se o leitor se impressionou com o dado de que 70% das mulheres que deram entrada no hospital em que o psiquiatra trabalhava eram vítimas de violência doméstica, saiba que o número só não chegou aos 100% por causa dos imigrantes de orientação religiosa.

Eis o verdadeiro legado da Revolução Sexual:

“A revolução foi a pique na rocha da realidade inconfessa: de que as mulheres são mais vulneráveis à violência que os homens exclusivamente em virtude da biologia, e que o desejo da posse sexual exclusiva do parceiro continuou tão forte quanto antes. Esse desejo é incompatível com o desejo igualmente poderoso – eterno nos sentimentos humanos, mas até agora controlado por inibições sociais e legais – de total liberdade sexual”. (“A vida na Sarjeta”).

Os profetas da Revolução Sexual sonhavam com o fim de toda sorte de constrangimentos – morais, religiosos e legais – à conduta sexual. O sonho deles é a nossa realidade atual. Um pesadelo marcado pela animalização das relações humanas.

Revolução Sexual: teoria e prática

Herbert Marcuse, Wilhelm Reich, Norman O. Brown, Paul Goodman e outros intelectuais trabalharam incessantemente – nas esferas da educação e da cultura – para convencer o mundo ocidental de que a sexualidade sem entraves era o segredo da felicidade e que a repressão sexual, juntamente com a vida familiar, não eram nada além de patologias.

Eram sujeitos perdidos entre seus traumas de infância e teorias absurdas que não consideravam a natureza humana. Intelectuais tipicamente abstratos que acreditavam que se as relações sexuais pudessem ser libertadas das artificiais inibições sociais  algo belo surgiria.

“A literatura e o senso comum comprovam que, ao longo do tempo, as relações sexuais entre homem e mulher sempre foram cheias de dificuldades, exatamente porque o homem não é apenas um ser biológico, mas um ser social consciente que carrega consigo uma cultura. Os intelectuais do século XX, todavia, buscaram libertar todas as relações sexuais de qualquer significado, de modo que dali em diante somente o puro desejo sexual contaria na tomada de decisão”.

 (“Nossa cultura…ou o que sobrou dela”)

A Revolução Sexual veio para pôr abaixo todos os tabus, convenções sociais, freios morais e inibições sociais que antes cercavam e limitavam a conduta sexual. A ideia era promover a total liberdade sexual entre homens e mulheres.

Como enfatiza Dalrymple, essas ideias foram adotadas “literal e indiscriminadamente” pela mais baixa e mais vulnerável das classes sociais. Não podemos negar os resultados: abusos, pedofilia, prostituição infantil, gravidez precoce e, sim, estupros cada vez mais brutais.

A banalização do sexo é a banalização dos relacionamentos, dos afetos, dos sentimentos morais, e tudo isso redunda na banalização das pessoas.

O estupro coletivo foi um crime terrível e que merece punição exemplar. Mas vejo nele também uma espécie de celebração macabra da sexualidade bestial, desenfreada e desinibida que transforma indivíduos conscientes em animais em busca do coito – que é precisamente a sexualidade com a qual os intelectuais da Revolução Sexual tanto sonhavam.

Sofremos ainda o grande risco de ter essa o legado macabro da Revolução Sexual sendo ensinado para crianças, desde cedo, nas escolas de educação infantil.

Um legado que vem disfarçado de boas intenções, camuflado como educação sexual, mas que é puro eco dos delírios de Reich e Marcuse a tentar “libertar” as crianças para a sexualidade “feliz” e selvagem já praticada por seus pais e irmãos mais velhos.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

 

 

Eduardo Gaievski e o silêncio das feministas

Imagine o escândalo: um assessor especial da Casa Civil no governo Temer é preso e condenado por abuso sexual de menores. É claro que o movimento feminista faria um enorme alarde, acusando o presidente de “acolher um pedófilo” no Palácio do Planalto.

Isso, de fato, aconteceu. Ou seja, um assessor da Casa Civil – que trabalhava um andar acima do gabinete presidencial – foi preso e condenado pelo crime de abuso sexual. Aconteceu, mas no governo Dilma. É por isso que talvez você jamais tenha ouvido falar em Eduardo Gaievski.

