A Inversão Revolucionária em Ação, de Olavo de Carvalho

Poderia fazer um longo introito sobre toda a controvérsia que gravita em torno de Olavo de Carvalho, mas 90% do que eu escreveria já foi dito aqui. Portanto, vou poupá-los de justificativas, apresentações e contextualizações despiciendas.

O reconhecimento da importância intelectual e moral de Olavo de Carvalho para o debate público brasileiro é tão lento quanto consistente, e transparece desde em singelos cartazes nas manifestações populares contra o PT (“Olavo estava certo” virou um dos bordões das manifestações do início do ano) até em apostas editoriais de vulto, como a série “Cartas de um Terráqueo ao Planeta Brasil”, da Vide Editorial.

Ridicularizar Olavo como louco, paranoico, boca-suja ou astrólogo deixou de ser tarefa fácil a partir do momento em que algumas pessoas deixaram de ouvir os detratores e passaram a construir seu juízo de valor acessando direto à fonte. A polissemia deliberada de Olavo de Carvalho, produzindo quantidades impressionantes de conteúdo em textos, áudios e  vídeos disseminados em seu blog, nas redes sociais e nos portais de vídeo da internet tornaram fácil acessar o pensamento do professor em variadas doses e intensidades.

Hoje, é possível ler Olavo de Carvalho em pequenas pílulas de humor ácido e escatológico no twitter, em textos curtos e polêmicos no facebook, em posts mais densos e estruturados de seu blog, além de acompanhar toda sua verve polemista nos diversos hangouts, debates e monólogos compartilhados amiúde pela internet.

Daí a importância e a prazerosa experiência em ler um livro como “A Inversão Revolucionária em Ação”. Trata-se da compilação de todos os artigos de Olavo de Carvalho publicados no Diário do Comércio no ano de 2008. É nesse formato e ordem cronológica que transparecem mais algumas das características do autor, além daquelas elencadas no artigo referenciado no primeiro parágrafo.

Antes, porém, uma breve contextualização do ano da graça de 2008.

É o ano em que explode a pior crise econômica desde a depressão de 1929, segundo a imprensa; ano de eleições presidenciais nos EUA, com Barack Obama despontando como a grande novidade da política mundial; Lula, aquele que sangraria com o mensalão, atinge 77% de aprovação popular, enquanto o Brasil recebe o “investment grade” de agências internacionais de análise de risco; o assassinato de Isabela Nardoni expõe um novo patamar de crueldade e frieza do “homem cordial” brasileiro; Marina Silva desliga-se do Ministério do Meio Ambiente, preparando seu voo solo; tem início a Operação Satiagraha, que leva o delegado Protógenes à condição de ídolo nacional; a Petrobrás começa a extrair petróleo do pré-sal; Marcos Valério é preso pela primeira vez, no bojo do processo do mensalão.

Um ano com grandes notícias para o PT: o mensalão ainda era uma investigação incipiente; Joaquim Barbosa era apenas mais um dos ministros do STF; Zé Dirceu era o grande consultor da república, José Genoíno, o baluarte da moralidade partidária; Dilma, a gerentona do PAC, o programa que nos levaria ao primeiro mundo. Barack Obama é apresentado ao Brasil como a redenção americana, após os anos de George W. Bush e sua guerra ao terror, que tornaram os EUA o grande satã para a opinião pública progressista do mundo.

Ser de esquerda, no Brasil, em 2008, era bonito, fácil e, para alguns, bastante lucrativo. Os tucanos, que deixaram Lula “sangrar” em 2005, estavam anêmicos. Mesmo disputando espaço no espectro ideológico com o PT, não conseguiam se livrar da pecha de neoliberais, armadilha primária criada pelo PT para deixar seus adversários se debatendo contra o vento, enquanto navegavam céleres rumo à hegemonia.

Foi esse contexto que Olavo de Carvalho publicou, semanalmente, os artigos contidos nesse livro. São análises do mundo, sua cultura, seus valores e as grandes estratégias de grupos políticos ideológicos para conduzir estes processos.

Os fatos políticos, econômicos e sociais são mero ponto de partida para as crônicas e ensaios de Olavo. Ele não se preocupa com os detalhes dos bastidores da política, os personagens que ascendem ou decaem do poder governamental, a não sem em casos muito específicos, como o de Barack Obama. A dimensão temporal e comportamental que interessa ao autor é bem outra, mais lenta, profunda e determinante.

