Resenhas

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Um País Partido, de Marco Antonio Villa

Um País PartidoMarco Antonio Villa tem uma impressionante capacidade de escrever muitos livros bons em pouco tempo. Depois de Mensalão, Década Perdida e Ditadura à Brasileira, o mais recente é Um País Partido – 2014: A Eleição Mais Suja da História.

Villa começa relatando brevemente todas as vinte e nove eleições da República antes de 2014. Dessas, oito foram indiretas: a primeira, de Deodoro da Fonseca, em 1891, a de Getúlio Vargas, em 1934, e as seis da ditadura militar. Certamente, nenhuma das vinte e nove foi tão disputada como a de 2014.

A narrativa da eleição atual começa em fevereiro, com o início do ano legislativo e do ano judiciário. Dilma trocou alguns ministros por causa das eleições. Em março, foi divulgado o escândalo da compra da refinaria de Pasadena pela Petrobras. Em 30 de abril, a presidente ocupou uma rede nacional de rádio e televisão, por ocasião da véspera do Dia do Trabalho, para fazer propaganda de seu governo. Anunciou um aumento de 10% nos valores do Bolsa Família e a correção da tabela do imposto de renda. A Justiça Eleitoral não se incomodou com isso.

Em julho, o Banco Santander divulgou a uma parcela de seus clientes uma avaliação pessimista da conjuntura econômica do Brasil relacionada à perspectiva de vitória de Dilma. Lula e o PT exigiram a demissão dos autores dessa avaliação. O Santander cedeu. Em seguida, o PT reclamou ao Tribunal Superior Eleitoral contra textos de propaganda da consultoria Empiricus, com o mesmo tipo de opiniões. Conseguiu proibir a divulgação dos anúncios.

Os escândalos não paravam. A revista Época mostrou que uma nora de Lula e a esposa do deputado cassado e condenado pelo mensalão João Paulo Cunha eram funcionárias fantasmas do SESI. A Veja divulgou que as perguntas feitas aos diretores da Petrobras na CPI, incluindo a presidente Graça Foster, foram combinadas previamente. Num movimento inédito de uso da máquina pública a serviço de interesses particulares, o Advogado Geral da União, Luís Inácio Adams, foi ao Tribunal de Contas da União fazer uma defesa da presidente da Petrobras.

Villa narra detalhadamente as entrevistas de Aécio Neves e Eduardo Campos ao Jornal Nacional, com grande pressão dos entrevistadores sobre os candidatos.

Voltando da entrevista, aconteceu a grande tragédia da eleição, o acidente fatal com o avião de Eduardo Campos. Marina Silva é escolhida a nova candidata do PSB. Em vez de Dilma ir ao Jornal Nacional, o Jornal Nacional vai até ela, entrevistando-a no Palácio do Alvorada, em condições vantajosas em relação a seus adversários.

Com o início do horário eleitoral gratuito, Marina disparou nas pesquisas. Aproveitando-se do bom momento, a candidata do PSB fez várias exigências e entrou em polêmicas com membros históricos do partido. Vários deles abandonaram sua campanha. Descobriu-se que a situação do avião que transportava Eduardo Campos era completamente irregular. Marina foi bastante questionada por isso, especialmente em sua entrevista ao Jornal Nacional, e sempre se esquivou do assunto.

Como Villa conta cada lance da eleição em ordem cronológica, intercalando com os resultados de cada pesquisa eleitoral, estamos sempre acompanhando a evolução do processo. Vêm os rumores da delação premiada de Paulo Roberto Costa, depois as notícias, depois a delação de Alberto Youssef. Villa fala sobre cada debate do primeiro turno, com a participação preponderante dos candidatos nanicos.

A campanha do PT faz acusações violentas e infundadas contra Marina Silva. Isso dá resultado. Dilma começa a se recuperar e Marina a cair. Aécio tem uma recuperação lenta, mas contínua.

