Resenhas

@reaconaria

O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota

A imagem das figuras públicas, especialmente aquelas mais ligadas a questões políticas, é construída conforme uma luta pelo prevalecimento da imagem que o próprio deseja construir, baseada naquilo que ele considera seus pontos fortes, contra a imagem que seus inimigos e opositores tentam estabelecer, focando em seus defeitos. Não é incomum que tanto a criação da imagem positiva, pela própria figura e seu staff, quanto a projetada pelos inimigos e adversários, sejam exageradas ou repletas de mentiras.

Analisar o novo livro de Olavo de Carvalho, uma coletânea de artigos publicados em jornais, revistas e sites é, de uma forma prática, analisar e conhecer parte da figura pública do próprio Olavo de Carvalho. E por mais que o autor não milite partidariamente, é inegável que se trata de uma pessoa pública muito comentada e seguida no debate ideológico, especialmente na internet.Cit1

Creio haver três formas honestas de apresentar Olavo de Carvalho para uma pessoa que não o conhece.

A primeira é dizer que Olavo de Carvalho é um polemista. É chamado assim por suas análises da cultura brasileira com estilo tido por agressivo, por criticar sem meias palavras a opinião predominante sobre o alto valor e qualidade de algumas figuras. Também já esteve envolvido em muitos debates e trocas de acusações com alguns figurões da intelectualidade brasileira. Que grande parte desses contendores estejam umbilicalmente ligados a máquinas partidárias é apenas um dado da realidade brasileira: a política está emaranhada em quase tudo que é de elite por aqui.

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A segunda é dizer que Olavo de Carvalho é um filósofo. Grande pesquisador e conhecedor da história, das tradições religiosas do mundo todo, tem facilidade enorme para interpretar e traduzir pensamentos e teorias complexas. Dedica-se com especial afinco a debater e explicar o que chama de mente revolucionária que “não é um fenômeno, essencialmente político, mas espiritual e psicológico, se bem que seu campo de expressão mais visível e seu instrumento fundamental seja a ação política“.

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Para mim a melhor maneira de descrever Olavo de Carvalho em uma palavra é pela terceira forma,  chamando-o de Professor. Não como um professor universitário formal, do tipo muito comum por aqui encastelado numa instituição de ensino em busca de títulos, bajulações e reciprocidade no meio acadêmico, mas alguém realmente interessado em transmitir o conhecimento adquirido e estimular a busca por mais e mais informações. É como professor que Olavo de cit4Carvalho vem, ao longo dos anos, treinando centenas, milhares de pessoas com seus pensamentos. Seus seguidores e ex-alunos estão espalhados nas mais diversas profissões mas mais do que tudo sempre em seus cantos sozinhos, estudando e seguindo atrás dos inúmeros autores e textos indicados em todo material de estudo já divulgado por Olavo. Aliás, como professor Olavo é também um evangelizador ao trazer ao conhecimento de seu público inúmeros autores de importância mundo afora mas que, por conta do total predomínio esquerdista nas artes, faculdades e crítica cultural, são desconhecidos por aqui. Para ficar num exemplo, Roger Scruton só começou a ser notado de verdade nos cadernos culturais da Folha e do Estadão, sem ser em artigos de estrangeiros, após 2010, enquanto os leitores de Olavo ouvem falar regularmente do filósofo inglês há mais de 13 anos!

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Para nos apresentar minimamente o conjunto de opiniões de Olavo, Felipe Moura Brasil dividiu o “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota” em várias seções. Se Olavo de Carvalho quer educar o maior número de pessoas, o trabalho de divisão do livro é excelente como guia minimalista e inicial. A organização facilita a consulta por temas e também permite a qualquer um escolher qual ordem ler os artigos: não há uma sequência no livro e os temas quando não são independentes encontram as referências a outros artigos em notas e comentários.

