Resenhas

@reaconaria

“Sobre o Islã”, de Ali Kamel

“Diante desse quadro, é cada vez mais necessário usar as palavras certas. Os radicais do Islã não são perigosos porque são fanáticos, porque são “fundamentalistas”; eles são perigosos porque são totalitários. O que os define não é a religiosidade ou o fanatismo, mas a intenção de nos impor uma verdade que não é a nossa, de nos submeter a regras que nos desumanizam, de nos privar daquilo que nos define como homens: a nossa consciência e a nossa liberdade. Devem ser chamados pelo nome certo: os totalitários do Islã”

sobreoislaEste é o ponto crucial do livro “Sobre o Islã – A afinidade entre muçulmanos, judeus e cristãos e as origens do terrorismo”, lançado em 2007. O trecho acima tem a idéia que fundamenta a criação do livro por Ali Kamel, ou seja, mostrar que o islã não é uma religião de terroristas. Para provar sua tese numa cultura como a nossa Ali Kamel precisa percorrer um longo caminho para explicar o que é esta religião, tão estranha. A ótima escolha do jornalista para apresentar tanta informação é destacar, inicialmente, não o que nos é radicalmente desconhecido mas o que temos de afinidade. Com esta estratégia o islã deixa de ser algo extraterreno em menos de 50 páginas através de paralelos com os livros sagrados das tradições do cristianismo e judaísmo.

A parte que mais chama atenção é aquela que trata da visão muçulmana sobre a passagem de Jesus Cristo. Eles reconhecem o milagre da concepção imaculada, o colocam acima de todos os profetas que o precederam, chamam-no de “Palavra de Deus” , “Mensageiro de Deus” e “o Profeta de Deus”, porém não de Filho de Deus – há dois trechos na Sura que explicam o motivo (Sura 19, 35 e Sura 3,59). Os milagres de Jesus também estão presentes no livro sagrado do islã que coloca sua existência em tamanha importância para a obra divina que afirmam que ele jamais poderia ter morrido, antes jogou sobre todos os presentes uma miragem enquanto ascendia fisicamente ao encontro de Deus, com vida, onde permanece até seu retorno que será quando o mundo estiver em paz, logo após a vitória sobre o Anticristo.

A visão comparada da base das três grandes religiões monoteístas é muito bem conduzida por Ali Kamel que, a julgar pelo livro, não é uma pessoa religiosa. O respeito com que lida com todas faz parecer se tratar de um livro apologético ao islã. Como seria possível pensar diferente se nosso contato com esta religião, quase inexistente no Brasil, só nos pareceu relevante quando seguidores dela começam a ser uma preocupação mundial devido a crimes violentíssimos e assustadores? O islã veio a nossas casas não tentando nos converter (o livro mostra como, pelos textos sagrados, a religião não pode ser imposta a ninguém) mas por imagens traumatizantes: ataques terroristas, populações comemorando os ataques, vídeos de criminosos treinando crianças com armas ou executando o que chamam de infiéis.

Passada a primeira parte do livro continuamos as descobertas com um resumo da história da divisão entre sunitas e xiitas, que vem desde a “sucessão” de Maomé. A terceira parte serve para explicar que o islã não é violento. Para isso Ali Kamel caminha por analogias mais arriscadas ao lembrar da história da Igreja Católica e seus inúmeros papas assassinados, martirizados ou exilados, além da sempre citada Inquisição. Para ele, a visão de religião violenta tem como fundamento o princípio dela, quando sua impressionante expansão se deu por ataques violentos. Aos conquistados era permitido permanecerem fora do islã desde que pagassem impostos muito mais altos, ou seja, manter a sua fé era um sacrifício a que muitos não resistiriam. Isso vai contra o que diz o texto sagrado do Alcorão, como já citado aqui, então pode-se dizer que o que se expandia era o califado, o islamismo como política, não a religião. A questão dos versículos que são usados como justificativa para atos violentos é bem tratada ao contextualizar não apenas quanto às narrativas que se prestavam mas quanto aos textos completos de onde estão inseridos pequenos trechos juntados maliciosamente por Bin Laden ou citados por Paul Johnson – há um longo trecho no livro dedicado à má citação feita pelo grande historiador ao justificar sua acusação de que o islã é essencialmente violento e criminoso. Trechos do Pentateuco são usados para mostrar que vistos sob semelhante olhar malicioso e seguidos à risca eles poderiam levar às mesmas condenações do judaísmo e cristianismo. Esta terceira parte do livro explica, de forma condenatória, a adoção ainda hoje dos véus femininos e trata a questão da inegável misoginia, uma das coisas que mais repúdio nos causa esta religião.

