Resenhas

@reaconaria

“O Homem – A Vida, a Ciência e a Arte” de Ernest Hello

Você provavelmente não comprará esse livro baseado na minha indicação, mas na do excelente crítico literário Rodrigo Gurgel, no qual muito provavelmente é dele a maior influência para termos obtido o direito de ser receptáculo dessa obra. Também quem quiser uma amostra do livro pode encontrá-lo no blog do Felipe Moura Brasil.

Esta obra está inteiramente traduzida do francês por Roberto Mallet que imagino teve noites mal dormidas para poder transmitir com fidelidade a perspicácia do autor bretão para os olhos do público brasileiro, notável na leitura de qualquer trecho do livro em que se sorteie.
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A bem afortunada escolha de Laura Barreto de uma árvore como signo da capa sumariza com precisão a intenção do autor de privilegiar a Unidade orgânica sobre a unidade mecânica, não querendo sacrificar a Unidade real à unidade aparente.

A variedade temática também é similar aos ramos que crescem sem direção: o livro inicia dando conselhos pastorais e termina criticando a arte clássica. Tal desvio radical é atributo da criatividade de Hello, que espera nessa diversidade ser compreendido por todos os espíritos elevados.

O autor diz que o objetivo deste livro é um só, mas por vias diferentes, posso explicar que seu objetivo é a expansão da espiritualidade para além da área que por costume, conferimos à religião. Fica subliminar que a árvore de Hello seja o próprio ícone bíblico, a Videira que é Cristo.

Ele diz:

O espírito do século dezoito foi um sopro envenenado que parecia ter a propriedade de infiltrar-se no sangue através dos poros e de provocar o apodrecimento da substância que penetrava. Esse sopro atinge a Ciência; ela desapareceu para dar lugar às ciências. Esse sopro atinge a Arte: ela desapareceu para dar lugar às artes. O elemento espiritual, que mantém a unidade, desvaneceu-se, e a substância dos seres, abandonada pelo espírito, desfez-se em pó.

Hello critica o passado visando os vestígios do século 18 no futuro, nosso presente. Sua esparcialidade se soma e serve de remédio à curar a alma doente do Brasil moderno que perdeu a identidade com o universo real.  Perda essa devido à desunião do Brasil com a metafísica da civilização judaico-cristã, para Hello nada é pior que a separação:

A morte, sob todas as suas formas, é separação. A morte moral separa o homem da verdade, que é seu centro. A morte física separa o corpo da alma; aquele que sente prazer na morte, seu inventor, o diabo, é aquele que se separou e aquele que separa.

Uma pequena coletânea de trechos serve de amostra à intuição do autor. Hello não fala como um romântico quando traduz os defeitos e qualidades prevalecentes do que observa, mas como um cientista da alma que detém a tradição da clareza católica.

Em um pequeno trecho sobre a razão, Hello lança seu escrutínio sobre dois séculos:

Sem dúvida a Razão pode falar, mesmo no silêncio da Fé cristã, mas ninguém ouve a voz do abismo que chama esse homem, que impõe silêncio à Razão, e ele escuta a voz do abismo; não se contentando com os erros lógicos a que um primeiro erro conduz, pede ajuda a seu coração revoltado, a fim de negar o que o espírito sozinho não negaria; dirige um ato de fé ao nada, e precipita-se, a cabeça confusa, para onde a vertigem aconselha ir.

Sobre a juventude proclama:

Quando um jovem fez, em seus caminhos, muitas asneiras, quando perdeu muito tempo, contraiu dívidas, foi tolo, medíocre, inútil e inconveniente, diz-se que viveu muito.

Deveríamos dizer que morreu muito. O que ele fez foi nada; ele nada fez. Deixou fermentar o nada; o nada produziu o nada; sobreveio o tédio, e é tudo.

Como os jovens brasileiros, cada vez mais exaustos com a normalidade de uma cultura de choque. Hello já previa tanto a causa como a cura.

Sobre a tecnologia comenta as virtudes intrínsecas da ordem natural:

Foi por obediência que o raio conquistou a glória de transportar a palavra através de qualquer distância. Foi por obediência que a luz conquistou a glória de reproduzir a figura humana, de impor a duração ao espelho e de se fazer retratos que a justiça sempre aprova, retratos sem mentira.

