O livro “Lava Jato”, de Vladimir Netto

Ao final da busca, Marcelo Odebrecht foi comunicado da prisão. Seria levado para a carceragem da Polícia Federal em Curitiba. A prisão era preventiva. Não tinha data certa para terminar. A esposa fez uma pequena mala com objetos pessoais e algumas roupas e tentou entregar aos delegados. Eles olharam e acharam engraçado. Não iam carregar aquilo. Ele que o fizesse.

Todas as vezes em que escrevi neste site sobre algum livro, sempre com o intuito de indicá-lo como boa compra, comecei falando propriamente do tema, da abordagem, talvez do autor, publicava algumas citações e então concluía com os elogios finais e a indicação. Para este “Lava Jato”, de Vladimir Netto, faço diferente, recomendando logo no início. Comprem e leiam o quanto antes.

O primeiro motivo para indicar este livro pode ser ilustrado com a citação inicial desta resenha. Embora estejamos todos acompanhando e vibrando com cada nova revelação desta enorme operação de combate ao crime organizado que é a Lava Jato, deixamos passar muitas coisas sem dar a devida atenção. Informações assim de bastidores, que somente o contato com as pessoas diretamente envolvidas nos fatos poderiam nos trazer, permeam todo o livro. E para ter esses acessos, não há cartão de acesso melhor do que trabalhar na maior empresa de comunicação do país, a que mais investe em jornalismo e a que deve ser a mais procurada pelos investigadores  e investigados para tentarem influenciar a opinião pública, a Rede Globo. Um jornalista da Folha de São Paulo, por exemplo, jamais conseguiria fazer um bom livro sobre a Lava Jato pelo fato do jornal, por muitas vezes, ter ficado ao lado dos criminosos investigados pela Operação. Os investigadores não colaborariam com aqueles que ideologicamente são ligados aos criminosos e por isso torcem contra as descobertas.

A leitura deixa a certeza de que policiais federais, promotores, o juiz Sérgio Moro, Rodrigo Janot, presos ilustres, parentes de presos e advogados foram consultados para construir um relato que conseguisse, mesmo tratando temas que estão presentes no noticiário há meses, ser original e capaz de prender a atenção.

Diante das muitas possibilidades de tentar contar o que já aconteceu nesta Operação, Vladimir Netto acertou ao não fazer um relato temporal linear. Por muitas vezes o livro foge da cronologia das fases para aprofundar as consequências de uma delas, para dimensionar os desdobramentos ou para lembrar outras frentes relevantes ao processo político que giram próximas às investigações e que acabaram por influir nela.

Para evitar qualquer tom político ao relato, o autor mostra-se bastante compreensivo com algumas escolhas de Rodrigo Janot que já lhe garantiram a desconfiança de boa parte da população. É inegável que o envolvimento de Eduardo Cunha com a quadrilha da Petrobras era profundo e bem documentado, e o livro reforça isso ao trazer os elementos colhidos pelas investigações, mas é ainda mais evidente que Janot tem tido enorme parcimônia com Renan Calheiros e autoridades petistas. Até para evitar a continuidade dos esquemas, que não pararam mesmo após as primeiras prisões, era mais importante para a Procuradoria-Geral da República “escolher” ir para cima primeiro daqueles que mantinham o poder no governo petista. Este é talvez o ponto mais baixo do livro, a tentativa de colocar Rodrigo Janot no mesmo patamar de destemor e isonomia nas investigações que há na “República de Curitiba”, o que é injusto com Deltan Dallagnol, o delegado Igor Romário e tantos outros.

Mas a estrela do livro é realmente Sérgio Moro. São contados detalhes sobre sua personalidade, seus hábitos antes de se tornar essa grande referência nacional e seu estilo de trabalho. É impossível não admirá-lo, não alçá-lo ao posto de ídolo quando se percebe em sua figura a soma de honradez com inteligência, além de um pouco de sorte – ter de decidir sobre as punições dos acusados pelo MP ficou muito mais fácil graças ao ótimo trabalho da força-tarefa organizada por Deltan Dallagnol. Aliás, a chegada de Dallagnol à Operação, que quase foi inviabilizada devido a uma viagem dele para surfar na Indonésia (?!?!) é uma das curiosidades mais divertidas desta grande empreitada.

Quanto ao mais, o livro traz a oportunidade de, sem a urgência das notícias, enxergar o tamanho dos esquemas de desvios montados pelo PT. Na euforia das operações, dificilmente conseguimos enxergar todas as ligações que levaram às buscas e prisões do dia e, com uma nova operação, logo esquecemos da anterior. O livro tem seu clímax perto do final, quando mostra os passos dos investigadores até a tensa decisão de conduzir Lula para prestar depoimento e, pouco tempo depois, liberar ao público os grampos sobre o ex-presidente, quando houve a mais abjeta manobra para proteger um suspeito no Brasil.

Assim como a Lava Jato ainda não acabou, o trabalho de Vladimir Netto também prossegue. Nada impede que surja uma continuação deste livro com bastidores de tudo o que já aconteceu de maio de 2016 para cá e o que vai acontecer daqui para a frente nas investigações. Até lá, este livro é o melhor registro possível dos fatos.

LavaJato_VladimirNetto

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

2 comentários para “O livro “Lava Jato”, de Vladimir Netto

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