“Sobre o Islã”, de Ali Kamel

“Diante desse quadro, é cada vez mais necessário usar as palavras certas. Os radicais do Islã não são perigosos porque são fanáticos, porque são “fundamentalistas”; eles são perigosos porque são totalitários. O que os define não é a religiosidade ou o fanatismo, mas a intenção de nos impor uma verdade que não é a nossa, de nos submeter a regras que nos desumanizam, de nos privar daquilo que nos define como homens: a nossa consciência e a nossa liberdade. Devem ser chamados pelo nome certo: os totalitários do Islã”

sobreoislaEste é o ponto crucial do livro “Sobre o Islã – A afinidade entre muçulmanos, judeus e cristãos e as origens do terrorismo”, lançado em 2007. O trecho acima tem a idéia que fundamenta a criação do livro por Ali Kamel, ou seja, mostrar que o islã não é uma religião de terroristas. Para provar sua tese numa cultura como a nossa Ali Kamel precisa percorrer um longo caminho para explicar o que é esta religião, tão estranha. A ótima escolha do jornalista para apresentar tanta informação é destacar, inicialmente, não o que nos é radicalmente desconhecido mas o que temos de afinidade. Com esta estratégia o islã deixa de ser algo extraterreno em menos de 50 páginas através de paralelos com os livros sagrados das tradições do cristianismo e judaísmo.

A parte que mais chama atenção é aquela que trata da visão muçulmana sobre a passagem de Jesus Cristo. Eles reconhecem o milagre da concepção imaculada, o colocam acima de todos os profetas que o precederam, chamam-no de “Palavra de Deus” , “Mensageiro de Deus” e “o Profeta de Deus”, porém não de Filho de Deus – há dois trechos na Sura que explicam o motivo (Sura 19, 35 e Sura 3,59). Os milagres de Jesus também estão presentes no livro sagrado do islã que coloca sua existência em tamanha importância para a obra divina que afirmam que ele jamais poderia ter morrido, antes jogou sobre todos os presentes uma miragem enquanto ascendia fisicamente ao encontro de Deus, com vida, onde permanece até seu retorno que será quando o mundo estiver em paz, logo após a vitória sobre o Anticristo.

A visão comparada da base das três grandes religiões monoteístas é muito bem conduzida por Ali Kamel que, a julgar pelo livro, não é uma pessoa religiosa. O respeito com que lida com todas faz parecer se tratar de um livro apologético ao islã. Como seria possível pensar diferente se nosso contato com esta religião, quase inexistente no Brasil, só nos pareceu relevante quando seguidores dela começam a ser uma preocupação mundial devido a crimes violentíssimos e assustadores? O islã veio a nossas casas não tentando nos converter (o livro mostra como, pelos textos sagrados, a religião não pode ser imposta a ninguém) mas por imagens traumatizantes: ataques terroristas, populações comemorando os ataques, vídeos de criminosos treinando crianças com armas ou executando o que chamam de infiéis.

Passada a primeira parte do livro continuamos as descobertas com um resumo da história da divisão entre sunitas e xiitas, que vem desde a “sucessão” de Maomé. A terceira parte serve para explicar que o islã não é violento. Para isso Ali Kamel caminha por analogias mais arriscadas ao lembrar da história da Igreja Católica e seus inúmeros papas assassinados, martirizados ou exilados, além da sempre citada Inquisição. Para ele, a visão de religião violenta tem como fundamento o princípio dela, quando sua impressionante expansão se deu por ataques violentos. Aos conquistados era permitido permanecerem fora do islã desde que pagassem impostos muito mais altos, ou seja, manter a sua fé era um sacrifício a que muitos não resistiriam. Isso vai contra o que diz o texto sagrado do Alcorão, como já citado aqui, então pode-se dizer que o que se expandia era o califado, o islamismo como política, não a religião. A questão dos versículos que são usados como justificativa para atos violentos é bem tratada ao contextualizar não apenas quanto às narrativas que se prestavam mas quanto aos textos completos de onde estão inseridos pequenos trechos juntados maliciosamente por Bin Laden ou citados por Paul Johnson – há um longo trecho no livro dedicado à má citação feita pelo grande historiador ao justificar sua acusação de que o islã é essencialmente violento e criminoso. Trechos do Pentateuco são usados para mostrar que vistos sob semelhante olhar malicioso e seguidos à risca eles poderiam levar às mesmas condenações do judaísmo e cristianismo. Esta terceira parte do livro explica, de forma condenatória, a adoção ainda hoje dos véus femininos e trata a questão da inegável misoginia, uma das coisas que mais repúdio nos causa esta religião.

