As Idéias Conservadoras, de João Pereira Coutinho

Idéias ConservadorasMais uma obra imperdível de João Pereira Coutinho está nas livrarias: As Idéias Conservadoras – Explicadas a Revolucionários e Reacionários.

O fio condutor do livro é o pensamento de Edmund Burke (1729-1797), referência maior do conservadorismo britânico. Burke publicou, ainda em 1790, Reflexões sobre a Revolução na França, uma análise que previu boa parte das catástrofes que a Revolução Francesa acabou realizando, e que envolve todos os aspectos mais importantes do pensamento conservador.

Coutinho afirma que todos somos conservadores, pelo menos em relação ao que estimamos. Portanto, existe uma disposição conservadora, que não está relacionada com a política, de “usar e desfrutar aquilo que está disponível, em vez de procurar ou desejar outra coisa”, segundo Michael Oakeshott. É possível que essa disposição conservadora e o conservadorismo político não coexistam no mesmo indivíduo.

A disposição conservadora política não recusa apenas as ambições utópicas futuras dos revolucionários. Rejeita também uma suposta felicidade utópica passada dos reacionários. Coutinho afirma que qualquer outra ideologia diferente do conservadorismo elegerá valores que são desejáveis em qualquer circunstância. Para um liberal, a liberdade. Para um socialista democrático, a igualdade. Para um conservador, isso não existe. Cada valor será benéfico ou prejudicial conforme as circunstâncias. Ou seja, o conservadorismo é uma ideologia, porém diferente de todas as outras. Não é uma ideologia ideacional e ativa, mas posicional e reativa.

Um ponto fundamental do conservadorismo é a consciência da imperfeição humana, que convida o agente conservador a uma conduta humilde e prudente, que recusa a política utópica. Outro ponto básico é valorizar aquilo que sobreviveu aos testes do tempo. O fato de uma tradição existir há muito tempo é um indicativo da possibilidade de que essa tradição seja benéfica. Disse possibilidade, não certeza. Qualquer tradição pode e deve ser questionada.

Há um capítulo dedicado à relação entre conservadorismo e capitalismo. Coutinho chama o capitalismo pelo nome dado por Adam Smith: sociedade comercial. Existem conservadores que são adversários do capitalismo, o exemplo máximo seria Justus Möser (1720-1794). Coutinho diz que um conservador deve valorizar a sociedade comercial não por motivos transcendentes, mas por motivos empíricos e imanentes. A sociedade comercial funciona duplamente: na criação e distribuição de riqueza e como expressão das livres aspirações humanas.

Ao ler o livro, fiquei me perguntando o tempo todo até que ponto concordo com João Pereira Coutinho. Acho que tenho uma grande disposição conservadora pessoal. Concordo com os raciocínios de Coutinho, muito bem fundamentados. Mas discordo de alguns pontos de seu conservadorismo político. Acho que a liberdade é um valor extremamente importante e que a idéia de igualdade tem servido a todo tipo de manipulação. Ele defende alguns tipos de assistência aos desfavorecidos, sobre os quais tenho grande desconfiança. Vou continuar pensando nessas questões por mais tempo. Talvez Coutinho acabe me tornando mais conservador do que sou.

14 comentários para “As Idéias Conservadoras, de João Pereira Coutinho

  1. Otávio

    A doutrina política que o Coutinho parece estar defendendo é o liberalismo – deixe que eu faça o que quiser e eu lhe deixarei fazer o que você quer, não intervenha demasiadamente no mercado, não faça revoluções, mas apenas reformas cuidadosas e bem planejadas etc. – mas ao mesmo tempo ele insiste em chamar isso de conservadorismo. Se você pegar um típico cara que se considera liberal, digamos um democrata americano, e compará-lo ao Coutinho, verá que ambos pensam quase da mesma forma.

    De resto, achei o livro bem fraco. As ideias expostas são bem previsíveis, nada que não se tenha ouvido falar antes, um monte de citações de dezenas de autores mas na maioria dos casos sem nenhuma abordagem mais aprofundada, e algumas ideias que me pareceram um tanto igênuas e que o Coutinho não se preocupou em defender com argumentos bons (por exemplo, será que uma ideia ter sobrevivido como tradição a torna necessariamente boa? Afinal, a escravidão também foi uma tradição milenar que existiu em quase todas as sociedades). Esperava uma boa defesa do conservadorismo, ou pelo menos uma explicação bem didática dos principais pensadores conservadores, mas afinal encontrei um estudo bastante mediano.

    Fiquei decepcionado, porque adoro das colunas dele na Folha.

