Resenhas

@reaconaria

Por Trás da Máscara, de Flavio Morgenstern

CapaPara mim, o melhor livro do ano é, sem dúvida, Por Trás da Máscara, de Flavio Morgenstern. Sou amigo e grande admirador do Flavio. Encontrei-o pela primeira vez no lançamento do Guia Politicamente Incorreto da América Latina, de Leandro Narloch e Duda Teixeira, em 2011. Abordei-o na fila. Flavio disse que não costumava ser reconhecido em filas. Muita coisa mudou de 2011 para cá.

Estivemos juntos contra os comunistas que impediram que Yoani Sanchez falasse, em fevereiro de 2013. Estivemos juntos na manifestação de 15 de março contra Dilma. Estivemos juntos em inúmeros eventos em livrarias. Gosto muito de seu estilo e da sua técnica de esgotar os argumentos sobre o assunto de que trata. Invejo sua capacidade de produzir e seu talento. OK, ele é são-paulino. Ninguém é perfeito.

Li Por Trás da Máscara com o mesmo prazer com que aprecio seus artigos. Trata-se, na verdade, de um artigo um pouco mais longo que o habitual. Mas essas quase 600 páginas são sucintas demais.

O mês de junho de 2013 foi particularmente doloroso para mim. Meu pai sofreu um acidente em 31 de maio e faleceu em 2 de julho de 2013. Não pude prestar muita atenção nas manifestações, embora tenha sofrido as conseqüências delas, como todo mundo. Enquanto lia o livro, procurava relembrar o que fiz em cada um daqueles momentos. O detalhismo do Flavio compõe com clareza cada evento daqueles dias conturbados.

O livro começa analisando o que foi o Occupy Wall Street, o movimento de protesto que se instalou no Parque Zuccotti, em Nova York, entre 17 de setembro e 15 de novembro de 2011. A partir de um grupo inicialmente pequeno, composto exclusivamente por militantes, o protesto cresceu enormemente por causa de uma mentira, o boato plantado por um dos organizadores de que haveria um show do Radio Head no parque. Com uma quantidade suficiente de pessoas, realizou-se um ato de caos planejado, a marcha na ponte do Brooklin, que isolou a ilha de Manhattan do restante da cidade. Apesar dos esforços da polícia de evitar ao máximo o enfrentamento, o movimento acabou conseguindo o que queria: imagens de confronto entre policiais e manifestantes. Manipulando as narrativas, conquistou o apoio popular e permaneceu perturbando os cidadãos nova-iorquinos por dois meses. A tática era não declarar qual era sua pauta, quais os seus objetivos. Funcionou.

O principal argumento para o uso da força para desalojar os acampamentos foi a sujeira que produziram. Os manifestantes defecavam em todos os lugares…

Flavio expõe as origens do Movimento Passe Livre, formado por militantes do partidos de extrema esquerda: PSTU, PSOL, PCO e PCB, informação que não se acha na imprensa. Esses grupos não precisam de uma pauta de reivindicações, mas de pretextos para protestar e adquirir poder, forçando o aumento do papel do Estado em supostamente resolver problemas reais ou inventados. Qualquer coisa serve: racismo, ciclo ativismo, LGBTXYZ, liberação da maconha, o que for. Os transportes são um grave problema real das cidades brasileiras e se encaixaram perfeitamente nas necessidades dos militantes extremistas.

A dinâmica das manifestações é descrita com todos os detalhes relevantes. Desde os primeiros atos, houve um grau de violência assustador por parte dos militantes, o que colocou a imprensa e a população contra eles, num primeiro momento. Então, aproveitando-se de alguns erros cometidos pela polícia, exatamente como aconteceu em Nova York, os organizadores conseguiram atrair a simpatia da opinião pública, explorando imagens de confrontos. As pessoas naturalmente tendem a dar razão a quem parece mais fraco.

Flavio lembra de alguns cartazes dos manifestantes, como “Me chama de Copa e investe em mim!”, “Pelo fim do funk alto no busão”, “Só paramos quando o Kinder Ovo voltar a ser R$1,00” e “Vendo Palio 98”. O mais simbólico de todos foi “The jiripoca is going to pew-pew”. São frases auto-referentes que não dizem nada, só expressam o vazio de idéias dos protestos. Flavio propõe mais algumas: “Estou aqui pela mesma coisa do cara do meu lado”, “Piquet foi melhor do que Senna”, “Subsidiem o que eu gosto, proíbam o que eu não gosto” e outras 18 que você encontra no livro.

