Thiago Cortês

@SouDescortes

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Marmanjo no banheiro da sua filha? Agradeça ao Alckmin!

Se sua filha é aluna da rede de ensino público no Estado de São Paulo, ela estará sujeita a dividir, a partir de agora, o banheiro da escola com colegas do sexo masculino. Sim, qualquer um deles poderá levar o pênis para passear no banheiro que sua filha frequenta.

É este o resultado prático da pérfida e abusiva lei estadual nº 10.948, assinada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) em 24 de maio passado.

Por meio dela, Alckmin “regulamentou o uso do banheiro nas escolas públicas do Estado de acordo com a identidade de gênero em que cada aluno se reconhece”.

Em bom português, o aluno que se identificar como mulher ou com alguma das dezenas de variações que o elástico e indefinível rótulo de transgênero oferece, poderá ir ao banheiro feminino para quebrar tabus enquanto urina ou defeca.

Um atentado contra a segurança e a privacidade das crianças e adolescentes, sancionado por Geraldo Alckmin – esta massa humana de covardia, tibieza de espírito e falta de coragem moral a quem entregamos São Paulo por absoluta falta de opção.

Para tentar justificar esta situação kafkiana inaugurada nas escolas paulistas, o governo Alckmin enviou um release mentiroso e vergonhoso à imprensa, afirmando, em tom triunfal, que o banheiro unissex é um “direito garantido aos alunos paulistas”.

O texto cita que “já chega a 365 o número de estudantes que usam o nome social” em São Paulo, como se isso justificasse alguma coisa. Mas é exatamente o contrário!

Ora, basta ponderar que são quatro milhões de crianças e adolescentes matriculados na rede estadual de ensino de São Paulo. Portanto, a lei de Alckmin submete milhões de estudantes aos caprichos de pouco mais de 300 indivíduos…

A gulosa militância LGBT

A medida levará ao constrangimento centenas de milhares de alunos e alunas que não pediram para dividir seus banheiros com colegas do sexo oposto.

Alckmin apresentou sua lei na semana que se comemora a Semana Internacional de Luta Contra a Homofobia. Um claro agrado à gulosa militância LGBT, que só estará satisfeita quando os héteros forem privados do direito a clubes e banheiros exclusivos.

O que combate a homofobia – bem entendida como atos de violência contra homossexuais, e não o desconforto natural e não-violento que muitos têm diante deles – são punições exemplares e não uma lei estúpida que transforma banheiros, que costumamos usar para defecar e urinar, em espaços para afirmação de novas identidades sexuais.

Geraldo Alckmin é incapaz de oferecer segurança aos estudantes e professores que são obrigados a frequentar suas escolas estaduais caindo aos pedaços, mas instalou nelas banheiros unissex para satisfazer meia dúzia de militantes que votam no PSOL.

Alckmin personifica o vácuo de ideias próprias e o medo das patrulhas que corrompeu praticamente toda a classe política. Graças ele, agora todo tipo de sujeito depravado terá franco acesso ao banheiro feminino nas escolas.

Vagões exclusivos para mulheres e banheiros para todos?

Em 2015 o então governo Dilma já havia instituído uma norma federal para banheiros de escolas e universidades, mas sem nenhuma regulamentação específica. Os estados, então, passaram a agir por contra própria em competição pela simpatia das militâncias.

É interessante notar o grau de esquizofrenia dos militantes que exigem vagões específicos para mulheres nos trens, promovendo uma segregação politicamente correta, ao passo que lutam por uma orgia de pênis e vaginas nos banheiros das escolas.

Apenas uma classe política radicalmente apartada da sociedade, ludibriada por fantasias politicamente corretas forjadas por militantes e jornalistas,  respirando em um ambiente de corrupção moral, pode se entregar a tamanhas contradições e falácias.

Geraldo Alckmin, a personificação do exposto acima, é o governador mais frouxo que São Paulo já teve e o seu lugar certamente não é na presidência, mas na lixeira da História.

 

São Paulo é um estado de espírito

Hoje em dia está na moda falar mal de São Paulo. É aquele típico preconceito politicamente correto que é permitido e estimulado pela nossa inteligência oficial.

Falar mal de São Paulo faz parte do repertório de “criticas sociais” dos que se dizem críticos e infestam as redes sociais com seu ódio do bem.

