Resenhas

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10 Livros Que Estragaram o Mundo – e Outros Cinco Que Não Ajudaram Em Nada, de Benjamin Wiker

É frequentemente um desejo nosso fazer algo ser verdade só para vermos clara e distintamente o falso como verdadeiro, o imaginado como real.

O desejo de que algo seja verdadeiro, no lugar do desejo pelo que é verdadeiro em si, pode muito bem ser a raiz mesma de todo o mal.

Benjamin Wiker em “10 Livros Que Estragaram o Mundo – e Outros Cinco Que Não Ajudaram em Nada”

Qual é o limite dos estragos que uma idéia ruim pode causar quando embrulhada em argumentos aparentemente bons e lógica convincente? Como é impossível conhecer o efeito final de distorções influentes na corrente de pensamentos da humanidade, a melhor forma de fazer esta investigação é, partindo dum estado calamitoso definido, ir às suas origens. Foi buscando o nascimento de grandes desvios ideológicos que causaram estragos ao longo dos últimos tempos que Benjamin Wiker montou o excelente “10 Livros Que Estragaram o Mundo – e Outros Cinco Que Não Ajudaram Em Nada”, lançado no Brasil pela Vide Editorial em 20 de maio deste ano.

Como Wiker trata de livros, obviamente as idéias encadeadas são aquelas que vieram à luz após o avanço das técnicas de impressão. A evolução tecnológica no período do Renascimento – que para Paul Johnson teve como ponto de partida a publicação de “A Divina Comédia” – permitiu uma maior disseminação das idéias em forma de livros em paralelo ao aumento da parcela de pessoas letradas na Europa. É assim que esta lista tem como ponto de partida “O Príncipe”, de Maquiavel, publicado em 1513.

Quando vi o título do livro cheguei a pensar em como seria possível dar um contexto histórico aos títulos que fazem parte da lista em tão poucas páginas – 227. Porém, o argumento de Wiker é perfeito. Segundo ele “livros ruins apenas estragam o mundo quando são consumidos ferozmente  por aqueles que têm fome de suas mensagens”. Isso não é jamais uma desculpa para que o mal ganhe uma defesa entusiasmada. É por isso que não “podemos desconsiderar suas palavras maliciosas e dizer: “Ele foi apenas fruto de seu tempo”. As idéias contidas nesses livros ajudaram a moldar de forma importante o tempo após sua publicação.

Outro ressalva prévia que se pode fazer ao título do livro seria imaginar que ele defende algum tipo de censura. Wiker deixa bem claro que não faria o menor sentido defender, hoje ou em qualquer época, a proibição desses livros. Suas idéias já vieram à luz e proliferaram. O certo é conhecê-los muito bem e notar tudo o que há de perverso para poder então combater as ideologias que dali partiram.

A investigação tem como ponto de partida o desejo de descobrir  “o que nos permite conhecer as nascentes da correnteza na qual nos submergimos hoje?”.  É assim que passamos na parte inicial (“Estragos Preliminares”) pelo já citado “O Príncipe”; o “Discurso sobre o método”, de René Descartes; Leviatã, de Thomas Hobbes; Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, de Jean-Jacques Rousseau. Em comum, essas e as obras a seguir demonstram um inegável “desejo em fazer algo ser verdade só para vermos clara e distintamente o falso como verdadeiro, o imaginado como real.

Os principais estragos que dão título ao livro são apresentados a seguir na parte “Dez Grandes Estragos”:

10_LivrosQueEstragaramOMundo

  • Manifesto do Partido Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels;
  • Utilitarismo, de John Stuart Mill;
  • A descendência do homem, de Charles Darwin;
  • Além do bem e do mal, de Friedrich Nietzsche;
  • O Estado e a Revolução, de Vladimir Lênin;
  • O eixo da civilização, de Margaret Sanger;
  • Minha luta, de Adolf Hitler;
  • O futuro de uma ilusão, de Sigmund Freud;
  • Adolescência, sexo e cultura em Samoa, de Margaret Mead;
  • – O relatório Kinsey, de Alfred Kinsey.

Por fim, o autor faz uma menção desonrosa a Betty Friedan e seu A mística feminina.

Cada capítulo tem como introdução um trecho da obra analisada, com exceção do grotesco “O relatório Kinsey” que não pôde ter nenhuma parte copiada no livro por proibição do Instituto Kinsey para Pesquisas em Sexo, Gênero e Reprodução. Por conta disso, diz Wiker, o capítulo teve de ser refeito às vésperas do lançamento para que nenhum trecho fosse impresso – e assim fomos poupados dos detalhes de experimentos sexuais com crianças, por exemplo.