Na quarta parte temos uma rápida reconstrução da história do terrorismo islâmico. Fala-se da origem do termo fundamentalismo (uma releitura e tentativa de viver de acordo com as bases fundadoras do cristianismo) e defende que os terroristas não são “literalistas” na interpretação dos textos sagrados, mas deturpadores dele. É neste capítulo que chegamos à citação usada na abertura deste post. Ibin Taymiyya, Al-Wahhab, Al-Banna e Sayyid Qutb são apresentados para termos uma base da filosofia que deturpa a religião e levou à criação da Al Qaeda e outros grupos terroristas. Já a parte final, a quinta do livro, é a mais ousada em termos políticos ao derrubar várias mentiras repetidas incansavelmente na cobertura da imprensa para a Guerra do Iraque. Mais ainda, Ali Kamel defende a decisão de George W.Bush de derrubar o regime de Saddam Hussein pois ali estava o país mais propenso a abrigar a Al-Qaeda tão logo seu coração fosse desmantelado no Afeganistão, com o agravante de que o Iraque era um país muito mais rico e capaz de danos muito maiores ao resto do mundo caso continuasse sua aproximação com Bin Laden.

O meu total desconhecimento do islã quando li o livro foi fator determinante para a ótima impressão que tenho dele. O mérito da abordagem escolhida por Ali Kamel é inegável, embora ao insistir em analogias ele eventualmente tropece como no caso em que iguala um detalhe da fé que serve para distinguir seguidores de uma divisão da religião (o Imã oculto, Mahdi, que vive há quase mil anos e estaria sendo mantido escondido para que venha governar a Terra até que retornem Jesus, Maomé e Ali) a dois pontos essenciais do cristianismo, sem os quais ninguém pode se dizer cristão de verdade: que Jesus nasceu de uma virgem e ressuscitou dos mortos.

Conhecer as origens do islã é o primeiro passo para se entender este fenômeno que é o expansionismo da religião, especialmente em lugares pobres. Daí fica mais fácil ver como, em meio a desamparados e fracos, a filosofia terrorista doutrine adeptos na base do medo que espalham e poder que demonstram. Lembro de, em meio à torrente de lixo que se produziu após os ataques terroristas à redação da Charlie Hebdo, chamar-me atenção o fato de muitos pensadores esquerdistas, especialmente no Brasil mas não só aqui, mostrarem-se estupefatos pelos muçulmanos terem matado “pessoas de esquerda”, ou seja, quem de certa forma luta por eles no ocidente. Somente o total desconhecimento da religião e do modo de vidas dessas pessoas poderia fazer com que alguém ficasse surpreso ao descobrir que pessoas que têm posses, cultura e prestígio possam jogar fora suas vidas privilegiadas em um ato de violência. Para quem se acredita restaurador da fé correta no Deus único contra um mundo pervertido que precisa ser dominado politicamente para ser convertido não há classes sociais nem mesmo distinção entre ideologias políticas fora do islã. É assim que se inspiram no expansionismo dos primeiros “guerreiros” de Maomé fazendo uso das armas existentes hoje, inclusive algumas menos óbvias como as liberdades dos EUA, Europa e países mais organizados. A transformação e os conflitos internos no islã são tão fortes que o livro, sendo de 2007, não tem nenhuma menção ao Estado Islâmico, hoje a corrente terrorista mais constante no noticiário.