Um evento chama a atenção na narrativa: a invasão do prédio do Itamaraty, em 20 de junho. Uma multidão havia cercado o Congresso Nacional. De lá, passou pelo Palácio do Planalto e pelo Ministério da Justiça e seguiu, direcionada por empurrões estratégicos, para o Ministério das Relações Exteriores. A segurança desse prédio não é feita por policiais, mas pela Marinha. Os organizadores queriam um confronto contra as Forças Armadas. Diz Flavio Morgenstern:

“Se um único agente das Forças Armadas fosse flagrado dando um croque na cabeça de um manifestante, qual seria a narrativa nos jornais do dia seguinte? Algo melhor do que ‘Exército vai às ruas para reprimir manifestação pacífica’? Nosso país poderia ter-se tornado completamente diferente caso apenas um vidro a mais fosse quebrado. O primeiro que conseguisse se apresentar como liderança do protesto, então, conseguiria ter poderes muito maiores do que os outorgados pelo AI-5.”

Foi esse o risco que corremos em junho de 2013.

O último capítulo trata do assassinato do jornalista Santiago Andrade, atingido por um rojão disparado por dois black blockers, em fevereiro de 2014. Houve muitas mortes causadas pelos protestos, mas essa foi a primeira que claramente partiu dos manifestantes.

FlavioAlém da narrativa precisa e da análise das causas e conseqüências do movimento, o leitor é brindado com explicações preciosas sobre o pensamento de Elias Canetti, Ortega y Gasset, Eric Hoffer, Ayn Rand, Kuehnelt-Leddihn, sobre a experiência Milgram e sobre a oposição entre os significados originais das palavras democracia e república. Só esses trechos já valeriam o livro.

Senti falta de uma bibliografia no final. Também seria muito útil um índice onomástico (que imagino que aumentaria muito o número de páginas e talvez o custo do livro).

É curioso que, embora tenha sido publicado agora em 2015, o texto certamente estava pronto há mais ou menos um ano. Não há menção aos protestos contra Dilma, que começaram em 1º de novembro de 2014.

Já tem o seu? Não? O que está esperando? Corra para comprar Por Trás da Máscara!

Introdução à Nova Ordem Mundial, de Alexandre Costa

Quer entender mais sobre os Globalistas e a Nova Ordem Mundial? Uma boa pedida é o livro “Introdução à Nova Ordem Mundial” de Alexandre Costa, que chega em sua segunda edição pela Vide Editorial. Nele, o autor se propõe a fazer uma introdução ao assunto sem entrar em teorias conspiratórias ou fatos que não podem ser comprovados. Afinal, se uma sociedade secreta (ou discreta) possui intenções ocultas, como poderíamos esmiuçar seus planos sem entrar em conspirações impossíveis de comprovação?

Por isso, podemos dizer que Alexandre Costa construiu seu livro em forma de guia, de modo que, tanto quem está familiarizado com o tema, quanto quem nunca leu sobre o assunto não encontra dificuldades em compreender cada tópico levantado.

O livro (…) poderia levar o título de ‘O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota útil do globalismo” Olavo de Carvalho

Logo no primeiro capítulo, Alexandre Costa nos lembra que a ideia de um governo mundial é antiga. Desde Sargão da Acádia (Século XXIII a.C.) até os dias atuais, mentes vislumbram em um governo global a solução para os males da humanidade. E aí entra a questão: Com o fim dos Estados Nacionais e das legislações locais, quem assumiria o governo global? Os globalistas têm essa resposta: Eles mesmos! Ou seja, o globalismo antes de tudo é um projeto totalitário e autoritário de proporções mundiais.

No livro, a “Nova Ordem Mundial” é definida como um conjunto de ações que visam a implantação de um governo global. O autor compila três importantes movimentos globalistas distintos que ocorrem simultaneamente. Às vezes aliados de ocasião, os movimentos possuem como meta a destruição da civilização ocidental, para em seguida implantar uma Ditadura Mundial. São eles:

O Movimento Comunista Internacional

Liderado por Rússia e China (sob a nova face do Eurasianismo), o coletivismo conta com o Foro de São Paulo, os partidos comunistas/socialistas europeus e os regimes ditatoriais coletivistas da África como aliados naturais. Seus acordos de cooperação, suas jogadas no Conselho de Segurança da ONU, a movimentação financeira entre Estados desse eixo e suas votações nos organismos internacionais refletem essa parceria.