Dilma defendeu o diálogo com o Estado Islâmico, que decapita, estupra e fuzila em massa suas vítimas. Foi criticada por isso, mas a maior parte da população desconhece totalmente esse assunto. Marina, por sua vez, elogiou o impopular prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, como um exemplo de nova liderança.

Acontece o primeiro turno e, contrariando as pesquisas, Aécio tem grande vantagem sobre Marina e passa para o segundo turno. Consegue os apoios do PSB, de Renata Campos, viúva de Eduardo Campos, e de Marina Silva. Nas primeiras pesquisas, está à frente de Dilma. Com os ataques contínuos do PT, cai um pouco e Dilma passa à frente.

Villa narra cada um dos debates e publica na íntegra o último, na Globo. É muito interessante ter esse documento. Não nos esqueceremos de Dilma recomendando que uma economista desempregada fizesse um curso técnico no Pronatec. Nem da fala de Aécio: “Existe uma medida que está acima de todas as outras e não depende do Congresso Nacional. Para acabarmos com a corrupção no Brasil, vamos tirar o PT do governo.”

Villa relata o resultado final da eleição e acrescenta alguns comentários. Este trecho vale o livro:

«E mais uma vez, caso único na nossa história, tivemos como protagonista de uma eleição presidencial — pela sétima vez consecutiva — Luiz Inácio Lula da Silva. Ele representa o que há de mais atrasado na política brasileira. Tem uma personalidade que oscila entre Mussum e Stálin. Atacou as elites — sem defini-las — e apoiou José Sarney, Jader Barbalho e Renan Calheiros. Falou em poder popular e transferiu bilhões de reais dos bancos públicos para empresários aventureiros. Fez de tudo para que esta eleição fosse a mais suja da nossa história. E conseguiu.

Sob o seu domínio — mais que liderança — o PT desmoralizou as instituições. A compra de maioria na Câmara dos Deputados, que deu origem ao processo do mensalão, foi apenas o primeiro passo. Tivemos a transformação do STF em um puxadinho do Palácio do Planalto. O Executivo virou um grande balcão de negócios e passou a ter controle dos outros dois poderes. Tudo isso foi realizado às claras, sem nenhum pudor. E teve influência direta no resultado da eleição de 2014.»

Quando Villa diz que esta foi a eleição mais suja da história, não posso deixar de me lembrar de que quase todas as eleições indiretas foram completamente manipuladas. Mas acho que ele se refere ao nível de ataques infundados contra adversários e de transgressões impunes à legislação eleitoral. É curioso que ele não diga nada sobre o uso político dos Correios na eleição que, se comprovado, resultaria na cassação dos mandatos de Dilma e de Michel Temer. Também não diz nada sobre as suspeitas contra as urnas eletrônicas e os relatos de problemas com elas, no primeiro e no segundo turnos.

Independentemente disso, Um País Partido é um grande livro, para ler e guardar.

Violência e Armas, de Joyce Lee Malcolm

Violência e ArmasFoi lançado recentemente no Brasil, pela Vide Editorial, Violência e Armas: A Experiência Inglesa, da Dra. Joyce Lee Malcolm, com apresentação de Bene Barbosa. No dia do lançamento, Bene deu uma palestra muito interessante. O livro é um estudo bastante abrangente da história da criminalidade e do controle de armas na Inglaterra e no País de Gales, levantando dados desde o século 13 até o final do século 20. A Inglaterra possui registros bem preservados sobre crimes e julgamentos desde a Idade Média. Também possui uma das legislações mais restritivas a armas em países democráticos. Portanto, é um excelente objeto de estudo para quem se interessa pela relação entre a criminalidade e a difusão das armas entre a população civil.

A Dra. Joyce, americana, professora da Universidade de Harvard, historiadora especializada no Império Britânico e na América Colonial, pesquisou as mudanças na legislação criminal inglesa, incluindo a evolução do conceito de legítima defesa, as normas referentes a armas brancas e de fogo e o custo das armas comparado à renda dos cidadãos comuns.

