“Adeus, Homens de Deus”, de Michael S. Rose

A Igreja Católica é uma instituição fundamental para a história humana por, dentre tantos motivos, ter forte coesão moral e intelectual consolidadas por séculos de milagres, fortalecimento de seu credo e filosofia. Isto não a impediu de sofrer, nos últimos 20 anos, o maior descrédito diante da opinião pública em toda sua história. Tudo por conta dos seguidos casos de pedofilia, e depois também pelo acobertamento deles, especialmente nos EUA. Como isto pôde acontecer? O livro “Adeus homens de Deus”, de Michael S. Rose e originalmente publicado em 2002, embora não dedicado especificamente a este caso, explica a origem da desgraça da Igreja Católica dos EUA com relatos que chocam e revoltam qualquer pessoa, mesmo aquelas que não conhecem os detalhes da organização interna da religião.

Uma constatação óbvia sobre os casos de pedofilia ao redor do mundo é comum: eles envolvem, na maioria absoluta dos casos, padres homossexuais. Mas oras, se a Igreja exige o celibato e se a homossexualidade é uma condição dependente da preferência e hábitos sexuais, como é possível haver padres assim? Não estou falando de padres com modos afeminados, mas aqueles que realmente têm vida ativa sexual com outros homens… No Brasil há uma justificativa famosa, razoável e intuitiva para a existência de padres homossexuais: a de que o desinteresse por mulheres costuma gerar problemas sociais para jovens de pequenas cidades e a Igreja, pelo celibato e status, é uma proteção. Quem se torna padre por este caminho não o faz  por vocação, mas pela necessidade e desespero diante da reprovação de familiares e amigos. O sacerdócio como fuga logicamente não é um sacerdócio pleno. O livro de Michael Rose mostra que, nos EUA, o grande número de padres homossexuais tem uma outra explicação, que começa na destruição interna da formação daqueles que devem carregar adiante seu credo:

“(…)os próprios membros da Igreja, com responsabilidade direta em promover e encorajar as vocações, estão excluindo candidatos qualificados ao sacerdócio. (…) Eles exploram a escassez de vocações que eles mesmos ajudaram a criar, fazendo avançar os esforços em prol de um “sacerdócio reinventado”que abertamente rejeita as definições da Igreja para o ofício do rito latino, que diz que o ministério deve ser exercido exclusivamente por homens celibatários”

O livro de Michael Rose traz à luz inúmeros seminários dos EUA em que jovens verdadeiramente vocacionados para o sacerdócio foram desencorajados e perseguidos durante sua formação por uma cultura reformista que confronta diversas regras da Igreja. Sob a desculpa de que ela precisava mudar suas posições históricas em diversos temas, especificamente os sexuais, pessoas ocupando cargos de relevância na hierarquia traziam leigos para cuidar de atribuições que não deveriam ser exercidas por leigos, padres homossexuais praticantes cuidavam de cursos de formação, seminários incentivavam a troca homossexual entre os estudantes para que eles “se descobrissem” e livros que detalhavam formas de obtenção de prazer numa relação homossexual e na masturbação mútua e grupal eram estudados. Se isto já parece inapropriado para cursos normais de formação de jovens, como explicar tais ocorrências  em escolas de formação de padres? A investigação é explicada com um resumo de suas conclusões neste trecho:

Durante o Ano do Jubileu de 2000, eu dediquei muito tempo e energia entrevistando dezenas de seminaristas, padres recém-ordenados, professores de seminários e diretores vocacionais. Os 125 entrevistados representam cerca de 50 dioceses e 22 seminários maiores (alguns dos quais foram fechados). Cada entrevistado descreveu-se a si mesmo como mais ou menos representante do “seminarista ortodoxo”. Esses homens são leais aos ensinamentos da Igreja, que vêem o papa como pai espiritual e líder, rezam o terço e apóiam o sacerdócio masculino e celibatário. Eles não têm nenhum interesse em apoiar agendas que não aquela da Igreja. Seus testemunhos, amiúde sustentados por evidências documentais, são notavelmente consistentes