Na quarta parte temos uma rápida reconstrução da história do terrorismo islâmico. Fala-se da origem do termo fundamentalismo (uma releitura e tentativa de viver de acordo com as bases fundadoras do cristianismo) e defende que os terroristas não são “literalistas” na interpretação dos textos sagrados, mas deturpadores dele. É neste capítulo que chegamos à citação usada na abertura deste post. Ibin Taymiyya, Al-Wahhab, Al-Banna e Sayyid Qutb são apresentados para termos uma base da filosofia que deturpa a religião e levou à criação da Al Qaeda e outros grupos terroristas. Já a parte final, a quinta do livro, é a mais ousada em termos políticos ao derrubar várias mentiras repetidas incansavelmente na cobertura da imprensa para a Guerra do Iraque. Mais ainda, Ali Kamel defende a decisão de George W.Bush de derrubar o regime de Saddam Hussein pois ali estava o país mais propenso a abrigar a Al-Qaeda tão logo seu coração fosse desmantelado no Afeganistão, com o agravante de que o Iraque era um país muito mais rico e capaz de danos muito maiores ao resto do mundo caso continuasse sua aproximação com Bin Laden.

O meu total desconhecimento do islã quando li o livro foi fator determinante para a ótima impressão que tenho dele. O mérito da abordagem escolhida por Ali Kamel é inegável, embora ao insistir em analogias ele eventualmente tropece como no caso em que iguala um detalhe da fé que serve para distinguir seguidores de uma divisão da religião (o Imã oculto, Mahdi, que vive há quase mil anos e estaria sendo mantido escondido para que venha governar a Terra até que retornem Jesus, Maomé e Ali) a dois pontos essenciais do cristianismo, sem os quais ninguém pode se dizer cristão de verdade: que Jesus nasceu de uma virgem e ressuscitou dos mortos.

Conhecer as origens do islã é o primeiro passo para se entender este fenômeno que é o expansionismo da religião, especialmente em lugares pobres. Daí fica mais fácil ver como, em meio a desamparados e fracos, a filosofia terrorista doutrine adeptos na base do medo que espalham e poder que demonstram. Lembro de, em meio à torrente de lixo que se produziu após os ataques terroristas à redação da Charlie Hebdo, chamar-me atenção o fato de muitos pensadores esquerdistas, especialmente no Brasil mas não só aqui, mostrarem-se estupefatos pelos muçulmanos terem matado “pessoas de esquerda”, ou seja, quem de certa forma luta por eles no ocidente. Somente o total desconhecimento da religião e do modo de vidas dessas pessoas poderia fazer com que alguém ficasse surpreso ao descobrir que pessoas que têm posses, cultura e prestígio possam jogar fora suas vidas privilegiadas em um ato de violência. Para quem se acredita restaurador da fé correta no Deus único contra um mundo pervertido que precisa ser dominado politicamente para ser convertido não há classes sociais nem mesmo distinção entre ideologias políticas fora do islã. É assim que se inspiram no expansionismo dos primeiros “guerreiros” de Maomé fazendo uso das armas existentes hoje, inclusive algumas menos óbvias como as liberdades dos EUA, Europa e países mais organizados. A transformação e os conflitos internos no islã são tão fortes que o livro, sendo de 2007, não tem nenhuma menção ao Estado Islâmico, hoje a corrente terrorista mais constante no noticiário.

Em tempo de generalização da ojeriza ao desconhecido islã provocada pelos seguidos atos de terrrorismo levados a cabo por deturpadores dessa fé, “Sobre o Islã” é uma obra muito corajosa, um livro a ser consultado que recomendo sem ressalvas.