O Islamismo

“O Islã só estará completo quando o último homem da Terra for convertido.” Talvez a maior ameaça à moral judaico-cristã do ocidente, o avanço do Islamismo está sendo manipulado, pelo dinheiro do petróleo e dos globalistas, para a destruição do Estado de Israel e um futuro conflito com o Ocidente. Ao longo do livro vemos que várias crises são gestadas para acelerar os propósitos da Nova Ordem Mundial e que “uma grande crise” como um choque entre o “judaísmo-cristianismo” e o “islamismo” está sendo fomentada (a manipulação midiática do conflito entre Israel e as forças terroristas abrigadas dentro do futuro Estado Palestino é um exemplo).

Trecho do livro “David Rockfeller diz que a Nova Ordem Mundial irá emergir do caos. Pior: diz ele que para a população aceitar a Nova Ordem Mundial, falta apenas a crise certa.”

Os Globalistas

Apontados pelo autor como a “face mais conhecida daquilo que chamamos Nova Ordem Mundial”, os globalistas são compostos pelos grandes banqueiros e financistas internacionais, suas corporações, suas fundações que interferem na mudança das legislações locais e suas organizações políticas sem caráter oficial que atuam de forma decisiva na geopolítica global como: o Federal Reserve (que não é reserva e muito menos federal, e é de forma despropositada chamado de o Banco Central dos EUA), a Comissão Trilateral, o CFR, o Clube Bilderberg, o Diálogo Interamericano, o Clube de Roma, o Clube de Madrid, Bohemian Club, o Elders e diversas outras organizações.

A destruição da civilização ocidental passa por implodir nossos pilares, identificados pelo autor como: a moral judaico-cristã, o pensamento grego e o direito romano.

Corrompendo a alta cultura, enfraquecendo a ordem jurídica e combatendo a moral judaico-cristã o caminho para o globalismo é pavimentado aos poucos.

No curto prazo, os objetivos das três forças globalistas coincidem. Os financiamentos e as cooperações mútuas são reflexos disso. É fácil identificar no atual governo brasileiro (e em grande parte da oposição parlamentar) uma cumplicidade com essa agenda.

O autor aponta que o fim do indivíduo com a ascensão da mentalidade coletivista segue a “estratégia gramsciana” de Revolução Cultural “com a paciência dos Socialistas Fabianos”. A destruição da capacidade cognitiva, através de “filosofias” que “afastam as pessoas da realidade” é parte importante do projeto. Quem acompanha as vergonhosas políticas do Ministério da Educação e do Ministério da Cultura não tem maiores problemas em compreender o verdadeiro PAC nacional: Plano de Auto-sabotagem Cognitiva.

Controle da imprensa e da informação

Você já ouviu falar na Open Society? Fundada por George Soros, a Open Society coordena no mundo a alteração de legislações locais, políticas públicas globalistas e o maior projeto da história humana de uniformização da informação através do Project Syndicate. O Projetc Syndicate distribui artigos de opinião para 59 línguas diferentes, em 154 países e nos 492 jornais e revistas mais influentes do mundo. Seu poder é tão vasto, que em tiragens impressas chega a 78 milhões de exemplares, atingindo no total (impresso e online) mais de 330 milhões de pessoas! É a maior rede de homogeneização de opinião do mundo! No Brasil, Fernando Henrique Cardoso e Antônio Patriota são colunistas afiliados do Project Syndicate.

Minha conclusão é que, para serem adequadas, as opiniões precisam ser organizadas para a imprensa e não pela imprensa como é o caso hoje.”  Walter Lippman, idealizador do CFR,  em 1992.

Controle populacional, destruição da democracia, destruição da noção de indivíduo, implantação da mentalidade coletivista, controle de alimentos, controle da informação, fim da liberdade de expressão, fim da presunção de inocência, fim da igualdade perante a lei e criação de “categorias de pessoas”, o fim da família, o fim do Estado nacional, a educação infantil a cargo total do globalismo sem interferência da família, o fim da privacidade, o fim da liberdade religiosa; enfim, tudo isso está nos planos da Nova Ordem Mundial. Para saber mais sobre o assunto não deixe de ler Introdução à Nova Ordem Mundial de Alexandre Costa. Afinal, como é lembrado no livro “diante de novos fatos, só os idiotas não mudam de ideia” (Winston Churchill).

