Resenhas

@reaconaria

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“Last Testament: In His Own Words” – O livro final do Papa Bento XVI

“Não sou um iluminado.

“O conceito de “iluminado” tem algo de muito elitista. Eu sou totalmente um cristão normal. Naturalmente, o cristianismo trata da preocupação em reconhecer a verdade, que é luz. Pela virtude da fé um homem simples pode ser iluminado, porque ele vê o que outros, que são tão inteligentes, não podem perceber. Neste sentido, fé é iluminação. Batismo em grego significa fotismo, uma iluminação, uma ida à luz, se tornar quem vê. Meus olhos estão abertos. Eu vejo esta dimensão que é completamente diferente, algo que não me é possível perceber com os olhos do corpo apenas.

Embora ainda sejamos chamados de maior nação católica do mundo, ganhou pouco ou nenhum destaque por aqui o livro que deve ser o último do Papa Bento XVI. Sua versão em inglês foi lançada no site da Amazon no dia 15 de novembro e, até o dia de hoje, não há nenhuma informação sobre tradução e publicação no Brasil.

É uma pena. Se para as pessoas do mundo já é uma perda enorme estarem alheias às idéias e personalidade de Joseph Aloisius Ratzinger, este buraco é muito maior para os católicos, especialmente do Brasil. A mensagem de Bento XVI transmitida em seus trabalhos acadêmicos dentro da Igreja e suas ações realizadas durante o pontificado perdurarão por muito tempo. Quando quem sabe o mundo despertar de sua insanidade moral atual, poderá encontrar nele um caminho de volta rumo à Cidade Celestial.

“Last Testament: In His Own Words” é um livro de entrevistas concedidas por Bento XVI ao jornalista Peter Seewald ao longo dos anos. É na honestidade e franqueza das respostas que está a grande qualidade desta obra. Não era de se esperar outra coisa: homem Santo que é, Bento XVI não está preocupado em encarnar um personagem, em falar o que se espera, em agradar multidões. As perguntas do livro são divididas em capítulos temáticos:

  • PART 1: THE BELLS OF ROME
  • 1. Quiet Days in Mater Ecclesiae
  • 2. The Resignation
  • 3. ‘I do not abandon the cross’
  • PART II: A LIFE IN SERVICE
  • 4. Childhood and Parental Home
  • 5. The War
  • 6. Student, Curate, Lecturer
  • 7. Theological Apprentice and Star Theologian
  • 8. Vatican II: A Dream and a Trauma
  • 9. Professor and Bishop
  • 10. Prefect (Rome, 1982-2005)
  • PART III: THE POPE OF JESUS CHRIST
  • 11. Suddenly Pontifex
  • 12. Aspects of Pontificate
  • 13. Journeys and Encounters
  • 14. Shortcomings and Problems

“Se um Papa foi sempre aplaudido, ele deveria se perguntar se ele estava ou não fazendo as coisas certas. A mensagem de Cristo é um escândalo para o mundo, começando com o próprio Cristo. Sempre haverá oposição e o Papa precisa ser um sinal de contradição”

O livro tem realmente um clima de testamento. Como tal, é passada a limpo toda sua vida. Não é uma biografia, mas a reflexão de um homem diante de seus últimos dias na Terra que foi chamado a refletir sobre tudo o que fez e viveu. Um dos efeitos mais imediatos do livro é aguçar a curiosidade para conhecer as obras de Bento XVI, ir atrás de quem ele diz que o influenciou, como o teólogo suíço Hans Urs von Balthasar; pesquisar seus trabalhos acadêmicos em Bonn e depois em Munster.

Mas esta parte mais biográfica está na segunda seção do livro. A primeira parece estar posicionada desta forma para já saciar os mais curiosos e fofoqueiros. É ali que é tratada sua renúncia. Ele sabia que seria curto seu período à frente da Igreja:

“Eu tinha mais que qualquer coisa que mostrar o que a fé significa no mundo contemporâneo, e além, destacar a centralidade da fé em Deus, e dar às pessoas a coragem para terem fé, coragem para viverem concretamente no mundo com fé. Fé e razão, foi o que reconheci como centrais para minha missão, e para essas coisas não era importante ter um longo pontificado”

Já no terceiro capítulo ele é perguntado várias vezes sobre Bergoglio, depois Papa Francisco. Devido a muitas polêmicas e à gritante diferença de estilo e postura de ambos, o jornalista tenta de todas as formas extrair alguma polêmica, alguma resposta de impacto. Mas não consegue. Sobre a escolha de Bergoglio:

“Quando ouvi o nome eu tive dúvidas no começo. Mas quando vi como ele fala com Deus de um lado e o povo de outro, fiquei muito satisfeito. E feliz.”

Sobre a surpresa quanto à escolha de um Papa de fora da Europa e a descentralização da Igreja, ele faz a triste constatação necessária:

“A fé na Europa está tão enfraquecida que, tomando apenas este quesito, ela não pode completamente e somente ela ser a força que guia uma Igreja global.”