Em tempo de generalização da ojeriza ao desconhecido islã provocada pelos seguidos atos de terrrorismo levados a cabo por deturpadores dessa fé, “Sobre o Islã” é uma obra muito corajosa, um livro a ser consultado que recomendo sem ressalvas.

Um País Partido, de Marco Antonio Villa

Um País PartidoMarco Antonio Villa tem uma impressionante capacidade de escrever muitos livros bons em pouco tempo. Depois de Mensalão, Década Perdida e Ditadura à Brasileira, o mais recente é Um País Partido – 2014: A Eleição Mais Suja da História.

Villa começa relatando brevemente todas as vinte e nove eleições da República antes de 2014. Dessas, oito foram indiretas: a primeira, de Deodoro da Fonseca, em 1891, a de Getúlio Vargas, em 1934, e as seis da ditadura militar. Certamente, nenhuma das vinte e nove foi tão disputada como a de 2014.

A narrativa da eleição atual começa em fevereiro, com o início do ano legislativo e do ano judiciário. Dilma trocou alguns ministros por causa das eleições. Em março, foi divulgado o escândalo da compra da refinaria de Pasadena pela Petrobras. Em 30 de abril, a presidente ocupou uma rede nacional de rádio e televisão, por ocasião da véspera do Dia do Trabalho, para fazer propaganda de seu governo. Anunciou um aumento de 10% nos valores do Bolsa Família e a correção da tabela do imposto de renda. A Justiça Eleitoral não se incomodou com isso.

Em julho, o Banco Santander divulgou a uma parcela de seus clientes uma avaliação pessimista da conjuntura econômica do Brasil relacionada à perspectiva de vitória de Dilma. Lula e o PT exigiram a demissão dos autores dessa avaliação. O Santander cedeu. Em seguida, o PT reclamou ao Tribunal Superior Eleitoral contra textos de propaganda da consultoria Empiricus, com o mesmo tipo de opiniões. Conseguiu proibir a divulgação dos anúncios.

Os escândalos não paravam. A revista Época mostrou que uma nora de Lula e a esposa do deputado cassado e condenado pelo mensalão João Paulo Cunha eram funcionárias fantasmas do SESI. A Veja divulgou que as perguntas feitas aos diretores da Petrobras na CPI, incluindo a presidente Graça Foster, foram combinadas previamente. Num movimento inédito de uso da máquina pública a serviço de interesses particulares, o Advogado Geral da União, Luís Inácio Adams, foi ao Tribunal de Contas da União fazer uma defesa da presidente da Petrobras.

Villa narra detalhadamente as entrevistas de Aécio Neves e Eduardo Campos ao Jornal Nacional, com grande pressão dos entrevistadores sobre os candidatos.

Voltando da entrevista, aconteceu a grande tragédia da eleição, o acidente fatal com o avião de Eduardo Campos. Marina Silva é escolhida a nova candidata do PSB. Em vez de Dilma ir ao Jornal Nacional, o Jornal Nacional vai até ela, entrevistando-a no Palácio do Alvorada, em condições vantajosas em relação a seus adversários.

Com o início do horário eleitoral gratuito, Marina disparou nas pesquisas. Aproveitando-se do bom momento, a candidata do PSB fez várias exigências e entrou em polêmicas com membros históricos do partido. Vários deles abandonaram sua campanha. Descobriu-se que a situação do avião que transportava Eduardo Campos era completamente irregular. Marina foi bastante questionada por isso, especialmente em sua entrevista ao Jornal Nacional, e sempre se esquivou do assunto.

Como Villa conta cada lance da eleição em ordem cronológica, intercalando com os resultados de cada pesquisa eleitoral, estamos sempre acompanhando a evolução do processo. Vêm os rumores da delação premiada de Paulo Roberto Costa, depois as notícias, depois a delação de Alberto Youssef. Villa fala sobre cada debate do primeiro turno, com a participação preponderante dos candidatos nanicos.