O “10 Livros Que estragaram o Mundo – e Outros Cinco Que Não Ajudaram em Nada” cumpre com louvor o pretendido. Sua análise de obras tão singulares nos permite reconhecer o traço comum aos erros de seus autores. Há sim uma grande distância numérica no estrago causado pelas idéias de Hitler e Lênin e “detalhes” como a linha de raciocínio de Charles Darwin que mais tarde seria usada para práticas eugenistas que também levaram a um racismo científico. Tanto Hitler como Lênin  defendiam muito mais a ação prática do que uma defesa entusiasmada de suas teses, eles verdadeiramente exortavam a uma marcha que acelerasse o paraíso na Terra sem pudores. No caso específico de Darwin, cabe questionar os motivos do autor não ter notado o caminho de suas idéias aplicadas a todos os seres vivos em “A origem das espécies” que foram depois adaptadas para “A descendência do homem”. Como pôde não alertar para a imoralidade que resultaria caso alguém tentasse acelerar o processo de seleção dos mais aptos?

O erro de tantos que nos trouxeram a este reino do relativismo e rebaixamento de valores fundamentais para a nossa civilização pode ser explicado, como faz o autor, na sentença: “o desejo de que algo seja verdadeiro, no lugar do desejo pelo que é verdadeiro em si, pode muito bem ser a raiz mesma de todo o mal”. Muitos dos autores analisados quiseram em suas obras afirmar como normais, corretas ou admiráveis certas atitudes que eles mesmos praticavam. Outros encontraram restrições do meio, como Maquiavel, que fez uma ode à mentira política e deixou nas entrelinhas um total desprezo à religião que não podia ser dito em voz alta –  e ainda hoje ecoa na criação de personagens políticos totalmente falsos em suas fés e convicções.

O livro é rápido e agrada mesmo quando trata de obras ou autores que você não esteja familiarizado. Dos 15 livros da lista, li cerca de metade deles e alguns autores eu só conhecia das conversas de amigos mais versados em assuntos como aborto, eugenia e feminismo. Enumerar os argumentos usados para a escolha de cada um deles tornaria esta resenha gigantesca e tiraria a surpresa de quem vier a comprar o livro, razão pela qual não seguirei elencando o conjunto de maldades perpetradas por cada uma das obras analisadas.

Como disse Benjamin Wiker após a publicação, “talvez a melhor forma de descobrir a verdade seja estudando os maiores erros”. O “10 Livros” faz isso muito bem e por isso vale a leitura do início ao fim.

Título: 10 Livros Que Estragaram o Mundo – e Outros Cinco Que Não Ajudaram Em Nada

Autor: Benjamin Wiker

Editora: Vide Editorial

Lançamento: 20 de maio de 2015

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Paulo Freire – Pedagogia do Oprimido, uma resenha

paulo-freire-faixa-protesto-890x395No final de 2014, conversei sobre Paulo Freire com uma pessoa de quem gosto muito e que tem opiniões opostas às minhas. Ela perguntou se eu tinha lido algum dos livros dele. Só A Importância do Ato de Ler, mas há tanto tempo que não me lembro de quase nada, respondi. Nunca li Pedagogia do Oprimido, confessei. Você não pode criticar o que não conhece, acusou ela. Prometi que leria Pedagogia do Oprimido e escreveria uma resenha. Aqui está.

Não é uma leitura fácil. Embora o livro não seja extenso, com pouco mais de 100 páginas, levei dois meses para terminar. Achei a linguagem confusa, com termos inventados ou palavras às quais o autor atribui um sentido peculiar, sem contudo definir claramente esse sentido. Muitas vezes, não há um encadeamento lógico entre um parágrafo e o seguinte, entre uma frase e a próxima, entre uma idéia e outra. Nesse aspecto, lembra muito o estilo do Alcorão. Paulo Freire tem um cacoete de separar os prefixos dos radicais das palavras (co-laboração, ad-mirar, re-criar), como se isso significasse alguma coisa. Há muitas passagens com sentido obscuro (vejam algumas abaixo), muitas repetições, citações de supostas autoridades em educação (como Mao, Lênin, Che, Fidel e Frantz Fanon) e menções freqüentes a que se vai voltar ao assunto depois ou a que já se tratou dele antes.

Logo na introdução, somos brindados com esta afirmação: “Se a sectarização, como afirmamos, é o próprio do reacionário, a radicalização é o próprio do revolucionário. Dai que a pedagogia do oprimido, que implica numa tarefa radical cujas linhas introdutórias pretendemos apresentar neste ensaio e a própria leitura deste texto não possam ser realizadas por sectários.” Minha leitura deste trecho é: “Só quem já concorda comigo pode ler o que escrevo.”

Vou apresentar a seguir o que entendi do livro, procurando ao máximo omitir minhas opiniões, que guardarei para o final da resenha.

Paulo Freire descreve dois tipos de educação, uma característica de uma sociedade opressora, outra característica de uma sociedade livre, ou que luta para se libertar. A educação da sociedade opressora é chamada de “bancária”, sempre entre aspas, porque ela deposita conhecimentos nos alunos. Ou seja, ela reduz o aluno a um objeto passivo do processo educacional, no qual são jogadas informações sobre Português, Matemática, História, Geografia, Inglês, Física, Química, Biologia, Filosofia. Já a educação libertadora é chamada de dialógica, porque se baseia no diálogo entre professores e alunos (educadores e educandos, na linguagem do livro). É um processo do qual todos são sujeitos ativos e cuja finalidade é ampliar a consciência social de todos, especialmente dos alunos, para que se viabilize a revolução que acabará com a opressão. O livro não detalha o que a educação libertadora fará depois dessa libertação. Imaginamos que mantenha os educandos conscientes e imunes a movimentos reacionários e contra-revolucionários.

