Resenhas

@reaconaria

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A Ponte do Rio Kwai – O Coronel Nicholson e os últimos petistas

Um dos melhores filmes já feitos ajuda a explicar a situação de quem ainda permanece petista: trata-se da Ponte do Rio Kwai. Como será impossível fazer este comentário sem entregar o grande momento do filme, se você quer vê-lo antes de ler esta resenha, faça-o agora (ele está disponível no Netflix) e volte depois.
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O filme inteiro é fascinante e não vou me alongar falando de cada minúcia digna de comentário, mas focar em um personagem: o Coronel Nicholson. Ele foi incumbido pelo comando do exército de seu país a se entregar para as forças japonesas no front asiático da Segunda Guerra Mundial. O filme começa com o Coronel e sua tropa sendo arrastados para o campo japonês, sob comando do Coronel Saito. Assim que chegam, Coronel Saito anuncia que todos iriam trabalhar na construção de uma ponte sobre o Rio Kwai, que deve ligar Bangkok com Rangoon, de vital importância para os planos expansionistas japoneses. Começa então uma batalha entre os dois coronéis. Nicholson diz que ele e os demais oficiais não podem fazer serviços braçais, mas comandar sua tropa na obra. Diz que isso está definido pela Convenção de Genebra. O Coronel Saito vira as costas e não diz mais nada, o que para Nicholson é sinal de que ele acatou sua requisição. Naquela noite, em conversa com outros oficiais, o Coronel Nicholson deixa bem claro aos seus subordinados que ali ninguém deve nem ao menos tentar fugir. “Estamos numa situação curiosa: o comando do exército nos ordenou que nos entregássemos. Ordenou. Logo, se fugirmos, isto será visto como uma infração militar”.

No dia seguinte o Coronel Saito responde ao pedido de Nicholson dizendo que, desde que se entregaram, deixando de lutar até a morte, deixaram também de ser soldados, e portanto todos eram apenas prisioneiros e todos iriam trabalhar. Nicholson volta a se recusar a trabalhar braçalmente. Em resposta, é posto sob tortura em uma solitária minúscula, uma caixa na areia sob o sol e sem nenhuma condição de higiene. O Coronel Saito tenta com isso fazê-lo desistir de sua requisição.

Passam-se os dias e Nicholson resiste. Mesmo à beira da morte ele mostra obstinação pelo seu dever. Como os soldados ingleses sob comando dos japoneses fazem tudo errado na obra da ponte e ela não avança, o Coronel Saito resolve ceder a muito custo ao pedido de Nicholson. Este então assume o comando da obra e cria rotinas rígidas para todos os soldados. Seus comandados aguardam que, em algum momento, seu líder revele que na verdade está enganando os japoneses, sabotando a obra, enquanto ele repete que quer provar que os soldados ingleses são superiores, que vão humilhar os japoneses com sua competência e construir uma ponte perfeita que perdurará pela história.

Avancemos bastante. A ponte está quase pronta e falta pouco para sua inauguração. O Coronel Nicholson repete mais uma vez que sua obra entrará para a história. O orgulho toma conta dele. A ponte está pronta e tão logo passe a operar seus soldados serão removidos para outro campo de trabalho. O Coronel Saito deixa que preguem uma vistosa placa na ponte, que está em perfeitas condições, dizendo que foi construída pelos soldados ingleses. Muitos desses soldados ainda acreditam até o último momento que Nicholson esteja preparando alguma artimanha, alguma sabotagem na ponte.