A campanha do PT faz acusações violentas e infundadas contra Marina Silva. Isso dá resultado. Dilma começa a se recuperar e Marina a cair. Aécio tem uma recuperação lenta, mas contínua.

Dilma defendeu o diálogo com o Estado Islâmico, que decapita, estupra e fuzila em massa suas vítimas. Foi criticada por isso, mas a maior parte da população desconhece totalmente esse assunto. Marina, por sua vez, elogiou o impopular prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, como um exemplo de nova liderança.

Acontece o primeiro turno e, contrariando as pesquisas, Aécio tem grande vantagem sobre Marina e passa para o segundo turno. Consegue os apoios do PSB, de Renata Campos, viúva de Eduardo Campos, e de Marina Silva. Nas primeiras pesquisas, está à frente de Dilma. Com os ataques contínuos do PT, cai um pouco e Dilma passa à frente.

Villa narra cada um dos debates e publica na íntegra o último, na Globo. É muito interessante ter esse documento. Não nos esqueceremos de Dilma recomendando que uma economista desempregada fizesse um curso técnico no Pronatec. Nem da fala de Aécio: “Existe uma medida que está acima de todas as outras e não depende do Congresso Nacional. Para acabarmos com a corrupção no Brasil, vamos tirar o PT do governo.”

Villa relata o resultado final da eleição e acrescenta alguns comentários. Este trecho vale o livro:

«E mais uma vez, caso único na nossa história, tivemos como protagonista de uma eleição presidencial — pela sétima vez consecutiva — Luiz Inácio Lula da Silva. Ele representa o que há de mais atrasado na política brasileira. Tem uma personalidade que oscila entre Mussum e Stálin. Atacou as elites — sem defini-las — e apoiou José Sarney, Jader Barbalho e Renan Calheiros. Falou em poder popular e transferiu bilhões de reais dos bancos públicos para empresários aventureiros. Fez de tudo para que esta eleição fosse a mais suja da nossa história. E conseguiu.

Sob o seu domínio — mais que liderança — o PT desmoralizou as instituições. A compra de maioria na Câmara dos Deputados, que deu origem ao processo do mensalão, foi apenas o primeiro passo. Tivemos a transformação do STF em um puxadinho do Palácio do Planalto. O Executivo virou um grande balcão de negócios e passou a ter controle dos outros dois poderes. Tudo isso foi realizado às claras, sem nenhum pudor. E teve influência direta no resultado da eleição de 2014.»

Quando Villa diz que esta foi a eleição mais suja da história, não posso deixar de me lembrar de que quase todas as eleições indiretas foram completamente manipuladas. Mas acho que ele se refere ao nível de ataques infundados contra adversários e de transgressões impunes à legislação eleitoral. É curioso que ele não diga nada sobre o uso político dos Correios na eleição que, se comprovado, resultaria na cassação dos mandatos de Dilma e de Michel Temer. Também não diz nada sobre as suspeitas contra as urnas eletrônicas e os relatos de problemas com elas, no primeiro e no segundo turnos.

Independentemente disso, Um País Partido é um grande livro, para ler e guardar.

Violência e Armas, de Joyce Lee Malcolm

Violência e ArmasFoi lançado recentemente no Brasil, pela Vide Editorial, Violência e Armas: A Experiência Inglesa, da Dra. Joyce Lee Malcolm, com apresentação de Bene Barbosa. No dia do lançamento, Bene deu uma palestra muito interessante. O livro é um estudo bastante abrangente da história da criminalidade e do controle de armas na Inglaterra e no País de Gales, levantando dados desde o século 13 até o final do século 20. A Inglaterra possui registros bem preservados sobre crimes e julgamentos desde a Idade Média. Também possui uma das legislações mais restritivas a armas em países democráticos. Portanto, é um excelente objeto de estudo para quem se interessa pela relação entre a criminalidade e a difusão das armas entre a população civil.

A Dra. Joyce, americana, professora da Universidade de Harvard, historiadora especializada no Império Britânico e na América Colonial, pesquisou as mudanças na legislação criminal inglesa, incluindo a evolução do conceito de legítima defesa, as normas referentes a armas brancas e de fogo e o custo das armas comparado à renda dos cidadãos comuns.

