Resenhas

@reaconaria

Mentiram (e muito) para mim

Mentiram e muito para mimNeste ano de 2014, está acontecendo uma onda de lançamentos de livros interessantes. Acabou de sair Mentiram (e muito) para mim, de Flavio Quintela. É um inventário das principais mentiras influentes que nos são apresentadas continuamente como se fossem as mais evidentes e indiscutíveis verdades.

O livro é pequeno, 168 páginas. A análise que ele faz sobre o quadro partidário brasileiro entre o impeachment de Collor e os preparativos para a eleição de 2014 é primorosa. Também achei muito relevante a afirmação de que, na América escravagista, menos de cinco por cento dos brancos foram proprietários de escravos, e mais de vinte por cento dos negros livres possuíam pelo menos um escravo. Pena que ele não explicite qual a fonte dessa informação.

Um detalhe agradável é que ele usa a ortografia de antes da última reforma. Também preciso adotar essa prática.

Ao final do livro, há uma bibliografia recomendada muito boa. Gostei especialmente das indicações de “Eles Mudaram a Imprensa”, de Alzira Alves de Abreu (2003) e de “The naked communist”, de Cleon W. Skousen e Arnold Friberg (2011).

O prefácio é de Paulo Eduardo Martins e a orelha do livro, de Rodrigo Constantino. Esses textos podem ser lidos aqui, no blog do autor.

Aqui vai a lista de capítulos:

I. Começam a mentir desde muito cedo para nós: a mais-valia
II. A mentira mais voraz: a de que a própria verdade não existe
III. Mentiram de novo: a festa da democracia brasileira
IV. Mentindo sobre ideologia: não existe mais direita ou esquerda
V. Mentirinha: o PSDB é um partido de direita
VI. Amplas mentiras: a maldade da Direita
VII. Mentindo sobre Hitler: o nazismo é de extrema direita
VIII. Mentira de lobo mau: nem toda esquerda quer o comunismo
IX. Cínicos mentirosos: o comunismo ainda não existiu na Terra
X. A mentira do bonzinho: o esquerdista se preocupa com os pobres e oprimidos
XI. Mentira que ninguém mais agüenta: bandido é vítima da sociedade
XII. Nem o diabo acredita nesta mentira: sou um cristão socialista
XIII. A mentira mais contada de todas: o golpe militar de 1964
XIV. Auto-engano ou mentira proposital: a mídia é direitista
XV. Algo que exala mentira: o sistema educacional brasileiro
XVI. Mentira em letras góticas sobre pele de carneiro: diploma
XVII. Mentiras que atravessam gerações: dívida histórica
XVIII. Mentira tripla: o bolsa-família foi criado pelo PT, é bom e tira as pessoas da miséria
XIX. Mentira boba? Nem tanto: Deus é brasileiro
XX. Verdades

Como disse Edmund Burke, “Para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados.”

Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão, de Arthur Schopenhauer

Como Vencer um DebateAcabei de ler Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão Em 38 Estratagemas (Dialética Erística), de Arthur Schopenhauer, com comentários de Olavo de Carvalho. Schopenhauer deixou essa curta obra inacabada. Foi publicada depois de sua morte. A edição brasileira traz longos comentários de Olavo de Carvalho. A quantidade de texto de Olavo e de Schopenhauer na edição é praticamente a mesma.

Esse catálogo de trapaças em debates é bastante útil e interessante. A ideia não é ensinar o leitor a trapacear, mas prepará-lo para se defender das argumentações desonestas de seus adversários em debates. Cito alguns Estratagemas de que gostei mais. O Estratagema 38 é o Argumentum ad Personam, ou seja, xingar o adversário quando não se tem mais o que dizer. O Estratagema 36 é o Discurso Incompreensível, muito popular. O Estratagema 32, Rótulo Odioso, é aquele que chama de “fascistas” (ou “racistas”, ou “homofóbicos”, ou “elite”, dependendo do caso) todas as pessoas que discordam do debatedor. O 14, a Falsa Proclamação de Vitória, também é bastante usado quando os argumentos acabam. Outro Estratagema curioso é o 2, a Homonímia Sutil, em que se usa a mesma palavra que o adversário usou, mas com um sentido diferente do pretendido por ele, para contestar algo que ele não disse.

Comprei o livro em 2006 e comecei a ler pela parte que mais interessava, os estratagemas. Enrosquei no Estratagema 4 e larguei. Resolvi ler de novo recentemente e, para não enroscar novamente, comecei pelo Estratagema 38 e vim voltando até o Estratagema 1. Quando terminei essa parte, li os comentários finais do Olavo e depois os do Schopenhauer, para depois ler a introdução do Olavo e a do Schopenhauer.