Faltam poucos minutos para a primeira locomotiva passar. Em sua inspeção final, o Coronel Nicholson olha para o rio, que está sob uma incrível “maré baixa”, e nota alguns fios. Ansioso pela estréia operacional de sua obra, ele desce correndo para ver que diabos eram aqueles fios. E então, a surpresa: ele percebe que foram colocados explosivos sob a ponte. Que ela será destruída. Inconformado e já depois de ter alertado os japoneses, ele sai a seguir os fios para encontrar o ponto de acionamento das bombas e evitar a destruição, quando se depara com alguns soldados ingleses que, durante todo o filme, passaram por desafios enormes para chegarem até ali e cumprirem sua missão. Mas o Coronel Nicholson já havia esquecido da verdadeira razão de seus serviços. O que deveria ser um meio (construir a ponte para ocupar sua tropa, motivá-la, para conseguirem bom tratamento dos japoneses) transformara-se num fim. E afinal de contas, toda a luta de Nicholson para comandar sua tropa, para fazer a ponte perfeita era por amor à pátria, motivação suprema de todo soldado, ou por orgulho? Após tanto esforço pelo resultado daquilo a que se entregara, no último momento de sua vida Nicholson percebe que estava traindo sua pátria. Que, consumido por uma missão passageira, ele esquecera-se do significado maior daquilo tudo. Ele se apaixonara por aquilo que ele representava naquele meio, aquela identidade temporária. O Coronel Nicholson acaba sendo responsável direto pela morte de heróicos soldados que se meteram no inferno daquelas florestas tropicais para evitarem a expansão dos inimigos. Num final eletrizante, é seu corpo baleado quem aciona as dinamites, que por fim implodem a ponte que ele amara mais que sua missão e sua identidade verdadeira.

Pobre Coronel Nicholson: Fez tudo errado e ainda é usado como analogia para petista!

Pobre Coronel Nicholson: Fez tudo errado e ainda é usado como analogia para petista!

É aqui que entram os petistas. Quantas pessoas não se definiram petistas por causa de um fim real a ser buscado, “um país melhor” por exemplo, e acabaram se esquecendo disto por completo, tomando o meio para isto um fim em si? Não conseguem notar que eles, os petistas, são hoje justamente o que de pior há para o espírito e a história do nosso país? Quantas pessoas, por tanto tempo terem se identificado com algo que no fim das contas é uma farsa, não conseguem assumir que se iludiram, que viveram uma mentira, e por isso rejeitam o mea culpa? Quantos não ficaram tão cheios de si pelos confortos, contatos, facilidades do petismo, que não conseguem mais se imaginar fora deste mundo e por isso preferem morrer com ele a viver uma realidade verdadeira?

O Coronel Nicholson era uma pessoa essencialmente boa tomada pelo orgulho. Antes de morrer, ele teve aquele vislumbre do erro e se foi esmagado pelo desastre do que fizera. Num plano superior, o arrependimento é algo que pode salvar as pessoas até seu último suspiro de vida. No plano imediatista da disputa pelo poder e bens temporais, em que o PT é apenas uma engrenagem do diabólico projeto revolucionário, será coisa raríssima encontrarmos alguém verdadeiramente humilde e capaz de ter um ponto de inflexão. É por isso que os petistas não voltam atrás. É por isso que estamos vendo tantos golpes baixos nesta luta inglória do petismo. Não é apenas contra nós e o bem público que estão esperneando, mas acima de tudo quanto à possibilidade de encontrarem um espelho verdadeiro que reflita a monstruosidade que foram por tanto tempo.

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

“Viagem a Alfa Centauri” de Michael D. O’Brien

O’Brien é um elevado contador de histórias espirituais, digno de se juntar às fileiras de Flannery O’Connor, Graham Greene, Evelyn Waugh e C. S. Lewis. – Peter Kreeft

O autor de ficção canadense Michael D. O’Brien tem uma paixão pelo apocalíptico. O autor de vários livros é também pintor e iconografista católico. Viagem A Alfa Centauri é o seu primeiro livro no gênero de ficção científica.

A capa é exatamente a mesma da sua gêmea americana com a arte de John Herreid e possui o dedo excelente de Flávio Quintela, autor de Mentiram Para Mim, na sua tradução.

O livro nenhuma vez se abre para a quarta parede, tomando o caminho completamente inverso, imergindo o leitor ao livro logo na contra-capa, onde se coloca o personagem principal como o real autor do livro, com o título A Viagem, tendo sua primeira edição em setembro de 254. É um pequeno e divertido detalhe que deixaria escapar leitores apressados.

Logo entramos na jornada existencial do hispânico Neil Ruiz de Hoyos, um prêmio nobel da física que possibilitou a criação da Kosmos, a nave do tamanho de uma cidade que levará o homem a desbravar Alfa Centauri. O planeta Terra vive uma época de totalitarismo benigno, a religião é proibida como superstição, há leis de controle populacional e as pessoas vivem em constante suspeição. Neil, de 68 anos, devido à sua origem no deserto americano, possui personalidade redneck mesmo viajando em um futurista transatlântico espacial. O autor sendo americano, é difícil não imaginar que inconscientemente tenha espelhado a peregrinação da Kosmos com a fuga dos colonos do império britânico para a américa.