Dentre as muitas idéias apresentadas por Olavo na coletânea do livro há uma que é a principal e o tema mais recorrente em relação ao Brasil, tendo o auge da sua exposição nos artigos agrupados sob o título “CULTURA”, mas também complementada com o o artigo “A origem das opiniões dominantes”, que está no grupo “DISCUSSÃO” e é destacado na contracapa do livro: é uma crise cultural o nosso maior problema. Todo o descaminho geral é consequência disso. A corrupçao política, a pobreza no debate nacional, a violência, pessoas servindo a causas que deveriam ser contrários, a tentativa de calar os opositores, falta de coragem de opôr-se à maioria, a recusa em conhecer as idéias que vão contra o que se crê, estudos viciados, produção cultural irrelevante… Há algum exagero nesse diagnóstico?cit6

Tanto o trabalho de Olavo de Carvalho quanto a coletânea do livro são admiráveis por estimular a pesquisa incessante sem que se fique preso a formalismos institucionais que serviriam de amarras a essa pesquisa. O ensino no Brasil, a academia brasileira é muito viciada. Não por acaso, uma das formas mais comuns de desqualificar Olavo e seus trabalhos é dizer que ele não é formado em filosofia,  que ele nunca deu aula nas grandes faculdades brasileiras ou que os outros intelectuais brasileiros não lhe dão trela. Esses, os intelectuais mais conhecidos do Brasil, estão mais preocupados em reafirmar suas autoridades, disputar cargos ou mesmo enriquecer às custas do Estado. É como se os grandes pensadores brasileiros ficassem num eterno ciclo em que só são importantes os que são desse clube seleto e esses são importantes porque são do clube, que é seletivo.cit7

Também isso explica porque os alunos e admiradores de Olavo de Carvalho são chamados de Olavetes. Como poderia se dizer que existem no país “Chauietes”, “Saderetes”, “Faustete”, “Lamounierete” ou qualquer outro? Quanto a Olavo, tanto tempo educando e treinando pessoas para o conhecimento, para sua estrutura de ensinamento e aprendizado faz até com que fique bem claro quando estamos diante do texto de algum de seus “discípulos”, tamanha é a discrepância nas citações e estilo em relação àqueles que estamos acostumados a ler. Outro produto desta “diferença” entre os seus alunos e outros pensadores ou opinadores do país é que quem segue os ensinamentos de Olavo de Carvalho tem plena consciência dessa diferença, faz questão de evidenciá-la.cit8

Voltando ao livro, uma das características nos textos muito presente e que explica a má-fama de Olavo fora do círculo de seus seguidores é aquilo que seus detratores chamam de virulência em seus artigos. Não são raros trechos como  “Até um retardado mental”, “Qualquer ignorante”, “qualquer imbecil é capaz”, “é preciso ser muito sonso para não notar”. Num país extremamente violento no cotidiano mas acostumado a etiquetas pretensamente elevadas no trato entre superiores, isso fere a sensibilidade e afugenta. Nada mais falso e fácil de macaquear do que essa educação de bons modos apaziguadora e bajulante.cit9

São muitos os temas abordados e, mesmo assim, é praticamente impossível encontrar contradições entre as opiniões e princípios defendidos. Mesmo quando fala do predomínio de uma “elite bilionária fabiana e globalista” e mais à frente em outros artigos cita os três grandes agentes da história mundial atualmente – a saber: as elites governantes da Rússia e da China, a elite financeira ocidental e a fraternidade muçulmana, que é composta por lideranças religiosas e governamentais espalhadas pelo mundo – há coerência. Para se entender essas hipóteses, comumente qualificadas por aí como paranóicas ou teorias da conspiração, é necessário um pouco mais de atenção e paciência ao longo dos artigos. Ainda assim, mesmo quando se duvida ou discorda, há que se reconhecer a unidade lógica que torna o raciocínio muito mais provável do que passadas superficiais pelo tema indicariam.cit10

Os menos reveladores e inspirados artigos do livro são aqueles em que Olavo de Carvalho trata da política nacional. É claro que ele não se dedica muito a isso, o que também é natural diante de tanta repetição e padronização nos fatos e comportamentos. Em um artigo, troca o nome de um programa marcante do Governo Federal (fala em “Fome Zero” quando o correto seria “Bolsa Família”), em outro faz um paralelo incorreto para tratar do auxílio-reclusão. Ainda assim, mesmo nos seus artigos mais antigos estão antevistos muitos caminhos confirmados pela ação do Governo.