Introdução à Nova Ordem Mundial - Alexandre Costa

Introdução à Nova Ordem Mundial – Alexandre Costa

Título: Introdução à Nova Ordem Mundial

Autor: Alexandre Costa

Editora: Vide Editorial

Em papel:

Livraria Cultura

Livraria Saraiva

Amazon

Vide Editorial

Livraria do Seminário

Ebook:

Amazon

Ebenezer Fox, veterano da Revolução Americana

Ebenezer FoxEsta resenha é sobre um livro realmente antigo. Tomei conhecimento dele porque é citado por Rose Wilder Lane em The Discovery of Freedom. The Adventures of Ebenezer Fox in the Revolutionary War foi escrito em 1838, quando seu autor tinha 75 anos. Seus netos sempre perguntavam sobre as histórias que ele viveu no tempo da guerra de independência dos Estados Unidos. Ebenezer Fox resolveu colocá-las no papel para poder passar mais facilmente a eles essas experiências. Não imaginou que tomariam a forma de um livro.

Não é um texto muito longo. São 240 páginas de uma leitura agradabilíssima. Encontrei de graça na Play Store. Existe em outros lugares para download e foi publicado recentemente em papel, em edições fac-similares (ISBN 978-1-230-43194-9 e 978-1-4076-8914-2).

Quando Ebenezer tinha sete anos, seu pai decidiu que já era tempo para ele se sustentar sozinho e arranjou-lhe um emprego na casa de um fazendeiro. O menino ficou trabalhando lá por cinco anos. Achando que estava sendo explorado, resolveu deixar a cidade, em Massachussets, e procurar trabalho em um navio. Juntou o que pôde para essa aventura, alguns alimentos e cinqüenta centavos de dólar e fugiu junto com um amigo, na noite de 18 de abril de 1775. Poucas horas depois de sua fuga, muito perto de onde ele morava, foi lutada a Batalha de Lexington, que deu início à Revolução Americana.

Conseguiu emprego em um navio mercante e viajou até Santo Domingo, onde o capitão comprou uma carga de café. Voltando para Boston, já bem próximos da costa, foram abordados por um navio inglês. O capitão se entregou e Ebenezer e seus companheiros marinheiros pularam e nadaram até a praia. Por algum tempo, voltou para a casa de seus pais.

Ebenezer03

Um combate naval

Foi para a guerra mais duas vezes, como voluntário. Seu patrão, que era barbeiro, foi convocado para lutar e Ebenezer se ofereceu para substituí-lo. Alistou-se em um navio e participou de alguns combates, muito bem descritos no livro. Foi capturado e ficou talvez dois anos prisioneiro dos ingleses. Parte desse tempo, ficou no navio-prisão Jersey, em condições muito duras. Cerca de oito mil rebeldes americanos morreram nessa masmorra flutuante na vizinhança de Nova York, que acabou afundada ao final da guerra.

Foi levado para a Jamaica. De lá, no episódio mais interessante da narrativa, fugiu de barco para Cuba, junto com outros quatro companheiros, três americanos e um irlandês.

Salta à vista, ao longo do livro, a grande pobreza em que viviam os americanos na época da Independência. Foram mesmo esses colonos subdesenvolvidos e caipiras que lutaram contra o maior império militar e naval de sua época e venceram? Também vemos a crueldade do colonizador e a indignação e a revolta que essa opressão criou. É difícil de acreditar na situação desumana em que eram mantidos os prisioneiros do Jersey.

Também achei surpreendente a qualidade do texto e da linguagem de Ebenezer Fox, que parece não ter tido grande educação formal. O arquivo da Play Store foi digitalizado a partir de uma edição de 1847. Ao contrário do que acontece com a maioria dos livros recém-lançados que compro, não achei um erro de ortografia ou de gramática. Há belas ilustrações por todo o volume.