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    • Da CiaDa Cia

      Acho que está na contracapa do livro a indicação de que se trata de uma introdução. É especialmente voltado ao público dum país como o nosso, em que não há tradição nenhuma no estudo ou mesmo conhecimento de tais autores. Você também confunde as coisas nesse ponto “será que uma ideia ter sobrevivido como tradição a torna necessariamente boa?”. A escravidão foi um passo além, uma evolução de algo muito mais bárbaro que era o simples assassinato dos inimigos de territórios vencidos em guerra. Conforme a escravidão transfigurou-se num método econômico e de poder, não sobreviveu TAMBÉM porque viu-se com o tempo que não era uma boa solução (gerava insegurança, trabalho de baixa qualidade, suspeitas incessantes, pouco incentivo à produção e limitava mercado consumidor). Mas mais do que isso, foi na busca dos costumes BONS, da boa tradição de respeito à vida humana enraizada na visão cristã que nasceram as mais fortes objeções à prática. Provavelmente você está falando de escravidão e pensando na escravização dos africanos, no sentido racial que se aplicou a isso tardiamente (até por um impulso científico).
      Por fim, um democrata americano não tem nada de liberal, ao menos não no sentido que falamos aqui no Brasil e que JP Coutinho usa em suas colunas.

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  2. Pedro.

    Correção:

    Uma TEORIA NÃO requisita aceitação de suas idéias em nome de um objetivo compensador. Enquanto ideologias se fundamentam nos objetivos que PROMETEM com seu amontoado de idéias (alegações arbitrárias).

    Eis a diferença entre TEORIA e IDEOLOGIA.
    Uma, a TEORIA, são ideias que partem de principios e conhecimentos prosperando em busca da VERDADE, a outra, a IDEOLOGIA, reivindica anuência para suas idéias arbitrarias partindo de um objetivo supremo que prometem concretizar para seus FIÉIS e, evidentemente, ideologias implicam na VIOLAÇÃO da LIBERDADE ALHEIA com base o prometido objetivo que oferecem sedutoramente a seus seguidores, fiéis arrebanhados sob o pastoreio de lideranças mentoras que arbitram em nome da “superioridade dos fins para a coletividade”, prometendo um “MUNDO MELHOR” tal e qual a IDEOLOGIA socialista, marxista e demais religiões.

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  3. Pedro.

    Sem sombra de dúvida o chamado conservadorismo é uma ideologia. Afinal se multiplica em inúmeras versões segundo subjetividades e conveniências de cada entitulado conservador.

    O mercantilismo é perfeitamente uma versão conservadora que foi combatida pelos ascendentes liberais. Assim, logo surgiram os “comunistas” que como reais defensores radicais do socialismo ou mais propriamente ESTATISMO, facilmente formaram fileiras contra as idéias liberais e permitiram a ascensão dos inúmeros conservadores como “oposição” aos socialistas.

    É curioso como conservadores, que igualmente cultuam o Estado como entidade (mistica) superior ao individuo. Ou seja, conservadores são INEGAVELMENTE COLETIVISTAS e cultuadores do Estado arbitro supremo sobre a sociedade. Tal qual os socialistas e marxistas os conservadores deliram com o Estado impondo toda sociedade as suas subjetividades, suas manias e caprichos em nome de um alegado BEM MAIOR compensador. Ou seja, tal qual os socialistas e marxistas os igualmente multiplos autodenominados conservadores também possuem um OBJETIVO SUPREMO REDENTOR que almejam IMPOR A TODA A SOCIEDADE, como COLETIVISTAS QUE SÃO. Apenas diferem dos socialistas e marxistas num particular sobre a propriedade privada, mas não uma diferença absoluta, pois que conservadores anuem com ASSISTENCIALISMO como imperativo moral obrigatório, e não como uma concessão dos indivíduos. Também os tais conservadores em suas inumeras visões – POIS QUE NÃO POSSUEM QUALQUER PRINCIPIO e SIM ADOTAM ARBITRARIEDADES IDEOLÓGICAS SEDUTORAS, MESMO QUE VIOLEM A INDIVIDUALIDADE – relativisam o direito de propriedade EM NOME DE UM FIM COMPENSADOR PARA A SOCIEDADE, compensador segundo a subjetividade das impressões conservadoras.

    Tanto no socialismo quanto no conservadorismo o apelo é para autores, ideologos, como definidores das idéias. Pois que NUMA IDEOLOGIA INEXISTEM PRINCIPIOS NORTEADORES MAS APENAS OBJETIVOS QUE PRETENCIOSAMENTE JUSTIFICAM VIOLAÇÕES AO INDIVIDUO, À PROPRIEDADE E SOBRETUDO À LIBERADADE.