Olavo de Carvalho é, provavelmente, o único filósofo brasileiro que faz análise estratégica, política e comportamental, do cotidiano. Os fatos quentes que movimentam o noticiário são peças minúsculas de uma intrincada disputa por poder e prestígio, de âmbito mundial. Para identificar e descrever a dinâmica e os atores desta disputa, é necessário muito repertório, disciplina e coragem. Sim, coragem, principalmente para aceitar ser chamado de louco e seguir em frente nessa empreitada.

Em tempos de informações produzidas, compartilhadas e interpretadas em tempo real, optar por deixar esta entropia de lado para analisar suas motivações, estratégias e consequências de longo prazo é opção quase suicida, num jornalismo pautado pela busca incessante de likes, retuítes e disseminações imediatas.

O jornalismo abdicou da prerrogativa de ser influente e relevante, para ser rápido, esperto, descolado, irônico, zuero. Quando muito, o jornalismo brasileiro hoje é, nos seus melhores momentos, sério e correto, elencando fatos e contextos numa narrativa coesa e objetiva. Extrapolar o imediato para explicar suas origens e desdobramentos futuros em um encadeamento lógico, teoricamente consistente e compreensível? Quase ninguém se arrisca a tanto.

É justamente nesta seara, de explicação teórica e ideológica do presente a partir de conceitos e estratégias formulados há 50, 100 ou 150 anos e seus possíveis resultados nos próximos 10, 20 ou 50 anos, que Olavo navega como poucos.

Neste volume da série, Olavo tem dois focos principais: o Foro de São Paulo, cantado em verso e prosa pelos petistas em seu 3º Congresso Nacional em 2007, e solenemente ignorado pela imprensa em 2008; Barack Obama, o então candidato à Presidência nos EUA, cuja nacionalidade foi motivo de controvérsia durante toda sua campanha, e que só não causou maiores estragos pela ampla proteção de setores da imprensa e da justiça americanas.

Além destes pontos principais, que aparecem em vários momentos do livro, Olavo fala de Freud e modernidade (“O Cume do Progresso Humano”), Tropa de Elite – o filme – e a indignação da esquerda (“A internacionalização do Engodo”, um dos melhores artigos do livro), filosofia política (“A consciência da consciência”), globalismo (“Quem nos governa, afinal?”), hegemonia (“Hegemonia” e “Ainda a hegemonia”, outro ponto alto do livro), e muitos outros temas, abordados de uma forma que, infelizmente, não tem seguidores na grande imprensa.

Analisar as grandes movimentações culturais da humanidade, com prognósticos, não é uma empreitada que se enfrente sem percalços ou tropeços. Olavo acerta muito mais do que erra, mas em 2008 ele foi pessimista em excesso ao tratar da hegemonia esquerdista no Brasil.

No texto “Falando às pedras”, ele diz:

“Outro indício seguro da distribuição do poder é a capacidade de mobilização das massas. Somem os partidos de esquerda, o MST, as centrais sindicais, as ´pastorais de base´ e porcarias semelhantes, e verão que, no instantes em que quiser, a esquerda revolucionária tem condições de espalhar nas ruas não menos de cinco milhões de militantes enfurecidos, treinados para toda sorte de agitações e depredações, sem que o outro lado possa sequer reunir cinco dezenas de gatos pingados numa cerimônia religiosa. Consolidado pela omissão pusilânime de todos os que teriam o dever de impedir que ela se consolidasse, o monopólio esquerdista dos movimentos de massa marca a distância entre onipotência absoluta e impotência total e é, por si, um retrato do que o futuro reserva ao país”.

Sim, pensar isso em 2008, quando o mensalão ainda parecia piada de salão e Lula sangrou tanto nas mãos da oposição que acabou reeleito, fazia todo o sentido. A Reaçonaria sequer existia, e “reacionário” era o termo paralisante 100% eficaz utilizado pela esquerda para promover a interdição de quaisquer debates que fugissem à sua pauta ou simplesmente não lhe agradassem.

Muita coisa mudou desde então, e a profecia de Olavo, neste caso específico, felizmente não se concretizou. Ao contrário: a mobilização de milhões nas ruas deu-se em forma de confronto ao desmando da esquerda. Em 2015, quem toma conta das ruas é o povo espontaneamente organizado, enquanto que os movimentos aparelhados pelo petismo encontram-se cada vez mais isolados.

Em compensação, no âmbito externo, Olavo deixou-se levar em demasia pelo otimismo em relação às instituições americanas, acreditando que dariam uma resposta adequada sobre as controvérsias envolvendo a nacionalidade de Obama. Em 28 artigos, 25 dos quais escritos a partir de 12 de junho de 2008 (“O queridinho da elite global”), Olavo de Carvalho apresenta e analisa informações as mais surpreendentes sobre a nacionalidade de Obama e da estratégia do então senador para dificultar as investigações a em relação ao assunto. Os textos mostram a evolução de Olavo de Carvalho da crença absoluta nas instituições americanas ao desalento com o resultado de tantas investigações e questionamentos.