Gaievski trabalhava a algumas salas de distância de Dilma. E era um dos nomes mais fortes do PT no Paraná. É por isso que certamente você nunca ouvirá esse nome sair da boca de uma feminista. Um evidente sinal de partidarismo e submissão política do movimento.

Vamos relembrar a história.

Eduardo Gaievski foi prefeito por dois mandatos, entre 2005 e 2012, da pequena cidade de Realeza, no Paraná. Em 2013, a convite da ministra Gleisi Hoffmann, assumiu o cargo de assessor especial da Casa Civil, encarregado de coordenar programas sociais importantes, incluindo os de combate ao crack e de construção de creches.

O detalhe é que Gaieviski era investigado pelo Ministério Público desde 2009, acusado de estupros de jovens e assédio sexual de meninas em troca de dinheiro ou cargos na Prefeitura, acusações que ganharam solidez com provas e depoimentos ricos em detalhes.

O petista teve a prisão preventiva decretada em 2014. Ele fugiu de Brasília e foi capturado em Foz do Iguaçu. A Justiça negou vários pedidos para soltura do ex-assessor especial de Dilma.

A Justiça condenou Eduardo Gaievski seis vezes por abuso sexual de menor! Embora tenha sido inocentado em um dos casos, ele tem um total de 101 anos de prisão para cumprir diante de todas as condenações de abuso sexual de menores.

O petista Eduardo Gaievski, ex-assessor especial da Casa Civil no governo Dilma

O petista Eduardo Gaievski, ex-assessor da Casa Civil no governo Dilma

As feministas não se comoveram com as meninas pobres

O que fez o movimento feminista diante de um ex-prefeito de cidadezinha acusado pela polícia  e Ministério Público – com testemunhos de várias mães e de menores – de abusar sexualmente de 23 meninas pobres, trocando sexo por favores e cargos?

Nada, absolutamente nada.

Os depoimentos das meninas de Realeza, que relataram em detalhes os estupros que teriam sofrido nas mãos do petista, não comoveram as feministas:

“Eu tinha 13 anos de idade e o prefeito foi me buscar no colégio para levar para o motel”, diz J. S., uma das vítimas, que hoje está com 17 anos. O prefeito, segundo os relatos, aliciava as garotas usando mulheres mais velhas para convencê-las a manter relações com ele.

“A gente era ameaçada para não contar nada a ninguém”, diz A.F., que tinha 14 anos quando foi levada ao motel Jet’aime pelo prefeito três vezes, recebendo entre R$ 150 e 200.

P.B., outra suposta vítima, contou que saiu com o prefeito três vezes em troca de um emprego na prefeitura. “Hoje tenho depressão e vivo a base de remédios”, conta a moça, que está com 22 anos. “Quando ele enjoou de mim, fui demitida.”

Silêncio sepulcral

Além disso, há denúncias do Ministério Público sobre o comportamento do então prefeito em relação às suas estagiárias. De acordo com as acusações, Gaieviski assediava as estagiárias e ameaçava demiti-las caso não fizessem sexo com ele.

Várias estagiárias da Prefeitura de Realeza teriam sido demitidas justamente por se negarem a transar com o então prefeito.  As que cederam, relataram à Polícia que Eduardo Gaievski era violento e ofensivo durante o sexo.

Eduardo Gaievski chegou à Casa Civil por influência de Gleisi Hoffmann

Eduardo Gaievski chegou à Casa Civil por influência de Gleisi Hoffmann

Alguma feminista convocou manifestações em solidariedade às estagiárias da pequena Realeza? Alguma blogueira incendiou as redes com os relatos das moças? Não, ninguém tocou no assunto. Desde 2013 o movimento feminista silencia sobre Eduado Gaieviski.

As feministas não se manifestaram nem mesmo quando, em outubro de 2013, André Willian Gaievski, de 19 anos, filho do petista, e o advogado Fernandes da Silva Borges foram detidos em Realeza, acusados de coagir as testemunhas do caso.