Segundo Olavo, Schopenhauer pretendia fazer uma crítica a Hegel. Com a morte de Hegel, o filósofo deve ter perdido a motivação para concluir o livro e abandonou o texto.

Embora Olavo reconheça o valor do texto em si e das teorias de Schopenhauer sobre debates, ele curiosamente o critica o tempo todo. Segundo Olavo, Schopenhauer não entendeu o que Aristóteles quis dizer com Dialética, que não é o mesmo que Schopenhauer chama por esse nome. Também sobram críticas à filosofia de Schopenhauer em geral, que é, segundo Olavo, um desdobramento levado às últimas consequências das ideias de Kant.

Recomendo o livro a qualquer pessoa que goste de discutir ideias.

Segue uma lista de todos os estratagemas. Os nomes foram dados pelo Olavo de Carvalho. O que está entre aspas são citações do texto de Schopenhauer, exceto quando indicada outra fonte.

1) Ampliação indevida
“Levar a afirmação do adversário para além de seus limites naturais, interpretá-la do modo mais geral possível, tomá-la no sentido mais amplo possível e exagerá-la. Restringir, em contrapartida, a própria afirmação ao sentido mais estrito e ao limite mais estreito possíveis. Pois quanto mais geral uma afirmação se torna, tanto mais ataques se podem dirigir a ela.”

2) Homonímia sutil
“Usar a homonímia para tornar a afirmação apresentada extensiva também àquilo que, fora a identidade de nome, pouco ou nada tem em comum com a coisa de que se trata; depois refutar com ênfase esta afirmação e dar a impressão de ter refutado a primeira.”

3) Mudança de modo
“A afirmação que foi apresentada em modo relativo […] é tomada como se tivesse sido apresentada em modo absoluto, universalmente […], ou pelo menos é compreendida em um sentido totalmente diferente, e assim refutada com base neste segundo contexto.” Nesses três primeiros estratagemas, “o adversário, na realidade, fala de uma coisa distinta daquela que se havia colocado. Quando nos deixamos levar por este estratagema, cometemos, então, uma ignoratio elenchi (ignorância do contra-argumento).” “O que o adversário diz é verdadeiro, mas não está em contradição real com nossa tese.”

4) Pré-silogismos
“Se queremos chegar a uma certa conclusão, devemos evitar que esta seja prevista, e atuar de modo que o adversário, sem percebê-lo, admita as premissas uma de cada vez e dispersas sem ordem na conversação”. Segundo Olavo de Carvalho: “Esta técnica, das mais requintadas e complexas, pode ser usada não só no debate face a face, mas em todo o processo de manipulação da opinião pública. Aceitando premissas parciais espalhadas aqui e ali pela propaganda, pelos espetáculos de teatro, pelos indivíduos famosos, aparentemente desconectadas entre si e sem qualquer intenção unitária subjacente, o público é levado, sem perceber, à conclusão desejada pelo manipulador. Se a conclusão não for declarada explicitamente em parte alguma, ela terá ainda mais força persuasiva, por que a vítima, ao tirá-la, acreditará que está raciocinando livremente e assumirá responsabilidade pela crença que lhe foi incutida, passando mesmo a defendê-la como expressão pura de sua opinião espontânea. Esse processo é usado sistematicamente pela “revolução cultural” gramsciana, que descrevo em A Nova Era e a Revolução Cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci. A maioria das técnicas de manipulação de opinião em uso hoje em dia se constitui de adaptações e formidáveis ampliações de técnicas retórico-dialéticas.”

5) Uso intencional de premissas falsas
“Podemos também, para comprovar nossas proposições, fazer antes uso de proposições falsas, se o adversário não quiser aceitar as verdadeiras, seja porque percebe que delas a tese será deduzida como consequência imediata. Então adotaremos proposições que são falsas em si mesmas mas verdadeiras ad hominem, e argumentaremos ex concessis, a partir do modo de pensar do adversário.”

6) Petição de princípio oculta
“Ocultamos uma petitio principii, ao postular o que desejamos provar: 1) usando um nome distinto […] ou ainda usando conceitos intercambiáveis […]; 2) fazendo com que se aceite de um modo geral aquilo que é controvertido num caso particular […]; 3) se, em contrapartida, duas coisas são consequência uma da outra, demonstraremos uma postulando a outra; 4) se precisamos demonstrar uma verdade geral e fazemos que se admitam todas as particulares (o contrário do número 2).”