cit11Adiantando para a conclusão dessa longa resenha, é necessário retomar o ponto inicial dela, da batalha entre a construção da imagem pública entre o ator e seus críticos. Para quem como eu já conhecia Olavo de Carvalho mas não o acompanha com tanta frequência, o livro apresenta-se como um convite fortíssimo para estar mais atento ao que ele produz. De certa forma também provoca arrependimento por, lá atrás, pelos idos de 2001 e 2002 quando comecei a descobrir Olavo, não ter ido adiante nos estudos indicados, não ter seguido nenhum dos cursos desde então. Os chamados da vida prática não me permitiam seguir à época com rigor no universo de conhecimento desbravado pelo professor para seus alunos. Para os alunos mais frequentes de Olavo, o livro não traz nada de novo mas deve ser lido pela ótima edição e utilidade da divisão dos artigos por temas. Para quem chama Olavo de Carvalho de paranóico, louco e tantas outras ofensas comuns entre os detratores, o livro não servirá para muita coisa além de provocar-lhes ainda mais ódio e aumentar o fosso que separa suas opiniões do conhecimento da obra do ofendido. Para quem nunca ouviu falar de Olavo de Carvalho, será difícil não ser conquistado pela ótima sequência inicial de artigos, especialmente a seção já não tão no início de nome “POBREZA”, o mais belo momento de surpresa e descoberta que tive no livro.

Ao fim, o livro servirá para ajudar Olavo naquilo que tanto tem se dedicado. Seja como filósofo, professor ou polemista, o devolverá às prateleiras dos mais vendidos, o apresentará a novos leitores e abrirá a mente de muitas pessoas para todo seu trabalho. Será inevitável vermos análises do livro de Olavo de Carvalho em redações que de tudo fazem para ignorá-lo. Diante da crise cultural que nos assola, Olavo sabe bem que períodos assim se sucedem, já ocorreram na história e somente poucos têm coragem para lutar contra a opressão das maiorias ensandecidas, autoritárias e  orgulhosas da própria ignorância. Fazer esse resgate é um desafio imenso e inglório, que se faz pacientemente, passo-a-passo, por muitos anos, conseguindo um espaço aqui, ajudando um estudante ali, apresentando possibilidades para o maior número de pessoas… Citando Croce, “o filósofo, o historiador e o homem que é filosófica e historicamente instruído e disciplinado reconhecem e distinguem a hora de saber e a hora de fazer; sabem, como quaisquer outros homens, quando devem arriscar suas próprias pessoas como homens práticos e, ao recusar-se a falsificar a escrita da história, transformando-a em uma luta prática, eles se recusam de modo semelhante a falsificar a luta prática, transformando-a em historiografia e dando a eles próprios e a outros um álibi covardemente moral”. Olavo de Carvalho acredita no que conhece e se dedica com afinco a passar isso adiante. É um trabalho louvável que este livro serve para sintetizar e, por isso, é indispensável.

Avaliacao

OUTRAS NOTAS:

O preço: Aqui e ali, alguns reclamaram do preço do livro, um pouco acima da média de livros pop. Creio que a análise é incorreta pois o livro tem mais de 600 páginas, o que também está muito longe da curva dos livros campeões de venda, e o espaçamento das linhas e caracteres é mínimo, ou seja, o número de páginas não é inflado por artimanhas. Não se deve pensar no preço do livro comparando-o a um livro popular comum, mas no mínimo a “um livro e meio” ou a “dois livros” populares. É um preço justo.

O lançamento: Para azar dos editores, o livro foi lançado na mesma semana em que chegavam dois campeões de vendas no segmento não-ficção do Brasil: Laurentino Gomes e Edir Macedo. Para complementar, estreou o livro de um “webstar” brasileiro que trabalha também na TV. Mesmo assim o livro estreou entre os 10 mais de todas as mais importantes listas de livros mais vendidos do país.

Os trechos: Selecionei 25 trechos do livro para destacar nessa resenha. Como não tinha como encaixá-los num contexto lógico junto à crítica, resolvi destacar 10 deles aleatoriamente em meio ao texto.

Resenha: Guia politicamente incorreto da história do mundo

Nos últimos 10 anos pudemos assistir a reinvenção do Brasil. Se ontem éramos oprimidos pelo grande capital internacional, hoje – segundo os detentores da narrativa dominante – somos soberanos. Com isso, deixamos de lado dados incômodos e passamos a viver no mundo da fantasia narrativa.

Todos sabemos que o desemprego está em um dos seus patamares mais baixos, segundo o IBGE. O que pouca gente sabe é que o método de cálculo foi alterado, e, se usássemos o padrão da U.E. nosso desemprego ultrapassaria os 20% (desde 2003 diga-se).