Não houve nenhum “incêndio” nas redes sociais, nenhuma campanha de mobilização, hashtag ou filtro de facebook para lembrar as moças e as meninas de Realeza.

Porém, grandes sites e jornais abriram espaço para família do petista espalhar teorias conspiratórias em que Gaieviski é vítima de tucanos malvados e carcereiros direitistas!

É impressionante o nível de partidarismo do movimento feminista. Ou, melhor, o grau de submissão política e ideológica das supostas defensoras das mulheres brasileiras.

Quem adere às campanhas da plataforma midiática dos movimentos de indignados de plantão está sendo usado como míssil teleguiado para atacar certos alvos e defender certas posições de agendas ideológicas que desconhece. Nada mais do que isso.

As feministas querem patrulhar as piadas, os comerciais, os filmes, os humoristas e até os churrascos em família, mas silenciaram nos últimos anos diante do caso Eduardo Gaievski e da sua presença na Casa Civil durante o Governo Dilma.

Que vergonha!

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

O PT tem que acabar

Devo confessar um grave pecado. Já votei em Lula. Em 2002. Suspendi temporariamente meus princípios anarquistas para “colocar um operário no poder”. Para deixar a esquerda chegar lá (imaginava que o socialista fabiano FHC fosse um ultradireitista).

Eu era muito jovem. Tinha mais hormônios do que neurônios. E uma necessidade insaciável de me enxergar e ser visto como moralmente superior. Ou seja, um esquerdista em estado puro.

Mas acreditei sinceramente que Lula fosse capaz de iniciar uma nova fase da política nacional, que fosse marcada pela transparência, pelo respeito com o dinheiro público e, principalmente, pelo exemplo de alguém que jamais trataria a corrupção como algo normal “do jogo”.

Desnecessário dizer que Lula “traiu” o meu voto e de milhões de brasileiros. Na verdade, o operário que pouco trabalhou cumpriu o roteiro de todo esquerdista que já chegou ao poder, mas do alto do meu puritanismo e ignorância política não pude enxergar nada disso.

Lula é, sempre foi e será um demagogo oportunista que fez da origem social uma narrativa moralista contra os ricos apenas para chegar ao poder e, uma vez lá, tornar-se um deles.

A narrativa moralista do operário que veio de baixo, lutou contra as elites e foi levado à presidência nos braços do povo, conferiu a Lula uma espécie de salvo conduto pessoal, uma imunidade moral que ele imaginou que se transmutaria em imunidade legal.

Felizmente, algumas das nossas instituições ainda funcionam. E Lula está sendo tratado como um cidadão comum – para desespero dos petistas que acreditam que ele é intocável.

A tentativa política de blindar Lula é o que mais me enjoa. Os que antes lamentavam que “rico não vai para cadeia no Brasil”, agora reagem com histeria diante da prisão de empreiteiros e da eminente prisão de um ex-presidente milionário sobre o qual pesam acusações gravíssimas.

Se fosse a situação inversa, se no lugar de Lula tivéssemos outro político qualquer acusado de lesar a Pátria nessa magnitude, nessa proporção, os petistas já estariam clamando por sua execução por corte marcial.

Exagero. Mas não tanto. Lembro da oposição implacável que o PT praticou contra tudo e contra todos.

Lula e Delcídio Amaral (foto: financista.com.br)

Lula e Delcídio Amaral: delatado e delator. (foto: financista.com.br)

Basta consultar um livro de História para tomar ciência de que Lula e seu partido messiânico se posicionaram radicalmente contra praticamente todos os governos e, principalmente, contra todas as boas ideais que surgiram no Brasil nos últimos 30 anos.

O PT sempre foi uma combinação diabólica de messianismo político, visão jurássica sobre economia e sacralização da pobreza. Para os petistas, o Brasil não precisa de reformas, de instituições sólidas, de independência entre os poderes ou princípios republicanos na condução da coisa pública.