7) Perguntas em desordem
“Quando a disputa é conduzida de modo rigoroso e formal e queremos fazer com que nos entendam com perfeita clareza, então aquele que apresentou a afirmação e deve prová-la procede contra o adversário fazendo perguntas para concluir a verdade a partir das próprias concessões do adversário.” E: “Fazer de uma só vez muitas perguntas pormenorizadas, e assim ocultar o que, na realidade, queremos que seja admitido”.

8) Encolerizar o adversário
“Provoca-se a cólera do adversário, para que, em sua fúria, ele não seja capaz de raciocinar corretamente e perceber sua própria vantagem.”

9) Perguntas em ordem alterada
“Fazer as perguntas numa ordem distinta da exigida pela conclusão que dela pretendemos, com mudanças de todo gênero; assim, o adversário não conseguirá saber aonde queremos chegar e não poderá prevenir-se.”

10) Pista falsa
“Se percebemos que o adversário, intencionalmente, responde pela negativa às perguntas cuja resposta afirmativa poderia confirmar nossas proposições, então devemos perguntar o contrário da proposição que queremos usar, como se quiséssemos que fosse aprovada, ou então, pelo menos, por as duas à escolha, de modo que não se perceba qual delas queremos afirmar.”

11) Salto indutivo
Se o adversário já aceitar casos particulares, não “perguntar-lhe se admite também a verdade geral” derivada dos casos particulares; introduzi-la “como se estivesse estabelecida e aceita”.

12) Manipulação semântica
Chamar as coisas por um nome que já contenha o juízo de valor que queremos que seja aceito. “O nome protestantes foi escolhido por eles mesmos, assim como o de evangélicos. O nome hereges, em contrapartida, foi escolhido pelos católicos.” Segundo Olavo de Carvalho: “A manipulação semântica e o mais seguro indício de que o debatedor tem o intuito de vencer a qualquer preço, com solene desprezo pela verdade. Em épocas de radicalização política, ela se torna uso corrente. Nos regimes totalitários — uma invenção do século XX que Schopenhauer não poderia prever —, a manipulação semântica passou a ser usada já não no confronto polêmico, mas como instrumento de um discurso monológico destinado a bloquear, primeiro, a expressão de ideias antagônicas e, depois, a mera possibilidade de pensá-las. […] George Orwell satirizou esse fenômeno no romance 1984, onde o totalitarismo perfeito implanta oficialmente a “Novilíngua” (Newspeak), toda composta de conotações alteradas. Na vida real, as coisas são piores: a Novílingua é imposta de facto, sem declaração oficial. Isto torna muito mais difícil combatê-la e sobretudo identificar seus responsáveis: eles permanecem anônimos por trás de um abstrato sujeito coletivo, até que este acabe por se identificar com a própria natureza impessoal das coisas, com a “História”, com Deus ou com o povo inteiro, de modo a que enfim a vítima venha a assumir a responsabilidade pelo crime. No Brasil, porém, o emprego da manipulação semântica adquiriu, nas últimas duas décadas, contornos peculiares, talvez jamais observados no mundo: o domínio totalitário da linguagem monológica por uma casta de manipuladores convive pacificamente com a democracia formal, defendida, paradoxalmente, pela mesma casta. O emprego do termo conservador enquanto oposto a progressista (e não a radical, por exemplo), foi originariamente um truque semântico da esquerda, compensado pelo giro oposto empregado pela direita (autodenominada, por exemplo, democrática em oposição a bolchevista, ou cristã em oposição a materialista). No Brasil, a acepção esquerdista dos dois termos se tornou unânime e institucional, sem que uma única voz de direita procure bani-la ou neutralizá-la. […] No Brasil, a identificação do nazismo com a direita tornou-se um dado do vocabulário corrente, que ninguém pensa em contestar. […] O domínio esquerdista do vocabulário é total e irrestrito, o que faz com que cada cidadão brasileiro, ao discordar da esquerda, se veja desprovido de meios de expressão que não estejam sobrecarregados de um temível potencial de mal-entendidos; aos poucos, a dificuldade de falar se torna dificuldade de pensar.”

13) Alternativa forçada
“Para que o adversário aceite uma tese, devemos apresentar-lhe também a contrária e deixar que ele escolha, ressaltando essa oposição com estridência, de modo que ele, se não quiser ser contraditório, tenha de se decidir pela nossa tese que, em comparação à outra, se mostra muito mais provável.”

14) Falsa proclamação de vitória
“Declaramos e proclamamos triunfalmente demonstrada a conclusão que pretendíamos, ainda que de fato não se siga das respostas do adversário.” Segundo Olavo de Carvalho: “Aproveitar-se da confusão do leitor (ou ouvinte, ou espectador) para proclamar que está provado o que não foi provado de maneira alguma é o procedimento mais regular e constante da retórica política e dos meios de comunicação no Brasil.”