Fala-se mal de São Paulo porque desgostam do atual prefeito. Ou porque não gostavam do anterior. Porque acham os paulistanos uns arrogantes, por causa do odor do Rio Tietê ou porque aqui aconteceram coisas como Maluf, ou coisas ainda piores como Lula.

Ou porque – heresia das heresias – acham que “não tem nada de especial com São Paulo”. É apenas “mais uma cidade”, dentre várias outras.

Mas São Paulo é, sim, especial. E todos sabem ou suspeitam disso.

O que há de especial em São Paulo são as pessoas que aqui vivem, ou melhor, que para cá vieram, como meus avós nordestinos, para “fazer a vida”. Sou neto de um baiano, de uma pernambucana, e de um mineiro. Gente simples que entendeu e amou São Paulo.

Do chão comum do nosso centro velho, em meio ao nosso labor diário, nas nossas ruas sujas, tortuosas e feias, emergem diariamente verdadeiros vultos morais anônimos, gente exemplarmente virtuosa, pessoas esforçadas, indivíduos fortes, corajosos, cheios de teimosa, que se dedicam a construir ou reconstruir suas vidas por meio do trabalho árduo.

São Paulo é a melhor cidade do Brasil. Porque esta cidade acolhe, de braços abertos, todos os brasileiros que buscam uma vida mais digna para si e para suas famílias.

A Avenida Paulista vista do alto. Uma cidade feita de trabalho.

Sou um privilegiado. Posso testemunhar, diariamente, nos nossos ônibus e trens lotados, nas nossas esquinas cinzentas, nas nossas ruas apertadas, o milagre da morte e ressurreição dessa gente que se esgota, se entrega e, no minuto seguinte, recobra a força e a coragem necessárias para domar o Mundo a partir dos seus pequenos-mundos de fé, amizade e amor.

E, no processo de (re) construção de suas próprias vidas, sem recorrer ao paternalismo diabólico e rebaixante que rejeitamos em todos os capítulos da nossa Historia, essa gente toda ajuda a construir essa cidade.

Mas São Paulo não é apenas uma cidade; é um destino.

O destino daqueles que escolheram lutar com todas as forças, apostar tudo para viver a vida à sua maneira, sem pedir, nem esperar, tampouco depender de ninguém, dentro da tradição daqueles que aqui estiveram antes de nós.

Para ser paulistano ou paulista, não é necessário ter nascido aqui.

É preciso apenas assumir essa postura, essa gana, essa coragem aristocrática de enfrentar o destino à sua própria maneira, algo que aterroriza os covardes, os medíocres e preguiçosos.

São Paulo é a terra dos bandeirantes, dos jesuítas, dos constitucionalistas de 1932, dos imigrantes que aqui se irmanaram pelo trabalho, de todos aqueles que para cá vieram para tentar tomar seus destinos nas mãos.

São Paulo é uma cidade excepcional, no sentido literal do termo, porque, no fim das contas, não é (apenas) uma cidade; São Paulo é um estado de espírito.

PS.: Isso é São Paulo

Sem cristianismo, não há civilização!

Em um saudoso encontro com ex-colegas do curso de sociologia – os poucos que restaram – a temática da fé e da religião tomou conta da conversa. Deus e sua melhor criação, a mulher, sempre habitam as conversas das quais, muito tempo depois, ainda teremos lembranças.

E lembro-me de meu amigo Rodolfo, de formação trotskista, declarar de forma altissonante, como se fosse uma constatação um tanto óbvia, que quem despreza a tradição cristã sofre de uma pobreza intelectual, espiritual (no sentido profundo do termo), cultural e literária.

Ele tem toda razão. Não posso deixar de notar, contudo, sua coragem em fazer tal afirmação em uma época na qual a moda nos círculos intelectuais é o desdém calculado contra o cristianismo, a tradição sob a qual erigimos nada menos do que a nossa civilização!

Hoje não existe preconceito moderno mais arraigado no meio intelectual do que aquele que deprecia o cristianismo como uma força repressora e o Ocidente como um projeto de sociedade que falhou, por supostamente esmagar a liberdade individual.

Uma absoluta mentira – do ponto de vista histórico, sociológico e religioso.