Para os petistas, o Brasil precisa de um messias, de um salvador incontestável, de uma versão tropical de Robespierre, de um “Pai dos Pobres”, “um Grande Timoneiro”, um “Comandante”, enfim, alguém que esteja acima das instituições, da ordem e das leis.

O PT só chegou ao poder porque tem o mesmo apelo de uma seita, de uma religião que oferece certezas, um pacote de dogmas, um motivo para se viver e inimigos a se combater.

Os petistas enxergam o mundo na perspectiva tribal do “nós contra eles”: O PT foi contra o Plano Real. O PT foi contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. O PT pediu o “Fora FHC!”.

O PT foi contra todos os governos anteriores ao governo Lula e agiu de maneira absolutamente implacável contra tudo e todos que estivessem fora da sua influência. Não devemos qualquer compaixão com os petistas.

Lula se apresentou nos últimos 30 anos, em cada oportunidade que lhe surgiu, como uma alma pura lutando contra a corrupção do mundo. Um operário virtuoso querendo salvar o Brasil das hostes do coronelismo.

Votei em Lula em 2002. Milhões de brasileiros votaram. Foi a maior votação da nossa História, quase uma aclamação. Lembro do clima patriótico, das promessas messiânicas.

E eis que agora o Brasil, finalmente, descobre que o nosso Robespierre, o Incorruptível, é e sempre foi mais um populista, mais um medíocre agitador das massas e encantador de pobres.

O mito Lula acabou. E a fraude política chamada Lula veio à tona não só para o Brasil, mas para todo o mundo com a imprensa internacional repercutindo as acusações que pesam contra um típico milionário que não hesita em incitar a desordem diante da possibilidade de ir pra cadeia.

Lula se mostrou diante de todos os brasileiros como ele realmente é: um narcisista histérico com síndrome de messias. Um moleque birrento que não admite suspensão na escola.

E o PT? Algum gesto de dignidade? Algum rastro de autocrítica? Nada disso.

A pauta do PT é a relativização da corrupção em nome das supostas benfeitoras que Lula fez aos pobres.

Ninguém explica nada sobre nada. Nenhuma acusação é respondida à altura. Os petistas apenas citam números do Prouni e do Bolsa Família, como se os benefícios sociais dados aos pobres justificassem qualquer coisa.

É o malufismo de esquerda. Uma coisa escabrosa.

Mais do que isso, o PT é um partido que apela para a força das massas contra a supremacia da lei, da ordem e das instituições. Os petistas são os jacobinos dos Trópicos. Cangaceiros com uma ideologia no bolso.

O petismo é um estado de espírito. Uma forma de estar no mundo, de exibir-se como moralmente superior, mesmo quando se esconde dinheiro na cueca.

Imperativo moral

É difícil para nós, reles mortais, acompanhar o manancial inesgotável de escândalos da Era Petista. Parece que estamos debaixo de uma goteira suja que nunca cessa de pingar.

A cada semana descobre-se uma nova ramificação dalgum escândalo que ainda está sendo dissecado, e cujo odor surge grosseiramente nas páginas dos jornais, estragando o café da manhã dos pais de família que enfrentam dificuldades para manter suas famílias.

O PT sempre fez apologia da pobreza e sacralizou os pobres, mas os escândalos petistas são os que mais ostentam cifras obscenas, acompanhadas do grotesco desfile de sobrenomes de figurões do partido que vivem às custas do discurso-social-encantador-de-pobres.

É importante notar que em todos esses escândalos os petistas aparecem associados a empreiteiros milionários, grandes empresários e, recentemente, nomes do judiciário.

O partido lançou algumas migalhas aos pobres, mas sentou-se a mesa com os ricaços de uma elite apodrecida, imoral, dependente do Estado, corrupta e corruptora.

Os petistas se aliaram aos parasitas que, em um passado distante, diziam combater: os empresários dependentes do Estado, os banqueiros, os marqueteiros sem ética.

E tais “parcerias“ não se justificam pelas belas intenções que os petistas exibem toda vez que alguém lhes exige algum sinal de honestidade no trato com o dinheiro público.