A novelização é narrada em logs de viagem que revelam a introspectiva do personagem em cada encontro, seus monólogos são ricos em detalhes de uma mente conservadora inquieta diante de uma nau que carrega uma educação politicamente correta vinda da terra.  O autor aproveita seu assento sob o futuro e analisa a nossa cultura clássica pelos olhos estrangeiros de Neil, não deixando de contrastar com a artificialidade dos “remakes” contemporâneos.  Isso abre para o autor discutir vários temas usando Neil como seu avatar. Por exemplo em um momento o personagem palestra:

A relatividade relativiza a existência? Nós podemos sentir que sim, já que nossas orientações psicológicas/sensoriais/conceituais são determinadas por medições de base planetária, e tendem a borrrar e até mesmo a nos desorientar diente dos princípios da física cósmica. Ainda asim a relatividade não tem  pretensões de ser um sistema ontológico. De fato, a filosofia pode, no final, provar-se um modelo mais coerente de existência que a física.

O autor assim difunde sua sabedoria pessoal no personagem, Em outro momento diz sobre o amor ao conhecimento:

A primeira e principal é a forma sensata de amor-próprio – em outras palavras, respeito por si mesmo. Depois há o amor por expandir os horizontes do conhecimento, para benefício de outros, muitos dos quais ainda não nascidos. Se nele não houver um orgulho agravado, nem qualquer estímulo para uma personalidade falsa, então é um tipo de amor altruísta que não procura recompensa pessoal além da satisfação de saber que se melhorou a vida de outrem. É um tipo de frutificação. Esse anseio por frutificar não está escrito no código de todos os seres humanos? Eu penso que sim. Não obstante, nós podemos estar completamente cegos àquilo que estamos pestes a enfrentar quando perseguimos certas linhas de atividade. E me pergunto por que esse anseio, na maior parte das vezes, acaba secando no deserto dos relacionamentos humanos. Em um deserto real, mesmo um cacto floresce.

A história é bastante linear, as misteriosas investigações da equipe de cientistas não se atropelam e recebem um justo espaço. O livro é numeroso em páginas contudo ainda é um page-turner, podendo ser terminado com agilidade. Mesmo que o ponto de vista seja de uma pessoa por praticamente todo o livro, Neil não cansa o leitor em nenhum momento com um cinismo que não funciona, usando de uma precisa acidez conservadora. Por natureza um conservador em um universo asfixiantemente politicamente correto causará antagonismo com as autoridade e Neil possui apenas seu Nobel como o frágil protetor da sua voz incômoda. O conflito essencial do livro é a escalada de reação das autoridades com agitadores à bordo.
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O autor não esconde sua opção pelo catolicismo em todos seus livros, e não será diferente nesse. Embora todas as vertentes do cristianismo estejam representadas seu objetivo é contar a jornada de Neil à conversão ao romanismo com o reforço evangélico de coincidências pela salvação de sua alma que não seria possível em seu próprio planeta natal, onde a religião é proibida. Sem liberdade a verdade não pode prosperar.

Aos curso do livro Neil deixa de ser um forasteiro ao evangelho e vai imigrando na Igreja Católica, descobrindo que a exploração do universo não satisfaz o desejo do homem de finalmente encontrar aquilo que é universal.

É essa a glória e a tragédia da Kosmos, a embarcação criada por Neil pode levá-los à Alfa Centauri e explorar novos planetas mas para ir além é necessário adentrar a Arca. As conquistas da aventura exploratória em nada se compara aonde a nau anciã chamada Igreja Católica pode levar o homem. A viagem transcendental é maior que a espacial. Essa é a grande lição que Michael D. O’Brien nos passa nessa obra, que não podemos confundir nossos milagres tecnológicos com uma obra sobrenatural.

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Essa nau enfrentou turbulências mas mantém-se de pé levando os homens ao paraíso por todos os séculos. A Kosmos é falível, mas o que move a Arca da Salvação é cumprir sua missão, é uma nave que Neil não construiu mas pode descansar nela, mesmo quando sua própria criação começa a quebrar.

