Por Trás da Máscara, de Flavio Morgenstern

CapaPara mim, o melhor livro do ano é, sem dúvida, Por Trás da Máscara, de Flavio Morgenstern. Sou amigo e grande admirador do Flavio. Encontrei-o pela primeira vez no lançamento do Guia Politicamente Incorreto da América Latina, de Leandro Narloch e Duda Teixeira, em 2011. Abordei-o na fila. Flavio disse que não costumava ser reconhecido em filas. Muita coisa mudou de 2011 para cá.

Estivemos juntos contra os comunistas que impediram que Yoani Sanchez falasse, em fevereiro de 2013. Estivemos juntos na manifestação de 15 de março contra Dilma. Estivemos juntos em inúmeros eventos em livrarias. Gosto muito de seu estilo e da sua técnica de esgotar os argumentos sobre o assunto de que trata. Invejo sua capacidade de produzir e seu talento. OK, ele é são-paulino. Ninguém é perfeito.

Li Por Trás da Máscara com o mesmo prazer com que aprecio seus artigos. Trata-se, na verdade, de um artigo um pouco mais longo que o habitual. Mas essas quase 600 páginas são sucintas demais.

O mês de junho de 2013 foi particularmente doloroso para mim. Meu pai sofreu um acidente em 31 de maio e faleceu em 2 de julho de 2013. Não pude prestar muita atenção nas manifestações, embora tenha sofrido as conseqüências delas, como todo mundo. Enquanto lia o livro, procurava relembrar o que fiz em cada um daqueles momentos. O detalhismo do Flavio compõe com clareza cada evento daqueles dias conturbados.

O livro começa analisando o que foi o Occupy Wall Street, o movimento de protesto que se instalou no Parque Zuccotti, em Nova York, entre 17 de setembro e 15 de novembro de 2011. A partir de um grupo inicialmente pequeno, composto exclusivamente por militantes, o protesto cresceu enormemente por causa de uma mentira, o boato plantado por um dos organizadores de que haveria um show do Radio Head no parque. Com uma quantidade suficiente de pessoas, realizou-se um ato de caos planejado, a marcha na ponte do Brooklin, que isolou a ilha de Manhattan do restante da cidade. Apesar dos esforços da polícia de evitar ao máximo o enfrentamento, o movimento acabou conseguindo o que queria: imagens de confronto entre policiais e manifestantes. Manipulando as narrativas, conquistou o apoio popular e permaneceu perturbando os cidadãos nova-iorquinos por dois meses. A tática era não declarar qual era sua pauta, quais os seus objetivos. Funcionou.

O principal argumento para o uso da força para desalojar os acampamentos foi a sujeira que produziram. Os manifestantes defecavam em todos os lugares…

Flavio expõe as origens do Movimento Passe Livre, formado por militantes do partidos de extrema esquerda: PSTU, PSOL, PCO e PCB, informação que não se acha na imprensa. Esses grupos não precisam de uma pauta de reivindicações, mas de pretextos para protestar e adquirir poder, forçando o aumento do papel do Estado em supostamente resolver problemas reais ou inventados. Qualquer coisa serve: racismo, ciclo ativismo, LGBTXYZ, liberação da maconha, o que for. Os transportes são um grave problema real das cidades brasileiras e se encaixaram perfeitamente nas necessidades dos militantes extremistas.

A dinâmica das manifestações é descrita com todos os detalhes relevantes. Desde os primeiros atos, houve um grau de violência assustador por parte dos militantes, o que colocou a imprensa e a população contra eles, num primeiro momento. Então, aproveitando-se de alguns erros cometidos pela polícia, exatamente como aconteceu em Nova York, os organizadores conseguiram atrair a simpatia da opinião pública, explorando imagens de confrontos. As pessoas naturalmente tendem a dar razão a quem parece mais fraco.

Flavio lembra de alguns cartazes dos manifestantes, como “Me chama de Copa e investe em mim!”, “Pelo fim do funk alto no busão”, “Só paramos quando o Kinder Ovo voltar a ser R$1,00” e “Vendo Palio 98”. O mais simbólico de todos foi “The jiripoca is going to pew-pew”. São frases auto-referentes que não dizem nada, só expressam o vazio de idéias dos protestos. Flavio propõe mais algumas: “Estou aqui pela mesma coisa do cara do meu lado”, “Piquet foi melhor do que Senna”, “Subsidiem o que eu gosto, proíbam o que eu não gosto” e outras 18 que você encontra no livro.