Ebenezer05

O infame navio-prisão Jersey

Ebenezer aproveita que está escrevendo para pedir a seus ex-companheiros de infortúnios que o procurem, caso ainda estejam vivos. Ele nunca mais soube nada do garoto que o acompanhou na fuga aos 12 anos, ou dos companheiros da viagem da Jamaica para Cuba. Mas recebeu a visita, depois da publicação da primeira edição do livro, de um tenente do navio em que lutou. Também teve notícias do capitão desse navio, a quem muito admirava.

Estou pensando em traduzir o livro para o português. Vai entrar na fila. Essas histórias hoje são totalmente desconhecidas. Estamos acostumados a sempre pensar nos Estados Unidos como o país mais rico e poderoso do mundo. Ninguém sabe o quanto já foram pobres e quanto trabalho deu enriquecer.

Aquele veterano de guerra possuía uma profunda consciência da importância da liberdade e da responsabilidade que a liberdade traz. Se você é livre, só você é responsável por si mesmo, ninguém mais. Essa é a principal mensagem de Ebenezer Fox.

Esquecidos & Superestimados, de Rodrigo Gurgel

EsquecidosVamos respirar um pouco de ar puro. Vamos falar de assuntos mais elevados: literatura e o trabalho admirável de Rodrigo Gurgel como crítico.

Foi com grande prazer que li o livro mais recente dele, Esquecidos & Superestimados, publicado pela Vide Editorial. Como em Muita Retórica — Pouca Literatura, obras brasileiras são analisadas, cada uma de um autor diferente. Percorremos assim as primeiras três décadas da nossa literatura do século 20.

Confesso que, desta vez, não li nenhum dos textos que ele aborda. Não importa. Aumentou minha lista de autores a conhecer, com a inclusão de, pelo menos, Simões Lopes Neto, Hugo de Carvalho Ramos e Valdomiro Silveira. Dependendo da minha disposição, gostaria também de ler Júlia Lopes de Almeida, Coelho Neto e Amadeu Amaral.

Gostei muito do capítulo sobre Monteiro Lobato, autor que marcou a minha infância e a de muita gente. Fico incomodado com a patrulha tacanha que ele sofre hoje dos analfabetos politicamente corretos, que querem colocar em suas edições infantis advertências sobre Tia Nastácia. É verdade que olhei novamente a História do Mundo para Crianças e não gostei tanto assim do que li. E fiquei de fato chocado quando li O Presidente Negro. Não acho que a obra infantil de Monteiro Lobato seja racista, mas este livro é sim. As pessoas criticam o racismo que não existe e ignoram o racismo real, porque não lêem nem os livros para crianças nem os para adultos.

Monteiro Lobato é estigmatizado por causa do artigo Paranóia ou mistificação?, de 1917, em que criticou a exposição de Anita Malfatti. Embora acusado de prepotente e de inimigo de qualquer avanço cultural, Lobato, em sua editora, publicou inúmeros escritores jovens e desconhecidos, incluindo Guilherme de Almeida, Amadeu Amaral, Gilberto Amado, Lima Barreto, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia. Teve a competência de montar uma rede de distribuição de livros com bancas de jornal, papelarias, farmácias e armazéns. Em 1923, tinha quase 200 títulos no catálogo. Sem a efervescência cultural que criou, a Semana de 22 não teria sido possível.

Os outros autores mais conhecidos de quem Rodrigo Gurgel trata são Lima Barreto, Euclides da Cunha e Olavo Bilac. Gurgel diz que Lima Barreto defendeu uma literatura militante, que deveria mostrar as qualidades de seus personagens e afirmar que o entendimento e o amor entre pessoas muito diferentes era possível. Mas sua obra é marcada pelo sentimento de derrota, seu e de seus personagens.

Os Sertões, de Euclides da Cunha, é um livro que exige uma disposição especial do leitor para enfrentar um vocabulário rebuscado e descrições topográficas e geológicas intermináveis. Gurgel nos convence de que o esforço vale a pena. Aponta as semelhanças entre um trecho de Os Sertões e um poema de Rimbaud e especula se Euclides da Cunha teria tomado contato com esse autor na biblioteca de Francisco Escobar.

Olavo Bilac é analisado por suas crônicas, consideradas datadas, nas quais abundam hipérboles vazias e falta conteúdo. Podemos ver vários exemplos de sua estilística piegas, cheia de adjetivos extremados e completamente inadequados.