Michael D. O’Brien pode não ser tão conhecido no Brasil como o são Tolkien e C.S. Lewis, mas sua obra não deixa de se mover em direção à mesma verdade, transmitindo grandes verdades por meios de símbolos com o talento de um pintor, segunda profissão do autor.

Quem pegar esse livro terá uma viagem pela frente, não a algum lugar incomodamente familiar mas uma viagem de volta à casa.

Título: Viagem A Alfa Centauri.

Autor: Michael D. O ‘Brien

Editora: Vide Editorial

Onde comprar:

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O Bem – Questões Disputadas Sobre a Verdade, de Santo Tomás de Aquino

Escrever a resenha de um livro com o intuito de estimular outras pessoas a se interessarem por ele não é algo trivial. Primeiro, por exigir um certo cuidado na escolha das palavras, tentar não soar repetitivo e evitar erros comprometedores. Segundo, porque há sempre o risco de, ao falar do livro, estragar as surpresas de potenciais leitores ou mesmo manifestar interpretações equivocadas. Mas quando se trata de um autor de extrema importância e que se admira demais, adiciona-se o risco de soar excessivamente elogioso, de transparecer uma adoração que possa se confundir com torcida de time.

Analisar um livro de Santo Tomás de Aquino traz uma diferença fundamental para qualquer outra tarefa semelhante que eu já tenha desempenhado por aqui neste site (*): ao contrário das outras vezes, não posso dizer que assimilei completamente o conteúdo do livro. Quando falamos de política e disputas políticas, estamos tratando de assuntos que lemos diariamente, estamos em contato frequente e temos fácil acesso. A densidade dos temas debatidos na Idade Média, não. É o caso deste “O Bem – Questões Disputadas Sobre a Verdade – Questão 21”, livro lançado no Brasil pela Editora Ecclesiae dando sequência ao projeto Questões Disputadas que tem o objetivo de divulgar, em pequenas edições, as principais idéias desta obra.

As dificuldades em se compreender o pensamento e os argumentos de Santo Tomás, estranhamente referido na capa e internamente no livro sempre apenas como “Tomás de Aquino”, se devem em boa parte ao recuo na capacidade acadêmica de tratar com profundidade temas fundamentais. A contaminação do resto da sociedade foi uma consequência inevitável da qual dificilmente conseguimos fugir. A enorme segmentação do conhecimento e a ilusão de superação de dilemas do passado fizeram com que perdêssemos o sentido verdadeiro de conceitos básicos para o raciocínio que ajudam interpretar a realidade. Noções fundamentais sobre ente, essência, bem e verdade foram desvalorizados em meio a ressignificações limitadas e tantas outras investigações filosóficas superficiais.

Este livro em formato pequeno e de pouco mais de 80 páginas, com suas seis questões, sem estar contaminado por linguajar específico, é um excelente desafio de compreensão. Não é possível assimilar a dialética tomista lendo-o com o objetivo fetichista de contar livros ou sair citando-o em debates de internet. É necessário concentração e reflexão, ler o argumento favorável e sua negação sem pressa, na ordem do livro e depois, se possível, confrontando-os.

As “Questões Disputadas Sobre a Verdade” são na verdade o resultado das aulas de Aquino em Paris. O título foi adotado conforme a primeira das vinte e nove questões debatidas no âmbito do que era ensinado em seu curso.

Em “O Bem”, vigésima primeira questão das “Questões Disputadas Sobre a Verdade”, Aquino considera argumentos de Santo Agostinho, Santo Anselmo, Averróis, Avicena, Platão, Aristóteles e Boécio para dar suas sentenças . A edição da Ecclesiae acerta ao explicar no início o método das questões disputadas, que pode ser resumido em: Pergunta (que dá o título ao capítulo), objeções (numeradas para facilitar depois a ligação com as respostas das objeções), argumentos favoráveis, conclusão e, por fim, respostas às objeções. Para exemplificar, seguem alguns recortes do Artigo 2 em que trago a pergunta, a objeção de número um (ARGUMENTOS), um argumento favorável (AO CONTRÁRIO), a conclusão (RESPONDO) e as respostas às objeções (RESPOSTAS AOS ARGUMENTOS):

Se pergunta se o ente e o bem se convertem segundo os supostos

ARGUMENTOS
1. Os opostos são aptos naturalmente a fazer o mesmo. Ora, o bem e o mal são opostos. Logo, como o mal não está por natureza em todos os seres, porque, como diz Avicena, para além da orbe da Lua não há mal, parece que nem o bem é encontrado em todos os entes. E, assim, o bem não se converte em ente

AO CONTRÁRIO
2. Do bem não pode sair algo que não seja senão bom. Ora, todo ente procede da Bondade divina. Logo, todo ente é bom, e, assim, o mesmo que antes.