No século 13, ainda não havia armas de fogo. A criminalidade era alta, com taxas de homicídio entre 18 e 23 casos anuais por 100.000 habitantes. Esses números provavelmente são subestimados. A legítima defesa era reconhecida pela lei comum (common law). Porém, existia a necessidade de que quem fosse agredido tentasse fugir antes de recorrer à violência para que o caso fosse considerado legítima defesa. Havia algumas exceções. Por exemplo, matar um criminoso em fuga não era considerado homicídio. Não existia polícia. Todos os cidadãos eram obrigados a colaborar para a prevenção dos crimes e a captura dos criminosos.

No final do século 16, as armas de fogo se tornaram comuns entre os ingleses. As leis criminais foram endurecidas e seu alcance foi ampliado. Por outro lado, mais situações passaram a ser consideradas como legítima defesa. Ao final do século, a taxa de homicídios estava em torno de 10 casos anuais por 100.000 habitantes.

O século 18 estabeleceu a legislação mais dura da história da Inglaterra. Com a Lei Negra, praticamente qualquer tipo de crime levava à forca. Possuir armas continuou não sendo crime. Em 1800, as taxas de homicídio estavam chegando a 3,5 casos anuais por 100.000 habitantes.A Revolução Francesa causou grandes preocupações ao governo inglês. Temia-se tanto uma tentativa de invasão das Ilhas Britânicas pela França como o surgimento de movimentos revolucionários dentro do Reino Unido. Houve iniciativas de coibir a posse de armas que pudessem ser usadas ilegalmente, mas isso não prosperou e as armas continuaram livres. No início do século 19, foi criada a polícia. Ela atuava desarmada, porque os ingleses temiam que ela fosse um instrumento de tirania. Somente os cidadãos podiam estar armados. A Dra. Joyce conta um incidente ocorrido, já no século 20, em 1909, conhecido como Tottenham Outrage, no qual policiais perseguindo assaltantes tomaram emprestadas as armas de quatro civis. Outros cidadãos armados cumpriram seu dever de lutar contra o crime juntando-se à perseguição.

O século 19 terminou com 1,5 homicídios anuais por 100.000 habitantes.

No século 20, o governo decidiu trabalhar, de maneira paciente e constante, para desarmar a população. A partir de uma primeira lei praticamente inócua em 1903, foram implantadas outras cada vez mais restritivas em 1920 e 1937, até que, em 1953, as armas foram banidas. Daí em diante, somente os criminosos estão armados. O livro explica bem como isso aconteceu, mas não diz exatamente por quê. Esse processo foi conduzido por sucessivos governos trabalhistas e conservadores. Da mesma maneira, o conceito de legítima defesa foi sendo cada vez mais limitado, até que fosse quase que completamente abolido. São narrados alguns casos assustadores de pessoas condenadas por homicídio por se defenderem de agressões que ameaçaram gravemente a vida delas.

A criminalidade cresceu de maneira consistente desde que as armas legais começaram a ser reprimidas. A Inglaterra tornou-se um lugar mais violento que os Estados Unidos. O livro termina com uma comparação entre a situação dos dois países. Cita o estudo do economista John Lott sobre as diferentes legislações de armas nos Estados Unidos e seu efeito sobre a criminalidade, concluindo que a liberdade de possuir e portar armas, inclusive escondidas, têm um efeito claro e demonstrável de coibir a criminalidade e a violência.

Senti falta de mais gráficos, especialmente das taxas de crimes ao longo da história ou, pelo menos, no século XX. O livro é uma fonte preciosa de informações para quem se interessa por combater a criminalidade e pela questão da proibição ou não da posse e do porte de armas. Mostra claramente que as restrições criadas na Inglaterra não tiveram o controle da violência como motivação e foram implementadas de maneira subreptícia, sem discussão com a sociedade e contrariando a tradição, a experiência e a lógica. Seu efeito foi totalmente negativo em todos os índices de violência e criminalidade. Excelente leitura.