15) Anulação do paradoxo
“Se apresentamos uma proposição paradoxal e temos dificuldade para prová-la, proporemos ao adversário, para que a aceite ou recuse, uma proposição correta, mas cuja exatidão não seja totalmente evidente, como se dela quiséssemos construir a demonstração.” Se ele a recusar, provaremos que é verdade. Se aceitar, teremos dito alguma coisa razoável e adiaremos a conclusão. Segundo Olavo de Carvalho, nos dois casos, apenas mudamos de assunto, desviando a atenção do ouvinte do rumo desastroso que nossa argumentação tinha tomado.

16) Várias modalidades do argumentum ad hominem
“Perguntar se a afirmação do adversário não está em contradição com algo que ele disse ou aceitou anteriormente, ou com os princípios de uma escola ou seita que ele elogie ou aprove, ou com o comportamento de membros dessa seita, ou com a conduta do adversário mesmo.”

17) Distinção de emergência
Salvar-se “mediante alguma distinção sutil, na qual não havíamos pensado anteriormente, caso a questão admita algum tipo de dupla interpretação ou dois casos diferentes.”

18) Uso intencional da mutatio controversiae
Estratagema que consiste em “interromper o debate a tempo” quando se está ameaçado de ser abatido, sair do debate “ou desviá-lo e levá-lo para outra questão”.

19) Fuga do específico para o universal
“Se o adversário solicita expressamente que apresentemos alguma objeção contra um ponto concreto de sua tese, mas não encontramos nada de apropriado, devemos enfocar o aspecto geral do tema e atacá-lo assim.”

20) Uso da premissa falsa previamente aceita pelo adversário
Se o adversário concordou com algumas de nossas premissas, saltamos para a conclusão, como se estivesse provada, mesmo que não esteja.

21) Preferir o argumento sofístico
Muitas vezes, é mais fácil e rápido vencer com um argumento falso que com um verdadeiro.

22) Falsa alegação de petitio principii
Alegar que o adversário está fazendo uma petitio principii quando ele quer que admitamos algo que leve à formulação do problema.

23) Impelir o adversário ao exagero
No calor do debate, levar o adversário a exagerar suas posições. Como o exagero costuma levar a contradições, podemos refutar essas contradições como se estivéssemos refutando o argumento original.

24) Falsa reductio ad absurdum
Tirar falsas conclusões absurdas dos argumentos do adversário. Com isso, refutam-se essas conclusões, fazendo parecer que a tese foi refutada.

25) Falsa instância
Apresentar um suposto contraexemplo da tese do adversário que não seja de fato classificável como uma instância dessa tese.

26) Retorsio argumenti
Usar o argumento do adversário contra ele próprio, quando isso for possível. Este é um dos poucos estratagemas que não é desonesto em si.

27) Usar a raiva
Quando o adversário fica irritado com algum argumento nosso, devemos insistir nesse ponto, porque provavelmente ali há uma inconsistência.

28) Argumentum ad auditores
Argumento aos ouvintes. “Formulamos uma objeção inválida, mas cuja invalidade só um conhecedor do assunto pode captar. E, ainda que o adversário seja um conhecedor do assunto, não o são os ouvintes.”

29) Desvio
Mudar de assunto fingindo que ainda se está rebatendo a questão do adversário. Ou mesmo, de modo insolente, atacar o adversário pessoalmente.

30) Argumentum ad verecundiam
Argumento dirigido ao sentimento de honra. Citar autoridades no assunto para refutar uma tese. Este estratagema funciona tanto melhor quanto menores forem os conhecimentos do adversário a respeito do que disse a autoridade invocada e quanto maior for a veneração dele diante de tal autoridade.

31) Incompetência irônica
Fingir que não entendeu o que o adversário disse e declarar isso ironicamente. Nas circunstâncias certas, isso faz o adversário parecer um idiota que não sabe organizar o raciocínio ou que está simplesmente declarando algo patentemente falso.

32) Rótulo odioso
“Um modo rápido de eliminar ou, ao menos, de tornar suspeita uma afirmação do adversário é reduzi-la a uma categoria geralmente detestada, ainda que a relação seja pouco rigorosa e tão só de vaga semelhança.”

33) Negação da teoria na prática
Aceitar os fundamentos de um argumento, mas negar suas consequências.

34) Resposta ao meneio de esquiva
“Se o adversário não dá uma informação ou resposta direta a uma questão ou a um argumento, e se esquiva com uma contrapergunta ou uma resposta indireta, refugiando-se numa proposição que não tem a ver com o tema e indo para qualquer outro lugar, isto é um sinal claro de que nós encontramos um ponto fraco. Devemos portanto persistir no ponto e não deixar o adversário sair do lugar.” Este estratagema também não é desonesto em si.