Os elogios ao modo do Papa Francisco lidar com as pessoas são muitos e vêm combinado com a afirmação, algo reflexiva, de que realmente ele não tinha essa característica. Perguntado se Bergoglio não seria muito excêntrico, responde que cada um tem seu próprio temperamento e repete que acha positivo sua forma direta de lidar com o público. O entrevistador pergunta novamente se Bento não vê nenhum problema no estilo de Francisco, e ele responde “Não, pelo contrário, eu aprovo, sem sombra de dúvidas”.

Se Bento desaponta quem esperava opiniões polêmicas e algum conflito em relação ao Papa Francisco, ele apresenta opiniões mais severas em relação ao Concílio Vaticano II. O trauma do nome do capítulo se refere mais à morte de sua mãe e outras polêmicas do tempo do que ao resultado do Concílio. Ele, que era um entusiasta do Concílio e visto como um progressista:

“Naquela época, ser progressista não significava que você estava indo contra a fé, mas que queria entendê-la melhor.”

Mas sua opinião sobre o Concílio mudou:

“Os bispos queriam renovar a fé, aprofundá-la. No entanto, outras forças trabalhavam com força crescente, particularmente o jornalismo, que interpretava as coisas de uma forma completamente nova. A liturgia começou a se esfacelar, a cair em preferências pessoais.”

Outros pontos importantes esclarecidos dizem respeito à sua “renúncia”. O mais importante, Bento XVI deixa claro que não o fez por ter sido enfraquecido pelos “Vatileaks”, muito pelo contrário: só saiu quando o caso estava contornado.

Este livro é muito recomendado para quem quer conhecer um homem da eternidade. É difícil descrever a personalidade e a mensagem de Bento XVI sem usar elogios superlativos. Ele certamente não era o Papa que o mundo atual queria, e justamente por isso era o Papa que o mundo mais precisava. Seu curto pontificado com a mensagem de restaurar a fé verdadeira e de valorizar uma religiosidade devota que não faça concessões aos vícios do mundo, embora nem por isso busque um isolamento, precisava ser continuada.

A leitura será um pouco dolorida para quem o admira e imagina tudo como uma despedida. Mas isso não deve ser obstáculo. Para quem não conhece muito de sua vida, é um excelente passo inicial. Já para quem quer ver o que pensa um homem totalmente sincero, culto, honesto e puro, não há livro melhor.

 

Revisado por Maíra Pires @mairamacpires

O livro “Socialismo – Me conta essa história direito!”

O nosso amigo @Diacronico leu e gostou do livro “Socialismo – Me conta essa história direito”, que teve festa de lançamento neste último domingo, dia 06 de novembro. Vejam abaixo o comentário sobre o livro:

O Rodrigo (e eu) faz parte de uma geração educada sob o governo militar – e já com forte influência esquerdizante, na escola. Sim: a ditadura-que-não-pode-ser-abrandada não fez o sistema educacional pátrio vigiar o que os professores diziam em aula e tínhamos, eu e ele, professores esquerdistas, desde os primeiros anos do que então se chamava Ginásio.

É uma estratégia esperta, essa do Gramsci (e do Mao e de tanti altri), de usar os hormônios adolescentes para anabolizar as fáceis falácias socialistas: nossas cabecinhas espinhentas e revoltadas estão organicamente adubadas e prontas para o plantio de revoltas contra o pai, o professor, a polícia, o sistema…

Claro que funciona: o cérebro adolescente é um borracho no topo da ladeira, só aguardando o providencial empurrão.

Mas uma hora – graças! – essa fase (que um antigo pediatra sabiamente alcunhava “cretinice aguda”), enfim, passa. E vem uma paixão, outra, depois o amor e os filhos e a família. E compreendemos, na carne da nossa carne, onde estão o Bem, o Belo e o Justo.

O fato de o Rodrigo (e eu) ter saído do lodaçal esquerdista mostra que a esquerdização que sofreu não foi fatal, ao menos para uma boa parte de nós. E se eu (e o Rodrigo) sei disso, também os esquerdistas o sabem – logo, era preciso aprofundar a esquerdização, não só para ela marcar mais fundo o couro do seu gado, mas para deixá-los eternamente nessa fase de bezerro desmamado, pronto a esticar o punho cerrado para reclamar algum direito qualquer, ou para veicular alguma indignaçãozinha ranheta.

É o que tem acontecido: a geração dos professores de hoje já é fruto da esquerdização, de modo que a praticam sem ter mesmo a consciência dela. E nossos filhos estão sendo imbecilizados, com a venda desse “outro mundo possível”, onde eles podem caçar pokemóns pela eternidade afora: não terão que casar (usem saias, meninos!), não terão filhos (“meu corpo, minhas regras” – o que não vale para o feto, claro), não terão que se dobrar ao sistema opressor.

Claro que uns de nós têm a sorte de ter filhos que veem o truque, informam-se e não caem na esparrela.

É aí que entra o livro do Rodrigo: sem parecer um TCC, nem ter ostensivas pretensões didáticas, traz informações claras, diretas, precisas, sobre o mal que o comunismo e seus derivados causaram à humanidade, até aqui. Ajuda a quem está no primeiro round dessa luta com um avermelhado Mike Tyson a não levar mordida na orelha.

