“O Homem – A Vida, a Ciência e a Arte” de Ernest Hello

Você provavelmente não comprará esse livro baseado na minha indicação, mas na do excelente crítico literário Rodrigo Gurgel, no qual muito provavelmente é dele a maior influência para termos obtido o direito de ser receptáculo dessa obra. Também quem quiser uma amostra do livro pode encontrá-lo no blog do Felipe Moura Brasil.

Esta obra está inteiramente traduzida do francês por Roberto Mallet que imagino teve noites mal dormidas para poder transmitir com fidelidade a perspicácia do autor bretão para os olhos do público brasileiro, notável na leitura de qualquer trecho do livro em que se sorteie.
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A bem afortunada escolha de Laura Barreto de uma árvore como signo da capa sumariza com precisão a intenção do autor de privilegiar a Unidade orgânica sobre a unidade mecânica, não querendo sacrificar a Unidade real à unidade aparente.

A variedade temática também é similar aos ramos que crescem sem direção: o livro inicia dando conselhos pastorais e termina criticando a arte clássica. Tal desvio radical é atributo da criatividade de Hello, que espera nessa diversidade ser compreendido por todos os espíritos elevados.

O autor diz que o objetivo deste livro é um só, mas por vias diferentes, posso explicar que seu objetivo é a expansão da espiritualidade para além da área que por costume, conferimos à religião. Fica subliminar que a árvore de Hello seja o próprio ícone bíblico, a Videira que é Cristo.

Ele diz:

O espírito do século dezoito foi um sopro envenenado que parecia ter a propriedade de infiltrar-se no sangue através dos poros e de provocar o apodrecimento da substância que penetrava. Esse sopro atinge a Ciência; ela desapareceu para dar lugar às ciências. Esse sopro atinge a Arte: ela desapareceu para dar lugar às artes. O elemento espiritual, que mantém a unidade, desvaneceu-se, e a substância dos seres, abandonada pelo espírito, desfez-se em pó.

Hello critica o passado visando os vestígios do século 18 no futuro, nosso presente. Sua esparcialidade se soma e serve de remédio à curar a alma doente do Brasil moderno que perdeu a identidade com o universo real.  Perda essa devido à desunião do Brasil com a metafísica da civilização judaico-cristã, para Hello nada é pior que a separação:

A morte, sob todas as suas formas, é separação. A morte moral separa o homem da verdade, que é seu centro. A morte física separa o corpo da alma; aquele que sente prazer na morte, seu inventor, o diabo, é aquele que se separou e aquele que separa.

Uma pequena coletânea de trechos serve de amostra à intuição do autor. Hello não fala como um romântico quando traduz os defeitos e qualidades prevalecentes do que observa, mas como um cientista da alma que detém a tradição da clareza católica.

Em um pequeno trecho sobre a razão, Hello lança seu escrutínio sobre dois séculos:

Sem dúvida a Razão pode falar, mesmo no silêncio da Fé cristã, mas ninguém ouve a voz do abismo que chama esse homem, que impõe silêncio à Razão, e ele escuta a voz do abismo; não se contentando com os erros lógicos a que um primeiro erro conduz, pede ajuda a seu coração revoltado, a fim de negar o que o espírito sozinho não negaria; dirige um ato de fé ao nada, e precipita-se, a cabeça confusa, para onde a vertigem aconselha ir.

Sobre a juventude proclama:

Quando um jovem fez, em seus caminhos, muitas asneiras, quando perdeu muito tempo, contraiu dívidas, foi tolo, medíocre, inútil e inconveniente, diz-se que viveu muito.

Deveríamos dizer que morreu muito. O que ele fez foi nada; ele nada fez. Deixou fermentar o nada; o nada produziu o nada; sobreveio o tédio, e é tudo.

Como os jovens brasileiros, cada vez mais exaustos com a normalidade de uma cultura de choque. Hello já previa tanto a causa como a cura.

Sobre a tecnologia comenta as virtudes intrínsecas da ordem natural:

Foi por obediência que o raio conquistou a glória de transportar a palavra através de qualquer distância. Foi por obediência que a luz conquistou a glória de reproduzir a figura humana, de impor a duração ao espelho e de se fazer retratos que a justiça sempre aprova, retratos sem mentira.

Sobre a arte, diz primorosamente:

Um dos sentimentos mais freqüentes entre os artistas é o desprezo pela arte. Um dos sentimentos mais freqüentes entre os críticos é o desprezo pela arte.

O que chamo de desprezar a arte é permitir-lhe mentir.

O artista despreza a Arte quando tende a outra coisa que não seja realizar o verdadeiro. O crítico despreza a Arte quando perdoa-lhe por ter um ideal que não é verdadeiro.

Hello talvez deixe o espírito desse livro inculcado em algum gênio à continuar sua causa no Brasil, assim como revelou o dom de Garrigou-Lagrange e influenciou George Bernanos e León Bloy. É uma obra alienígena a um povo cuja educação é refém da burocratização e inferior à Iraniana. É entretanto, bem vinda, sendo daqueles livros a ler de dez em dez anos para descobrir sua força e a intimidade com a sabedoria que o autor possui. Como Hello disse:

A Palavra é um ato. Por isso procuro falar.

Repetir esse ato é nosso dever com o próximo.

Título: O Homem – A Vida, a Ciência e a Arte

Autor: Ernest Hello

Editora: Ecclesiae

Onde comprar:

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