RESPONDO
Respondo dizendo que como a noção de bem consiste nisto em que algo seja perfectivo de outro por motivo do fim, em tudo aquilo no qual se encontra a noção de fim há também a noção de bem.
Contudo, duas coisas pertencem à noção de fim: que seja apetecido por esses que ainda não atingiram o fim, e que seja amado e também deleitável por esses que participam do fim, pois pertencem à mesma noção tender para o fim e, de algum modo, descansar no fim, assim como a própria natureza da pedra é movida para o centro [da Terra] e descansa no centro.

RESPOSTAS AOS ARGUMENTOS

1. Respondo dizendo que o bem e o mal se opõem pelo modo de privação e hábito. Contudo, não é necessário que em quem exista o hábito tenha que por natureza existir a privação. E, por isso, não é necessário que o mal exista naturalmente em quaisquer realidades, onde o bem naturalmente existe. Nos contrários, quando um também existe por natureza no outro, o outro não existe naturalmente nele, segundo o Filósofo no livro das Categorias. Ora, o bem naturalmente existe em qualquer ente, pois ele é denominado bom por causa mesma do seu ser natural.

8. (…) Por isso, os homens que também são bons e justos são, de fato, bons enquanto são, mas não são justos enquanto são, mas enquanto têm certo hábito ordenado ao agir. E, de modo semelhante, pode ser dito da sabedoria e de outras coisas semelhantes. Ou de outro modo, deve-se dizer o mesmo, que justiça e sabedoria, e outras coisas semelhantes, são certos bens especiais, pois são certas perfeições especiais, mas o bem designa algo perfeito absolutamente.

Os seis artigos da Questão 21 que compõem o livro são:

  • Pergunta-se se o bem acrescenta algo ao ente;
  • Pergunta-se se o ente e o bem se convertem;
  • Pergunta-se se o bem segundo a razão é anterior ao verdadeiro;
  • Pergunta-se se todas as coisas são boas pela bondade primeira;
  • Pergunta-se se o bem criado é bom por sua essência;
  • Pergunta-se se o bem criado consiste no modo, na espécie e na ordem, tal como diz Agostinho.

Para quem já está de alguma familiarizado à obra de Santo Tomás, a vantagem de “O Bem” é  ser compacto e possuir boas notas explicativas. Para quem já conhece de alguma forma a história do Santo, mas nunca se aventurou em seus escritos, “O Bem” é ideal por tratar de um tema de mais fácil assimilação que outros abordados no próprio “Questões” ou na Summa.

Por fim, o próprio tamanho do livro é mais um argumento a incentivar que mais pessoas se aventurem na descoberta do grande universo que é a obra de Santo Tomás. O livro tem um preço ínfimo, ainda mais se forem levadas em conta a vastidão e beleza do pensamento deste homem que é praticamente um milagre do intelecto humano.

Título: O Bem – Questões Disputadas Sobre a Verdade

Autor: Santo Tomás de Aquino

Editora: Ecclesiae

Onde comprar:

O Bem Santo Tomas de Aquino

O Brasil tem Cura, de Rachel Sheherazade

A mais famosa, querida e também odiada jornalista do país lançou no final de 2015 seu primeiro livro, “O Brasil tem Cura”. A escolha do título não poderia ser mais adequada, tanto pela assertividade da autora quanto pela situação de aparente desconsolo em que se encontra o país. Embora já tenhamos vivido tempos turbulentos em nossa política institucional e na economia, não houve outro período em que o país tenha passado por dificuldades tão graves como as de agora. E para piorar, o clima ruim é agravado por isto acontecer pouco após a ilusão de termos superado a pobreza e virado uma potência. Rachel cita as manifestações da doença atual brasileira, explica de forma resumida como ela foi se impondo e depois traz o seu diagnóstico.