A educação dialógica se baseia no diálogo e o diálogo começa com a busca do conteúdo programático. Na parte do livro em que há mais orientações práticas, Paulo Freire recomenda que seja formado um grupo de educadores pesquisadores que observará os educandos e conversará com eles, em situações diversas, para conhecer sua realidade e identificar o que ele chama de temas geradores, que possibilitarão a tomada de consciência dos indivíduos. Haverá reuniões com a comunidade, identificação de voluntários, conversas e visitas para compreender a realidade, observações e anotações. Os investigadores farão um diagnóstico da situação. Então discutirão esse diagnóstico com membros da comunidade para avaliar o grau de consciência deles. Constatando que esse nível é baixo, vão apresentar as situações identificadas aos alunos, para discussão e reflexão, com o objetivo de despertar sua consciência para sua situação de opressão. Se o pensamento do povo é mágico (religioso) ou ingênuo (acredita nos valores de direita), isso será superado pelo processo, conforme o povo pensar sobre a maneira que pensa, e conforme agir para mudar sua situação de opressão.

Paulo Freire enfatiza que o revolucionário não pode manipular os educandos. Todo o processo tem de ser construído baseado no diálogo e no respeito entre os líderes e o povo. Porém, os líderes devem ter a prudência de não confiar no povo, porque as pessoas oprimidas têm a opressão inculcada no seu ser. Como exemplo de um líder que jamais permitiu que seu povo fosse manipulado, Paulo Freire apresenta Fidel Castro.

A palavra é o resultado da soma de ação e reflexão. Se nos baseamos apenas na reflexão, temos um “verbalismo” estéril. Se nos baseamos apenas na ação, temos um “ativismo” inepto. Os líderes revolucionários e os educadores devem compreender que a ação e a reflexão caminham juntas de maneira indissociável, ou não se atingem os objetivos da educação e da revolução.

As características da opressão são a conquista dos mais fracos, a criação de divisões artificiais entre os oprimidos para enfraquecê-los, a manipulação das massas e a invasão cultural. Os opressores se impõem em primeiro lugar pela força. Depois, jogam os oprimidos uns contra os outros, para mantê-los subjugados. As pessoas são manipuladas para acreditarem em falsos valores que lhes são prejudiciais, embora elas não percebam isso. Sua cultura de raiz é esquecida e trocada por símbolos vazios importados de fora, num processo que esmaga a identidade do povo.

As características da libertação são a colaboração (que Paulo Freire grafa co-laboração), a união, a organização e a síntese cultural. A colaboração está contida em tudo o que foi dito sobre educação dialógica, que é feita em conjunto pelos educadores e educandos. A união entre os oprimidos é fundamental para que tenham força para resistir contra o opressor. No trecho em que explica a organização, é citado o médico Dr. Orlando Aguirre, diretor da Faculdade de Medicina de uma universidade cubana, que afirmou que a revolução implica em três P: palavra, povo e pólvora. Disse o Dr. Aguirre: “A explosão da pólvora aclara a visualização que tem o povo de sua situação concreta, em busca, na ação, de sua libertação.” E Paulo Freire complementa: “O fato de não ter a liderança o direito de impor arbitrariamente sua palavra não significa dever assumir uma posição liberalista, que levaria as massas à licenciosidade.” Ele afirma que não existe liberdade sem autoridade. Sobre a síntese cultural, diz que a visão de mundo do povo precisa ser valorizada.

Agora, o que penso sobre o texto. O próprio Paulo Freire deixa claro em vários momentos, que seu livro não é sobre educação. Ensinar, transmitir conhecimentos, é uma preocupação da educação “bancária” opressora. Não é essa a função de um educador libertador. Não, sua função é criar os meios para uma revolução libertadora, como foram libertadoras as revoluções promovidas pelos educadores citados: Mao, Lênin, Fidel. Ou seja, a única preocupação do livro é com os meios para viabilizar uma revolução marxista. Se você, meu leitor, é professor e acha que essa é a sua função, talvez encontre conhecimentos úteis no livro. Caso contrário, não há mais nada nele.

Fiz uma coletânea de palavras utilizadas por Paulo Freire que poderiam ter saído de um discurso de Odorico Paraguaçu: “involucra”, em lugar de envolve, “implicitados”, em lugar de implícitos, “gregarizadas”, deve ser um derivado de gregário, “unidade epocal”, em lugar de unidade de tempo, “fatalistamente”, por fatalisticamente, “insertado”, por inserido. Dois erros divertidos: chamar Régis Debray de Régis Debret e achar que o nome do padre Marie-Dominique Chenu OP (onde OP significa Ordo Praedicatorum, Ordem dos Pregadores, sigla que designa a Ordem dos Dominicanos) é O. P. Chenu. É sintomático que alguém com tantas dificuldades com a Língua Portuguesa seja o Patrono da Educação Brasileira, considerado nossa maior autoridade em alfabetização.