Sobre a arte, diz primorosamente:

Um dos sentimentos mais freqüentes entre os artistas é o desprezo pela arte. Um dos sentimentos mais freqüentes entre os críticos é o desprezo pela arte.

O que chamo de desprezar a arte é permitir-lhe mentir.

O artista despreza a Arte quando tende a outra coisa que não seja realizar o verdadeiro. O crítico despreza a Arte quando perdoa-lhe por ter um ideal que não é verdadeiro.

Hello talvez deixe o espírito desse livro inculcado em algum gênio à continuar sua causa no Brasil, assim como revelou o dom de Garrigou-Lagrange e influenciou George Bernanos e León Bloy. É uma obra alienígena a um povo cuja educação é refém da burocratização e inferior à Iraniana. É entretanto, bem vinda, sendo daqueles livros a ler de dez em dez anos para descobrir sua força e a intimidade com a sabedoria que o autor possui. Como Hello disse:

A Palavra é um ato. Por isso procuro falar.

Repetir esse ato é nosso dever com o próximo.

Título: O Homem – A Vida, a Ciência e a Arte

Autor: Ernest Hello

Editora: Ecclesiae

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Preconceito contra as Armas, de John Lott Jr.

Chegou às livrarias no mês passado mais um excelente lançamento da Vide Editorial, Preconceito contra as Armas: Por que quase tudo o que você ouviu sobre o controle de armas está errado, de John Lott Jr, traduzido por Flavio Quintela. O autor é talvez o mais importante pesquisador das relações entre criminalidade e as diferentes legislações sobre controle de armas. Sua principal obra é More Guns Less Crime: Understanding Crime and Gun Control Laws, publicada originalmente em 1998.

Em Preconceito contra as Armas, publicado nos Estados Unidos em 2003, Lott analisa diversos aspectos das distorções de informação sobre o assunto de controle de armas. O livro é dividido em duas partes. Na primeira, ele expõe a maneira como as armas são tratadas pela imprensa, pelas entidades governamentais dos Estados Unidos e como os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 influenciaram o debate. Na segunda, discute procedimentos corretos e errôneos para pesquisas sobre armas e analisa três questões sensíveis para o público americano: 1) ataques armados de um atirador contra múltiplas vítimas, 2) segurança de armas em casa e 3) a influência das feiras de armas e da venda de armas de assalto na criminalidade.

O título original é The Bias against Guns. É difícil traduzir “bias” exatamente. Eu também escolheria “preconceito” para o título, mas “bias” significa “viés”, “tendenciosidade”. Existe um tratamento tendencioso de tudo o que se refere à propriedade, posse, porte e uso de armas pelo cidadão comum e até por policiais ou militares. Esse viés é generalizado na imprensa e nos órgãos de governo. Existem inúmeras ONGs desarmamentistas nos Estados Unidos e no Brasil. Grande parte dos argumentos apresentados por essas pessoas e entidades é simplesmente falsa e Lott vai desmontando-os um a um.

Em abril de 2000, o jornal The New York Times publicou uma pesquisa sobre “assassinatos de fúria”, ou seja, assassinatos não políticos de duas ou mais pessoas em locais públicos. Concluiu que esse tipo de crime parecia estar aumentando, que o acesso a armas seria um fator crucial para facilitá-lo e que esse fator podia ser afetado pela legislação. Foram relacionados 100 crimes, dos quais 51 ocorreram entre 1949 e 1999 e 49 entre 1995 e 1999. O fato é que a maioria dos crimes anteriores a 1995 foi simplesmente deixada de fora. John Lott questionou sistematicamente o jornal e os jornalistas envolvidos nas reportagens. Recebeu como resposta apenas tergiversações. Esse é um caso entre muitos. Segundo uma pesquisa que o livro cita, embora apenas metade dos americanos seja favorável a uma legislação mais restritiva contra armas, 78% dos jornalistas a apóiam. O único órgão de imprensa que não é francamente contrário às garantias da Segunda Emenda é a Fox News.