Todos sabemos que o grande governo popular pagou nossa dívida com o F.M.I.. O que pouca gente sabe é que nossa dívida externa aumentou em quase US$ 100 bilhões nos últimos 10 anos, sendo que a dívida pública federal ultrapassou R$ 2 trilhões! A tudo isso soma-se o fato de o Brasil ter despencado em rankings internacionais de educação, infraestrutura e qualidade de vida.

Nenhuma dessas omissões é gratuita. Essa estratégia tem a intenção de calar a voz do opositor, negando-lhe participação na narrativa da história, afinal, quem é que vai fechar os olhos para os INEGÁVEIS avanços da última década? Inegáveis? É aí que está a importância da saga dos “Guias politicamente incorretos da história” de Leandro Narloch.

Quando Narloch lançou o “Guia politicamente incorreto da história do Brasil” conseguiu irritar muita gente. Resgatou, por exemplo, o grande sociopata  Luis Carlos Prestes, que com sua “Coluna Prestes” deixou rastros de destruição, estupros e assaltos por onde passou. Além do assassinato ordenado por ele de uma garota de 16 anos.

Zumbi? Tinha escravos, capatazes e mandava assassinar quem não aguentasse viver no Quilombo dos Palmares.

Luta armada? Nenhum grupo guerrilheiro tinha o objetivo de lutar pela democracia. E em pelo menos 14 organizações era explícito, em seus estatutos, o desejo de um regime ditatorial de partido único.

Com o “Guia politicamente incorreto da história da América Latina” o embaraço ficou com a revelação de que o caudilho Perón era pedófilo, logo ele, o avô do kirchnerismo. Foi divertido descobrir que o Brasil também possuía os seus peronistas.

Todas as passagens dos livros são referenciadas com fontes e contexto histórico. Diminuir a importância do livro pelo fato de o autor não ser historiador tem nome: canalhice.

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Guia politicamente incorreto da história do mundo

De Galileu a Gandhi, da Revolução Industrial a Maio de 68, o autor elege bem os mitos influentes contra os quais lutará. As narrativas contra as quais Narloch se insurge são bichos-papões consolidados que engolem os alunos brasileiros.

Nessa insurgência opera uma lógica elementar, que passo-a-passo encadeia elementos no tempo-espaço e demonstra a conexão causal dos fatos narrados, demolindo os Frankensteins históricos.

Ao listar bizarrices dos regimes comunistas, o livro encontra uma de suas boas vocações, a de ser amplificador do terror que milhões de seres-humanos sofreram na mão dos tutores da humanidade. Sem precisar argumentar, os fatos são de uma claridade atroz.

O livro expõe casos de ditaduras africanas sem deixar de lado seu contexto anterior de colonialismo e escravidão, mas deixa de dizer que muito colonialismo e muita escravidão ocorreu sem a participação dos europeus, lista absurdos de ditadores reais e mostra que a destruição da África também possui a digital de líderes africanos.

Justapõe as expectativas de vida antes e depois da Revolução Industrial, constata o aumento, e pra quem sabe ler números, demonstra que a qualidade veio junto com a quantidade, conclui acertadamente que a mecanização foi a melhor coisa que poderia ter acontecido aos pobres.

Lista o número de pessoas a quem a comida com fitofarmacêuticos alimenta hoje, para mostrar quanta gente estaria faminta caso o mundo ainda dependesse da agricultura orgânica familiar. Sem contar a quantidade de árvores salvas devido a grande produtividade por hectare comparado.

Arrola fundamentais coincidências na linguagem sobre o Estado nos textos nazistas e comunistas para expor semelhanças entre os dois.

E assim por diante, em operações resultantes de um penoso trabalho de pesquisa, o livro termina sendo um incômodo para quem se propõe a combatê-lo.

Como sempre ocorre quando o epíteto “politicamente incorreto” é usado, a reação dos “politicamente corretos” confunde apreço histórico com militância sem visão amparada na luta de classes. O livro apresenta versões marginais da história, que explícita os interesses dos poderosos marxistas culturais.

Daí se conclua que o livro deva ser motivo de interesse. Pelo talento narrativo do autor, deve incomodar um tipo bem conhecido nosso, o do intelectual comentarista de portais da internet.

REAGANS

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