De acordo com as investigações em curso, os dirigentes do partido aproveitaram do poder para conseguir “favores” que se estenderam às suas famílias, amigos e protegidos.

O que as investigações do MPF e da PF indicam é a existência de uma ardilosa quadrilha no topo da hierarquia petista que – comandada por um réptil rastejante? – parasita os cofres públicos, criando ninhos e distribuindo ovos podres em todas as frestas do Estado.

O PT é uma praga que se espalhou pelo aparelho estatal, que está corroendo os pilares da nossa frágil e jovem democracia e envenenando o debate político com histeria e messianismo.

O governo Dilma é ilegítimo, imoral e ilegal. Ele deveria acabar hoje. Mas não é apenas o atual governo que deve chegar ao fim. O PT e, principalmente, o petismo devem ser combatidos com a mesma tenacidade com a qual se combate uma epidemia, uma praga.

Enxotar os petistas do poder deixou de ser uma questão de “direita versus esquerda”. É simplesmente um imperativo moral. É algo que devemos fazer com a mesma urgência de quem chama a Polícia para o ladrão ou o dedetizador para os ratos.

PS.: Antes que alguém me pergunte por que não fiz aqui uma apologia da abolição do PSDB, respondo que não se pode pedir o fim daquilo que já não mais existe.

Duvivier e os frangos voadores

Um familiar – só se é traído pelos seus – me enviou o último artigo de Gregório Duvivier, que tem uma coluna de humor involuntário na Folha de São Paulo. O indecente puritanismo de Duvivier me obrigou a escrever uma resposta pormenorizada.

No texto o humorista “revela” ao mundo que é um defensor dos negros, das mulheres, dos aborígenes, dos animais, dos maconheiros e dos mamilos femininos – ora, quem diria? – logo, quem ousar questionar seus absurdos só pode ser um fascista malvado que odeia negros, mulheres, animais, aborígenes e – blasfêmia das blasfêmias – mamilos!

Confesso que gostaria de começar o ano tratado de temas mais relevantes para o Ocidente em geral. Porém, a autopromoção como forma de engajamento político é algo que para mim está na mesma categoria do terrorismo islâmico. Não posso deixar passar!

O artigo de Greg, que leva o prometéico título “Um dia”, é a quintessência do pensamento de esquerda que, antes de tudo, é menos um pensamento e mais um sentimento: a vontade arrebatadora de reorganizar o mundo do zero, refundar a própria humanidade, como se a sociedade fosse desmontável igual aos blocos de montar da Lego.

Esse tipo de exibição moral em praça pública da qual Duvivier é adepto tem sido reproduzida de forma acrítica e massiva nos jornais e nas redes sociais, sem qualquer contraponto, como se este marketing dos bons sentimentos fosse sinônimo de “consciência crítica”.

O artigo solene de Duvivier nos lembra que – escondida por toneladas de teorias e abstrações – a cosmovisão progressista é nada mais do que um resquício de teimosia infantil não-tratada, que aflora em adultos que querem um mundo que se pareça com seu quarto.

Puritanismo 2.0

Duvivier é alguém que o filósofo David Hume definiria como puritano: um narcisista que se assume como moralmente superior, tem uma visão binária da vida e enxerga na História a luta do bem contra o mal, fazendo questão de se posicionar publicamente, e com toda pompa, vários degraus acima dos reles mortais insensatos que defendem o Mal.

Selecionei alguns trechos para ilustrar o puritanismo de Greg e refutá-lo.

“Tudo muda o tempo todo. Antigamente era aceitável ter escravos. Hoje em dia o escravagismo é bastante malvisto socialmente –a não ser, é claro, que o dono dos escravos seja uma empresa, e os escravos sejam asiáticos.”

Uma correção: a escravidão é malvista no nosso quarteirão ocidental do mundo. No resto do planeta ela vai muito bem, obrigado! É só aqui, nesta partezinha do Globo, que nos livramos de uma prática mundialmente aceita e praticada por séculos. Quer dizer, nem todos nós.