No século 13, ainda não havia armas de fogo. A criminalidade era alta, com taxas de homicídio entre 18 e 23 casos anuais por 100.000 habitantes. Esses números provavelmente são subestimados. A legítima defesa era reconhecida pela lei comum (common law). Porém, existia a necessidade de que quem fosse agredido tentasse fugir antes de recorrer à violência para que o caso fosse considerado legítima defesa. Havia algumas exceções. Por exemplo, matar um criminoso em fuga não era considerado homicídio. Não existia polícia. Todos os cidadãos eram obrigados a colaborar para a prevenção dos crimes e a captura dos criminosos.

No final do século 16, as armas de fogo se tornaram comuns entre os ingleses. As leis criminais foram endurecidas e seu alcance foi ampliado. Por outro lado, mais situações passaram a ser consideradas como legítima defesa. Ao final do século, a taxa de homicídios estava em torno de 10 casos anuais por 100.000 habitantes.

O século 18 estabeleceu a legislação mais dura da história da Inglaterra. Com a Lei Negra, praticamente qualquer tipo de crime levava à forca. Possuir armas continuou não sendo crime. Em 1800, as taxas de homicídio estavam chegando a 3,5 casos anuais por 100.000 habitantes.A Revolução Francesa causou grandes preocupações ao governo inglês. Temia-se tanto uma tentativa de invasão das Ilhas Britânicas pela França como o surgimento de movimentos revolucionários dentro do Reino Unido. Houve iniciativas de coibir a posse de armas que pudessem ser usadas ilegalmente, mas isso não prosperou e as armas continuaram livres. No início do século 19, foi criada a polícia. Ela atuava desarmada, porque os ingleses temiam que ela fosse um instrumento de tirania. Somente os cidadãos podiam estar armados. A Dra. Joyce conta um incidente ocorrido, já no século 20, em 1909, conhecido como Tottenham Outrage, no qual policiais perseguindo assaltantes tomaram emprestadas as armas de quatro civis. Outros cidadãos armados cumpriram seu dever de lutar contra o crime juntando-se à perseguição.

O século 19 terminou com 1,5 homicídios anuais por 100.000 habitantes.

No século 20, o governo decidiu trabalhar, de maneira paciente e constante, para desarmar a população. A partir de uma primeira lei praticamente inócua em 1903, foram implantadas outras cada vez mais restritivas em 1920 e 1937, até que, em 1953, as armas foram banidas. Daí em diante, somente os criminosos estão armados. O livro explica bem como isso aconteceu, mas não diz exatamente por quê. Esse processo foi conduzido por sucessivos governos trabalhistas e conservadores. Da mesma maneira, o conceito de legítima defesa foi sendo cada vez mais limitado, até que fosse quase que completamente abolido. São narrados alguns casos assustadores de pessoas condenadas por homicídio por se defenderem de agressões que ameaçaram gravemente a vida delas.

A criminalidade cresceu de maneira consistente desde que as armas legais começaram a ser reprimidas. A Inglaterra tornou-se um lugar mais violento que os Estados Unidos. O livro termina com uma comparação entre a situação dos dois países. Cita o estudo do economista John Lott sobre as diferentes legislações de armas nos Estados Unidos e seu efeito sobre a criminalidade, concluindo que a liberdade de possuir e portar armas, inclusive escondidas, têm um efeito claro e demonstrável de coibir a criminalidade e a violência.

Senti falta de mais gráficos, especialmente das taxas de crimes ao longo da história ou, pelo menos, no século XX. O livro é uma fonte preciosa de informações para quem se interessa por combater a criminalidade e pela questão da proibição ou não da posse e do porte de armas. Mostra claramente que as restrições criadas na Inglaterra não tiveram o controle da violência como motivação e foram implementadas de maneira subreptícia, sem discussão com a sociedade e contrariando a tradição, a experiência e a lógica. Seu efeito foi totalmente negativo em todos os índices de violência e criminalidade. Excelente leitura.