O livro é sincero como a autora. Rachel é jornalista, não política. Seu sucesso profissional é resultado de suas opiniões, não de herança familiar ou contatos políticos. Sua ascensão se deu diante de todos, sem depender de bajulações. Num país em que há tanta promiscuidade entre jornalismo e política, é uma história virtuosa.

Somente uma jornalista livre das amarras ideológicas das faculdades e das carreiras normais de jornalismo poderia, em um mesmo livro, citar entre suas referências nomes como Nelson Rodrigues, Rui Barbosa, Olavo de Carvalho, Chesterton, Dom Estêvão Bettencourt, Margaret Thatcher e Ratzinger (Bento XVI).

Os problemas da doença brasileira são apresentados conforme os títulos dos capítulos: Violência, Impunidade, Legislação Falha, Educação (aprovação automática e cotas raciais), Maioridade Penal, Perseguição Religiosa – a Cristofobia e a crise de valores trazida pelo relativismo e manifestada na ideologia de gênero, no consumo de drogas e defesa do aborto.

Ligada à vida real, Sheherazade começa a citar os problemas do país pelo ponto mais relevante no rebaixamento da dignidade dos brasileiros: a criminalidade. Em três tópicos (Violência, Impunidade e Legislação Falha) retrata a calamidade provocada pela violência e traz exemplos de como nossos desvios institucionais pioram o país. Tida por inimiga do PT, seguidamente atacada por militantes de esquerda, Rachel já começa deixando-os com mais motivos para odiá-la ao usar os escândalos de corrupção petista como grandes demonstradores da “máquina de impunidade” no país. Nada melhor do que exemplificar essa tristeza do que falar do Mensalão, a Ação Penal 470. Várias falas de Joaquim Barbosa são usadas para mostrar como se arquitetou a surreal punição que recaiu com mais severidade sobre o operador usado pelo esquema – Marcos Valério – do que aos mentores, agilizadores e beneficiários de tudo – José Dirceu, Delúbio Soares, Jacinto Lamas, bispo Rodrigues, José Genoíno e, sem a necessidade de citação, Lula. A sentença é perfeita:

Geralmente, em favor da impunidades dos corruptos estão o prestígio, que garante o lobby positivo da imprensa; a defesa extrajudicial e extra-oficial de juristas renomeados; e também o dinheiro da corrupção, que banca os melhores advogados da praça…. Não é de estranhar que muitos acabem correndo o risco de trilhar o caminho da ilegalidade, pois o custo benefício entre o ato de corrupção e a chance de ser flagrado, processado e condenado faz com que o crime, lamentavelmente, compense.

Voltando às qualidades de independência política, somente alguém como Rachel Sheherazade poderia registrar em livro um problema grave e ignorado pelo mainstream brasileiro: a crescente ojeriza de determinadas elites ao cristianismo. Rachel mostra como cresce o desrespeito a religiosos travestido de discurso de tolerância à diversidade. É assim que valorizam atitudes criminosas de atores políticos quando são feitas sob o escudo de manifestações de minorias. E Rachel tem razão ao chamar isto de Cristofobia pois estas ações têm como alvo sempre os cristãos, jamais seguidores de outras religiões – algumas delas, de práticas abomináveis para a maioria dos brasileiros bons e normais, são até vistas como virtuosas por esta gente em nome do combate ao cristianismo.

Sempre de forma concisa, Rachel também busca no passado do Brasil possíveis origens para os outros problemas. ”Vamos refletir sobre alguns dos principais males que afligem nossa pátria, lembrando que eles não existem de modo isolado, mas são intimamente ligados, e têm, entre si, uma relação quase condicional, como se cada mazela dependesse da outra para existir e permanecer”. Ecoando, talvez sem intenções, Raymundo Faoro: “O próprio nascimento do país é fruto de um ato de violência”.

Ainda falando de nossos fantasmas do passado, lembra nossa tradição de abrigar marginais da pior estirpe mundial “Não à toa, esconderam-se neste refúgio carrascos nazistas como Josef Mengele e Gustav Wagner, o ditador paraguaio Alfredo Stroessner e o terrorista italiano Cesare Battisti.