35) Persuasão pela vontade
“Em vez de fornecer razões ao entendimento, influi-se com motivações na vontade, e o adversário, do mesmo modo que os ouvintes quando têm um interesse em comum com ele, são subitamente ganhos para nossa opinião, mesmo que esta tenha sido tomada de empréstimo num manicômio.”

36) Discurso incompreensível
“Desconcertar, aturdir o adversário com um caudal de palavras sem sentido. Isto baseia-se em que, ‘normalmente o homem, ao escutar apenas palavras, acredita que também deve haver nelas algo para pensar’ (Goethe, Fausto).”

37) Tomar a prova pela tese
“Se o adversário tem de fato razão e felizmente escolheu, para defender-se, uma prova ruim, será fácil refutarmos essa prova, e daremos isto como uma refutação da tese mesma.”

38) Último estratagema: Argumentum ad Personam
“Quando percebemos que o adversário é superior e que acabará por não nos dar razão, então nos tornamos pessoalmente ofensivos, insultuosos, grosseiros. […] O objeto é deixado completamente de lado e concentramos o ataque na pessoa do adversário, e a objeção se torna insolente, maldosa, ultrajante, grosseira. Essa regra é muito popular, pois todo mundo é capaz de aplicá-la e, por isto, é usada com frequência.”

O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota

A imagem das figuras públicas, especialmente aquelas mais ligadas a questões políticas, é construída conforme uma luta pelo prevalecimento da imagem que o próprio deseja construir, baseada naquilo que ele considera seus pontos fortes, contra a imagem que seus inimigos e opositores tentam estabelecer, focando em seus defeitos. Não é incomum que tanto a criação da imagem positiva, pela própria figura e seu staff, quanto a projetada pelos inimigos e adversários, sejam exageradas ou repletas de mentiras.

Analisar o novo livro de Olavo de Carvalho, uma coletânea de artigos publicados em jornais, revistas e sites é, de uma forma prática, analisar e conhecer parte da figura pública do próprio Olavo de Carvalho. E por mais que o autor não milite partidariamente, é inegável que se trata de uma pessoa pública muito comentada e seguida no debate ideológico, especialmente na internet.Cit1

Creio haver três formas honestas de apresentar Olavo de Carvalho para uma pessoa que não o conhece.

A primeira é dizer que Olavo de Carvalho é um polemista. É chamado assim por suas análises da cultura brasileira com estilo tido por agressivo, por criticar sem meias palavras a opinião predominante sobre o alto valor e qualidade de algumas figuras. Também já esteve envolvido em muitos debates e trocas de acusações com alguns figurões da intelectualidade brasileira. Que grande parte desses contendores estejam umbilicalmente ligados a máquinas partidárias é apenas um dado da realidade brasileira: a política está emaranhada em quase tudo que é de elite por aqui.

cit2

A segunda é dizer que Olavo de Carvalho é um filósofo. Grande pesquisador e conhecedor da história, das tradições religiosas do mundo todo, tem facilidade enorme para interpretar e traduzir pensamentos e teorias complexas. Dedica-se com especial afinco a debater e explicar o que chama de mente revolucionária que “não é um fenômeno, essencialmente político, mas espiritual e psicológico, se bem que seu campo de expressão mais visível e seu instrumento fundamental seja a ação política“.

cit3

Para mim a melhor maneira de descrever Olavo de Carvalho em uma palavra é pela terceira forma,  chamando-o de Professor. Não como um professor universitário formal, do tipo muito comum por aqui encastelado numa instituição de ensino em busca de títulos, bajulações e reciprocidade no meio acadêmico, mas alguém realmente interessado em transmitir o conhecimento adquirido e estimular a busca por mais e mais informações. É como professor que Olavo de cit4Carvalho vem, ao longo dos anos, treinando centenas, milhares de pessoas com seus pensamentos. Seus seguidores e ex-alunos estão espalhados nas mais diversas profissões mas mais do que tudo sempre em seus cantos sozinhos, estudando e seguindo atrás dos inúmeros autores e textos indicados em todo material de estudo já divulgado por Olavo. Aliás, como professor Olavo é também um evangelizador ao trazer ao conhecimento de seu público inúmeros autores de importância mundo afora mas que, por conta do total predomínio esquerdista nas artes, faculdades e crítica cultural, são desconhecidos por aqui. Para ficar num exemplo, Roger Scruton só começou a ser notado de verdade nos cadernos culturais da Folha e do Estadão, sem ser em artigos de estrangeiros, após 2010, enquanto os leitores de Olavo ouvem falar regularmente do filósofo inglês há mais de 13 anos!

cit5

Para nos apresentar minimamente o conjunto de opiniões de Olavo, Felipe Moura Brasil dividiu o “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota” em várias seções. Se Olavo de Carvalho quer educar o maior número de pessoas, o trabalho de divisão do livro é excelente como guia minimalista e inicial. A organização facilita a consulta por temas e também permite a qualquer um escolher qual ordem ler os artigos: não há uma sequência no livro e os temas quando não são independentes encontram as referências a outros artigos em notas e comentários.

