Do Comunismo, de Vladimir Tismaneanu

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Há um erro muito comum, tanto no Brasil quanto no resto do mundo, na análise sobre o comunismo e outras ideologias: tratar o discurso do ideólogo como se fosse a própria ação real e a definição científica de um determinado movimento político, e a partir disso inferir a impossibilidade da ação real desse movimento contradizer qualquer elemento de seu discurso ideológico, por menor que seja. Um exemplo: definir o socialismo apenas como “estatização dos meios de produção”. Isso, claramente, não explica nem o processo de estatização, nem mesmo os meios necessários para atingir tal meta. Marx, por exemplo, no Manifesto do Partido Comunista, escreve sobre maneiras progressivas de chegar ao objetivo de “estatizar os meios de produção”, portanto, até ele separou a ação real do objetivo (não definido no tempo nem em seu funcionamento, como ele seria) que justificaria a ação.

Do Comunismo, de Vladimir Tismaneanu, não passa nem perto de cometer esse erro. Vladimir, romeno, filho de ativistas comunistas, que depois se desencantaram com a ideologia, narra o funcionamento do governo romeno, suas ligações com a URSS, as divergências e concordâncias com o que Moscou mandava, a relação entre nacionalismo e internacionalismo e algumas ações de destaque dos governos comunistas do leste europeu.

Os nomes de alguns capítulos mostram o tipo de abordagem do livro:

  • O que foi e o que ainda é o comunimo
  • O stalinismo no Leste Europeu
  • O que foi o stalinismo nacional?
  • O labirinto da Guerra Civil da Espanha
  • Suicídios na alta nomenklatura comunista

Este último capítulo citado, inclusive, busca analisar a vida e as ações dos que possuíam poder quase total sobre uma sociedade e os efeitos que tamanho poder causava nas mentes dessas pessoas no comando.

Pessoas e ações: o livro fala disso, não de abstrações.

Algumas vezes a leitura fica lenta por causa da quantidade de nomes, principalmente nomes russos, romenos e de outras nacionalidades do leste europeu; mas isso faz parte da análise concreta dos acontecimentos: pessoas agem, pessoas se relacionam umas com as outras, pessoas planejam e executam; não são ideologias que agem imaterialmente na história, mas indivíduos e grupos reais.

Quando Vladimir Tismaneanu escreve sobre a Guerra Civil Espanhola, percebe-se a preocupação com a análise concreta e o combate aos mitos criados em torno do conflito. O autor cita os contatos dos comunistas espanhóis e europeus (ocidentais) com partidos comunistas do leste europeu e com Moscou. Menciona até mesmo a participação de seus pais, além dos militantes comunistas que foram à Espanha com o objetivo claro de implantar o comunismo no país, não a “democracia”, que era a desculpa. Tismaneanu, portanto, vai além das ideologias na guerra e descreve os agentes e suas conexões com outros movimentos revolucionários na Europa (inclusive com Moscou).

Do Comunismo é diferente do que é feito na “intelectualidade” universitária brasileira. Aqui os professores “imparciais” ensinam que ideologias agem na história, como se fossem tentadas e defendidas por classes, ou melhor, “corpos sem faces” – não há responsabilização das pessoas, é similar ao que fazem quando tratam de criminosos e a “sociedade opressora”. Essas ideologias se materializariam na história independente da ação humana. Já Vladimir busca a realidade dos governos, movimentos e agentes comunistas (desde militantes aos comandantes) no ocidente e no oriente europeu.

Tudo isso não é bonito como falar “o proletário tomou o poder porque era oprimido”, mas qual a beleza do comunismo, que “é a realidade humana em sua faceta mais abjeta”?

Para comprar:

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Livraria Cultura – Livro

Saraiva – Livro

Livraria do Seminário – Livro

Vide Editorial – Livro

 *Detalhe importante: a tradução foi feita do romeno para o português. Tradutor: Elpídio Mário Dantas Fonseca.

Revisado Por Maíra Pires @mairamadorno

2 comentários para “Do Comunismo, de Vladimir Tismaneanu

  1. Elpídio Mário Dantas Fonseca

    Osmar Bernardo Junior, pois é, esse “nem pensei nisso” revela o pouco caso que, de regra, se tem no Brasil pelo trabalho do tradutor, como se uma língua de pouca circulação como o romeno – no caso desta tradução – se materializasse em português como que por milagre. Muito diverso é o comportamento dos intelectuais romenos que não deixam, em momento algum, de citar o nome dos tradutores e de lhes prestigiarem o trabalho. É um ponto para a sua reflexão!
    Att.

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    • OsmarOsmar Posts do autor

      Elpídio, eu não falei aquilo por mal. Foi força do hábito. Não sou intelectual e não consigo analisar traduções como um profissional, então não costumo comentar sobre isso. Tentei escrever de um modo que fizesse o leitor ficar com vontade de ler a obra, este foi meu foco. Acabei deixando coisas de fora, o que é normal para manter coesão e bom tamanho. Não falei da tradução junto com esses outros temas. Eu valorizo a tradução sim, sei que não é comum traduzir do romeno, além de, imagino, não ser algo simples. Foi, realmente, da força do hábito advinda do fato de eu não ser competente no assunto. Por favor, não leve a mal.

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