Não é a mamãe, de Guilherme Fiuza

Não-é-a-Mamãe-livroLer Não é a mamãe: para entender a Era Dilma, de Guilherme Fiuza, foi um prazer masoquista muito semelhante ao que senti com Década Perdida, de Marco Antonio Villa. Foi até um pouco pior, porque li depois do resultado das eleições. Cada crônica é uma tragédia, uma oportunidade perdida pelo país. Sabemos que continuamos perdendo oportunidades todos os dias. Em cada coluna, a fina ironia nos força a rir das nossas desgraças.

O livro traz textos publicados em O Globo e na revista Época sobre a candidata e a presidente Dilma, do início de 2010 à metade de 2014. Cobre toda a primeira campanha eleitoral e quase todo o primeiro mandato. Como é possível que os brasileiros tenham escolhido uma figura tão vazia para o cargo eletivo mais importante do país? Como é possível que tenham tolerado bovinamente avalanches sucessivas de escândalos de corrupção e dado à presidente índices de popularidade estrondosos?

As crônicas expressam esse espanto. Em 2010, Dilma demonstra em um Congresso do PT sua total incapacidade de falar. Sua mediocridade é tamanha que os próprios militantes têm dificuldades de defender sua candidatura, mais ainda de se empolgar com ela. Repetidos crimes eleitorais acontecem, para os quais a Justiça Eleitoral faz vista grossa ou dá punições insignificantes. A campanha se desenvolve sobre mentiras. Emblemática da picaretagem é a apropriação da imagem de Norma Bengell na Passeata dos Cem Mil.

O blog oficial de Dilma Rousseff pegou esta foto:

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Tonia Carrero, Eva Wilma, Odette Lara, Norma Bengell e Ruth Escobar na Passeata dos Cem Mil

e fez esta montagem:

dilma-falsa-biografia

Guilherme Fiuza ressalta que Dilma é apresentada como uma heroína feminista, enquanto, na verdade, é o exemplo claro e acabado de uma mulher subalterna e subserviente a um homem que se comporta como seu dono. Dilma foi escolhida candidata porque Lula assim determinou. Em nenhum momento ela expressou qualquer opinião própria. O epíteto perfeito para uma pessoa sem conteúdo, segundo o autor, é “Mãe do PAC”. A expressão criada por Lula não significa nada e Dilma também não. “Não é a mamãe!”, diria o Baby Sauro.

Dilma é eleita e, no primeiro ano de governo, sete ministros caem. Seis por corrupção. Fernando Pimentel deveria ter sido o sétimo. Porém, Dilma conseguiu segurá-lo no cargo, enquanto preparava sua candidatura ao governo de Minas Gerais. Lamentavelmente, sabemos que ele conseguiu se eleger.

Em 2012, surge o escândalo envolvendo Rosemary Noronha. Fiuza a chama de “a mulher do ano”. “Por que só Dilma é ícone feminino, se Rosemary mostrou ser um prodígio da mesma escola?” Enquanto isso, Ricardo Lewandowski e José Antonio Dias Toffoli formam a dupla Batman e Robin do PT no Supremo.

O livro inclui a coluna Lula privatizou a si mesmo, sobre o pedido do Ministério Público Federal à Polícia Federal para que fosse aberto um inquérito contra Lula, com base na denúncia de Marcos Valério de que o ex-presidente teria intermediado um repasse de sete milhões de reais de uma operadora de telefonia para o PT. Publicada em julho de 2013, motivou um processo do PT contra Fiuza, por danos morais. Recentemente, o PT propôs uma audiência de conciliação sobre o caso, mas o jornalista não aceitou.