Vamos aos fatos: não existe outro caso tão afortunado na História da humanidade de uma sociedade na qual indivíduos portadores de diferentes crenças e praticantes de distintos modos de vida puderam se reunir para conviver sem abrir mão de suas identidades.

Isso já foi dito, com vocabulários conceituais diferentes, por filósofos e sociólogos como Karl Popper, Max Weber, Norbert Elias, entre outros.

A civilização ocidental é singular em sua capacidade de agregar e acomodar indivíduos, apesar das suas “cosmovisões em conflito”, para usar uma expressão do teólogo protestante Ronald Nash, que sintetiza o fato de que o Ocidente é um modo de vida que abriga diversos modos de vida, a partir de uma base comum que é a herança cristã.

Sim, lamento informar aos ateus militantes de plantão: as instituições modernas ocidentais em sua combinação sofisticada de liberdade e responsabilidade individual, em sua visão madura de que as escolhas individuais devem ser respeitadas, mesmo que delas discordemos, é um reflexo de uma criação genuinamente cristã, que é a própria ideia de indivíduo.

Em outras palavras, quero lembrar que o cristianismo marca o nascimento do indivíduo e da tradição de liberdade do Ocidente. Foi o cristianismo que reconheceu a soberania do indivíduo, a sacralidade da sua consciência e seu inviolável livre-arbítrio.

Nenhuma outra tradição religiosa havia reconhecido o status existencial dilemático do homem, ou seja, o fato de que existir, para nós, seres dotados de consciência, significa enfrentar dilemas de toda sorte e fazer escolhas na solidão de nossas consciências.

A descoberta desse paradigma existencial gerou uma mudança cultural profunda, que foi reconhecida e consolidada como um novo modo de organização civil na forma de instituições como o habeas corpus, os direitos civis e as liberdades de expressão e de crença.

Ao ateu militante, sugiro a leitura deste artigo de João Pereira Coutinho que aborda um estudo acadêmico (e agora livro) interessantíssimo, “Inventing the Individual: The Origins of Western Liberalism” (inventando o indivíduo: as origens do liberalismo ocidental), de autoria do erudito historiador e filósofo político (e ex-aluno de Isaiah Berlin) Larry Siedentop.

Siedentop, como sintetiza Coutinho, demonstra em sua pesquisa histórica um fato desagradável aos detratores do cristianismo: a origem do nosso “mobiliário” institucional moderno, dos nossos direitos civis e liberdades individuais está na tradição cristã.

O liberalismo herdou do cristianismo “uma particular concepção de indivíduo: um ser dotado de certos direitos inalienáveis, a começar pelo direito de acreditar no credo que entende”.

As noções cristãs de livre-arbítrio e de responsabilidade pessoal deram substância às instituições e dispositivos que construímos ao longo da História para organizar a vida civil.

Para além da vida civil, livre-arbítrio e responsabilidade pessoal se projetaram como questões centrais da política moderna. Tais noções foram reinterpretadas, em suas versões modernas, como direitos e deveres, mas sua origem é inegavelmente cristã.

No cristianismo, desobedecer a Deus é sempre uma escolha possível. E bastante utilizada pelos personagens bíblicos. Mas existem conseqüências. E todos arcam com elas. Essa ideia fundamental informou a consciência ocidental em sua busca de ordem e liberdade.

A ideia de que cabe ao indivíduo fazer suas escolhas e arcar com elas é uma legítima herança cristã. O Deus dos cristãos jamais impôs suas leis morais ou transgrediu a esfera privada de decisão dos homens, mesmo quando suas decisões os levaram às ruínas.

O cristianismo pautou o Ocidente com suas noções fundamentais de livre-arbítrio e de responsabilidade pessoal. O indivíduo é livre para fazer todas as suas escolhas e, na mesma medida, é responsável pelas consequências de cada uma delas.

Legado em perigo

Hoje este legado está em perigo por conta do fenômeno descrito por José Ortega y Gasset, em “A Rebelião das Massas”, que é a ascensão violenta do homem-massa, colonizado pelos novos paradigmas mentais do coletivismo social.

E mais: as ideologias políticas, por seu turno, querem destruir este legado para apagar o indivíduo da História, substituindo-o pela classe, raça, congregações por gêneros sexuais ou qualquer outra abstração tribal.

No lugar do indivíduo, querem o homem-massa, selvagem, disforme, reduzido ao salário que recebe ou à sua origem social, o que o torna indissociável de uma classe, turba ou categoria.