Dentre as muitas idéias apresentadas por Olavo na coletânea do livro há uma que é a principal e o tema mais recorrente em relação ao Brasil, tendo o auge da sua exposição nos artigos agrupados sob o título “CULTURA”, mas também complementada com o o artigo “A origem das opiniões dominantes”, que está no grupo “DISCUSSÃO” e é destacado na contracapa do livro: é uma crise cultural o nosso maior problema. Todo o descaminho geral é consequência disso. A corrupçao política, a pobreza no debate nacional, a violência, pessoas servindo a causas que deveriam ser contrários, a tentativa de calar os opositores, falta de coragem de opôr-se à maioria, a recusa em conhecer as idéias que vão contra o que se crê, estudos viciados, produção cultural irrelevante… Há algum exagero nesse diagnóstico?cit6

Tanto o trabalho de Olavo de Carvalho quanto a coletânea do livro são admiráveis por estimular a pesquisa incessante sem que se fique preso a formalismos institucionais que serviriam de amarras a essa pesquisa. O ensino no Brasil, a academia brasileira é muito viciada. Não por acaso, uma das formas mais comuns de desqualificar Olavo e seus trabalhos é dizer que ele não é formado em filosofia,  que ele nunca deu aula nas grandes faculdades brasileiras ou que os outros intelectuais brasileiros não lhe dão trela. Esses, os intelectuais mais conhecidos do Brasil, estão mais preocupados em reafirmar suas autoridades, disputar cargos ou mesmo enriquecer às custas do Estado. É como se os grandes pensadores brasileiros ficassem num eterno ciclo em que só são importantes os que são desse clube seleto e esses são importantes porque são do clube, que é seletivo.cit7

Também isso explica porque os alunos e admiradores de Olavo de Carvalho são chamados de Olavetes. Como poderia se dizer que existem no país “Chauietes”, “Saderetes”, “Faustete”, “Lamounierete” ou qualquer outro? Quanto a Olavo, tanto tempo educando e treinando pessoas para o conhecimento, para sua estrutura de ensinamento e aprendizado faz até com que fique bem claro quando estamos diante do texto de algum de seus “discípulos”, tamanha é a discrepância nas citações e estilo em relação àqueles que estamos acostumados a ler. Outro produto desta “diferença” entre os seus alunos e outros pensadores ou opinadores do país é que quem segue os ensinamentos de Olavo de Carvalho tem plena consciência dessa diferença, faz questão de evidenciá-la.cit8

Voltando ao livro, uma das características nos textos muito presente e que explica a má-fama de Olavo fora do círculo de seus seguidores é aquilo que seus detratores chamam de virulência em seus artigos. Não são raros trechos como  “Até um retardado mental”, “Qualquer ignorante”, “qualquer imbecil é capaz”, “é preciso ser muito sonso para não notar”. Num país extremamente violento no cotidiano mas acostumado a etiquetas pretensamente elevadas no trato entre superiores, isso fere a sensibilidade e afugenta. Nada mais falso e fácil de macaquear do que essa educação de bons modos apaziguadora e bajulante.cit9

São muitos os temas abordados e, mesmo assim, é praticamente impossível encontrar contradições entre as opiniões e princípios defendidos. Mesmo quando fala do predomínio de uma “elite bilionária fabiana e globalista” e mais à frente em outros artigos cita os três grandes agentes da história mundial atualmente – a saber: as elites governantes da Rússia e da China, a elite financeira ocidental e a fraternidade muçulmana, que é composta por lideranças religiosas e governamentais espalhadas pelo mundo – há coerência. Para se entender essas hipóteses, comumente qualificadas por aí como paranóicas ou teorias da conspiração, é necessário um pouco mais de atenção e paciência ao longo dos artigos. Ainda assim, mesmo quando se duvida ou discorda, há que se reconhecer a unidade lógica que torna o raciocínio muito mais provável do que passadas superficiais pelo tema indicariam.cit10