Não é a mamãe, de Guilherme Fiuza

Não-é-a-Mamãe-livroLer Não é a mamãe: para entender a Era Dilma, de Guilherme Fiuza, foi um prazer masoquista muito semelhante ao que senti com Década Perdida, de Marco Antonio Villa. Foi até um pouco pior, porque li depois do resultado das eleições. Cada crônica é uma tragédia, uma oportunidade perdida pelo país. Sabemos que continuamos perdendo oportunidades todos os dias. Em cada coluna, a fina ironia nos força a rir das nossas desgraças.

O livro traz textos publicados em O Globo e na revista Época sobre a candidata e a presidente Dilma, do início de 2010 à metade de 2014. Cobre toda a primeira campanha eleitoral e quase todo o primeiro mandato. Como é possível que os brasileiros tenham escolhido uma figura tão vazia para o cargo eletivo mais importante do país? Como é possível que tenham tolerado bovinamente avalanches sucessivas de escândalos de corrupção e dado à presidente índices de popularidade estrondosos?

As crônicas expressam esse espanto. Em 2010, Dilma demonstra em um Congresso do PT sua total incapacidade de falar. Sua mediocridade é tamanha que os próprios militantes têm dificuldades de defender sua candidatura, mais ainda de se empolgar com ela. Repetidos crimes eleitorais acontecem, para os quais a Justiça Eleitoral faz vista grossa ou dá punições insignificantes. A campanha se desenvolve sobre mentiras. Emblemática da picaretagem é a apropriação da imagem de Norma Bengell na Passeata dos Cem Mil.

O blog oficial de Dilma Rousseff pegou esta foto:

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Tonia Carrero, Eva Wilma, Odette Lara, Norma Bengell e Ruth Escobar na Passeata dos Cem Mil

e fez esta montagem:

dilma-falsa-biografia

Guilherme Fiuza ressalta que Dilma é apresentada como uma heroína feminista, enquanto, na verdade, é o exemplo claro e acabado de uma mulher subalterna e subserviente a um homem que se comporta como seu dono. Dilma foi escolhida candidata porque Lula assim determinou. Em nenhum momento ela expressou qualquer opinião própria. O epíteto perfeito para uma pessoa sem conteúdo, segundo o autor, é “Mãe do PAC”. A expressão criada por Lula não significa nada e Dilma também não. “Não é a mamãe!”, diria o Baby Sauro.

Dilma é eleita e, no primeiro ano de governo, sete ministros caem. Seis por corrupção. Fernando Pimentel deveria ter sido o sétimo. Porém, Dilma conseguiu segurá-lo no cargo, enquanto preparava sua candidatura ao governo de Minas Gerais. Lamentavelmente, sabemos que ele conseguiu se eleger.

Em 2012, surge o escândalo envolvendo Rosemary Noronha. Fiuza a chama de “a mulher do ano”. “Por que só Dilma é ícone feminino, se Rosemary mostrou ser um prodígio da mesma escola?” Enquanto isso, Ricardo Lewandowski e José Antonio Dias Toffoli formam a dupla Batman e Robin do PT no Supremo.

O livro inclui a coluna Lula privatizou a si mesmo, sobre o pedido do Ministério Público Federal à Polícia Federal para que fosse aberto um inquérito contra Lula, com base na denúncia de Marcos Valério de que o ex-presidente teria intermediado um repasse de sete milhões de reais de uma operadora de telefonia para o PT. Publicada em julho de 2013, motivou um processo do PT contra Fiuza, por danos morais. Recentemente, o PT propôs uma audiência de conciliação sobre o caso, mas o jornalista não aceitou.

O livro segue com os protestos de 2013, a Primavera Burra, com os rolezinhos e com a morte de Santiago Andrade. Fiuza convida a Ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, a trocar as lentes dos seus óculos num shopping socialmente ocupado por um rolezinho. O “Brasil bonzinho”, que tolera arruaças de boçais mascarados, foi o responsável pelo assassinato do cinegrafista da Band. “Deputados bonzinhos, intelectuais do bem e artistas antenados gritaram alto pela liberdade dos presos em manifestações.” “Esse Brasil progressista que matou Santiago se permitiu hesitar diante da afronta ao estado de direito. Confundiu atentado com protesto e resolveu (embora jamais vá confessar isso) relativizar a violência. Assassino.”

