A Voz dos Sinos e Mensagem de Ano Novo

“A Voz dos Sinos” é o nome de uma novela escrita e publicada por Charles Dickens em 1844. Naquele tempo, Dickens tinha o costume de reunir seus amigos para ler suas histórias natalinas ao fim do ano – o escritor, muito popular, viajava o país para fazer leituras públicas de suas obras, eventos que reuniam grande número de pessoas.

Assim como as outras histórias natalinas do autor, a mais famosa sendo ‘Um Conto de Natal”, esta traz uma forte mensagem moralista e de clamor social. Conversando com os leitores, Dickens abre o livro lembrando que poucas pessoas gostariam de dormir numa Igreja. Percorre então detalhes do clima assustador de uma Igreja durante a noite e vazia, trata do campanário até que somos apresentados a Toby “Trotty” Veck, que de tanto conviver com o badalar dos sinos, acredita ouví-los enviando mensagens de apoio para cumprir suas tarefas. Mensageiro que pega seus serviços na escadaria da Igreja, muito eficiente e dedicado, Toby não é o mais veloz mas tem um trote peculiar e incorrigível. Assim como os sinos, enfrenta o frio e os ventos, não se deixa vencer pelas dificuldades, é pontual, leva coisas às casas das pessoas sem jamais entrar nelas ou participar das festividades que presencia.

Pobre, Toby Veck é um homem exemplar. E foi com muito amor que criou, embora na pobreza, sua filha Meg, na história já com 20 anos e no esplendor de sua beleza. Menina amorosa e dedicada ao pai, sua candura para com ele é obra e reconhecimento pelo esforço de quem a criou sem mãe, falecida no momento de seu nascimento. Tementes a Deus, aceitam a vida cruel a que são submetidos e o olhar de desprezo com que os homens das leis olhavam para eles. Toby chega a concordar com o que dizem: que os pobres são uma desgraça para o país, que são desumanos, perversos e de praticamente nenhuma valia.

Ilustrações de Hugh Thomson, originais, para A Voz dos Sinos

Começam então a aparecer esses ‘homens da lei’ e poderosos. Cada um a seu jeito, com suas ambições materialistas e visões classistas, vão repetindo diante de Toby uma série de maldades contra gente como ele, que de tão desgraçada não deveriam sequer ter o direito de se casar. Vemos os homens que fazem as leis, que julgam as pessoas e até mesmo um auto-intitulado “pai dos pobres”. Essa transição com personagens detestáveis ocorre entre o primeiro e o segundo capítulo, no livro chamados de “Quartos de hora” – a história é contada em quatro quartos de hora.

Fortemente afetado pelo encontro com essas pessoas da lei na véspera do ano novo e após um dia que começara tão bem – sua filha havia levado uma marmita deliciosa para ele em seu trabalho – Toby acredita ouvir mensagens nunca antes ditas pelos sinos:

– Suprimir, suprimir! Os bons tempos antigos, os bons tempos antigos! Fatos e cifras, fatos e cifras! Suprimir! Suprimir!

Transtornado, Toby é vencido pelos pensamentos ruins e começa a concordar com o que dizem. Os pobres (“nós”) são mesmo desprezíveis e nem merecem viver. Os homens de poder e influência têm razão. E é sob esse abatimento que ele esbarra em um homem também muito pobre, encharcado e carregando uma linda bebê. Pedindo desculpa e preocupado com o homem, a quem acreditava ter ferido, descobre que ele é alvo de um dos recados que transmitira naquele dia e que ele correria grave risco se não encontrasse uma casa para se abrigar. Toby então o convida para ir à sua casa, humilde mas aquecida o bastante para tirá-los da situação triste em que se encontravam sob o frio da véspera de ano novo. Chegando à sua casa ele apresenta os dois à sua filha, que logo abriga a pobre criança enquanto a aquece na lareira, e ocorre então uma lindíssima cena em que Toby disfarça o fato de não ter comida para servir às visitas e sai sorrateiramente para oferecer uma ceia mínima aos dois – não queria dar a impressão de que eles geravam gastos.

A noite chega e Toby tem a certeza de que os sinos o chamam para o alto da torre da Igreja.Ele duvida que aquilo seja possível mas resolve fazer um teste: se for possível subir até os sinos, tudo bem, se não for possível, tanto melhor – afinal de contas, o topo de uma Igreja no escuro do inverno deve ser mesmo assustador. Surpreendentemente, o caminho está desimpedido, as portas não estão trancadas e ele consegue subir até o topo da Igreja, embora com dificuldade pelo escuro. Ao chegar lá a história sofre uma mudança de ritmo brusca, passando a se parecer com um conto de Hans Christian Andersen – de quem Dickens era primeiro fã e depois amigo – ou com o clímax do conto publicado no ano anterior, com o Sr. Scrooge. Revelar o que se passa no campanário estragaria demais a descoberta de quem, ao ler estas palavras, se sentir curioso por essa bela história, e por isso não direi muito. O que digo é que elas seriam, num filme ou animação, tão feéricos quanto o vôo do diretor Robert Zemeckis com o Senhor Scrooge.

Dickens encerra o livro mandando uma mensagem aos leitores muito bonita, que vale a pena ser repetida a quem acompanha nosso site:

Teria Trotty sonhado? Suas alegrias, seus pesares, todos os atores deste drama não passam de um sonho? Não será o próprio Trotty um sonho? Não será o autor desta história apenas um sonhador que até agora não conseguiu despertar? Se assim é, leitor amigo, tu que tão grato lhe és em todas as suas visões trata de gravar na tua mente as sérias realidades de que estas sombras procedem, e na tua espera (nenhuma é demasiado extensa, nem demasiado limitada, para tal) esforça-te  para corrigi-las, melhorá-las e suavizá-las. Oxalá que o ano novo te seja feliz, e feliz para aqueles cuja ventura depende de ti! Oxalá que cada ano seja mais feliz do que o anterior e que até o mais humilde de teus irmãos ou irmãs em Jesus Cristo receba sua legítima parcela da felicidade que nosso Supremo Criador quis fazer-lhe gozar, tanto como a todos os outros.

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