    Ideologia não é teoria. Ideologia são idéias com a pretensão de justificarem-se nos fins que prometem para a coletividade. Daí que pululam inúmeras versões sob o mesmo rótulo ao sabor dos torcedores ou seguidores do rótulo, como se torcedores de um time de futebol, por exemplo, pois que tal qual um time o rótulo – a palavra – é apenas um mero rótulo PARA ARREBANHAMENTO COLETIVO DE SEGUIDORES DE LIDERANÇAS que se pretendem um “CORPO COLETIVO” SUPERIOR AO INDIVÍDUO e por tal uma REPRESENTAÇÃO DO ADEPTO que o faz sentir superior a sua individualidade através de sua REPRESENTAÇÃO pelo grupamento mistico concretizado numa PALAVRA que nenhum significado possui além de si mesma, tal e qual um time de futebol e seus torcedores e ídolos.
    CONSERVADORES SÃO COLETIVISTAS e mesmo MERCANTILISTAS em variadas intensidades segundo cada subjetividade. Afinal tais conservadores defendem o direito de propriedade não como um real direito do indivíduo, mas como um apelo ideológico sob o argumento de proporcionar progresso econômico como objetivo; não se atêm a principios ou reflexões éticas, mas a arbitrariedades que se fundamentam EXCLUSIVAMENTE nos fins alegados. Daí que conservadores relativisam o direito de propriedade em nome de objetivos coletivos.

    Uma coisa a se refletir é EXATAMENTE o fato dos conservadores se manifestarem apenas com o surgimento das idéias em defesa da liberdade respaldadas no PRINCIPIO DA NAO AGRESSÃO. Tão logo começou ganhar corpo as idéias libertárias e os tais conservadores protestaram, ajudando sem pejo os socialistas (igualmente estatismas ainda mais radicais) no ataque às idéias liberais.

    Uma teoria NÃO é UMA IDEOLOGIA. Uma teoria parte de principios axiomaticos e conhecimentos comprovados para prosperar em novas descobertas e conhecimentos. Uma teoria é INDIVIDUALISTA por não se prender a objetivos para a coletividade tentando justificar alegações em fins que redimem os meios alegados para atingi-los. Ideologia é COLETIVISTA por se propagandear não como ética mas como moral arbitrária para ATINGIR O OBJETIVO PROMETIDO.

    Uma teoria requisita aceitação de suas idéias em nome de um objetivo compensador, mas sim demonstra a coerência de suas idéias com base em axiomas e conhecimentos.

    Conservadores fazem a QUINTA COLUNA dos SOCIALISTAS!!!!
    Abs.

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    • Alexsander - o de nome grande

      Ledo engano! Conservadorismo não é ideologia, apenas o resguardo da ordem natural, ou seja, caminhar segundo a própria natureza imprimiu no homem o conceito de ética, de certo e errado. Ora! Há coisas na vida que não precisam ser ensinadas, doutrinadas, pois que são natas, e isso não tem nada de ideológico.

      Em tempo, liberdade individual tem limite e se esse limite corre risco de desestruturar a ordem, lógico que precisa intervenção. Liberalismo sim é além de ideologia, uma utopia tão grotesca quanto o comunismo… jamais acontecerá! Acorde pra vida, não viva de ilusões!

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    • Rui

      do pouco que li sobre conservadorismo não absorvi essas suas conclusões sobre coletivismo e estatismo, o que absorvi foi prudência na alteração de leis a práticas que tenha acomodação pretérita (tradição), o conservador é avesso à mudanças não experimentadas exaustivamente porque considera isso um risco para a sociedade.

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  4. Carvalho

    Bacana a resenha Marcelo, seus textos sempre são interessantes ! Vou ler o livro com certeza, graças à sua divulgação.

    Pelo que você explica, me coloco mais como conservador. Desde sempre me lembro de não ter uma ideologia política ou princípios pessoais rígidos. Para mim tudo funciona na base do custo x benefício.

    Uma decisão qualquer tem um custo associado a ela bem como um benefício esperado. Tomemos a mentira como exemplo: na vida pessoal e profissional mentir é uma estratégia muito cara, pois uma vez que a pessoa começa a mentir, ela terá que despender significativo esforço para sustentar aquela mentira ao longo do tempo, encobrir rastros, planejar os possíveis furos em sua história, etc. No meu caso, como sou preguiçoso, sou sincero.

    Mesmo a liberdade é relativa. Como valor absoluto ela pode dar margem à legalização de todas as drogas e o aborto indiscriminado por exemplo. Coisas que na teoria podem ser defensáveis mas na prática tendem a causar muito sofrimento às pessoas. Como diria o ditado: de boas intenções o inferno está cheio.

    Abraços e parabéns pelos textos !

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    • Marcelo CentenaroMarcelo Centenaro Posts do autor

      Carvalho, obrigado pelo interesse e por suas palavras. Acho que sou mais liberal que conservador em política e tenho simpatia por alguns libertários (não pelos libertários brasileiros), mas João Pereira Coutinho sempre me faz rever meus conceitos.

      Abraços!

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