“Viagem a Alfa Centauri” de Michael D. O’Brien

O’Brien é um elevado contador de histórias espirituais, digno de se juntar às fileiras de Flannery O’Connor, Graham Greene, Evelyn Waugh e C. S. Lewis. – Peter Kreeft

O autor de ficção canadense Michael D. O’Brien tem uma paixão pelo apocalíptico. O autor de vários livros é também pintor e iconografista católico. Viagem A Alfa Centauri é o seu primeiro livro no gênero de ficção científica.

A capa é exatamente a mesma da sua gêmea americana com a arte de John Herreid e possui o dedo excelente de Flávio Quintela, autor de Mentiram Para Mim, na sua tradução.

O livro nenhuma vez se abre para a quarta parede, tomando o caminho completamente inverso, imergindo o leitor ao livro logo na contra-capa, onde se coloca o personagem principal como o real autor do livro, com o título A Viagem, tendo sua primeira edição em setembro de 254. É um pequeno e divertido detalhe que deixaria escapar leitores apressados.

Logo entramos na jornada existencial do hispânico Neil Ruiz de Hoyos, um prêmio nobel da física que possibilitou a criação da Kosmos, a nave do tamanho de uma cidade que levará o homem a desbravar Alfa Centauri. O planeta Terra vive uma época de totalitarismo benigno, a religião é proibida como superstição, há leis de controle populacional e as pessoas vivem em constante suspeição. Neil, de 68 anos, devido à sua origem no deserto americano, possui personalidade redneck mesmo viajando em um futurista transatlântico espacial. O autor sendo americano, é difícil não imaginar que inconscientemente tenha espelhado a peregrinação da Kosmos com a fuga dos colonos do império britânico para a américa.

A novelização é narrada em logs de viagem que revelam a introspectiva do personagem em cada encontro, seus monólogos são ricos em detalhes de uma mente conservadora inquieta diante de uma nau que carrega uma educação politicamente correta vinda da terra.  O autor aproveita seu assento sob o futuro e analisa a nossa cultura clássica pelos olhos estrangeiros de Neil, não deixando de contrastar com a artificialidade dos “remakes” contemporâneos.  Isso abre para o autor discutir vários temas usando Neil como seu avatar. Por exemplo em um momento o personagem palestra:

A relatividade relativiza a existência? Nós podemos sentir que sim, já que nossas orientações psicológicas/sensoriais/conceituais são determinadas por medições de base planetária, e tendem a borrrar e até mesmo a nos desorientar diente dos princípios da física cósmica. Ainda asim a relatividade não tem  pretensões de ser um sistema ontológico. De fato, a filosofia pode, no final, provar-se um modelo mais coerente de existência que a física.

O autor assim difunde sua sabedoria pessoal no personagem, Em outro momento diz sobre o amor ao conhecimento:

A primeira e principal é a forma sensata de amor-próprio – em outras palavras, respeito por si mesmo. Depois há o amor por expandir os horizontes do conhecimento, para benefício de outros, muitos dos quais ainda não nascidos. Se nele não houver um orgulho agravado, nem qualquer estímulo para uma personalidade falsa, então é um tipo de amor altruísta que não procura recompensa pessoal além da satisfação de saber que se melhorou a vida de outrem. É um tipo de frutificação. Esse anseio por frutificar não está escrito no código de todos os seres humanos? Eu penso que sim. Não obstante, nós podemos estar completamente cegos àquilo que estamos pestes a enfrentar quando perseguimos certas linhas de atividade. E me pergunto por que esse anseio, na maior parte das vezes, acaba secando no deserto dos relacionamentos humanos. Em um deserto real, mesmo um cacto floresce.

A história é bastante linear, as misteriosas investigações da equipe de cientistas não se atropelam e recebem um justo espaço. O livro é numeroso em páginas contudo ainda é um page-turner, podendo ser terminado com agilidade. Mesmo que o ponto de vista seja de uma pessoa por praticamente todo o livro, Neil não cansa o leitor em nenhum momento com um cinismo que não funciona, usando de uma precisa acidez conservadora. Por natureza um conservador em um universo asfixiantemente politicamente correto causará antagonismo com as autoridade e Neil possui apenas seu Nobel como o frágil protetor da sua voz incômoda. O conflito essencial do livro é a escalada de reação das autoridades com agitadores à bordo.
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O autor não esconde sua opção pelo catolicismo em todos seus livros, e não será diferente nesse. Embora todas as vertentes do cristianismo estejam representadas seu objetivo é contar a jornada de Neil à conversão ao romanismo com o reforço evangélico de coincidências pela salvação de sua alma que não seria possível em seu próprio planeta natal, onde a religião é proibida. Sem liberdade a verdade não pode prosperar.

Aos curso do livro Neil deixa de ser um forasteiro ao evangelho e vai imigrando na Igreja Católica, descobrindo que a exploração do universo não satisfaz o desejo do homem de finalmente encontrar aquilo que é universal.

É essa a glória e a tragédia da Kosmos, a embarcação criada por Neil pode levá-los à Alfa Centauri e explorar novos planetas mas para ir além é necessário adentrar a Arca. As conquistas da aventura exploratória em nada se compara aonde a nau anciã chamada Igreja Católica pode levar o homem. A viagem transcendental é maior que a espacial. Essa é a grande lição que Michael D. O’Brien nos passa nessa obra, que não podemos confundir nossos milagres tecnológicos com uma obra sobrenatural.

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Essa nau enfrentou turbulências mas mantém-se de pé levando os homens ao paraíso por todos os séculos. A Kosmos é falível, mas o que move a Arca da Salvação é cumprir sua missão, é uma nave que Neil não construiu mas pode descansar nela, mesmo quando sua própria criação começa a quebrar.

Michael D. O’Brien pode não ser tão conhecido no Brasil como o são Tolkien e C.S. Lewis, mas sua obra não deixa de se mover em direção à mesma verdade, transmitindo grandes verdades por meios de símbolos com o talento de um pintor, segunda profissão do autor.

Quem pegar esse livro terá uma viagem pela frente, não a algum lugar incomodamente familiar mas uma viagem de volta à casa.

Título: Viagem A Alfa Centauri.

Autor: Michael D. O ‘Brien

Editora: Vide Editorial

Onde comprar:

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