O problema em enxergar o mundo a partir de um par de óculos ideológico é que você só percebe o que se encaixa na sua visão. E regimes políticos autoritários que tratam homens e mulheres como propriedades de Estado? Duvivier nada tem contra o fato de que homens e mulheres são escravizados por governos (cubano, venezuelano, norte-coreano)?

Não incomoda Duvivier que cubanos sejam impedidos de deixar a fantástica ilha dos irmãos Castro? Que existam dissidentes políticos nas prisões da Venezuela? Parece que não.

Só causa repulsa em Greg aquilo que não se encaixa na sua visão ideológica da vida. Nem todo tipo de escravidão lhe parece ruim; aquela praticada por regimes progressistas, por exemplo, passa absolutamente incólume aos lamentos de Duvivier.

“Tudo muda o tempo todo”

Sinto lhe informar, Greg, mas nem tudo muda.

A natureza humana, por exemplo, permanece a mesma. Somos seres atravessados por compulsões, desejos irracionais e vontades atávicas. E se conseguimos alcançar certo grau de civilização isso se deu por meio de mudanças graduais, pontuais, conduzidas por reformadores; jamais por revolucionários puritanos.

Greg, o puritano: "Um dia os pombos voarão já assados"

Greg, o puritano: “Um dia os pombos voarão já assados”

Ainda assim, a civilização nos causa mal estar. Somos animais e só chegamos até aqui porque fomos guiados por tradições, hábitos e convenções. Os quebradores de tabus ainda não entenderam aquilo de que falava Edmund Burke: os revolucionários destroem muito mais do que são capazes de construir. Greg não pode recriar o mundo que pretende graciosamente destruir para expressar seu senso de moralidade superior.

“Há menos de cem anos, visitantes pagavam para ver aborígenes em zoológicos humanos. Tudo já foi normal até que algum dia ficou bizarro. O que nos leva a perguntar: o que vai ser bizarro daqui a cem anos?”

É uma boa pergunta. Antes de aprofundar a resposta nos trechos seguintes, ouso responder que no futuro acharão bizarra nossa esquizofrenia moral que nos impele a protestar contra a morte de golfinhos e a tratar fetos humanos como parasitas que não merecem viver.

“Um dia vai ser muito estranho mamilos masculinos serem banais e mamilos femininos serem escandalosos. Um dia vai ser muito estranho o Congresso brasileiro ter só 9% de mulheres. Um dia vai ser muito estranho ser proibido à mulher interromper sua gestação como se o seu corpo pertencesse ao Estado.”

Mamilos à mostra nas ruas ou pênis exibidos na hora do jantar em família, et caterva, são bandeiras políticas que surgem de cabeças abstratas da academia. Um dia algum gênio da academia vai propor que é hora de ressignificar simbolicamente o ânus e que devemos todos exibir os nossos por aí. Sem preconceito com a bunda caída do vovô ou da titia, certo?

As mulheres não se importam com isso. Os homens não se importam com isso. Quem se importa com isso é Duvivier, seus leitores, e os alunos e professores da USP.

“Um dia vai ser muito estranho o Congresso brasileiro ter só 9% de mulheres.”

A representação das mulheres depende das próprias mulheres. O sufrágio universal foi conquistado no século passado. Basta que as mulheres votem nas mulheres.

“Um dia vai ser muito estranho igrejas não pagarem imposto. Um dia vai ser muito estranho um pastor se eleger deputado e citar a Bíblia no Congresso. Um dia vai ser muito estranho ver a figura de Cristo acima do juiz num tribunal laico”.

Acho que um dia vai ser estranho perceber que as pessoas se submetiam pacificamente a tantos impostos! Vai soar mais estranho ainda a ideia de que as pessoas de esquerda que – supostamente – defendem os mais pobres eram justamente aquelas que mais defendiam uma carga tributária irracional que comia boa parte do salário…dos mais pobres!

Duvivier tem muitos problemas com evangélicos, pastores, padres, enfim, esse tipo de religioso que não explode humoristas. E sempre abusa dos clichês para criticá-lo.