Um evento chama a atenção na narrativa: a invasão do prédio do Itamaraty, em 20 de junho. Uma multidão havia cercado o Congresso Nacional. De lá, passou pelo Palácio do Planalto e pelo Ministério da Justiça e seguiu, direcionada por empurrões estratégicos, para o Ministério das Relações Exteriores. A segurança desse prédio não é feita por policiais, mas pela Marinha. Os organizadores queriam um confronto contra as Forças Armadas. Diz Flavio Morgenstern:

“Se um único agente das Forças Armadas fosse flagrado dando um croque na cabeça de um manifestante, qual seria a narrativa nos jornais do dia seguinte? Algo melhor do que ‘Exército vai às ruas para reprimir manifestação pacífica’? Nosso país poderia ter-se tornado completamente diferente caso apenas um vidro a mais fosse quebrado. O primeiro que conseguisse se apresentar como liderança do protesto, então, conseguiria ter poderes muito maiores do que os outorgados pelo AI-5.”

Foi esse o risco que corremos em junho de 2013.

O último capítulo trata do assassinato do jornalista Santiago Andrade, atingido por um rojão disparado por dois black blockers, em fevereiro de 2014. Houve muitas mortes causadas pelos protestos, mas essa foi a primeira que claramente partiu dos manifestantes.

FlavioAlém da narrativa precisa e da análise das causas e conseqüências do movimento, o leitor é brindado com explicações preciosas sobre o pensamento de Elias Canetti, Ortega y Gasset, Eric Hoffer, Ayn Rand, Kuehnelt-Leddihn, sobre a experiência Milgram e sobre a oposição entre os significados originais das palavras democracia e república. Só esses trechos já valeriam o livro.

Senti falta de uma bibliografia no final. Também seria muito útil um índice onomástico (que imagino que aumentaria muito o número de páginas e talvez o custo do livro).

É curioso que, embora tenha sido publicado agora em 2015, o texto certamente estava pronto há mais ou menos um ano. Não há menção aos protestos contra Dilma, que começaram em 1º de novembro de 2014.

Já tem o seu? Não? O que está esperando? Corra para comprar Por Trás da Máscara!

3 comentários para “Por Trás da Máscara, de Flavio Morgenstern

  1. danir

    Vou comprar. A propósito um comentário sobre a proposição do Juiz Dallagnol . Tenho algumas sugestões a fazer. 1- Por que um formulário tão burocratizado se podemos usar um meio mais fácil e rápido para colher as assinaturas de forma digital. Por mais envolvidas que as pessoas estejam, muitas não gostam de ser abordadas para assinaturas e outras ações. Quem estiver coletando será considerado um chato. Esta é a pura verdade.
    2- o nome e o CPF ou RG deveriam ser suficientes. Nome da mãe, atestado de vacina endereço, e outros detalhes, são pura perda de tempo e demonstração do espírito burocrata de nossas autoridades e instituições mesmo quando são bem intencionados. Qualquer pessoa pode ser identificada pelo RG ou CPF.

    Por último, tomei a liberdade de acrescentar mais oito itens que acredito são tão necessários quanto os outros
    São eles:

    1. Criminalização do enriquecimento ilícito de agentes públicos
    2. Responsabilização dos partidos políticos e criminalização do caixa 2
    3. Reforma do sistema de prescrição penal
    4. Diminuição dos recursos no processo penal
    5. Prevenção à corrupção, transparência e proteção à fonte de informação
    6. Aumentos das penas e classificação de crime hediondo para corrupção de altos valores
    7. Celeridade nas ações de improbidade administrativa
    8. Ajustes nas nulidades penais
    9. Recuperação do lucro derivado do crime
    10. Prisão preventiva para assegurar a devolução do dinheiro desviado
    11. Aumento de 30 a 50% da pena como agravante para crimes cometidos por agentes dos três poderes
    12. Extinção do foro especial e limitação drástica das progressões de pena
    13. Implementação de uma lei específica definindo atos de terrorismo e as penas cabíveis
    14. Aumento do período de permanência na prisão para crimes graves
    15. Banimento de partidos e instituições que se apresentem como comunistas, socialistas, bolivarianas e qualquer denominação que seja contrária à pratica democrática
    16. Revisão dos textos de lei para que todos os crimes tipificados sejam enquadrados no mesmo texto da lei, sem a inclusão de diferenciação de classes ou comunidades (racismo – homofobia – feminicídio – etc.)
    17. Extinção do estatuto do menor e adolescente (manutenção de seus nomes nas fichas criminais e de antecedentes)
    18. Redução da maioridade penal e definição da aplicação de penas para menores de idade
    É claro que nem todos vão concordar, mas é a minha opinião. Bom dia a todos

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  2. Wellington Pablo

    Maneiro, ótimo registro de um pedaço da história de como a esquerda é cretina e perigosa. Além de miquinhos dos “imperialistas”.

    Responder

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