Nesse aspecto específico da compilação, a leitura sequencial dos textos torna-se repetitiva, efeito inescapável quando um tema torna-se recorrente em colunas de opinião semanais, mas nada que tisne a qualidade do conteúdo geral.

Outro tema recorrente nos artigos do livro é o Foro de São Paulo. Até 2007, o assunto era considerado o fetiche das teorias conspiratórias conservadoras por boa parte dos formadores de opinião da grande imprensa. Bastou o PT falar abertamente sobre a instância catalizadora das ações dos grupos de esquerda na América do Sul, e o Foro passou a ser mencionado, discretamente, como coisa velha. Olavo percebe o truque e o denuncia, mas sem muito entusiasmo ou denodo. Suas expectativas em relação à capacidade de análise crítica do jornalismo brasileiro já estavam devidamente calibradas.

Entretanto, os temas e assuntos temporais das colunas estão longe de ser o atrativo principal desta coletânea. O que é relevante na obra de Olavo de Carvalho é o enfoque, a disciplina analítica mesclada com enorme repertório que resulta numa liberdade retórica e filosófica cujo exercício já é, em si, uma lição de pensamento crítico aplicado à vida, pois sempre tributário da realidade e da verdade.

Olavo de Carvalho não foge à luta que considera ser a única relevante, e a cada leitura de sua obra ele nos convence da obrigatoriedade de seguirmos com ele. Em um dos pontos altos do livro (“Fugindo à luta”), ele diz:

Na mesma onda de mudanças estratégicas, o movimento comunista abdicou do estatismo radical, reconhecendo que uma quota aliás bem grande de livre mercado é indispensável à sobrevivência dos regimes socialistas, mesmo os mais autoritários.

A essa altura, a pura defesa da economia de mercado, sobretudo se acompanhada de desprezo economicista pela guerra cultural e pela formação de uma militância conservadora adestrada no estudo da estratégia marxista, é um anacronismo completo, uma forma de alienação, que só pode levar às mais devastadoras consequências.

Na verdade, se tantos políticos e intelectuais liberais se apegam a essa atitude autocastradora, é não só porque sua mentalidade empresarial se sente mais à vontade no front econômico do que no político ou cultural, mas porque sabem instintivamente que a luta aí desenvolvida suscita respostas menos ferozes da esquerda do que ataques desferidos em pontos mais vitais do esquerdismo. Não por coincidência, essa opção pela fuga sistemática ao combate – que Lênin diagnosticava como sinal de morte iminente – vem junto com um esforço de manter, nos debates com a esquerda, uma polidez medrosa, ilusoriamente sedutora, que os esquerdistas, por seu lado, desprezam em troca de uma retórica cada vez mais truculenta e ameaçadora. Em vão o Hino Nacional proclama: “Verás que um filho teu não foge à luta”. Tornou-se praticamente impossível mostrar aos liberais brasileiros que a covardia não é uma modalidade superior de realismo.

Há sempre uma causa subjacente aos textos de Olavo, e esta causa não é doutrinária, ideológica ou programática. É moral. Só isso já torna seus escritos mais relevantes que 99% do que é publicado atualmente na imprensa brasileira.

Título: A Inversão Revolucionária em Ação – Cartas de um Terráqueo ao Planeta Brasil – Volume IV

Autor: Olavo de Carvalho

Editora: Vide Editorial

Em papel:

Livraria Cultura

Livraria Saraiva

Livraria do Seminário

Amazon BR

Ebook:

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3 comentários para “A Inversão Revolucionária em Ação, de Olavo de Carvalho

  1. Daniel

    Se não pirei de vez, 2008 foi ano de lançamento do “País dos Petralhas” do grande Tio Rei. Vou reler o primeiro e depois ler o livro do Olavão em seguida…

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  2. Rafael Borges

    Além destes pontos principais, que aparecem em vários momentos do livro, Olavo fala de Freud e modernidade (“O Cume do Progresso Humano”), Tropa de Elite – o filme – e a indignação da esquerda (“A internalização do Engodo”, um dos melhores artigos do livro), filosofia política (“A consciência da consciência”), globalismo (“Quem nos governa, afinal?”), hegemonia (“Hegemonia” e “Ainda a hegemonia”, outro ponto alto do livro), e muitos outros temas, abordados de uma forma que, infelizmente, não tem seguidores na grande imprensa.

    Acho que você quis dizer “A internaCIONAlização do engodo”.

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