Guilherme Fiuza previu que Dilma seria reeleita. Ainda estou tentando entender como ou por quê. Seja como for, precisamos defender a liberdade que ainda temos.

Memórias do Subsolo, de Fiódor Dostoiévski

Os Melhores Contos de DostoiévskiMemórias do Subsolo, de Fiódor Dostoiévski, não é uma obra fácil. É curta, pouco mais de cem páginas. Mas é muito densa. Não recomendo ler num ambiente desfavorável à concentração.
O narrador sem nome, o Homem do Subsolo, é um personagem profundamente atormentado. Muda de idéia o tempo todo, corrige o que acabou de dizer, confessa que mentiu. Na primeira parte, falando do seu tempo presente, nos conta que tem quarenta anos, está doente, abandonou um cargo público humilde porque recebeu uma herança modesta e vive isolado da sociedade. Conhecemos sua visão de mundo. É culto, instruído, inteligente. Tem um profundo desprezo pelas pessoas e pela sociedade, mas tem um desprezo maior por si mesmo, pelo fracasso de sua vida. Na segunda parte, narra três histórias que aconteceram com ele catorze anos antes, e que ilustram suas dificuldades em se relacionar com as pessoas.
Temos vontade de voltar a São Petersburgo de 1860 e socar o Homem do Subsolo. Como ele pode ser tão idiota? Como pode dar tanto valor ao que é irrelevante e prejudicar tanto a si mesmo e aos outros?
Porém, não temos como discordar de parte das idéias que ele defende. E defende em seus atos, de maneira especialmente dolorosa para si mesmo, embora possamos perceber que ele sente satisfação em sofrer. O Homem do Subsolo faz talvez a melhor defesa que eu já vi do livre-arbítrio. O ser humano pode saber o que é melhor para si mesmo, mas desejar o que é pior. Como diz Ovídio, nas Metamorfoses, “video meliora proboque deteriora sequor”. “Vejo o que é melhor e o aprovo, mas persigo o que é pior.” E o Homem do Subsolo afirma radicalmente o direito de se perseguir o que é pior. Nestes tempos em que a Alana quer proibir as propagandas de bolacha, os ovos de Páscoa com brindes e o McLanche Feliz, precisamos ler Memórias do Subsolo.
Lembrei-me do personagem F. Alexander, de A Laranja Mecânica, de Anthony Burgess. Ele escreve um livro num estilo extremamente pedante, também chamado A Laranja Mecânica, no qual defende o livre-arbítrio e, em seguida, sua família é atacada violentamente por Alex, que personifica a aplicação de suas idéias. Mas ele está certo e exprime exatamente o pensamento de Anthony Burgess. O Homem do Subsolo faz mais ou menos a mesma coisa com as idéias de Dostoiévski.
Memórias do Subsolo foi escrito em resposta a O Que Fazer?, de Nikolai Tchernichévski, um autor comunista que influenciou Marx. Tolstói e Lênin escreveram obras também intituladas O Que Fazer?, por causa do livro de Tchernichévski. O título é uma citação de Lucas 3:10-14. O fato do título de um livro de Lênin vir do Evangelho é uma demonstração da frase de Shakespeare em O Mercador de Veneza, de que até o Diabo pode citar as Escrituras para seus objetivos.
Só li Memórias do Subsolo uma vez. Preciso ler novamente, para comparar o que o Homem do Subsolo diz na primeira parte com o que sei agora da segunda. Quero procurar também o livro de Tchernichévski. Na verdade, Dostoiévski dá uma grande vontade de sair pesquisando a literatura russa.

Cinqüenta Anos Esta Noite, de José Serra

Cinqüenta Anos Esta NoiteJosé Serra lançou recentemente o livro Cinqüenta Anos Esta Noite: o Golpe, a Ditadura e o Exílio. Conta toda a sua experiência traumática de líder estudantil, cujo curso e cujos projetos pessoais e políticos foram interrompidos bruscamente pelo golpe de 64.