Desafio os bravos leitores a encontrar o sentido dos trechos a seguir. A melhor interpretação ganhará um pão com mortadela. Os grifos são de Paulo Freire.

1) «Na verdade, não há eu que se constitua sem um não-eu. Por sua vez, o não-eu constituinte do eu se constitui na constituição do eu constituído. Desta forma, o mundo constituinte da consciência se torna mundo da consciência, um percebido objetivo seu, ao qual se intenciona. Daí, a afirmação de Sartre, anteriormente citada: “consciência e mundo se dão ao mesmo tempo”.»

2) «O ponto de partida deste movimento está nos homens mesmos. Mas, como não há homens sem mundo, sem realidade, o movimento parte das relações homens-mundo. Dai que este ponto de partida esteja sempre nos homens no seu aqui e no seu agora que constituem a situação em que se encontram ora imersos, ora emersos, ora insertados.»

3) «Sem ele [o diálogo], não há comunicação e sem esta não há verdadeira educação. A que, operando a superação da contradição educador-educandos, se instaura como situação gnosiológica, em que os sujeitos incidem seu ato cognoscente sobre o objeto cognoscível que os mediatiza.»

4) «Esta é a razão pela qual o animal não animaliza seu contorno para animalizar-se, nem tampouco se desanimaliza.»

5) «Somente na medida em que os produtos que resultam da atividade do ser “não pertençam a seus corpos físicos”, ainda que recebam o seu selo, darão surgimento à dimensão significativa do contexto que, assim, se faz mundo.»

6) «Porque, ao contrário do animal, os homens podem tridimensionalizar o tempo (passado-presente-futuro) que, contudo, não são departamentos estanques.» Alguém pode me dizer como é possível tridimensionalizar o tempo?

7) «Uma unidade epocal se caracteriza pelo conjunto de idéias, de concepções, esperanças, dúvidas, valores, desafios, em interação dialética com seus contrários, buscando plenitude. A representação concreta de muitas destas idéias, destes valores, destas concepções e esperanças, como também os obstáculos ao ser mais dos homens, constituem os temas da época.»

Outra característica curiosa são as citações em idiomas diversos. Há citações de Hegel e Karl Jaspers em inglês, de Marx e Erich Fromm em espanhol e de Lukács em francês. Todos esses autores escreveram em alemão. Frantz Fanon, que escreveu em francês, é citado em espanhol. Albert Memmi, que também escreveu em francês, é citado em inglês, e se menciona que há uma edição brasileira de seu livro. Mao é citado em francês. Porque todas essas citações não foram simplesmente traduzidas para o português? E por que Paulo Freire gosta tanto de ditadores, torturadores e assassinos?

Ele afirma que vender seu trabalho é sempre o mesmo que escravizar-se. Porém, desejar não ser mais empregado e tornar-se patrão é escravizar a um outro, tornar-se opressor. Qualquer tipo de contratação de um indivíduo por outro é maligna, é opressão, é escravidão. Só teremos liberdade quando a nenhum indivíduo for permitido contratar ou ser contratado por outro indivíduo. Faz sentido para vocês?

Paulo Freire afirma que os oprimidos devem ser reconhecidos como Pedro, Antônio, Josefa, mas os chama o tempo todo de “massas”. Diz que valoriza a visão de mundo do povo, enquanto não perde uma oportunidade de desdenhar das crenças religiosas desse mesmo povo, chamando-as de mágicas, sincréticas ou mistificações. E ele se dizia católico.

Como a opressão é uma violência, qualquer violência cometida pelos oprimidos contra os opressores é sempre uma reação justificada. É um raciocínio assustador. Nas palavras dele: “Quem inaugura a tirania não são os tiranizados, mas os tiranos. Quem inaugura o ódio não são os odiados, mas os que primeiro odiaram. Quem inaugura a negação dos homens não são os que tiveram a sua humanidade negada, mas as que a negaram, negando também a sua.” Paulo Freire considera justificados a tirania como resposta a uma tirania anterior e o ódio como resposta a um ódio anterior. E nega a humanidade de quem ele resolver chamar de opressores.

Mais um trecho escabroso: «Mas, o que ocorre, ainda quando a superação da contradição se faça em termos autênticos, com a instalação de uma nova situação concreta, de uma nova realidade inaugurada pelos oprimidos que se libertam, é que os opressores de ontem não se reconheçam em libertação. Pelo contrário, vão sentir-se como se realmente estivessem sendo oprimidos. É que, para eles, “formados” na experiência de opressores, tudo o que não seja o seu direito antigo de oprimir, significa opressão a eles. Vão sentir-se, agora, na nova situação, como oprimidos porque, se antes podiam comer, vestir, calçar, educar-se, passear, ouvir Beethoven, enquanto milhões não comiam, não calçavam, não vestiam, não estudavam nem tampouco passeavam, quanto mais podiam ouvir Beethoven, qualquer restrição a tudo isto, em nome do direito de todos, lhes parece uma profunda violência a seu direito de pessoa. Direito de pessoa que, na situação anterior, não respeitavam nos milhões de pessoas que sofriam e morriam de fome, de dor, de tristeza, de desesperança.»