As ideologias interditam a consciência moral à qual o cristianismo faz constantes referências e reinterpretam os dilemas morais individuais (que permeiam as parábolas bíblicas) como meras “questões políticas”, “econômicas” ou imperativos de classe.

O cristianismo colocou o indivíduo no trono, mas fez sua cabeça pender com toda a sorte de dilemas morais, existenciais e religiosos. Somos reis intranquilos, submetidos ao que Cristo apontou como nosso bem maior, mas fonte de nossas tragédias: o livre-arbítrio.

As ideologias modernas, por sua vez, prometem paz e tranquilidade desde que nos livremos desta coisa ultrapassada que é consciência individual, substituindo-a pela consciência tribal.

Nós nunca mais sentiremos culpa, pois a culpa é um estado da consciência individual. Todos os nossos atos poderão ser explicados e justificados por causas externas, pela nossa origem social, nosso status econômico, etc.

Nesta troca diabólica, jogaremos fora não apenas nossa vida interior, nossa capacidade de agir moralmente, como também a rica experiência de liberdade e soberania individual que funda o Ocidente para embarcamos no trem das doutrinas coletivistas, do tribalismo, do igualitarismo que nos transforma em uma pasta humana indiferenciada.

Querem que sejamos todos servos para que não existam mais reis.

Defesa da Civilização 

Voltemos ao encontro dos amigos sociólogos. O nosso ritual anual de choque de perspectivas políticas e filosóficas, precedido de um torneio bem humorado de insultos. Mas, daquela vez, estávamos falando a mesma língua.

Quatro sociólogos falando sobre religião, uma constatação geral: a falta de sensibilidade religiosa é uma praga da modernidade, que deixa as pessoas intelectualmente mais pobres e iludidas com a sua orgulhosa ignorância.

Eis o meu adendo: o cristianismo não apenas é intelectualmente mais rico e profundo do que qualquer ideologia: ele é, também, moralmente superior.

A cosmovisão cristã é de uma riqueza comovente – e de uma complexidade que escapa ao olhar apressado dos seus críticos arrogantes –, pois abrange várias áreas do pensamento humano: teologia, antropologia, epistemologia e a ética.

Poderia elencar outras, mas acredito que este é o núcleo duro da fé cristã: uma visão sobre o homem (antropologia) em sua busca por Deus (teologia), seu fracasso em encontrá-Lo por meios próprios e sua chance de se redimir pela graça (ética).

O cristianismo também nos fala uma verdade poderosa: somos todos estruturalmente falhos e pecadores. Mas Cristo nos ama e veio nos salvar mesmo assim. E é por isso que devemos suportar uns aos outros, conviver e compartilhar, apesar dos erros alheios.

A cultura do “perdão e da ironia”, da qual fala Roger Scruton.

O cristianismo nos apresentou ao universo moral do livre-arbítrio, nos presenteou com uma civilização fundada na liberdade, no perdão e na generosidade.

Em uma época de relativismo moral disseminado, de “desconstruções” de tradições e costumes, é preciso que afirmemos que o cristianismo é o grande e insubstituível pilar sob o qual construímos nossa civilização.

Apaguemos da História a separação que Cristo fez entre igreja e o Estado, esqueçamos da advertência atemporal de que um dia prestaremos contas dos nossos atos a Deus, deixemos de lado os deveres de caridade que o próprio Cristo ensinou, e o que restará da nossa sociedade será apenas uma massa humana formado por estranhos e inimigos.

Creia você ou não em Cristo, saiba que o conjunto de liberdades civis do qual você desfruta é produto do conceito cristão de livre-arbítrio. Reconhecer a tradição cristã, portanto, significa reconhecer este modo de vida civil do qual você é beneficiário.

Mais do que reconhecer a tradição cristã como uma espécie de “patrimônio histórico da humanidade”, devemos lembrar que nosso modo de vida não durará muito tempo se o cristianismo – enquanto força social e cultural – deixar de existir.

Estaremos em perigo se jogarmos fora nossa identidade cultural para fazer tábula rasa da nossa História, a fim de salvar nossas cabeças dos intolerantes – vide as crises gravíssimas que atormentam a Europa pós-cristã.