RachelSheherazade_LivroO livro tem momentos muito bem inspirados que, se seguidos pelos leitores, podem ajudar a mudar nosso cenário. Numa frase curta, traz a receita completa contra o espírito revolucionário ao lembrar que “toda mudança pessoal ou social passa, necessariamente pela busca da verdade. Conhecer a si mesmo é apenas o primeiro passo”. Como podemos observar no cotidiano e ao longo da história, os revolucionários sempre acreditam que a verdade, como tudo, é relativa e que toda mudança deve se abater sobre os outros em nome de suas utopias.

Outra parte digna de reprodução é a visão da autora sobre a prática política: “A prática política é como o sacerdócio, uma missão para aqueles homens e mulheres destinados a fazer a diferença no país, comprometidos, acima de tudo, com os interesses dos eleitores”. Mas como garantir que os interesses dos eleitores não serão mesquinhos, irresponsáveis e prejudiciais ao país? Ela explica: “E quando é que o eleitor muda? Quando passa a enxergar o país e o destino dos cidadãos como um compromisso de cada um. Quando reconhece que o coletivo é mais importante que o invidivudal e os benefícios para a nação são mais proveitosos que os privilégios pessoais”. Imagino que a parte final desta sentença deva causar grande alvoroço em alguns setores do antipetismo que têm no discurso individualista, que nasce de uma defesa da menor intervenção estatal e se transforma em oposição entre individualismo e coletivismo, um norte de ação política e filosofia.

Rachel Sheherazade é praticamente um milagre do nosso jornalismo e talvez a melhor novidade no meio em muitos anos. Sua estréia como escritora é excelente e recomendo a todos sem restrições, ainda mais por ser um livro de fácil assimilação e de preço bastante razoável. O seu lançamento se deu por uma editora de pouca presença em livrarias mas de boa penetração em bancas de jornal, o que deve ajudar a levá-lo a todos os cantos do país. Aliás, o lançamento de livro de uma figura tão notável como ela ser praticamente ignorado pela imprensa especializada é apenas mais uma evidência do quanto esta mãe de família, loira, paraibana e evangélica é um corpo estranho num meio viciado. Sem problemas quanto a isto: Rachel veio para falar aos sinceros e bons de coração, não a colegas de profissão e viciados no servilismo do conchavo.

Cântico, de Ayn Rand

Cantico-500x500Cântico é a segunda obra de ficção de Ayn Rand. É uma novela de menos de 100 páginas, escrita em 1937 e publicada em 1938. Foi publicada agora no Brasil pela Vide Editorial.

Ayn Rand imaginou Cântico como uma peça, quando ainda morava na União Soviética. Já morando nos Estados Unidos, ao ter contato com as histórias fantásticas publicadas pelas revistas americanas, decidiu formatar a história como uma novela e apresentar às revistas, esperando que alguma delas aceitasse seu texto. Porém, seu agente a convenceu a publicar em livro.

Em um futuro distante, uma humanidade dominada pelo coletivismo regrediu a um estágio pré-tecnológico. As pessoas, completamente submissas ao Estado, vivem em residências coletivas e não possuem qualquer traço de individualidade. Não existem famílias. O Estado determina a ocupação de todos, de maneira irrecorrível. A palavra “eu” foi abolida e só existem pronomes pessoais no plural. Os nomes das personagens, escolhidos pelo Estado são, por exemplo, Igualdade 7-2521, União 5-3992 ou Coletivo 0-0009.

Nesse cenário sombrio, o jovem Igualdade 7-2521, amante do conhecimento, é designado para ser um varredor de rua. Executando seu trabalho tedioso, descobre um dia um túnel construído em uma era perdida no passado. Dentro do túnel, encontra materiais e instrumentos tecnologicamente avançados, desconhecidos no seu tempo. Consegue fugir de tempos em tempos da sua rotina opressiva e se esconder por uma ou duas horas nesse túnel, onde faz experiências científicas, até que redescobre a eletricidade. Os coletivistas têm a incompetência tão arraigada que não é difícil lutar contra eles.

Conforme o tradutor André Assi Barreto, o título Cântico (em vez de Hino, que também serviria para Anthem) indica que a celebração do indivíduo nesta obra tem características religiosas, de veneração.

A história é muito simples e leve. Para quem não conhece a ficção de Ayn Rand, é um bom título para começar. Quem já conhece A Revolta de Atlas ou A Nascente vai ver como evoluiu o estilo da autora.

Título: Cântico

Autora: Ayn Rand

Editora: Vide Editorial

Onde comprar:

Cântico

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