O livro segue com os protestos de 2013, a Primavera Burra, com os rolezinhos e com a morte de Santiago Andrade. Fiuza convida a Ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, a trocar as lentes dos seus óculos num shopping socialmente ocupado por um rolezinho. O “Brasil bonzinho”, que tolera arruaças de boçais mascarados, foi o responsável pelo assassinato do cinegrafista da Band. “Deputados bonzinhos, intelectuais do bem e artistas antenados gritaram alto pela liberdade dos presos em manifestações.” “Esse Brasil progressista que matou Santiago se permitiu hesitar diante da afronta ao estado de direito. Confundiu atentado com protesto e resolveu (embora jamais vá confessar isso) relativizar a violência. Assassino.”

Guilherme Fiuza previu que Dilma seria reeleita. Ainda estou tentando entender como ou por quê. Seja como for, precisamos defender a liberdade que ainda temos.

Memórias do Subsolo, de Fiódor Dostoiévski

Os Melhores Contos de DostoiévskiMemórias do Subsolo, de Fiódor Dostoiévski, não é uma obra fácil. É curta, pouco mais de cem páginas. Mas é muito densa. Não recomendo ler num ambiente desfavorável à concentração.
O narrador sem nome, o Homem do Subsolo, é um personagem profundamente atormentado. Muda de idéia o tempo todo, corrige o que acabou de dizer, confessa que mentiu. Na primeira parte, falando do seu tempo presente, nos conta que tem quarenta anos, está doente, abandonou um cargo público humilde porque recebeu uma herança modesta e vive isolado da sociedade. Conhecemos sua visão de mundo. É culto, instruído, inteligente. Tem um profundo desprezo pelas pessoas e pela sociedade, mas tem um desprezo maior por si mesmo, pelo fracasso de sua vida. Na segunda parte, narra três histórias que aconteceram com ele catorze anos antes, e que ilustram suas dificuldades em se relacionar com as pessoas.
Temos vontade de voltar a São Petersburgo de 1860 e socar o Homem do Subsolo. Como ele pode ser tão idiota? Como pode dar tanto valor ao que é irrelevante e prejudicar tanto a si mesmo e aos outros?
Porém, não temos como discordar de parte das idéias que ele defende. E defende em seus atos, de maneira especialmente dolorosa para si mesmo, embora possamos perceber que ele sente satisfação em sofrer. O Homem do Subsolo faz talvez a melhor defesa que eu já vi do livre-arbítrio. O ser humano pode saber o que é melhor para si mesmo, mas desejar o que é pior. Como diz Ovídio, nas Metamorfoses, “video meliora proboque deteriora sequor”. “Vejo o que é melhor e o aprovo, mas persigo o que é pior.” E o Homem do Subsolo afirma radicalmente o direito de se perseguir o que é pior. Nestes tempos em que a Alana quer proibir as propagandas de bolacha, os ovos de Páscoa com brindes e o McLanche Feliz, precisamos ler Memórias do Subsolo.
Lembrei-me do personagem F. Alexander, de A Laranja Mecânica, de Anthony Burgess. Ele escreve um livro num estilo extremamente pedante, também chamado A Laranja Mecânica, no qual defende o livre-arbítrio e, em seguida, sua família é atacada violentamente por Alex, que personifica a aplicação de suas idéias. Mas ele está certo e exprime exatamente o pensamento de Anthony Burgess. O Homem do Subsolo faz mais ou menos a mesma coisa com as idéias de Dostoiévski.
Memórias do Subsolo foi escrito em resposta a O Que Fazer?, de Nikolai Tchernichévski, um autor comunista que influenciou Marx. Tolstói e Lênin escreveram obras também intituladas O Que Fazer?, por causa do livro de Tchernichévski. O título é uma citação de Lucas 3:10-14. O fato do título de um livro de Lênin vir do Evangelho é uma demonstração da frase de Shakespeare em O Mercador de Veneza, de que até o Diabo pode citar as Escrituras para seus objetivos.
Só li Memórias do Subsolo uma vez. Preciso ler novamente, para comparar o que o Homem do Subsolo diz na primeira parte com o que sei agora da segunda. Quero procurar também o livro de Tchernichévski. Na verdade, Dostoiévski dá uma grande vontade de sair pesquisando a literatura russa.
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