Os nossos puritanos 2.0 nunca leram John Stuart Mill e confundem laicidade com anulação cultural da crença herdada. O Estado laico foi fundado para garantir a liberdade de crença de todos e, devo informar, apenas aqui, neste quarteirão ocidental do mundo, isso é possível.

Nas teocracias é impossível. Duvivier talvez não saiba, mas Sartre, De Beauvoir e Foucault celebraram a revolução iraniana que hoje impõe a burka às mulheres do Irã. Puritanos que flertaram o fundamentalismo antiamericano dos aiatolás e terroristas.

Sartre, De Beauvoir e Foucault eram puritanos como Duvivier, o humorista que odeia religiosos que não explodem humoristas.

Puritanos odeiam o Ocidente, mas gozam com aiatolás

Os crucifixos pairando sobre a cabeça de juízes cujas premissas legais descendem da herança cristã são apenas um lembrete de quem nós somos. Nenhum crucifixo vai explodir.

“Um dia vai ser muito estranho negros ganharem pouco mais da metade do que ganham brancos –sim, esse dado é de 2016.”

Duvivier é um artista da autopromoção! Veja como ele consegue se posicionar a favor de todas as minorias catalogadas nos últimos 200 anos e, desta forma, empurrar seus críticos para a categoria de inimigos das mesmas minorias. Hora de desarmar esta arapuca retórica.

Basta desmistificar a questão mostrando que as diferenças “raciais” são, na verdade, diferenças culturais e educacionais que, em grande parte, são resultados históricos de políticas estúpidas defendidas por puritanos 2.0 como Duvivier (p.e., cotas raciais).

Quem o diz é o economista (negro) Thomas Sowell, que pesquisou o tema por 20 anos e chegou a conclusão: as diferenças salariais e econômicas entre brancos e negros remontam a perversa imposição de um salário mínimo e ao um abismo cultural aprofundado por políticas afirmativas sancionadas por puritanos 2.0.

“Um dia vai ser muito estranho pessoas que tratam animais como se fossem filhos comerem animais que passaram a vida enclausurados em campos de concentração porque afinal de contas alguns animais são dignos de afeto e outros não.”

A causa animal é um dos fetiches das pessoas que sentem essa necessidade de mostrar ao mundo que são moralmente superiores. Duvivier não poderia resistir ao clichê!

Eu mesmo fui vegetariano porque era ótimo me sentir superior até quando me sentava para almoçar em família. A verdade é que os animais não têm direitos. Nós temos deveres para com eles. Porque somos superiores a eles. Isso não significa que vamos deixar de comê-los.

As nossas necessidades básicas, programadas pela evolução, não vão desaparecer só porque Greg está chateado. Nós devemos tratar bem os animais. Mas nunca deixaremos de nos alimentar deles. É feio? Veja a natureza, em geral, como é feia.

“Um dia vai ser muito estranho uma pessoa ir presa porque planta uma erva que nunca na história matou ninguém –enquanto o supermercado vende drogas comprovadamente letais. […]Um dia vai ser muito estranho o salário ser mais taxado que a herança e a renda ser menos taxada que o trabalho”

Os puritanos sofrem de esquizofrenia. Duvivier acha que o Estado tem o direito de aumentar impostos para impedir as pessoas de comprarem carro. E que o Estado pode punir as pessoas que nasceram com uma herança.

Mas acha que o mesmo Estado não tem direito de impedi-las de usar drogas.

Quer dizer, o Estado pode proibir as drogas de que Duvivier não gosta, aquelas que são vendidas no mercado. A maconha, não! Quem compra maconha não pode comprar cigarro? Pois é, Duvivier precisa se decidir: é um libertário radical ou um fascista?

“Um dia vai ser muito estranho os bancos falirem e os banqueiros continuarem bilionários.”

Não é nada estranho. Duvivier não notou que os banqueiros alcançaram recordes históricos de lucros justamente nos governos Lula e Dilma? É a cegueira ideológica.

“Um dia vai ser muito estranho um jornal restringir o conteúdo para assinantes”

Para que isso mude, basta que Greg e seus amigos comecem a trabalhar de graça.