É um erro fatal negar nossa História, nossa fé e a verdade sobre nós mesmos, em nome dos dogmas do multiculturalismo, do relativismo e do politicamente correto.

Nós, inquilinos da modernidade, devemos lembrar-nos disso como um alerta de vida e de morte: sem cristianismo, não existe civilização.

Feliz Natal!

 

Se começarmos a matar bebês, o que nos impedirá de matar velhos e doentes?

Se não existe nenhum argumento, nenhum preconceito, nenhum elemento de sacralidade na vida humana, nenhuma regra de natureza inviolável, nenhum princípio fundado na dignidade, enfim, nenhuma verdade moral capaz de nos impedir de matar nossos próprios filhos, o que poderá nos impedir de assassinar os nossos idosos, deficientes e doentes?

O aborto é o primeiro passo na direção da consolidação da cultura da morte. Mais alguns passos nessa direção e estaremos eliminando nossos velhos e doentes com a mesma desenvoltura de quem coloca o lixo para fora de casa.

Estou exagerando? Pense nos exemplos que darei neste texto.

A cultura da morte já predomina em países como Holanda e Bélgica, onde idosos e doentes estão cada vez mais na mira de burocratas-assassinos-bem-intencionados que fazem do Estado um instrumento moderno de “correção” dos “erros da natureza” ou “erros de Deus”.

Os defensores da cultura da morte sempre baseiam sua agenda no mais tosco utilitarismo (vide Peter Singer) e apresentam suas propostas como se, generosamente, assumissem o ponto de vista dos que são doentes demais para continuar existindo.

Exterminando os doentes

Na Bélgica, por exemplo, foi institucionalizada a eutanásia sem limite de idade. Ora, “eutanásia sem limite de idade” é simplesmente um nome técnico para infanticídio.

A Bélgica legalizou o direito à eutanásia para adultos em 2002. Em 2014 o Parlamento belga achou por bem ampliar o “direito” à eutanásia para crianças e adolescentes.

Na época 160 pediatras belgas se mobilizaram contra a lei, divulgando uma carta aberta ao Parlamento no qual questionaram, entre outras coisas, como se poderia esperar maturidade de crianças doentes diante da dilema de acabar ou não com a própria vida.

Uma reportagem da época revelou:

Um ponto bastante debatido no país foi como definir se a criança tem discernimento ou não. O texto [da lei] determina uma avaliação do médico responsável e também de um psiquiatra infantil para atestar a maturidade do paciente.

O que os belgas fizeram foi dizer a crianças confusas e em sofrimento “veja, você pode acabar com esse sofrimento quando quiser”. A pergunta que fica é: a eutanásia infantil foi uma demanda das crianças gravemente doentes ou de seus pais?

Um trecho da mesma reportagem dá uma pista:

A enfermeira belga ouvida pela Reuters, Sonja Develter, que já cuidou de cerca de 200 crianças em fase terminal, se opôs à lei. ‘Na minha experiência, eu nunca tive uma criança pedindo para acabar com sua vida’, disse.

Os pedidos de eutanásia muitas vezes vieram de pais que estavam emocionalmente exaustos depois de verem seus filhos lutarem por tanto tempo.

É óbvio que pais aflitos por não poderem mais viver como antes, talvez saudosos da vida social de outrora, projetaram seu egoísmo nos filhos e o reinterpretaram como uma “decisão soberana” de suas crianças ainda imaturas, confusas e em sofrimento.

Exterminando os velhos

Bélgica e Holanda estão na vanguarda da cultura da morte no mundo. Ambos os países começaram com a legalização do aborto e hoje já discutem as propostas mais bizarras que se pode imaginar.

Na Holanda a eutanásia é legal para crianças com mais de 12 anos caso elas tenham “o consentimento de seus pais”. E, como já especulamos acima, a eutanásia infantil interessa muito mais aos pais que cuidam de crianças doentes do que elas mesmas.

Os holandeses deram um passo além e permitiram que familiares de idosos severamente comprometidos pudessem solicitar a eutanásia em nome deles. Uma notícia bizarra da época da aprovação das leis holandesas narrou uma fuga de idosos da Holanda:

A eutanásia não desejada virou o pesadelo dos holandeses, informou a rádio oficial alemã Deustche Welle […] O novo asilo na cidade alemã de Bocholt, perto da fronteira com a Holanda, virou refúgio de muitos holandeses temerosos de que a própria família autorize a antecipação de sua morte.