O governo americano, por meio de suas diversas agências, patrocina muitas pesquisas sobre violência, criminalidade e acidentes com armas. Todas elas, sem exceção, procuram estabelecer o mal que as armas podem causar. Não há pesquisas patrocinadas pelo governo que procurem descobrir se, em algum caso, as armas podem causar algum bem. De maneira mais clara, não se pesquisa o uso defensivo das armas. Lott realizou algumas pesquisas detalhadas sobre esse tipo de uso entre 2001 e 2002. Ele afirma que houve 2.300.000 casos de usos defensivos de armas no ano de 2002. Esse tipo de história é ignorado pelo governo e pela imprensa. Os dados estão no livro. Afirmar sistematicamente que ter armas é perigoso, que as armas devem ser mantidas escondidas, desmuniciadas e ou travadas impede em muitos casos o uso defensivo delas e coloca a população em perigo.

Sobre os ataques armados de atiradores contra múltiplas vítimas, Lott afirma que só existe uma medida eficaz para prevenir esse tipo específico de crime e minimizar suas conseqüências. É permitir que os cidadãos portem armas de maneira oculta. Vemos constantes ataques desse tipo em escolas, onde as armas são proibidas.

O livro traz uma comparação muito interessante entre tipos de acidente. Em 1999, 31 crianças menores de 10 anos morreram em acidentes com armas. No mesmo período, o número de crianças nessa faixa etária que morreu por afogamento foi de 750. 523 morreram por queimaduras. 92 morreram por quedas. 81 morreram em acidentes de bicicleta. 1636 em acidentes de automóvel. Que tal proibir as bicicletas?

Estes são apenas alguns exemplos. O livro é muito rico em informações. Tive alguma dificuldade em acompanhar as estatísticas que ele apresenta. Há muitas tabelas para embasar os argumentos. É perfeitamente possível ler o texto sem se preocupar com elas, mas quem estiver procurando dados detalhados vai encontrar.

No Brasil, o debate sobre armas é muito mais conspurcado que nos Estados Unidos. Lá, a Segunda Emenda é um valor respeitado, embora sob ataque. Aqui, em que pese o trabalho hercúleo do Movimento Viva Brasil em fazer esse debate, a voz daqueles que defendem a liberdade do cidadão praticamente não se ouve. Livros como este são fundamentais para permitir que a discussão exista. O povo demonstrou sua opinião no referendo de 2005 e continua demonstrando a cada pesquisa ou enquete que se faz sobre armas. É hora dessa opinião passar a ser considerada pelo Congresso Nacional.

Recomendo Preconceito contra as Armas a qualquer pessoa que queira conhecer mais sobre armas e sua relação com a defesa da vida.

Título: Preconceito contra as Armas

Autor: John Lott Jr.

Editora: Vide Editorial

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Preconceito contra as Armas

“O Império Ecológico”, de Pascal Bernardin

Em “O Império Ecológico”, Pascal Bernardin não se limitou a escrever um livro apresentando uma opinião político-social que, dado o viés com que o tema foi abordado, poderia render-lhe, de saída, uma enorme antipatia junto ao establishment acadêmico mundial. O autor, em verdade, vai além e apresenta um verdadeiro tratado que, redigido em uma escrita fácil e arrebatadora, vem arrimado em uma vasta gama de fontes documentais que tornam a obra uma leitura obrigatória para todas as pessoas desejosas de melhor compreender as tramas envolvidas na construção do globalismo.

Nesse livro, Bernardin mostra como a queda oficial do comunismo e da URSS, longe de sepultar em definitivo o ideário coletivista, apenas deslocou o foco do embate entre Leste e Oeste – ou liberalismo e planejamento econômico –, para concentrar a revolução cultural moderna no objetivo de construir um suposto “liberalismo social”, que não mais se ocupa em discutir o dólar, o mercado de capitais ou as leis trabalhistas, mas se concentra em impor ao mundo inteiro uma agenda alicerçada em uma concepção totalitária do homem e da natureza.