O fato é que ninguém pode proibir ninguém de comer, vestir, calçar, educar-se, passear ou ouvir Beethoven. E ninguém pode exigir comer, vestir, calçar, educar-se, passear ou ouvir Beethoven às custas dos outros.

Uma última citação abjeta: “Mesmo que haja – e explicavelmente – por parte dos oprimidos, que sempre estiveram submetidos a um regime de espoliação, na luta revolucionária, uma dimensão revanchista, isto não significa que a revolução deva esgotar-se nela.” A revolução não deve se esgotar no revanchismo, mas o revanchismo é parte natural dela. Como alguém que escreveu essas monstruosidades nunca foi processado por incitação à violência e apologia do crime? Como alguém com um pensamento tão anti-social pode ser sequer ouvido, quanto mais cultuado como Patrono da Educação Brasileira?

Chega de doutrinação marxista! Fora Paulo Freire!

American Sniper: lobos e ovelhas

AmericanSniperEditadaO novo filme de Clint Eastwood começa com o sermão de um pastor sobre o apóstolo Paulo. O que Paulo ensinava e fazia, explica o ministro, era motivo de escândalo para a maioria dos seus contemporâneos. Mas Paulo tinha dentro de si a convicção de estar fazendo a coisa certa.

Chris Kyle está no culto com sua família. Ele ainda é uma criança, mas ouve atento o pastor explicar que somos incapazes de decifrar o padrão de Deus nos eventos que ocorrem na nossa vida. Só podemos considerar real e verdadeiro o que podemos enxergar?

Não se engane pelo cenário da história ou seu contexto histórico. American Sniper não é sobre a Guerra do Iraque – nem contra e nem a favor – ou sobre qualquer aspecto da vida militar.

O drama de Clint Eastwood é sobre os dilemas morais enfrentados por homens de convicção em um mundo no qual a defesa de qualquer princípio – por mais óbvio que seja – é vista como uma atitude fundamentalista. A convicção é uma anomalia. O mundo jaz do relativismo.

Se você quiser defender uma visão moral, prepare-se para enfrentar dilemas terríveis. Se você quiser se sacrificar por algo maior, prepare-se para a solidão. Sim, solidão: ao dizer que está disposto a morrer pelo seu país, Kyle ouve da futura esposa: “você é um egocêntrico!”.

Chris Kyle é filho de um diácono e de uma professora de escola bíblica dominical. Desde cedo ele aprendeu que a defesa dos princípios básicos de certo e errado o colocaria em conflito com a maioria que há muito abandonou o “preto-no-branco” por mil tons de cinza.

Ainda menino, Kyle intervém em uma briga para defender seu irmão mais novo de um típico valentão. Ao ver seu irmão apanhando, ele não tem dúvidas: soca o garoto maior até lhe tirar sangue. Ao invés de lhe repreender, o seu pai lhe explica que as pessoas são divididas em três grupos: ovelhas, predadores e cães pastores que protegem as ovelhas “do Mal”.

“Algumas pessoas preferem acreditar que o Mal não existe. Mas se algum dia ele aparecer na sua porta, não saberão como se proteger. Essas são as ovelhas. E então existem os predadores. Eu e sua mãe não estamos criando ovelhas ou predadores”, adverte o diácono.

Kyle cresce como um típico jovem dos nossos dias. É um beberrão e mulherengo. Mas ele enxerga o que os outros não enxergam. Em certo dia, o noticiário que para seu irmão é entediante, para Chris Kyle é perturbador. E, como Saulo, ele cai do cavalo.

Como a luz do dia


As escolhas daquele que se tornaria o atirador de elite mais letal da história militar dos Estados Unidos são pautadas por um antiquado senso de moralidade. Não há espaço para o cinismo ou a meia-verdade no horizonte de Chris Kyle. Ele enxerga o Mal tão claro como a luz do dia. É essa característica singular que irá definir o seu destino para sempre.

Quando poderia se arriscar menos, Kyle desce às profundezas do labirinto infernal de Ramadi para ensinar soldados novatos sobreviverem um dia a mais. Quando sua esposa grávida pede que ele fique em casa, Chris Kyle volta ao Iraque para proteger seus amigos.

Em pouco tempo a insurgência iraquiana apelida Kyle de “o Diabo de Ramadi”- em referência a uma das cidades em que combateu – e coloca a sua cabeça a prêmio. Ele é temido por sua eficiência em matar. 160 mortes “oficiais”: tudo indica que o número seja maior (255).