Eles descrevem os vários obstáculos propositadamente colocados no caminho de autênticas vocações sacerdotais, conduzindo os seminaristas ortodoxos à expulsão ou ao abandono voluntário – e isso considerando, em primeiro lugar, que eles já tenham sido aceitos no programa do seminário. Esses obstáculos incluem, comumente:

  • abordagem tendenciosa no processo seletivo;
  • aconselhamento psicológico antiético;
  • membros do corpo docente e diretores espirituais focados em detectar sinais de ortodoxia entre seminaristas;
  • uma vida prática, por parte de alguns estudantes e membros da
  • hierarquia, incompatível com os padrões da Igreja;
  • apoio às práticas e agendas homossexuais;
  • promoção de idéias e ensinamentos que enodem o Credo católico nas doutrinas mais fundamentais da Igreja;
  • aberto desprezo pela correta liturgia e devoções tradicionais;
    manipulação e abuso espiritual e psicológico.

Ao contrário da estupidez repetida por aí, a Igreja não deve refletir o mundo moderno ou se preocupar com isso. No “mundo”, a homossexualidade é uma realidade inegável, uma característica de um grupo pequeno mas significativo de pessoas que enfrentam dificuldades de encaixe social justamente por serem diferentes do padrão. Se hoje, nos países onde há leis mais adequadas de convívio, as pessoas não podem ser segregadas por suas preferências sexuais,  uma instituição fechada e histórica como a Igreja Católica pode ser diferente não por preconceito contra os homossexuais, mas por seguir regras instituídas e consolidadas muito antes de haver uma expressão significativa desse padrão de comportamento. Mais importante, não é pelos padres serem homossexuais que eles são impedidos de fazer parte do corpo religioso, mas por serem “sexuais”, se é possível expressar-se assim – padres com vida sexual ativa e heterossexual também são proibidos.

Mas a questão da homossexualidade, fator determinante na explosão dos casos de pedofilia, é apenas parte dos relatos impressionantes de como subculturas esquerdistas destruíam internamente a Igreja:

Um ocorrido bastante comum embora inacreditável, relatado por inúmeros seminaristas é que, durante suas entrevistas com as freiras assistentes nos escritórios vocacionais, o telefone toca ou alguém bate na porta. As irmãs atendem e travam uma animada conversa, no curso da qual afirmam entusiasticamente esperarem, com certeza, ser ordenadas para o sacerdócio dentro de alguns anos, ou então manifestam, de alguma outra maneira, que apóiam a ordenação feminina.

Um dos entrevistados conta que “um grande número de estudantes fora convencido por alguns professores progressistas que a promiscuidade sexual com pessoas do mesmo sexo não era uma violação do celibato.”

Diante de tantas pressões políticas, “como pode um seminarista são e heterossexual esperar ter uma formação adequada e ser preparado para o sacerdócio católico quando ele está constantemente sujeito a algo que é tão claramente contrário ao ensinamento e à disciplina da Igreja?“, pergunta Michael S. Rose.

O livro segue trabalhando os dados colhidos nas entrevistas para mostrar todas as barreiras criadas na Igreja Católica dos EUA para a formação de bons padres relatando caso de professores de seminários abertamente contra o catolicismo, o uso do livro “Our Sexuality” num curso de formação, um seminário em que os padres em formação deviam passar pelo crivo de um Grão-Mestre de loja Macônica que também pertencia à Ordem Rosa Cruz… As aberrações vão se sucedendo.

Além da importância histórica por documentar as raízes de um problema gravíssimo, o livro “Adeus, Homens de Deus” finalmente publicado no Brasil é relevante também por mostrar como a força dos movimentos revolucionários consegue corromper até mesmo as maiores fortalezas que imaginamos. A infiltração que leva à perda da identidade para destruir tudo que possa lhe opor é uma prática comum desses movimentos. O resultado específico das ações descritas no livro ficou mais claro e traumático na Igreja Católica porque dela se espera muito mais, mas não é muito difícil transpor o processo que levou a tal desastre para muitos outros casos. Conhecer tais métodos e aprender com quem já os vivenciou é se armar para enfrentá-los.

Título: Adeus, Homens de Deus

Autor: Michael S. Rose

Editora: Ecclesiae

Onde comprar:

AdeusHomensdeDeus

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