O argumento de “O Império Ecológico”, da forma como articulado por Bernardin, mostra como a elite intelectual progressista, abraçada aos ensinamentos de Antonio Gramsci, entendeu que a revolução não se dará mais pela via das armas, já que o trabalhador comum prefere conquistar melhores condições de trabalho e salários mais altos por meio da negociação civilizada, sem precisar se armar e matar o patrão, como defendia Marx. Gramsci, por outro lado, entendeu rapidamente que a mudança desejada pelas esquerdas na estrutura da civilização ocidental deveria se dar pela via cultural, não pelo embate bélico.

Finda a União Soviética, portanto, o progressismo concluiu que a chamada revolução total não seria mais conduzida por exércitos, mas por ideólogos. A estes caberia traçar os planos políticos e pedagógicos que teriam por objetivo modificar valores morais e comportamentos, levando a uma transformação que pretende ser, em última instância, ética e cultural.

Bernardin faz notar, com muita propriedade, que a Perestroika, em vez de simbolizar a rendição de um sistema falido que só produziu morte, miséria e terror, ocupou-se, na verdade, de lançar as bases para o processo de revolução cultural, apontando não os motivos da vitória do capitalismo e do liberalismo, mas os caminhos que o progressismo deveria seguir a partir de então.

A esquerda passou, assim, a não se ocupar com soldados, tanques ou armas, mas em escrever livros, formar professores e jornalistas e, enfim, ocupar na sociedade aqueles espaços destinados aos chamados formadores de opinião. Isso porque, como dito, mais eficiente que impor valores e subverter crenças com o uso da força, é fazer isso por meio de uma agenda cultural, imposta sem qualquer óbice. Nas palavras do autor, “este processo, manifestamente revolucionário e totalitário, não encontra nenhuma resistência entre as elites, quer sejam de direita ou de esquerda.”

Mas como explicar essa submissão voluntária das elites, de direita e esquerda, capitalistas ou não, ao processo de revolução cultural revelado por Bernardin? A explicação do autor é tão simples quanto assombrosamente reveladora: o recurso ao discurso de construção do chamado bem comum da humanidade é irresistível à intelectualidade mundial. Quem, afinal, poderia se opor a conceitos como “sustentabilidade”, “equilíbrio ecológico” e “uso racional dos recursos”? Assim, em nome das “futuras gerações” (e eis aí outro conceito abstrato), o indivíduo é, uma vez mais, subjugado pela massa.

Temos, pois, que o ecologismo, da forma como concebido por esse consenso progressista, se impõe por meio de “verdades imperativas”, que dispensam fundamentos concretos por estarem embasadas em conceitos genéricos e amplos, os quais devem ser simplesmente aceitos por todas as sociedades em nome do “bem comum”.

A grande trapaça retórica dessa ideologia – repise-se, de forte inspiração gramscista – é escantear os métodos de coerção e apelar ao sentimento de liberdade. Deixa-se de lado a violência explícita de uma arma apontada na nuca, para convencer o outro de que ele é livre para apoiar as “medidas globais por um mundo melhor e mais sustentável”. É isso, ou arcar com o ônus de ser contra um mundo mais “igualitário” e “harmônico”. Quem pode resistir, não é mesmo?

Bernardin expõe, com objetividade e rico didatismo, que o inimigo do sistema de liberdades individuais sobre o qual se ergueu a civilização sempre esteve muito vivo. Ele não ruiu junto com o muro de Berlim, ao contrário: planejou cuidadosamente os mecanismos de sobrevivência e atuação para seguir vivo quando todos baixaram a guarda, acreditando no fim do pensamento totalitário coletivista.

O consenso progressista criou, assim, os meios para, mergulhado na cultura liberal do ocidente, construir, por dentro de suas instituições, os discursos pedagógicos destinados a dar continuidade ao processo revolucionário. Não se depuseram as armas em rendição, mas apenas escolheram-se novar armas para travar o embate.

Título: O Império Ecológico

Autor: Pascal Bernardin

Editora: Vide Editorial

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Gender, Quem És Tu?, de Olivier Bonnewijn

Alguns livros aparecem em momentos oportunos e sintetizam importantes questões correntes. Eles servem para explicar, ordenar e combater a confusão e a mentira. Esse é o caso do livro “Gender, Quem És Tu?”, de Olivier Bonnewijn, lançado pela Ecclesiae.