O maior mérito de Chris Kyle, contudo, não reside no número de inimigos que ele abateu. Mas na quantidade de garotos que ele salvou com sua mira certeira. O filme faz um sutil e brilhante paralelo entre a visão moral distinta e a pontaria acima da média de Kyle.

Além do inimigo que espreita em cada janela e porta, o jovem texano é obrigado a enfrentar as dúvidas crescentes e o medo paralisante dos seus colegas de farda.

O agnóstico Eastwood fala no filme por meio de um jovem soldado que quase foi padre e é assaltado pela dúvida: Será que eles fazem a coisa certa? E será que vale a pena?

“O Mal existe. Nós já o vimos por aqui”, responde, serenamente, Chris Kyle. Eastwood mostra que o sniper mais admirado e temido da história dos EUA permaneceu até o fim com as convicções simples de um menino dedicado a proteger os inocentes dos bandidos.

A virtude em ação


Há muitos sub-dramas terríveis contidos nas decisões de Kyle, mas não vou abordá-los para que o leitor assista ao filme e possa se surpreender com cada dilema que surge na história.

Ao contrário do que se poderia imaginar, Eastwood não manifesta aprovação diante da moralidade “preto-no-branco” de Chris Kyle. Diante disso ele é novamente agnóstico.

Mas o velho mestre americano não deixa de mostrar que são de homens como Kyle que a sociedade precisa nos momentos mais tenebrosos, quando os lobos aparecem e recuamos como ovelhas confusas e apavoradas. Sem visão moral, sem senso de direção.

Hoje em dia os homens estão mais preocupados em ser queridos por todos e não conseguem defender qualquer princípio por mais de 5 minutos. Eles não acreditam mais em certo e errado. São cínicos. Para os quais “honra” e “sacrifico” são como peças de museu.

São bem poucos os que ainda enxergam o mundo como o apóstolo Paulo e Chris Kyle enxergavam. Mas todos admiram, mesmo que secretamente, pessoas que recusam o cinismo predominante e brindam os seus próximos com uma amostra do que é a virtude em ação. Clint Eastwood faz um elogio desses homens ilustres. Assista American Sniper.


Thiago Cortês escreve no blog Descortês. Esta resenha foi originalmente publicada no site “Mídia Sem Máscara“.

Muita Retórica — Pouca Literatura, de Rodrigo Gurgel

Muita RetóricaUm dos melhores livros que li no ano passado é Muita Retórica — Pouca Literatura, de Rodrigo Gurgel. É um painel da prosa brasileira da segunda metade do século 19. Em cada capítulo, Rodrigo analisa uma obra de um autor diferente. O único escritor que aparece em dois capítulos é o Visconde de Taunay, com Inocência e A Retirada da Laguna.

Confesso que só li quatro dos livros analisados: Memórias de um Sargento de Milícias, O Cortiço, O Ateneu e Dom Casmurro. Quase todos quando estava no colegial, há mais de 25 anos. Encontrei muitos reflexos da impressão que me ficou dessas obras na crítica de Rodrigo Gurgel.

Memórias de um Sargento de Milícias é um livro muito bom. Despretensioso, leve, bem-escrito, narra o cotidiano de pessoas comuns. Suas personagens são verossímeis e perfeitamente humanas com suas pequenas mesquinharias e seus pequenos gestos de heroísmo. O Cortiço é uma obra forte, com momentos marcantes. Porém, sua visão naturalista, totalmente pessimista sobre a capacidade moral do ser humano, o faz um romance mediano. O Ateneu é um livro muito ruim, tanto pelo excesso de retórica como pelo sarcasmo destrutivo que o narrador dirige contra tudo e contra todos.

E fiquei muito satisfeito por Rodrigo Gurgel não gostar de Dom Casmurro. Ele ressalta o quanto Machado de Assis deve ao autor de Memórias de um Sargento de Milícias, dívida nunca reconhecida por Machado. Rodrigo diz que Bentinho constrói uma narrativa que só conduz o leitor a becos sem saída. Não é possível dizer se Capitu traiu Bentinho ou não. E não é possível dizer mais quase nada. Bentinho simplesmente nos confunde e para nada.

Muita Retórica — Pouca Literatura resgata diversos escritores esquecidos, como João Francisco Lisboa, Joaquim Felício dos Santos, Inglês de Souza e Xavier Marques. Dá umas boas pauladas em autores incensados como Adolfo Caminha, Afonso Arinos e Graça Aranha, além das unanimidades José de Alencar, Machado de Assis e Raul Pompéia. Fiquei com muita vontade de ler A Retirada da Laguna e os livros de Joaquim Nabuco e Eduardo Prado. E estou ansioso para começar o próximo do Rodrigo, Esquecidos e Superestimados, que continua analisando a prosa brasileira, agora no início do século 20.

A crítica de Rodrigo Gurgel é muito bem fundamentada. É divertida e equilibrada. Os pontos fortes de uma obra ruim ou os defeitos de um livro excelente não são deixados de lado, mas explicados pacientemente ao leitor.

