O Bem – Questões Disputadas Sobre a Verdade, de Santo Tomás de Aquino

Escrever a resenha de um livro com o intuito de estimular outras pessoas a se interessarem por ele não é algo trivial. Primeiro, por exigir um certo cuidado na escolha das palavras, tentar não soar repetitivo e evitar erros comprometedores. Segundo, porque há sempre o risco de, ao falar do livro, estragar as surpresas de potenciais leitores ou mesmo manifestar interpretações equivocadas. Mas quando se trata de um autor de extrema importância e que se admira demais, adiciona-se o risco de soar excessivamente elogioso, de transparecer uma adoração que possa se confundir com torcida de time.

Analisar um livro de Santo Tomás de Aquino traz uma diferença fundamental para qualquer outra tarefa semelhante que eu já tenha desempenhado por aqui neste site (*): ao contrário das outras vezes, não posso dizer que assimilei completamente o conteúdo do livro. Quando falamos de política e disputas políticas, estamos tratando de assuntos que lemos diariamente, estamos em contato frequente e temos fácil acesso. A densidade dos temas debatidos na Idade Média, não. É o caso deste “O Bem – Questões Disputadas Sobre a Verdade – Questão 21”, livro lançado no Brasil pela Editora Ecclesiae dando sequência ao projeto Questões Disputadas que tem o objetivo de divulgar, em pequenas edições, as principais idéias desta obra.

As dificuldades em se compreender o pensamento e os argumentos de Santo Tomás, estranhamente referido na capa e internamente no livro sempre apenas como “Tomás de Aquino”, se devem em boa parte ao recuo na capacidade acadêmica de tratar com profundidade temas fundamentais. A contaminação do resto da sociedade foi uma consequência inevitável da qual dificilmente conseguimos fugir. A enorme segmentação do conhecimento e a ilusão de superação de dilemas do passado fizeram com que perdêssemos o sentido verdadeiro de conceitos básicos para o raciocínio que ajudam interpretar a realidade. Noções fundamentais sobre ente, essência, bem e verdade foram desvalorizados em meio a ressignificações limitadas e tantas outras investigações filosóficas superficiais.

Este livro em formato pequeno e de pouco mais de 80 páginas, com suas seis questões, sem estar contaminado por linguajar específico, é um excelente desafio de compreensão. Não é possível assimilar a dialética tomista lendo-o com o objetivo fetichista de contar livros ou sair citando-o em debates de internet. É necessário concentração e reflexão, ler o argumento favorável e sua negação sem pressa, na ordem do livro e depois, se possível, confrontando-os.

As “Questões Disputadas Sobre a Verdade” são na verdade o resultado das aulas de Aquino em Paris. O título foi adotado conforme a primeira das vinte e nove questões debatidas no âmbito do que era ensinado em seu curso.

Em “O Bem”, vigésima primeira questão das “Questões Disputadas Sobre a Verdade”, Aquino considera argumentos de Santo Agostinho, Santo Anselmo, Averróis, Avicena, Platão, Aristóteles e Boécio para dar suas sentenças . A edição da Ecclesiae acerta ao explicar no início o método das questões disputadas, que pode ser resumido em: Pergunta (que dá o título ao capítulo), objeções (numeradas para facilitar depois a ligação com as respostas das objeções), argumentos favoráveis, conclusão e, por fim, respostas às objeções. Para exemplificar, seguem alguns recortes do Artigo 2 em que trago a pergunta, a objeção de número um (ARGUMENTOS), um argumento favorável (AO CONTRÁRIO), a conclusão (RESPONDO) e as respostas às objeções (RESPOSTAS AOS ARGUMENTOS):

Se pergunta se o ente e o bem se convertem segundo os supostos

ARGUMENTOS
1. Os opostos são aptos naturalmente a fazer o mesmo. Ora, o bem e o mal são opostos. Logo, como o mal não está por natureza em todos os seres, porque, como diz Avicena, para além da orbe da Lua não há mal, parece que nem o bem é encontrado em todos os entes. E, assim, o bem não se converte em ente

AO CONTRÁRIO
2. Do bem não pode sair algo que não seja senão bom. Ora, todo ente procede da Bondade divina. Logo, todo ente é bom, e, assim, o mesmo que antes.

RESPONDO
Respondo dizendo que como a noção de bem consiste nisto em que algo seja perfectivo de outro por motivo do fim, em tudo aquilo no qual se encontra a noção de fim há também a noção de bem.
Contudo, duas coisas pertencem à noção de fim: que seja apetecido por esses que ainda não atingiram o fim, e que seja amado e também deleitável por esses que participam do fim, pois pertencem à mesma noção tender para o fim e, de algum modo, descansar no fim, assim como a própria natureza da pedra é movida para o centro [da Terra] e descansa no centro.

RESPOSTAS AOS ARGUMENTOS

1. Respondo dizendo que o bem e o mal se opõem pelo modo de privação e hábito. Contudo, não é necessário que em quem exista o hábito tenha que por natureza existir a privação. E, por isso, não é necessário que o mal exista naturalmente em quaisquer realidades, onde o bem naturalmente existe. Nos contrários, quando um também existe por natureza no outro, o outro não existe naturalmente nele, segundo o Filósofo no livro das Categorias. Ora, o bem naturalmente existe em qualquer ente, pois ele é denominado bom por causa mesma do seu ser natural.

8. (…) Por isso, os homens que também são bons e justos são, de fato, bons enquanto são, mas não são justos enquanto são, mas enquanto têm certo hábito ordenado ao agir. E, de modo semelhante, pode ser dito da sabedoria e de outras coisas semelhantes. Ou de outro modo, deve-se dizer o mesmo, que justiça e sabedoria, e outras coisas semelhantes, são certos bens especiais, pois são certas perfeições especiais, mas o bem designa algo perfeito absolutamente.

Os seis artigos da Questão 21 que compõem o livro são:

  • Pergunta-se se o bem acrescenta algo ao ente;
  • Pergunta-se se o ente e o bem se convertem;
  • Pergunta-se se o bem segundo a razão é anterior ao verdadeiro;
  • Pergunta-se se todas as coisas são boas pela bondade primeira;
  • Pergunta-se se o bem criado é bom por sua essência;
  • Pergunta-se se o bem criado consiste no modo, na espécie e na ordem, tal como diz Agostinho.

Para quem já está de alguma familiarizado à obra de Santo Tomás, a vantagem de “O Bem” é  ser compacto e possuir boas notas explicativas. Para quem já conhece de alguma forma a história do Santo, mas nunca se aventurou em seus escritos, “O Bem” é ideal por tratar de um tema de mais fácil assimilação que outros abordados no próprio “Questões” ou na Summa.

Por fim, o próprio tamanho do livro é mais um argumento a incentivar que mais pessoas se aventurem na descoberta do grande universo que é a obra de Santo Tomás. O livro tem um preço ínfimo, ainda mais se forem levadas em conta a vastidão e beleza do pensamento deste homem que é praticamente um milagre do intelecto humano.

Título: O Bem – Questões Disputadas Sobre a Verdade

Autor: Santo Tomás de Aquino

Editora: Ecclesiae

Onde comprar:

O Bem Santo Tomas de Aquino

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