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Olivier Bonnewijn – licenciado em Filosofia pela Universidade Católica de Louvain e doutor em Teologia pelo Instituto João Paulo II em Roma; sacerdote na arquidiocese de Malines-Bruxelas, Bélgica – não utilizou o termo gender como padrão sem querer, mas sim para mostrar a origem americana do termo, e seus desdobramentos pelo mundo; para tratar isso como algo que trespassa fronteiras, que é apenas traduzido e implementado em qualquer país; e que, durante a história, o gender sofreu alterações de significados, dependendo do movimento intelectual que o utilizou.

Essa última questão ficou evidente quando o governo federal tentou colocar o termo gênero no Plano Nacional de Educação, em 2014. Muitos, sem entender a construção filosófica do termo, se perguntavam: “mas gênero não é masculino e feminino?”, “por que temos que retirar essa palavra gênero?”. Ao ler o livro “Gender, Quem és Tu”, a pessoa consegue compreender como os movimentos de esquerda manipulam a linguagem ao destruir significados reais das palavras.

O autor é honesto ao tratar o tema como algo que deve ser entendido a fundo, estudado para entender como os ideólogos pensam. A divisão de capítulos demonstra isso:

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  • Capítulo I – O FEMINISMO RADICAL, TERRA NATAL DA GENDER THEORY
  • Capítulo II – O AXIOMA FUNDAMENTAL DA GENDER THEORY
  • Capítulo III – O PROJETO DO GENDER RADICAL: DESCONSTRUIR PARA CRIAR UM MUNDO NOVO (melhor capítulo do livro, que explica a série de desconstruções [destruições] que ocorrem com a implementação de teorias feministas e de gender)
  • Capítulo IV – OS ALIADOS HISTÓRICOS DO GENDER RADICAL
  • Capítulo V – DIÁLOGO, ESCUTA E AUTO-REVELAÇÃO DO GENDER RADICAL
  • Conclusão

Ele  percorre as origens do gender, suas alterações, suas consequências na realidade, quem se utilizou do termo e até onde essa ideia pode ir. Ele só julga a questão na Conclusão, quando demonstra que a aplicação do gender seria a destruição completa da noção biológica, um dado da realidade, e a multiplicidade de genders, que seriam apenas construções psicológicas ilimitadas e, até mesmo, mais numerosas que a quantidade de pessoas.

gender é construção. Ele remete mais ao próprio ato dessa construção do que aos seres que constroem. É um agir, uma prática, uma práxis, uma ação, uma relação, um papel ou uma função, no sentido dinâmico desses termos. (…)

Se seguirmos sua lógica, o gender se define, no final das contas, como o que está para além do ser e do agir, do definível e do indefinível, como um tipo de “buraco negro” ou de caleidoscópio em perpétuo movimento, que escapa a toda conceitualização, promessa alegre e angustiante de um mundo futuro em eterno devir. Um mundo assim, com seus jogos de significações sempre novos, é impossível de prever hoje e será talvez amanhã, depois de amanhã e ainda depois disso.

Compacto, apenas 100 páginas, mas profundo e com muitas citações de fontes, o livro se torna um meio essencial para estudo inicial e de divulgação. Divulgação esta necessária para a conscientização dos brasileiros de que existem pessoas que trabalham dia e noite para destruir as bases civilizacionais que ainda nos restam.

Título: Gender, Quem És Tu?

Autor: Olivier Bonnewijn

Editora: Ecclesiae

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Livraria Cultura

Ebook:

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A Inversão Revolucionária em Ação, de Olavo de Carvalho

Poderia fazer um longo introito sobre toda a controvérsia que gravita em torno de Olavo de Carvalho, mas 90% do que eu escreveria já foi dito aqui. Portanto, vou poupá-los de justificativas, apresentações e contextualizações despiciendas.