Os frangos voadores

Duvivier e demais justiceiros sociais têm uma necessidade atávica de mostrar ao mundo o quanto são moralmente superiores. Eles literalmente acreditam que representam o Bem na luta contra o Mal. Gente assim é muito perigosa.

Por trás da retórica libertária, são todos controladores que querem usar o Estado para refazer a sociedade do zero conforme seus próprios preceitos. Uma sociedade que seja reflexo da esquizofrenia na qual vivem, em seus surtos de puritanismo medieval.

Querem que o Estado proíba os cigarros e libere a maconha; legalize o aborto, mas preserve os filhotes de tartaruga marinha; diga quanto devemos ganhar em termos salariais, mas pegue a maior parte do salário para nos devolver em péssimos serviços públicos.

Pior do que isso, Greg acredita que podemos refundar a sociedade do zero. Não podemos. A sociedade é um organismo vivo que depende de mutações graduais, mas rejeita mudanças que causem rupturas no seu tecido. Um organismo vivo sobrevive com mudanças pontuais.

Mudanças bruscas – e impostas pela brutalidade – sempre tendem a gerar o resultado oposto daquele pretendido originalmente pelos revolucionários e puritanos de plantão.

Veja o caso da Revolução Francesa. Os puritanos de ocasião, chamados de jacobinos, queriam a liberdade, igualdade e fraternidade por meio de mudanças rápidas e violentas e pela limpeza da sociedade pelo método de enviar os aristocratas à guilhotina. No fim os jacobinos guilhotinaram uns aos outros e abriram caminho para a mão de ferro de Napoleão.

Posso citar a revolução de Pol Pot no Camboja. E a revolução cultural de Mao Tse Tung na China. E a necrocracia (brilhante termo cunhado por Christopher Hitchens) da família Kim Jong na Coréia do Norte. Todos progressistas, compartilhando das boas intenções de Greg.

Duvivier acredita que a História é a arena onde pessoas do bem enfrentam as pessoas do mal. Coerente com sua visão infantil de mundo, ele ignora um detalhe: a natureza humana.

A psicologia evolucionista tem pontificado tudo o que os clássicos, os gregos, os cristãos medievais, já diziam: os homens são todos limitados em virtudes e conhecimento, todos dominados por paixões atávicas. O mal não está circunscrito ao empresário, ao burguês, às pessoas de certa classe social; somos todos hospedeiros dele.

Somos apaixonados pelo poder, por sexo, dinheiro e violência. Evoluímos tecnologicamente, mas nunca moralmente desde o primeiro homem. A História não é uma luta de pessoas do bem contra pessoas do mal. A História é apenas a documentação da nossa incapacidade estrutural, enquanto espécie, de dominar nossas próprias paixões.

Na infantilíssima visão de mundo de Gregório Duvivier, a História é uma briga de torcida entre progressistas da Vila Madalena que fumam maconha, são libertários, e gostariam de trabalhar de graça contra brutos que odeiam mulheres, negros, aborígenes, mamilos e ainda fazem churrasco com cadáveres de bois que mantinham em campos de concentração.

Contra esta cafonice ideológica, invoco o velho Arthur Schopenhauer, o pensador que antecipou Freud em 100 anos, um especialista em natureza humana e, acima de tudo, um trágico que sabia que não podemos criar um mundo perfeito. E que, se pudéssemos, morreríamos todos de tédio. Profetizou Schopenhauer:

“Imaginemos, por um instante, que a humanidade fosse transportada a um país utópico, onde os pombos voem já assados, onde todo o alimento cresça do solo espontaneamente, onde cada homem encontre sua amada ideal e a conquiste sem qualquer dificuldade. Ora, nesse país, muitos homens morreriam de tédio ou se enforcariam nos galhos das árvores, enquanto outros se dedicariam a lutar entre si, a se estrangular, a se assassinar uns aos outros”

É este mundo de frangos voadores que Duvivier defendeu com toda solenidade em sua coluna na Folha. Não quero destruir a reputação de crítico social de Gregório Duvivier. Quero, antes, reforçar sua capacidade de nos fazer rir, mesmo quando fala sério.    

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