Rodrigo Gurgel elogia três contistas que se situam acima do que se costuma chamar de regionalismo. O gaúcho Simões Lopes Neto é autor de Lendas do Sul, uma coletânea de contos folclóricos narrados com grande habilidade. Hugo de Carvalho Ramos, goiano, escreveu Tropas e Boiadas, narrando histórias de tropeiros do Centro-Oeste. Seus contos cheios de espontaneidade e tensão épica fogem dos lugares-comuns com inteligência, sensibilidade e apuro lingüístico. Valdomiro Silveira, paulista, é autor de Os Caboclos. Os 24 contos desse livro são histórias singelas ou dramáticas, que costumam começar de maneira que a atenção do leitor é imediatamente capturada. Seus narradores se expressam com desembaraço, suas frases se encadeiam sem adereços desnecessários, seu ritmo é leve. É o avesso do beletrismo balofo de Afonso Arinos.

Há muito mais autores esquecidos que superestimados, mas vamos mencionar dois destes últimos. Antônio Sales, autor de Aves de Arribação, tem, segundo Gurgel, o mérito de concentrar em duzentas páginas todos os defeitos da literatura brasileira: ornamentação piegas, retórica afetada, uso desmedido de adjetivos e de lugares-comuns, falta de interação entre os personagens, estilo e técnica narrativa deficientes. João do Rio escreveu A correspondência de uma estação de cura, uma narrativa epistolar frouxamente composta, em que os personagens se expressam invariavelmente de maneira frívola, mesquinha e afetada.

Aprendi muito com Esquecidos & Superestimados, que vai me fazer ler mais.

1. À espera de justiça
— Júlia Lopes de Almeida e A falência

2. Escondido e desprezado
— Emanuel Guimarães e A todo transe!

3. Combate interminável
— Euclides da Cunha e Os Sertões

4. Perseguido, mas brilhante
— Coelho Neto e Turbilhão

5. Perfumaria bilaquiana
— Olavo Bilac e suas crônicas

6. A salvação pelo duplo
— Lindolfo Rocha e Maria Dusá

7. Retorno à querência
— Simões Lopes Neto e Lendas do Sul

8. Manual de literatice
— Antônio Sales e Aves de arribação

9. Salvo da banalidade
— Hugo de Carvalho Ramos e Tropas e boiadas

10. Canalhice e afetação
— João do Rio e A correspondência de uma estação de cura

11. Salvo pela ironia
— Carlos de Laet e suas crônicas

12. Ideologia e azedume
— Lima Barreto e Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá

13. Psicopatia e racismo
— Afrânio Peixoto e Fruta do mato

14. Injustamente esquecido
— Valdomiro Silveira e Os caboclos

15. Corrosivo e sempre contemporâneo
— Monteiro Lobato, Urupês e Negrinha

16. O filho tardio de Alencar
— Alcydes Maya e Alma bárbara

17. Sobriedade e sutileza
— Amadeu Amaral e A pulseira de ferro

18. Equívocos e retórica
— Jackson de Figueiredo e Literatura reacionária

Onde encontrar:

Esquecidos & Superestimados
Em papel
Cultura
Saraiva
Vide Editorial
Amazon
Livraria do Seminário
E-book:
Kindle
Kobo

Muita retórica – Pouca literatura
Em papel:
Cultura
Saraiva
Vide Editorial
Amazon
Livraria do Seminário
E-book:
Kindle
Kobo

O Milagre da Igreja, de A. D. Sertillanges

E o Reino assim regido, ao mesmo tempo em que preparará o futuro da raça, salvará, alma por alma, aqueles que quiserem submeter-se às suas leis. Procriará eleitos para encher o Céu. O Reino dos Céus terrestre: tal será o nome da Igreja ‘militante’. O Reino dos Céus puro e simples: tal será o nome da Igreja ‘triunfante’.

A. D. Sertillanges – O Milagre da Igreja

Antonin-Dalmace_Sertillanges

Em um livro de bolso de pouco menos de 200 páginas, Antonin-Dalmace Sertillanges, padre francês da ordem dos dominicanos, consegue tocar em todos os assuntos que causam debate sobre a Igreja Católica. Direto e conciso, ele argumenta teologicamente para combater mitos sobre a Igreja e para sanar dúvidas sobre ela.