O reconhecimento da importância intelectual e moral de Olavo de Carvalho para o debate público brasileiro é tão lento quanto consistente, e transparece desde em singelos cartazes nas manifestações populares contra o PT (“Olavo estava certo” virou um dos bordões das manifestações do início do ano) até em apostas editoriais de vulto, como a série “Cartas de um Terráqueo ao Planeta Brasil”, da Vide Editorial.

Ridicularizar Olavo como louco, paranoico, boca-suja ou astrólogo deixou de ser tarefa fácil a partir do momento em que algumas pessoas deixaram de ouvir os detratores e passaram a construir seu juízo de valor acessando direto à fonte. A polissemia deliberada de Olavo de Carvalho, produzindo quantidades impressionantes de conteúdo em textos, áudios e  vídeos disseminados em seu blog, nas redes sociais e nos portais de vídeo da internet tornaram fácil acessar o pensamento do professor em variadas doses e intensidades.

Hoje, é possível ler Olavo de Carvalho em pequenas pílulas de humor ácido e escatológico no twitter, em textos curtos e polêmicos no facebook, em posts mais densos e estruturados de seu blog, além de acompanhar toda sua verve polemista nos diversos hangouts, debates e monólogos compartilhados amiúde pela internet.

Daí a importância e a prazerosa experiência em ler um livro como “A Inversão Revolucionária em Ação”. Trata-se da compilação de todos os artigos de Olavo de Carvalho publicados no Diário do Comércio no ano de 2008. É nesse formato e ordem cronológica que transparecem mais algumas das características do autor, além daquelas elencadas no artigo referenciado no primeiro parágrafo.

Antes, porém, uma breve contextualização do ano da graça de 2008.

É o ano em que explode a pior crise econômica desde a depressão de 1929, segundo a imprensa; ano de eleições presidenciais nos EUA, com Barack Obama despontando como a grande novidade da política mundial; Lula, aquele que sangraria com o mensalão, atinge 77% de aprovação popular, enquanto o Brasil recebe o “investment grade” de agências internacionais de análise de risco; o assassinato de Isabela Nardoni expõe um novo patamar de crueldade e frieza do “homem cordial” brasileiro; Marina Silva desliga-se do Ministério do Meio Ambiente, preparando seu voo solo; tem início a Operação Satiagraha, que leva o delegado Protógenes à condição de ídolo nacional; a Petrobrás começa a extrair petróleo do pré-sal; Marcos Valério é preso pela primeira vez, no bojo do processo do mensalão.

Um ano com grandes notícias para o PT: o mensalão ainda era uma investigação incipiente; Joaquim Barbosa era apenas mais um dos ministros do STF; Zé Dirceu era o grande consultor da república, José Genoíno, o baluarte da moralidade partidária; Dilma, a gerentona do PAC, o programa que nos levaria ao primeiro mundo. Barack Obama é apresentado ao Brasil como a redenção americana, após os anos de George W. Bush e sua guerra ao terror, que tornaram os EUA o grande satã para a opinião pública progressista do mundo.

Ser de esquerda, no Brasil, em 2008, era bonito, fácil e, para alguns, bastante lucrativo. Os tucanos, que deixaram Lula “sangrar” em 2005, estavam anêmicos. Mesmo disputando espaço no espectro ideológico com o PT, não conseguiam se livrar da pecha de neoliberais, armadilha primária criada pelo PT para deixar seus adversários se debatendo contra o vento, enquanto navegavam céleres rumo à hegemonia.

Foi esse contexto que Olavo de Carvalho publicou, semanalmente, os artigos contidos nesse livro. São análises do mundo, sua cultura, seus valores e as grandes estratégias de grupos políticos ideológicos para conduzir estes processos.

Os fatos políticos, econômicos e sociais são mero ponto de partida para as crônicas e ensaios de Olavo. Ele não se preocupa com os detalhes dos bastidores da política, os personagens que ascendem ou decaem do poder governamental, a não sem em casos muito específicos, como o de Barack Obama. A dimensão temporal e comportamental que interessa ao autor é bem outra, mais lenta, profunda e determinante.