Este texto não é sobre política. Escrever sobre política também cansa.

Para dar uma noção do que é o livro, publico o nome dos capítulos e o autor e a obra a que se referem. Boas leituras!

1. Romantismo autodestrutivo
José de Alencar e Lucíola

2. Talento para recriar a vida
Manuel Antônio de Almeida e Memórias de um Sargento de Milícias

3. O ironista macambúzio
João Francisco Lisboa e Jornal de Timon

4. O contestador liberal
Joaquim Felício dos Santos e Memórias do Distrito Diamantino

5. Valioso, mas desigual
Visconde de Taunay e Inocência

6. Ecos do ultra-romantismo
Bernardo Guimarães e O Seminarista

7. Épico às avessas
Visconde de Taunay e A Retirada da Laguna

8. Lenga-lenga maçante
Franklin Távora e Um casamento no arrabalde

9. O preço do naturalismo
Aluísio Azevedo e O Cortiço

10. Acima do naturalismo
Inglês de Souza e Contos amazônicos

11. Subliteratura e vingança
Adolfo Caminha e Bom Crioulo

12. Encoberto pela retórica
Domingos Olímpio e Luzia-Homem

13. Em busca do realismo
Manuel de Oliveira Paiva e Dona Guidinha do Poço

14. Enfermo de retórica
Raul Pompéia e O Ateneu

15. A pior das respostas
Machado de Assis e Dom Casmurro

16. O antifilisteu
Joaquim Nabuco e Minha formação

17. O anti-revolucionário
Eduardo Prado e Fastos da ditadura militar no Brasil

18. Arenga sertanista
Afonso Arinos e Pelo sertão

19. Retorno ao paraíso
Xavier Marques e Jana e Joel

20. Puro pedantismo
Graça Aranha e Canaã

“Sobre o Islã”, de Ali Kamel

“Diante desse quadro, é cada vez mais necessário usar as palavras certas. Os radicais do Islã não são perigosos porque são fanáticos, porque são “fundamentalistas”; eles são perigosos porque são totalitários. O que os define não é a religiosidade ou o fanatismo, mas a intenção de nos impor uma verdade que não é a nossa, de nos submeter a regras que nos desumanizam, de nos privar daquilo que nos define como homens: a nossa consciência e a nossa liberdade. Devem ser chamados pelo nome certo: os totalitários do Islã”

sobreoislaEste é o ponto crucial do livro “Sobre o Islã – A afinidade entre muçulmanos, judeus e cristãos e as origens do terrorismo”, lançado em 2007. O trecho acima tem a idéia que fundamenta a criação do livro por Ali Kamel, ou seja, mostrar que o islã não é uma religião de terroristas. Para provar sua tese numa cultura como a nossa Ali Kamel precisa percorrer um longo caminho para explicar o que é esta religião, tão estranha. A ótima escolha do jornalista para apresentar tanta informação é destacar, inicialmente, não o que nos é radicalmente desconhecido mas o que temos de afinidade. Com esta estratégia o islã deixa de ser algo extraterreno em menos de 50 páginas através de paralelos com os livros sagrados das tradições do cristianismo e judaísmo.

A parte que mais chama atenção é aquela que trata da visão muçulmana sobre a passagem de Jesus Cristo. Eles reconhecem o milagre da concepção imaculada, o colocam acima de todos os profetas que o precederam, chamam-no de “Palavra de Deus” , “Mensageiro de Deus” e “o Profeta de Deus”, porém não de Filho de Deus – há dois trechos na Sura que explicam o motivo (Sura 19, 35 e Sura 3,59). Os milagres de Jesus também estão presentes no livro sagrado do islã que coloca sua existência em tamanha importância para a obra divina que afirmam que ele jamais poderia ter morrido, antes jogou sobre todos os presentes uma miragem enquanto ascendia fisicamente ao encontro de Deus, com vida, onde permanece até seu retorno que será quando o mundo estiver em paz, logo após a vitória sobre o Anticristo.

A visão comparada da base das três grandes religiões monoteístas é muito bem conduzida por Ali Kamel que, a julgar pelo livro, não é uma pessoa religiosa. O respeito com que lida com todas faz parecer se tratar de um livro apologético ao islã. Como seria possível pensar diferente se nosso contato com esta religião, quase inexistente no Brasil, só nos pareceu relevante quando seguidores dela começam a ser uma preocupação mundial devido a crimes violentíssimos e assustadores? O islã veio a nossas casas não tentando nos converter (o livro mostra como, pelos textos sagrados, a religião não pode ser imposta a ninguém) mas por imagens traumatizantes: ataques terroristas, populações comemorando os ataques, vídeos de criminosos treinando crianças com armas ou executando o que chamam de infiéis.