Não há falso ecumenismo, nem a relativização e o politicamente correto feitos por alguns padres e “pensadores” atuais. Sertillanges é claro na defesa da Igreja Católica como a Igreja de Cristo, sem fingir imparcialidade, uma das maiores mentiras de nossos tempos. Ao mesmo tempo ele não ataca nenhuma outra religião, isso não é necessário. O autor é honesto, e é por isso que o livro pode ser lido por pessoas de qualquer religião, até mesmo por quem não tem nenhuma. E nesta resenha seguirei a honestidade do autor: sou católico e acredito que a Igreja Católica é a Igreja de Cristo.

A obra é de 1933, época conturbada e de crise. O autor cita problemas com Mussolini e Hitler, até mesmo os desafiando: quem são eles perto da Igreja? Qual será a duração de seus governos e qual será a duração da Igreja?

Mas questões pontuais não são o foco do livro, apesar de acrescentarem ao todo. Os nomes dos capítulos demonstram que o autor quer explorar conceitos e as reações da Igreja aos grandes desafios enfrentados:

15072621

Capítulo I – A Igreja Antes da Igreja

Capítulo II – O nascimento da Igreja

Capítulo III – Os primeiros desenvolvimentos da Igreja

Capítulo IV – As primeiras conquistas

Capítulo V – A Igreja e as civilizações anteriores

Capítulo VI – A Igreja em face dos Césares

Capítulo VII – A Igreja em face do tempo presente

Logo no começo Sertillanges explica o caráter diferenciado da Igreja e seu caráter perpétuo, termo recorrente no livro: existiu Igreja antes do surgimento terreno da Igreja. E é isso que ele conecta com o capítulo final. O quê garante que a Igreja de hoje é a mesma de ontem e será a mesma amanhã? Se a Igreja pode acabar, será que ela realmente é eterna?

(…)Por isso o adversário, sentindo o lado fraco que contra a instituição e a doutrina uma tal pretensão lhe oferece, apressa-se, ele, a profetizar a morte da Igreja, a declarar iminente essa morte,a mostrá-la, já assente, por assim dizer, nos seus pródromos certos.

(…)Se a Igreja deve morrer, ela nada é. Se a Igreja está não somente no tempo, o que deve ser, porém é sujeita ao tempo, então ela está abandonada ao tempo assim como tudo o mais, e não está suspensa à Eternidade.(…)

Todos os ataques contra a Igreja e todas as infiltrações de inimigos durante sua existência demonstram que o pilar que querem destruir é o da “Perpetuidade” da instituição. O ataques aos dogmas e à liturgia servem para minar as bases extra-temporais que a compõem.

Ora, uma instituição que cuida das almas eternas de seus fieis não pode ser limitada no tempo, muito menos mudar de opinião com o passar do tempo. Por isso que o homem moderno está perdido: não se reconhece a eternidade de sua alma e nem a eternidade de quem prega a salvação de sua alma.

À medida que o sentimento de Deus e o sentimento da nossa unidade espiritual em Deus, tal como a concebe e a organiza a Igreja, se vai enfraquecendo, vê-se proporcionalmente baixar o sentimento do homem, da unidade interior da comunidade moral. Não há mais, dentro e fora, senão forças esparsas ou bloqueadas para fins utilitários. Não há mais senão funções.

As consequências desse descolamento do ser humano com a realidade são evidentes: os “fins utilitários” e a perda de senso moral. E com isso ocorre o crescimento do sentimento revolucionário, de querer trazer o paraíso para a Terra, de estabelecer uma “perfeição divina” nos domínios terrestres . Se não somos eternos, não há Céu; então não há paraíso além, apenas o mundo perfeito profetizado por ideólogos como o destino da humanidade. Essa é a raiz do movimento revolucionário e todas suas vertentes.

Um livro que poderia ser apenas apologético torna-se uma análise da nossa própria visão de mundo. Só a busca pela Eternidade, o reconhecimento da nossa real natureza e da natureza perpétua da Igreja conseguirão impedir impedir o ímpeto utópico e destruidor da Revolução.

Título: O Milagre da Igreja

Autor: A. D. Sertillanges

Editora: Ecclesiae

Lançamento: 29 de Maio de 2015

Onde comprar:

Livraria Cultura

Amazon

Vide Editorial 

Editora Ecclesiae

Seminário de Filosofia 

Página 4 de 812345678