Olavo de Carvalho é, provavelmente, o único filósofo brasileiro que faz análise estratégica, política e comportamental, do cotidiano. Os fatos quentes que movimentam o noticiário são peças minúsculas de uma intrincada disputa por poder e prestígio, de âmbito mundial. Para identificar e descrever a dinâmica e os atores desta disputa, é necessário muito repertório, disciplina e coragem. Sim, coragem, principalmente para aceitar ser chamado de louco e seguir em frente nessa empreitada.

Em tempos de informações produzidas, compartilhadas e interpretadas em tempo real, optar por deixar esta entropia de lado para analisar suas motivações, estratégias e consequências de longo prazo é opção quase suicida, num jornalismo pautado pela busca incessante de likes, retuítes e disseminações imediatas.

O jornalismo abdicou da prerrogativa de ser influente e relevante, para ser rápido, esperto, descolado, irônico, zuero. Quando muito, o jornalismo brasileiro hoje é, nos seus melhores momentos, sério e correto, elencando fatos e contextos numa narrativa coesa e objetiva. Extrapolar o imediato para explicar suas origens e desdobramentos futuros em um encadeamento lógico, teoricamente consistente e compreensível? Quase ninguém se arrisca a tanto.

É justamente nesta seara, de explicação teórica e ideológica do presente a partir de conceitos e estratégias formulados há 50, 100 ou 150 anos e seus possíveis resultados nos próximos 10, 20 ou 50 anos, que Olavo navega como poucos.

Neste volume da série, Olavo tem dois focos principais: o Foro de São Paulo, cantado em verso e prosa pelos petistas em seu 3º Congresso Nacional em 2007, e solenemente ignorado pela imprensa em 2008; Barack Obama, o então candidato à Presidência nos EUA, cuja nacionalidade foi motivo de controvérsia durante toda sua campanha, e que só não causou maiores estragos pela ampla proteção de setores da imprensa e da justiça americanas.

Além destes pontos principais, que aparecem em vários momentos do livro, Olavo fala de Freud e modernidade (“O Cume do Progresso Humano”), Tropa de Elite – o filme – e a indignação da esquerda (“A internacionalização do Engodo”, um dos melhores artigos do livro), filosofia política (“A consciência da consciência”), globalismo (“Quem nos governa, afinal?”), hegemonia (“Hegemonia” e “Ainda a hegemonia”, outro ponto alto do livro), e muitos outros temas, abordados de uma forma que, infelizmente, não tem seguidores na grande imprensa.

Analisar as grandes movimentações culturais da humanidade, com prognósticos, não é uma empreitada que se enfrente sem percalços ou tropeços. Olavo acerta muito mais do que erra, mas em 2008 ele foi pessimista em excesso ao tratar da hegemonia esquerdista no Brasil.

No texto “Falando às pedras”, ele diz:

“Outro indício seguro da distribuição do poder é a capacidade de mobilização das massas. Somem os partidos de esquerda, o MST, as centrais sindicais, as ´pastorais de base´ e porcarias semelhantes, e verão que, no instantes em que quiser, a esquerda revolucionária tem condições de espalhar nas ruas não menos de cinco milhões de militantes enfurecidos, treinados para toda sorte de agitações e depredações, sem que o outro lado possa sequer reunir cinco dezenas de gatos pingados numa cerimônia religiosa. Consolidado pela omissão pusilânime de todos os que teriam o dever de impedir que ela se consolidasse, o monopólio esquerdista dos movimentos de massa marca a distância entre onipotência absoluta e impotência total e é, por si, um retrato do que o futuro reserva ao país”.

Sim, pensar isso em 2008, quando o mensalão ainda parecia piada de salão e Lula sangrou tanto nas mãos da oposição que acabou reeleito, fazia todo o sentido. A Reaçonaria sequer existia, e “reacionário” era o termo paralisante 100% eficaz utilizado pela esquerda para promover a interdição de quaisquer debates que fugissem à sua pauta ou simplesmente não lhe agradassem.

Muita coisa mudou desde então, e a profecia de Olavo, neste caso específico, felizmente não se concretizou. Ao contrário: a mobilização de milhões nas ruas deu-se em forma de confronto ao desmando da esquerda. Em 2015, quem toma conta das ruas é o povo espontaneamente organizado, enquanto que os movimentos aparelhados pelo petismo encontram-se cada vez mais isolados.