Segundo a Universidade de Göttingen, 41% dos sete mil casos de eutanásia praticados na Holanda foram a pedido da família, que queria liberar-se do “incômodo”. 14% das vítimas estavam totalmente conscientes na hora em que foram liquidadas.

De acordo com Eugen Brysch, presidente do Movimento Hospice, a lei deixa os médicos de mãos livres para praticá-la de acordo com a sua própria interpretação do texto legal.

Brysche luta contra a legalização da eutanásia na Alemanha, onde ainda existe um forte tabu que dificulta a agenda da morte, afinal de contas, os nazistas praticaram eutanásia em larga escala contra deficientes físicos e mentais, judeus, ciganos e outras minorias.

"American Eugenics Society" foi um grupo que fez campanha aberta pela eugenia antes da II Guerra nos EUA. Os eugenistas estão entre os fundadores da Planned Parenthood, a famosa organização abortista americana.

“American Eugenics Society” foi um grupo que fez campanha pela eugenia antes da II Guerra nos EUA. Os eugenistas estão entre os fundadores da Planned Parenthood, a famosa organização abortista americana.

O problema do precedente

Depois de legalizar o aborto, a eutanásia e o infanticídio, a Bélgica já não tinha mais como impedir qualquer tipo de precedente, por mais bizarro ou absurdo que fosse.

Uma reportagem de junho deste ano narrou o caso de um jovem belga de 16 anos que pediu autorização para praticar a eutanásia “por não se aceitar gay”:

Sébastien diz ter feito terapia durante 17 anos, além de tomar remédios, e acreditar não ter outra opção. Ele afirma sentir atração por homens jovens e adolescentes e ter traumas de infância.

Por mais absurda que pareça a justificativa, Sébastien pode conquistar seu direito em breve, afinal de contas, “a lei belga estabelece que, para ter direito à eutanásia, os pacientes precisam demonstrar constante e insuportável sofrimento psicológico ou físico” .

É claro que, movidos por compaixão e empatia para com doentes terminais ou vítimas de sofrimento crônico, podemos manifestar simpatia pela descriminalização da eutanásia para adultos, por exemplo. Eu mesmo já tive muita simpatia pela proposta.

Mas, nestes casos, devemos fazer uma simples pergunta: o que vem a seguir?

Pois um fato escapa da nossa atenção quando nos envolvemos em dilemas morais que podem ser resolvidos com mudanças profundas: não existe decisão política isolada e cuja repercussão se encerra em seu próprio tópico.

Na esfera jurídica cada decisão gera uma jurisprudência. Na esfera política, cada decisão produz uma tendência. A eutanásia para adultos na Bélgica, por exemplo, abriu as portas para a eutanásia infantil. Ninguém sabe quais serão os próximos precedentes.

Cada decisão abre precedente para outra decisão. É como se estivéssemos em um labirinto sem fim no qual cada caminho leva a outro caminho desconhecido, e assim por diante.

Todas as decisões em favor da cultura da morte foram baseadas em uma versão moderna da postura filosófica conhecida como utilitarismo, advogada nos nossos dias por Peter Singer. Grosso modo, os utilitaristas defendem que devemos sempre buscar o prazer  e evitar o sofrimento, o que é a negação da própria essência da  vida.

Peter Singer é um dos líderes do movimento moderno de defesa dos direitos animais, e seu livro “Libertação Animal” é a obra máxima do movimento.  Singer defende o fim de uso de animais em pesquisas médicas e, ao mesmo tempo, é estridente defensor da legalização do aborto.

Tudo isso usando critérios utilitaristas.

São portadores dessa esquizofrenia moral que nos pedem para abrir a porta do aborto, sabendo que em seguida abriremos outras portas, e chegaremos ao mundo bizarro sem sofrimento com o qual eles sonham.

Em algum momento a eutanásia autorizada pelo paciente abre as portas para a eutanásia ativa, aplicada por médicos convictos de que sabem o que é melhor para o paciente.

Com o precedente em favor do aborto, o Brasil já deu o primeiro passo na direção da desvalorização da vida e da consolidação da cultura da morte. Se começarmos a matar bebês, o que nos impedirá de matar velhos e doentes?

Nada, absolutamente nada.

 

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