“O Império Ecológico”, de Pascal Bernardin

Em “O Império Ecológico”, Pascal Bernardin não se limitou a escrever um livro apresentando uma opinião político-social que, dado o viés com que o tema foi abordado, poderia render-lhe, de saída, uma enorme antipatia junto ao establishment acadêmico mundial. O autor, em verdade, vai além e apresenta um verdadeiro tratado que, redigido em uma escrita fácil e arrebatadora, vem arrimado em uma vasta gama de fontes documentais que tornam a obra uma leitura obrigatória para todas as pessoas desejosas de melhor compreender as tramas envolvidas na construção do globalismo.

Nesse livro, Bernardin mostra como a queda oficial do comunismo e da URSS, longe de sepultar em definitivo o ideário coletivista, apenas deslocou o foco do embate entre Leste e Oeste – ou liberalismo e planejamento econômico –, para concentrar a revolução cultural moderna no objetivo de construir um suposto “liberalismo social”, que não mais se ocupa em discutir o dólar, o mercado de capitais ou as leis trabalhistas, mas se concentra em impor ao mundo inteiro uma agenda alicerçada em uma concepção totalitária do homem e da natureza.

O argumento de “O Império Ecológico”, da forma como articulado por Bernardin, mostra como a elite intelectual progressista, abraçada aos ensinamentos de Antonio Gramsci, entendeu que a revolução não se dará mais pela via das armas, já que o trabalhador comum prefere conquistar melhores condições de trabalho e salários mais altos por meio da negociação civilizada, sem precisar se armar e matar o patrão, como defendia Marx. Gramsci, por outro lado, entendeu rapidamente que a mudança desejada pelas esquerdas na estrutura da civilização ocidental deveria se dar pela via cultural, não pelo embate bélico.

Finda a União Soviética, portanto, o progressismo concluiu que a chamada revolução total não seria mais conduzida por exércitos, mas por ideólogos. A estes caberia traçar os planos políticos e pedagógicos que teriam por objetivo modificar valores morais e comportamentos, levando a uma transformação que pretende ser, em última instância, ética e cultural.

Bernardin faz notar, com muita propriedade, que a Perestroika, em vez de simbolizar a rendição de um sistema falido que só produziu morte, miséria e terror, ocupou-se, na verdade, de lançar as bases para o processo de revolução cultural, apontando não os motivos da vitória do capitalismo e do liberalismo, mas os caminhos que o progressismo deveria seguir a partir de então.

A esquerda passou, assim, a não se ocupar com soldados, tanques ou armas, mas em escrever livros, formar professores e jornalistas e, enfim, ocupar na sociedade aqueles espaços destinados aos chamados formadores de opinião. Isso porque, como dito, mais eficiente que impor valores e subverter crenças com o uso da força, é fazer isso por meio de uma agenda cultural, imposta sem qualquer óbice. Nas palavras do autor, “este processo, manifestamente revolucionário e totalitário, não encontra nenhuma resistência entre as elites, quer sejam de direita ou de esquerda.”

Mas como explicar essa submissão voluntária das elites, de direita e esquerda, capitalistas ou não, ao processo de revolução cultural revelado por Bernardin? A explicação do autor é tão simples quanto assombrosamente reveladora: o recurso ao discurso de construção do chamado bem comum da humanidade é irresistível à intelectualidade mundial. Quem, afinal, poderia se opor a conceitos como “sustentabilidade”, “equilíbrio ecológico” e “uso racional dos recursos”? Assim, em nome das “futuras gerações” (e eis aí outro conceito abstrato), o indivíduo é, uma vez mais, subjugado pela massa.

Temos, pois, que o ecologismo, da forma como concebido por esse consenso progressista, se impõe por meio de “verdades imperativas”, que dispensam fundamentos concretos por estarem embasadas em conceitos genéricos e amplos, os quais devem ser simplesmente aceitos por todas as sociedades em nome do “bem comum”.

A grande trapaça retórica dessa ideologia – repise-se, de forte inspiração gramscista – é escantear os métodos de coerção e apelar ao sentimento de liberdade. Deixa-se de lado a violência explícita de uma arma apontada na nuca, para convencer o outro de que ele é livre para apoiar as “medidas globais por um mundo melhor e mais sustentável”. É isso, ou arcar com o ônus de ser contra um mundo mais “igualitário” e “harmônico”. Quem pode resistir, não é mesmo?

Bernardin expõe, com objetividade e rico didatismo, que o inimigo do sistema de liberdades individuais sobre o qual se ergueu a civilização sempre esteve muito vivo. Ele não ruiu junto com o muro de Berlim, ao contrário: planejou cuidadosamente os mecanismos de sobrevivência e atuação para seguir vivo quando todos baixaram a guarda, acreditando no fim do pensamento totalitário coletivista.

O consenso progressista criou, assim, os meios para, mergulhado na cultura liberal do ocidente, construir, por dentro de suas instituições, os discursos pedagógicos destinados a dar continuidade ao processo revolucionário. Não se depuseram as armas em rendição, mas apenas escolheram-se novar armas para travar o embate.

Título: O Império Ecológico

Autor: Pascal Bernardin

Editora: Vide Editorial

Onde comprar:

ImperioEcologico

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