Passada a primeira parte do livro continuamos as descobertas com um resumo da história da divisão entre sunitas e xiitas, que vem desde a “sucessão” de Maomé. A terceira parte serve para explicar que o islã não é violento. Para isso Ali Kamel caminha por analogias mais arriscadas ao lembrar da história da Igreja Católica e seus inúmeros papas assassinados, martirizados ou exilados, além da sempre citada Inquisição. Para ele, a visão de religião violenta tem como fundamento o princípio dela, quando sua impressionante expansão se deu por ataques violentos. Aos conquistados era permitido permanecerem fora do islã desde que pagassem impostos muito mais altos, ou seja, manter a sua fé era um sacrifício a que muitos não resistiriam. Isso vai contra o que diz o texto sagrado do Alcorão, como já citado aqui, então pode-se dizer que o que se expandia era o califado, o islamismo como política, não a religião. A questão dos versículos que são usados como justificativa para atos violentos é bem tratada ao contextualizar não apenas quanto às narrativas que se prestavam mas quanto aos textos completos de onde estão inseridos pequenos trechos juntados maliciosamente por Bin Laden ou citados por Paul Johnson – há um longo trecho no livro dedicado à má citação feita pelo grande historiador ao justificar sua acusação de que o islã é essencialmente violento e criminoso. Trechos do Pentateuco são usados para mostrar que vistos sob semelhante olhar malicioso e seguidos à risca eles poderiam levar às mesmas condenações do judaísmo e cristianismo. Esta terceira parte do livro explica, de forma condenatória, a adoção ainda hoje dos véus femininos e trata a questão da inegável misoginia, uma das coisas que mais repúdio nos causa esta religião.

Na quarta parte temos uma rápida reconstrução da história do terrorismo islâmico. Fala-se da origem do termo fundamentalismo (uma releitura e tentativa de viver de acordo com as bases fundadoras do cristianismo) e defende que os terroristas não são “literalistas” na interpretação dos textos sagrados, mas deturpadores dele. É neste capítulo que chegamos à citação usada na abertura deste post. Ibin Taymiyya, Al-Wahhab, Al-Banna e Sayyid Qutb são apresentados para termos uma base da filosofia que deturpa a religião e levou à criação da Al Qaeda e outros grupos terroristas. Já a parte final, a quinta do livro, é a mais ousada em termos políticos ao derrubar várias mentiras repetidas incansavelmente na cobertura da imprensa para a Guerra do Iraque. Mais ainda, Ali Kamel defende a decisão de George W.Bush de derrubar o regime de Saddam Hussein pois ali estava o país mais propenso a abrigar a Al-Qaeda tão logo seu coração fosse desmantelado no Afeganistão, com o agravante de que o Iraque era um país muito mais rico e capaz de danos muito maiores ao resto do mundo caso continuasse sua aproximação com Bin Laden.

O meu total desconhecimento do islã quando li o livro foi fator determinante para a ótima impressão que tenho dele. O mérito da abordagem escolhida por Ali Kamel é inegável, embora ao insistir em analogias ele eventualmente tropece como no caso em que iguala um detalhe da fé que serve para distinguir seguidores de uma divisão da religião (o Imã oculto, Mahdi, que vive há quase mil anos e estaria sendo mantido escondido para que venha governar a Terra até que retornem Jesus, Maomé e Ali) a dois pontos essenciais do cristianismo, sem os quais ninguém pode se dizer cristão de verdade: que Jesus nasceu de uma virgem e ressuscitou dos mortos.

Conhecer as origens do islã é o primeiro passo para se entender este fenômeno que é o expansionismo da religião, especialmente em lugares pobres. Daí fica mais fácil ver como, em meio a desamparados e fracos, a filosofia terrorista doutrine adeptos na base do medo que espalham e poder que demonstram. Lembro de, em meio à torrente de lixo que se produziu após os ataques terroristas à redação da Charlie Hebdo, chamar-me atenção o fato de muitos pensadores esquerdistas, especialmente no Brasil mas não só aqui, mostrarem-se estupefatos pelos muçulmanos terem matado “pessoas de esquerda”, ou seja, quem de certa forma luta por eles no ocidente. Somente o total desconhecimento da religião e do modo de vidas dessas pessoas poderia fazer com que alguém ficasse surpreso ao descobrir que pessoas que têm posses, cultura e prestígio possam jogar fora suas vidas privilegiadas em um ato de violência. Para quem se acredita restaurador da fé correta no Deus único contra um mundo pervertido que precisa ser dominado politicamente para ser convertido não há classes sociais nem mesmo distinção entre ideologias políticas fora do islã. É assim que se inspiram no expansionismo dos primeiros “guerreiros” de Maomé fazendo uso das armas existentes hoje, inclusive algumas menos óbvias como as liberdades dos EUA, Europa e países mais organizados. A transformação e os conflitos internos no islã são tão fortes que o livro, sendo de 2007, não tem nenhuma menção ao Estado Islâmico, hoje a corrente terrorista mais constante no noticiário.

Em tempo de generalização da ojeriza ao desconhecido islã provocada pelos seguidos atos de terrrorismo levados a cabo por deturpadores dessa fé, “Sobre o Islã” é uma obra muito corajosa, um livro a ser consultado que recomendo sem ressalvas.

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