Os menos reveladores e inspirados artigos do livro são aqueles em que Olavo de Carvalho trata da política nacional. É claro que ele não se dedica muito a isso, o que também é natural diante de tanta repetição e padronização nos fatos e comportamentos. Em um artigo, troca o nome de um programa marcante do Governo Federal (fala em “Fome Zero” quando o correto seria “Bolsa Família”), em outro faz um paralelo incorreto para tratar do auxílio-reclusão. Ainda assim, mesmo nos seus artigos mais antigos estão antevistos muitos caminhos confirmados pela ação do Governo.

cit11Adiantando para a conclusão dessa longa resenha, é necessário retomar o ponto inicial dela, da batalha entre a construção da imagem pública entre o ator e seus críticos. Para quem como eu já conhecia Olavo de Carvalho mas não o acompanha com tanta frequência, o livro apresenta-se como um convite fortíssimo para estar mais atento ao que ele produz. De certa forma também provoca arrependimento por, lá atrás, pelos idos de 2001 e 2002 quando comecei a descobrir Olavo, não ter ido adiante nos estudos indicados, não ter seguido nenhum dos cursos desde então. Os chamados da vida prática não me permitiam seguir à época com rigor no universo de conhecimento desbravado pelo professor para seus alunos. Para os alunos mais frequentes de Olavo, o livro não traz nada de novo mas deve ser lido pela ótima edição e utilidade da divisão dos artigos por temas. Para quem chama Olavo de Carvalho de paranóico, louco e tantas outras ofensas comuns entre os detratores, o livro não servirá para muita coisa além de provocar-lhes ainda mais ódio e aumentar o fosso que separa suas opiniões do conhecimento da obra do ofendido. Para quem nunca ouviu falar de Olavo de Carvalho, será difícil não ser conquistado pela ótima sequência inicial de artigos, especialmente a seção já não tão no início de nome “POBREZA”, o mais belo momento de surpresa e descoberta que tive no livro.

Ao fim, o livro servirá para ajudar Olavo naquilo que tanto tem se dedicado. Seja como filósofo, professor ou polemista, o devolverá às prateleiras dos mais vendidos, o apresentará a novos leitores e abrirá a mente de muitas pessoas para todo seu trabalho. Será inevitável vermos análises do livro de Olavo de Carvalho em redações que de tudo fazem para ignorá-lo. Diante da crise cultural que nos assola, Olavo sabe bem que períodos assim se sucedem, já ocorreram na história e somente poucos têm coragem para lutar contra a opressão das maiorias ensandecidas, autoritárias e  orgulhosas da própria ignorância. Fazer esse resgate é um desafio imenso e inglório, que se faz pacientemente, passo-a-passo, por muitos anos, conseguindo um espaço aqui, ajudando um estudante ali, apresentando possibilidades para o maior número de pessoas… Citando Croce, “o filósofo, o historiador e o homem que é filosófica e historicamente instruído e disciplinado reconhecem e distinguem a hora de saber e a hora de fazer; sabem, como quaisquer outros homens, quando devem arriscar suas próprias pessoas como homens práticos e, ao recusar-se a falsificar a escrita da história, transformando-a em uma luta prática, eles se recusam de modo semelhante a falsificar a luta prática, transformando-a em historiografia e dando a eles próprios e a outros um álibi covardemente moral”. Olavo de Carvalho acredita no que conhece e se dedica com afinco a passar isso adiante. É um trabalho louvável que este livro serve para sintetizar e, por isso, é indispensável.

Avaliacao

OUTRAS NOTAS:

O preço: Aqui e ali, alguns reclamaram do preço do livro, um pouco acima da média de livros pop. Creio que a análise é incorreta pois o livro tem mais de 600 páginas, o que também está muito longe da curva dos livros campeões de venda, e o espaçamento das linhas e caracteres é mínimo, ou seja, o número de páginas não é inflado por artimanhas. Não se deve pensar no preço do livro comparando-o a um livro popular comum, mas no mínimo a “um livro e meio” ou a “dois livros” populares. É um preço justo.

O lançamento: Para azar dos editores, o livro foi lançado na mesma semana em que chegavam dois campeões de vendas no segmento não-ficção do Brasil: Laurentino Gomes e Edir Macedo. Para complementar, estreou o livro de um “webstar” brasileiro que trabalha também na TV. Mesmo assim o livro estreou entre os 10 mais de todas as mais importantes listas de livros mais vendidos do país.

Os trechos: Selecionei 25 trechos do livro para destacar nessa resenha. Como não tinha como encaixá-los num contexto lógico junto à crítica, resolvi destacar 10 deles aleatoriamente em meio ao texto.

Resenha: Guia politicamente incorreto da história do mundo

Nos últimos 10 anos pudemos assistir a reinvenção do Brasil. Se ontem éramos oprimidos pelo grande capital internacional, hoje – segundo os detentores da narrativa dominante – somos soberanos. Com isso, deixamos de lado dados incômodos e passamos a viver no mundo da fantasia narrativa.