Li seu relato com grande curiosidade e, para falar a verdade, com grande espanto. Nasci sete anos depois do golpe. Quando comecei a me interessar por notícias, a anistia já era uma realidade. Provavelmente, fui prestar atenção em Serra quando ele se candidatou a prefeito de São Paulo, em 1988. Conhecia muito pouco de sua carreira como líder estudantil.

A primeira coisa que me chocou foi a reunião, que abre o livro, entre o presidente João Goulart e os dirigentes da Frente de Mobilização Popular (FMP), em um apartamento em Ipanema, num domigo de outubro de 1963. Quem conduz a reunião é Leonel Brizola, que liderava a ala radical da FMP. A ala moderada era ligada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). José Serra, presidente da UNE, com 21 anos, disse a Jango:

“— Presidente, nós defendemos que o pedido de estado de sítio seja retirado. Ele vai suprimir as garantias constitucionais e fortalecer a direita. Vai acabar se voltando contra o povo, contra o seu governo e contra o senhor mesmo.”

É um fato completamente exótico que o presidente da República participe de uma reunião secreta com representantes de organizações regulares e clandestinas para discutir a suspensão da ordem constitucional.

Pelo que Serra conta ao longo do livro, ele certamente não estava preparado, aos 21 ou 22 anos, para dar opiniões embasadas sobre a organização política nacional. Mas fazia isso com desembaraço. Tinha se mudado de São Paulo para o Rio de Janeiro para presidir a UNE. Tinha parado de assistir aulas do curso de engenharia na Poli e voltava a São Paulo apenas para fazer provas e visitar a família. É recebido por Jango para discutir assuntos políticos e educacionais. É convocado pelo Congresso para explicar as atividades da UNE. Discursou no Comício da Central, em 13 de março de 64.

Seis dias depois desse comício, houve a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Serra reconhece que a maioria das pessoas que participou desse ato foi de boa-fé, com medo das ameaças de comunismo que rondavam o Brasil. Conheço gente apolítica que esteve na Marcha, achando que era um tipo de procissão. Serra está convencido que essas pessoas temiam uma ameaça irreal. Não tenho a mesma certeza. Menciona grupos paramilitares de direita e diz que não havia paramilitares de esquerda. Minimiza a importância das Ligas Camponesas de Francisco Julião e dos Grupos dos Onze de Brizola. Não tenho conhecimento suficiente para avaliar essa questão. A sensação que tenho é que a ordem institucional estava sendo claramente ameaçada pelos dois lados. Talvez a esquerda de fato não tivesse força para ser vitoriosa em um golpe. Mas me parece claro que setores importantes dela tinham essa intenção e que as pessoas tinham motivos para ter medo.

É evidente que a ditadura militar brasileira foi uma violência sem tamanho contra toda uma geração de brasileiros. Ninguém deveria ter sido obrigado a fugir do Brasil. Ninguém deveria ter sido preso sem o devido processo legal. Ninguém deveria ter sido torturado, morto sob custódia, desaparecido. Os militares se aproveitaram da ameaça percebida contra a democracia para tomarem o poder e ficarem por lá por 21 anos, traindo as pessoas que os apoiaram.

Então, ocorre o golpe militar e Serra foge. A UNE foi invadida e incendiada. Muitas pessoas foram presas. Depois de vagar por algum tempo sem saber direito para onde ir, Serra se refugia na Embaixada da Bolívia. Muitos outros refugiados passam por lá e, rapidamente, conseguem o salvo-conduto para saírem do Brasil. Ele fica por 80 dias, mas finalmente consegue ir para a Bolívia e, de lá, para a França. Conseguiu uma bolsa em uma universidade francesa, mas passou pouco tempo por lá. Antes do final de 64, falsificou um passaporte brasileiro e, em janeiro de 1965, voltou para a América, para o Chile, com o documento falso. Passando pela Argentina e pelo Uruguai, entrou clandestinamente no Brasil, em fevereiro. Quem o ajudou a cruzar a fronteira foi Brizola, que tentava organizar uma resistência armada ao regime, a partir de Santa Catarina. Quem o ajudou no Uruguai foi Andrés Cultelli, que Serra diz ter sabido depois que era um dos líderes do Movimento de Libertação Nacional, os Tupamaros. Cultelli participou do assassinato de um agente da CIA em Montevidéu. Serra se espanta em descobrir que o “homem cordial e paciente” que o recebeu era um líder Tupamaro.

