Muita Retórica — Pouca Literatura, de Rodrigo Gurgel

Muita RetóricaUm dos melhores livros que li no ano passado é Muita Retórica — Pouca Literatura, de Rodrigo Gurgel. É um painel da prosa brasileira da segunda metade do século 19. Em cada capítulo, Rodrigo analisa uma obra de um autor diferente. O único escritor que aparece em dois capítulos é o Visconde de Taunay, com Inocência e A Retirada da Laguna.

Confesso que só li quatro dos livros analisados: Memórias de um Sargento de Milícias, O Cortiço, O Ateneu e Dom Casmurro. Quase todos quando estava no colegial, há mais de 25 anos. Encontrei muitos reflexos da impressão que me ficou dessas obras na crítica de Rodrigo Gurgel.

Memórias de um Sargento de Milícias é um livro muito bom. Despretensioso, leve, bem-escrito, narra o cotidiano de pessoas comuns. Suas personagens são verossímeis e perfeitamente humanas com suas pequenas mesquinharias e seus pequenos gestos de heroísmo. O Cortiço é uma obra forte, com momentos marcantes. Porém, sua visão naturalista, totalmente pessimista sobre a capacidade moral do ser humano, o faz um romance mediano. O Ateneu é um livro muito ruim, tanto pelo excesso de retórica como pelo sarcasmo destrutivo que o narrador dirige contra tudo e contra todos.

E fiquei muito satisfeito por Rodrigo Gurgel não gostar de Dom Casmurro. Ele ressalta o quanto Machado de Assis deve ao autor de Memórias de um Sargento de Milícias, dívida nunca reconhecida por Machado. Rodrigo diz que Bentinho constrói uma narrativa que só conduz o leitor a becos sem saída. Não é possível dizer se Capitu traiu Bentinho ou não. E não é possível dizer mais quase nada. Bentinho simplesmente nos confunde e para nada.

Muita Retórica — Pouca Literatura resgata diversos escritores esquecidos, como João Francisco Lisboa, Joaquim Felício dos Santos, Inglês de Souza e Xavier Marques. Dá umas boas pauladas em autores incensados como Adolfo Caminha, Afonso Arinos e Graça Aranha, além das unanimidades José de Alencar, Machado de Assis e Raul Pompéia. Fiquei com muita vontade de ler A Retirada da Laguna e os livros de Joaquim Nabuco e Eduardo Prado. E estou ansioso para começar o próximo do Rodrigo, Esquecidos e Superestimados, que continua analisando a prosa brasileira, agora no início do século 20.

A crítica de Rodrigo Gurgel é muito bem fundamentada. É divertida e equilibrada. Os pontos fortes de uma obra ruim ou os defeitos de um livro excelente não são deixados de lado, mas explicados pacientemente ao leitor.

Este texto não é sobre política. Escrever sobre política também cansa.

Para dar uma noção do que é o livro, publico o nome dos capítulos e o autor e a obra a que se referem. Boas leituras!

1. Romantismo autodestrutivo
José de Alencar e Lucíola

2. Talento para recriar a vida
Manuel Antônio de Almeida e Memórias de um Sargento de Milícias

3. O ironista macambúzio
João Francisco Lisboa e Jornal de Timon

4. O contestador liberal
Joaquim Felício dos Santos e Memórias do Distrito Diamantino

5. Valioso, mas desigual
Visconde de Taunay e Inocência

6. Ecos do ultra-romantismo
Bernardo Guimarães e O Seminarista

7. Épico às avessas
Visconde de Taunay e A Retirada da Laguna

8. Lenga-lenga maçante
Franklin Távora e Um casamento no arrabalde

9. O preço do naturalismo
Aluísio Azevedo e O Cortiço

10. Acima do naturalismo
Inglês de Souza e Contos amazônicos

11. Subliteratura e vingança
Adolfo Caminha e Bom Crioulo

12. Encoberto pela retórica
Domingos Olímpio e Luzia-Homem

13. Em busca do realismo
Manuel de Oliveira Paiva e Dona Guidinha do Poço

14. Enfermo de retórica
Raul Pompéia e O Ateneu

15. A pior das respostas
Machado de Assis e Dom Casmurro

16. O antifilisteu
Joaquim Nabuco e Minha formação

17. O anti-revolucionário
Eduardo Prado e Fastos da ditadura militar no Brasil

18. Arenga sertanista
Afonso Arinos e Pelo sertão

19. Retorno ao paraíso
Xavier Marques e Jana e Joel

20. Puro pedantismo
Graça Aranha e Canaã

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4 comentários para “Muita Retórica — Pouca Literatura, de Rodrigo Gurgel

  1. Alexandre

    Cara, de onde você tirou que o Gurgel não gosta de Dom Casmurro?… Tudo o que ele fez foi descrever o caráter do narrador e fazer uma analise psicológica e mesmo moral do mesmo. E isso geralmente destacando a genialidade de Machado em vários trechos. Na verdade, ele dedica apenas 2 ou 3 parágrafos para fazer críticas quanto a pontos marginais e sem importância (como o suposto pedantismo no montante de citações e referências).

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