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12 comentários para ““Sobre o Islã”, de Ali Kamel

  1. Caio Frascino Cassaro

    Prezado:
    Sugiro como leitura complementar o livro “O Islã e a Formação da Europa”, de David Levering Lewis. O livro é excepcional e narra alguns episódios da história que nos ajudam a compreender melhor as origens do Islam e sua influência ao longo da história.
    Abs

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  2. Wolmar

    Da Cia.
    Essa defesa da separação entre “islã” e “islamismo” não passa de um cavalo de tróia com a barriga prenhe de sofismas multiculturalistas prontos a minar por dentro a já combalida cultura ocidental, carcomida pelo secularismo e pelo niilismo. É simplesmente impossível separar o movimento político da religião. Não tem nada a ver tentar separar muçulmanos moderados de islamitas radicais, da forma como separaramos socialistas democráticos de comunistas radicais, por ex. Trata-se, isto sim de uma visão caolha: com um olho lê-se o Alcorão com suas mensagens de paz e de amor e suas elegias ao nosso Cristo Jesus enquanto o outro se fecha aos massacres que seus seguidores sofrem onde o islã é a religião do estado. De um estado violento e violador dos mais básicos direitos humanos. E não me venha falar de exageros ou generalizações, como confundir a religião cristã com a excomungada teologia da libertação. No islã é diferente. É como se padres católicos incitassem os fiéis a pegarem em armas e explodirem-se em atentados terroristas. Estou mentindo? Estou vendo muita rede bobo? Ah!, mas não tem nada disso no Corão (que voce leu de cabo a rabo)! E daí? Qual é a religião dos imãs que pregam nas mesquitas e doutrinam nas madrassas?
    Só mais duas perguntas:
    1) Onde voce está vendo sinais de islamofobia? Ah sim algumas mesquitas sofreram atentados, mas algum muçulmano morreu? Algum atirador invadiu um templo desses? Ou está rolando nas redes sociais? Se for o caso viva a liberdadde de expressão
    2) Voce que leu o livro: Quanto tempo o Ali Kamel viveu em um país islâmico? Por acaso ele foi ao Afeganistão ou Arábia Saudita? Ele cita alguma entrevista relevante, seja com um religioso moderado ou com alguém que abertamente odeia o mundo ocidental? Duvido que ele tenha falado com este último

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  3. Big Head

    Da Cia, se é que já não o leu, sugiro a leitura de Orientalismo, livro-ensaio de Ian Buruma e Ian Buruma e Avishai Margalit, que aborda as origens do pensamento anti-ocidental, não só entre os muçulmanos. Imperdível! faz um

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  4. Marcelo CentenaroMarcelo Centenaro

    Da Cia, eu li o Alcorão, em português, tradução do Mansour Chalita. Também li o Sobre o Islã e gostei muito, na ocasião. Aprendi muito sobre Al-Wahhab, Al-Banna, Sayyid Qutb e revi por causa do livro as reservas que eu tinha contra a invasão do Iraque.

    Deixei de fazer isso, mas costumava todos os anos comprar um livro, escrever uma mensagem e deixar em algum lugar para que alguém o encontrasse. Fazia isso em 11 de setembro, 7 de julho e 11 de março, para lembrar das vítimas dos atentados nos Estados Unidos, em Londres e em Madri. Várias vezes, o livro que deixei era o do Ali Kamel.

    Hoje, não sei se tenho a mesma opinião sobre o livro. Talvez precise ler novamente. Estou convencido de que o islamismo constitui um fenômeno diferente do que ocorre com qualquer outra religião que conheço. Um fenômeno no qual a política desempenha um papel muito importante.

    Até onde me lembro, mais ou menos metade do Alcorão são descrições do Inferno, aquele lugar terrível no qual os descrentes serão torturados eternamente. Existem passagens mais pacíficas e amigáveis sobre as outras religiões. Existem outras bastante violentas. Achei que tinha entendido quando li, mas depois aprendi algumas coisas que mudam o contexto. Eu não sabia que existe um Alcorão de Meca e um Alcorão de Medina. O Alcorão de Meca é mais ameno e o Alcorão de Medina é mais violento. Como as suras de Medina foram escritas depois, considera-se que elas corrigem o que foi escrito antes.

    Recomendo que todos leiam Sobre o Islã. Mas também recomendo que leiam Bill Warner. Ou que vejam seus vídeos.