Escondido em São Paulo, Serra foi ajudado por dois companheiros da Ação Popular (AP), Egídio Bianchi e Sérgio Motta. Em março, houve uma reunião nacional da AP em São Paulo. Serra queria ir. Os companheiros pediram que ele não se arriscasse e foram à reunião no lugar dele. O Dops interrompeu o evento e prendeu todo mundo. Bianchi e Motta passaram nove dias na prisão, mas não foram torturados. A polícia apreendeu uma pasta de Bianchi, com a correspondência cifrada que ele mantinha com Betinho (Herbert de Souza) e Aldo Arantes, exilados no Uruguai. Os papéis mencionavam contatos com Brizola, que tentava montar uma guerrilha de padrão cubano. A polícia não entendeu os textos cifrados e não deu importância à papelada. Serra resolveu sair novamente do Brasil e foi para o Chile.

No Chile, estudou economia. Conseguiu uma graduação, dava aulas, conheceu sua esposa e teve dois filhos. Trabalhou para o governo chileno.

Sobre o governo de Salvador Allende, Serra narra as arbitrariedades cometidas contra diversos setores da economia e reconhece parte dos erros de Allende. Mas também acusa a oposição de tentar inviabilizar o governo dele. Se o que ele narra acontecesse em meu país e eu fosse a oposição, também tentaria inviabilizar um governo que cometesse aqueles absurdos.

Em agosto de 1973, Serra foi a Moscou, a convite da Federação Mundial da Juventude. Lá, num encontro com Luís Carlos Prestes, ficou sabendo que o general Pinochet havia substituído Carlos Pratts no comando do Estado-Maior das Forças Armadas chilenas. Voltou ao Chile acreditando que logo haveria um golpe, mas não conseguiu sair do país com sua família antes que ocorresse. Ficou seis meses na Embaixada da Itália, até obter um salvo-conduto para deixar o país, em maio de 74. Morou nos Estados Unidos até 1977. Nesse momento, a abertura estava em andamento no Brasil e ele voltou para cá. Chegou a ser interrogado algumas vezes, mas não foi realmente perturbado pelo regime militar a partir de então.

Percebo, nas opiniões expressas por José Serra por todo o livro, que as opiniões dele são diferentes das minhas sobre quase todos os assuntos. Ele é um homem de esquerda, que tem uma visão de esquerda sobre qualquer questão política e econômica. Não é marxista e não apoiou o regime da União Soviética, mas sempre defendeu a intervenção do Estado na vida das pessoas. Gostaria que os meus prezados amigos de esquerda, com quem tenho o prazer de debater, lessem este livro e me contassem em que pontos discordam do autor. Não diferencio o que ele diz do que eles dizem.

O que vou dizer agora vai soar desrespeitoso, mas não posso evitar. Considero Serra um homem sério e acho que seus governos no Município e no Estado de São Paulo foram excelentes. Considero-o um grande administrador. Acho que ele conseguiu seu objetivo no exílio, de ser um dos políticos mais preparados de sua geração. Porém, por todo o livro, ele está sempre se encontrando com comunistas, com terroristas, com guerrilheiros. Acho que ele não tentou de fato participar da luta armada. Mas não vejo uma expressão mais clara de arrependimento ou repúdio por esses contatos, por voltar clandestino ao Brasil, pelas atividades de Betinho ou de Brizola. Não consigo deixar de lembrar do personagem de Casseta e Planeta, o Wanderney, que estava sempre em uma sauna gay com o Peludão, mas declarava aos brados: “— Estou aqui, mas eu não sou gay! Eu não sou gay!”

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