Em compensação, no âmbito externo, Olavo deixou-se levar em demasia pelo otimismo em relação às instituições americanas, acreditando que dariam uma resposta adequada sobre as controvérsias envolvendo a nacionalidade de Obama. Em 28 artigos, 25 dos quais escritos a partir de 12 de junho de 2008 (“O queridinho da elite global”), Olavo de Carvalho apresenta e analisa informações as mais surpreendentes sobre a nacionalidade de Obama e da estratégia do então senador para dificultar as investigações a em relação ao assunto. Os textos mostram a evolução de Olavo de Carvalho da crença absoluta nas instituições americanas ao desalento com o resultado de tantas investigações e questionamentos.

Nesse aspecto específico da compilação, a leitura sequencial dos textos torna-se repetitiva, efeito inescapável quando um tema torna-se recorrente em colunas de opinião semanais, mas nada que tisne a qualidade do conteúdo geral.

Outro tema recorrente nos artigos do livro é o Foro de São Paulo. Até 2007, o assunto era considerado o fetiche das teorias conspiratórias conservadoras por boa parte dos formadores de opinião da grande imprensa. Bastou o PT falar abertamente sobre a instância catalizadora das ações dos grupos de esquerda na América do Sul, e o Foro passou a ser mencionado, discretamente, como coisa velha. Olavo percebe o truque e o denuncia, mas sem muito entusiasmo ou denodo. Suas expectativas em relação à capacidade de análise crítica do jornalismo brasileiro já estavam devidamente calibradas.

Entretanto, os temas e assuntos temporais das colunas estão longe de ser o atrativo principal desta coletânea. O que é relevante na obra de Olavo de Carvalho é o enfoque, a disciplina analítica mesclada com enorme repertório que resulta numa liberdade retórica e filosófica cujo exercício já é, em si, uma lição de pensamento crítico aplicado à vida, pois sempre tributário da realidade e da verdade.

Olavo de Carvalho não foge à luta que considera ser a única relevante, e a cada leitura de sua obra ele nos convence da obrigatoriedade de seguirmos com ele. Em um dos pontos altos do livro (“Fugindo à luta”), ele diz:

Na mesma onda de mudanças estratégicas, o movimento comunista abdicou do estatismo radical, reconhecendo que uma quota aliás bem grande de livre mercado é indispensável à sobrevivência dos regimes socialistas, mesmo os mais autoritários.

A essa altura, a pura defesa da economia de mercado, sobretudo se acompanhada de desprezo economicista pela guerra cultural e pela formação de uma militância conservadora adestrada no estudo da estratégia marxista, é um anacronismo completo, uma forma de alienação, que só pode levar às mais devastadoras consequências.

Na verdade, se tantos políticos e intelectuais liberais se apegam a essa atitude autocastradora, é não só porque sua mentalidade empresarial se sente mais à vontade no front econômico do que no político ou cultural, mas porque sabem instintivamente que a luta aí desenvolvida suscita respostas menos ferozes da esquerda do que ataques desferidos em pontos mais vitais do esquerdismo. Não por coincidência, essa opção pela fuga sistemática ao combate – que Lênin diagnosticava como sinal de morte iminente – vem junto com um esforço de manter, nos debates com a esquerda, uma polidez medrosa, ilusoriamente sedutora, que os esquerdistas, por seu lado, desprezam em troca de uma retórica cada vez mais truculenta e ameaçadora. Em vão o Hino Nacional proclama: “Verás que um filho teu não foge à luta”. Tornou-se praticamente impossível mostrar aos liberais brasileiros que a covardia não é uma modalidade superior de realismo.

Há sempre uma causa subjacente aos textos de Olavo, e esta causa não é doutrinária, ideológica ou programática. É moral. Só isso já torna seus escritos mais relevantes que 99% do que é publicado atualmente na imprensa brasileira.

Título: A Inversão Revolucionária em Ação – Cartas de um Terráqueo ao Planeta Brasil – Volume IV

Autor: Olavo de Carvalho

Editora: Vide Editorial

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