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    • Da CiaDa Cia Posts do autor

      Sim, tem essa questão de quando foram escritas as Suras (boa parte dos versículos foram mensagens transmitidas pelo profeta no tempo em que ele e sua tribo eram perseguidos, encurralados e humilhados) e que, na tradição deles, o mais recente substitui e revoga o que se disse antes. Aliás, no livro do Ali Kamel ele fala sobre o islã se pretender a justamente resgatar o culto certo que se foi perdendo com o tempo.
      E sim, a política parece ser mais “importante” no Alcorão pois a mensagem do profeta é feita por um longo período e em meio a guerras contra ele. Por mais que os outros profetas tenham sofrido oposição e perseguição, nenhum deles estava inserido num contexto de guerra declarada, tão violentas e por tanto tempo. O caráter reformista do islã também ajuda a esse aspecto na origem da religião.

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    • Da CiaDa Cia Posts do autor

      Mas só uma coisa: quando se fala em política você talvez esteja mais tratando da disputa pelo poder hoje. Creio ter escrito isso na resenha mas, realmente, para o islamismo, a política como a conhecemos é algo estúpido, acessório: vivendo-se sob os mandamentos do profeta não há necessidade de se disputar o poder, a menos que surja alguém se dizendo um novo profeta que por isto precisa guiar o seu povo (o que, aliás, pelo próprio Alcorão, seria inadmissível). A disputa pelo poder pela vaidade ou pelas riquezas é algo estranho. A disputa pelo poder só faz realmente sentido para aqueles que querem impor a fé aos outros (como explicado no livro, algo que o texto sagrado condena), e aí o poder é só um meio de terem as armas para matar os infiéis.

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      • Marcelo CentenaroMarcelo Centenaro

        Da Cia, ok, para o islamismo, vivendo-se sob os mandamentos do profeta não há necessidade de se disputar o poder. Mas e quem não vive sob os mandamentos do profeta? Você confia demais nessa condenação à imposição da fé aos outros, mas foi única e exclusivamente assim que o islamismo se expandiu. E os xiitas acreditam que os sunitas não vivem realmente sob os mandamentos do profeta e vice-versa. E a al-Qaeda acha que o Estado Islâmico é pecaminoso e vice-versa. O próprio Ali Kamel explica como os wahhabistas acham que os qutbistas idolatram Sayyid Qutb enquanto os qutbistas acusam os wahhabistas de idolatrarem al-Wahhab.

        São guerras demais para falarmos em religião de paz. Existem razões para afirmar que a imposição da fé pela força, a misoginia, a escravidão, o massacre dos descrentes ou sua condição de cidadãos de segunda classe, tudo isso encontra fundamentação no islamismo. E eles estão se infiltrando onde podem e impondo condições às sociedades democráticas que os acolhem.

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  5. carlosdaamassa

    O ISLÃ É VIOLENTO SIM !

    É PRECISO LER O “CORÃO” TOTAL PARA SER TER ENTENDIMENTO, E NÃO LER LIVROS ESCRITOS POR ELES PRÓPRIOS, O ISLÃO PREGA A CONVERSÃO FORÇADO DOS INFIÉIS OU SUA MORTE, CLARAMENTE, COMO O SOL DA MANHA DE CADA DIA!

    O QUE ESPERAR DE UM LIVRO DE UM JORNALISTA QUE, NO TELEJORNAL DO QUAL É EDITOR, SÓ MOSTRA AS MAZELAS FEITAS POR ISRAEL AOS FORAGIDOS E INOCENTES PALESTINOS…

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    • Da CiaDa Cia Posts do autor

      Você leu o Alcorão, “Carlos Damasceno”? Tem certeza de que leu? Ou pegou citações por aí e acreditou nelas? A sua descrição do jornalismo da Globo é totalmente inexata, assim como sua citação do Alcorão. De qualquer forma, pode trazer aqui suas citações para eu conferir o texto sagrado deles . Sua certeza não me deixa dúvidas que domina o texto tranquilamente.

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      • Harlock

        Salve. Li a tradução de Mansour Chalita… não achei nada excepcional.
        Apenas recozinha o velho monofisismo dos evangelhos apócrifos, de mistura com o sincretismo de um velho deus lunar e uma grossa dose de supremacismo tribal.
        A recitação de Meca é a que concentra as idéias religiosas e alguma eventual perspectiva de convivência com outras religiões, já na recitação de Medina marduk, digo… alah… reconsiderou algumas idéias anteriores e básicamente funcionou como um “consegliere” de Maomé em sua luta pela tomada do poder…
        Ah, sim… e tentar livrar a cara do islam, seu deus-lua e o seu profeta, forçando uma eventual comparação com a trajetória de Igreja Católica… cara, esperava mais do Kamel…

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