Todos sabemos que o desemprego está em um dos seus patamares mais baixos, segundo o IBGE. O que pouca gente sabe é que o método de cálculo foi alterado, e, se usássemos o padrão da U.E. nosso desemprego ultrapassaria os 20% (desde 2003 diga-se).

Todos sabemos que o grande governo popular pagou nossa dívida com o F.M.I.. O que pouca gente sabe é que nossa dívida externa aumentou em quase US$ 100 bilhões nos últimos 10 anos, sendo que a dívida pública federal ultrapassou R$ 2 trilhões! A tudo isso soma-se o fato de o Brasil ter despencado em rankings internacionais de educação, infraestrutura e qualidade de vida.

Nenhuma dessas omissões é gratuita. Essa estratégia tem a intenção de calar a voz do opositor, negando-lhe participação na narrativa da história, afinal, quem é que vai fechar os olhos para os INEGÁVEIS avanços da última década? Inegáveis? É aí que está a importância da saga dos “Guias politicamente incorretos da história” de Leandro Narloch.

Quando Narloch lançou o “Guia politicamente incorreto da história do Brasil” conseguiu irritar muita gente. Resgatou, por exemplo, o grande sociopata  Luis Carlos Prestes, que com sua “Coluna Prestes” deixou rastros de destruição, estupros e assaltos por onde passou. Além do assassinato ordenado por ele de uma garota de 16 anos.

Zumbi? Tinha escravos, capatazes e mandava assassinar quem não aguentasse viver no Quilombo dos Palmares.

Luta armada? Nenhum grupo guerrilheiro tinha o objetivo de lutar pela democracia. E em pelo menos 14 organizações era explícito, em seus estatutos, o desejo de um regime ditatorial de partido único.

Com o “Guia politicamente incorreto da história da América Latina” o embaraço ficou com a revelação de que o caudilho Perón era pedófilo, logo ele, o avô do kirchnerismo. Foi divertido descobrir que o Brasil também possuía os seus peronistas.

Todas as passagens dos livros são referenciadas com fontes e contexto histórico. Diminuir a importância do livro pelo fato de o autor não ser historiador tem nome: canalhice.

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Guia politicamente incorreto da história do mundo

De Galileu a Gandhi, da Revolução Industrial a Maio de 68, o autor elege bem os mitos influentes contra os quais lutará. As narrativas contra as quais Narloch se insurge são bichos-papões consolidados que engolem os alunos brasileiros.

Nessa insurgência opera uma lógica elementar, que passo-a-passo encadeia elementos no tempo-espaço e demonstra a conexão causal dos fatos narrados, demolindo os Frankensteins históricos.

Ao listar bizarrices dos regimes comunistas, o livro encontra uma de suas boas vocações, a de ser amplificador do terror que milhões de seres-humanos sofreram na mão dos tutores da humanidade. Sem precisar argumentar, os fatos são de uma claridade atroz.

O livro expõe casos de ditaduras africanas sem deixar de lado seu contexto anterior de colonialismo e escravidão, mas deixa de dizer que muito colonialismo e muita escravidão ocorreu sem a participação dos europeus, lista absurdos de ditadores reais e mostra que a destruição da África também possui a digital de líderes africanos.

Justapõe as expectativas de vida antes e depois da Revolução Industrial, constata o aumento, e pra quem sabe ler números, demonstra que a qualidade veio junto com a quantidade, conclui acertadamente que a mecanização foi a melhor coisa que poderia ter acontecido aos pobres.

Lista o número de pessoas a quem a comida com fitofarmacêuticos alimenta hoje, para mostrar quanta gente estaria faminta caso o mundo ainda dependesse da agricultura orgânica familiar. Sem contar a quantidade de árvores salvas devido a grande produtividade por hectare comparado.

Arrola fundamentais coincidências na linguagem sobre o Estado nos textos nazistas e comunistas para expor semelhanças entre os dois.

E assim por diante, em operações resultantes de um penoso trabalho de pesquisa, o livro termina sendo um incômodo para quem se propõe a combatê-lo.

Como sempre ocorre quando o epíteto “politicamente incorreto” é usado, a reação dos “politicamente corretos” confunde apreço histórico com militância sem visão amparada na luta de classes. O livro apresenta versões marginais da história, que explícita os interesses dos poderosos marxistas culturais.

Daí se conclua que o livro deva ser motivo de interesse. Pelo talento narrativo do autor, deve incomodar um tipo bem conhecido nosso, o do intelectual comentarista de portais da internet.

REAGANS

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