É uma espécie de manual do contra-guerrilheiro, para que os projetos de Marighella que estão sendo criados por aí encontrem, ao menos, alguma resistência sã.

A luta pela escola-sem-partido é necessária – e o livro do Rodrigo é um gancho de direita, à la Rigondeux, no pé-do-ouvido da mítica esquerdizante que, já passou da hora, tem que ir à lona.

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Leiam trechos do livro.

Onde comprar:

Cabo Anselmo – Minha verdade

Algumas vezes nos surpreendemos com o quanto ignoramos fatos básicos da História do Brasil. Foi meu caso com relação a este livro, Cabo Anselmo – Minha verdade. Já tinha ouvido falar do “Cabo Anselmo”, já tinha sem dúvida lido sobre ele, mas até se alguém me perguntasse o que ele fez, não saberia dizer exatamente. E é um personagem fundamental para compreendermos o golpe de 1964 e o Brasil dos anos 60 e 70. Mais que isso, num país democrático, em que não existe a pena de banimento, José Anselmo dos Santos é um não-cidadão, um apátrida, um homem sem direito a uma identidade civil. Embora pague impostos como todos nós, não tem direito aos serviços básicos do Estado, porque não tem nenhum documento.

Anselmo, que nunca teve a patente de cabo, era um jovem inteligente e carismático, de classe média baixa, que precisava ajudar a sustentar a família depois que seu pai faleceu. Entrou na Marinha. Com sua personalidade cativante, foi eleito presidente da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil. No dia 25 de março de 1964, quando a Associação comemorava dois anos de sua fundação, Anselmo leu um discurso escrito por Carlos Marighella, sem compreender o que estava em jogo no Brasil naquele momento. Nem sabia quem era Marighella. Pretendia protestar contra as duras condições a que os militares de baixa patente eram submetidos. Porém, esse discurso foi um dos estopins do golpe militar.

Os marinheiros se declararam em rebelião. Os oficiais mandaram fuzileiros para prendê-los, mas os fuzileiros se juntaram aos amotinados. João Goulart demitiu o ministro da Marinha e anunciou que os revoltosos não seriam punidos.

dedicatoriaAnselmo foi preso depois do golpe e conseguiu fugir com ajuda de grupos armados de esquerda. Passou pelo Uruguai e recebeu treinamento em Cuba. Voltou clandestino ao Brasil para participar da luta armada. Em meio a crises de consciência sobre o sentido de sua ação, foi preso e torturado. O delegado Fleury propôs que ele se tornasse um agente duplo. Com a ajuda de Anselmo, um policial se infiltrou no grupo de militantes.

Os militantes desconfiaram de Anselmo e o condenaram à morte (“justiçamento”, na língua deles) em um tribunal revolucionário. O agente infiltrado ficou encarregado de levá-lo até o local de execução. Em vez disso, levou-o para outra cidade. Aqueles que iriam executá-lo foram emboscados pelas autoridades e mortos. Entre eles, Soledad Barret Viedma, namorada de Anselmo, que pretendia ajudar a “justiçá-lo”.

O ex-marinheiro é um homem culto, que aprecia filosofia e literatura. Lê inglês, francês e italiano. Exerceu diversas profissões ao longo de sua vida, tendo trabalhado com assessoria empresarial e treinamento, porém sempre com documentos falsos. Depois da publicação do livro Eu, Cabo Anselmo, de Percival de Souza, foi procurado pela Rede Globo para uma entrevista. Prometeram que sua imagem seria preservada, que sua voz seria distorcida, mas isso não aconteceu e, em conseqüência, ele perdeu todos os seus clientes

Anselmo requereu que lhe seja devolvida sua identidade formal e que ele seja anistiado. A Comissão de Anistia lhe negou a condição de anistiado. Embora tenha havido uma determinação da Justiça para que ele volte a ter documentos, os órgãos responsáveis se recusam a emiti-los, utilizando-se de desculpas burocráticas. A principal dessas desculpas é que não se encontra assento do seu registro de nascimento no cartório em que foi registrado, nem de seu registro de batismo na paróquia em que foi batizado.

Cabo Anselmo – Minha Verdade conta essa história de maneira muito envolvente. O prefácio é de Olavo de Carvalho.

Se você já conhece bem toda essa história, parabéns. Caso contrário, pare o que estiver fazendo e vá comprar e ler Cabo Anselmo – Minha verdade!

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Quem é Cabo Anselmo?
Terça Livre, exibido em 22/09/2015, com Ítalo Lorenzon, Beatriz Kicis, Olavo de Carvalho e José Anselmo dos Santos.

capaLivro: Cabo Anselmo – Minha verdade
Autor: José Anselmo dos Santos
Editora Matrix
256 páginas
1ª Edição – 9 de junho de 2015

Onde comprar:

Amazon
Fnac
Livraria Cultura
Livraria da Folha
Livraria da Travessa
Livraria Saraiva

O livro “Lava Jato”, de Vladimir Netto

Ao final da busca, Marcelo Odebrecht foi comunicado da prisão. Seria levado para a carceragem da Polícia Federal em Curitiba. A prisão era preventiva. Não tinha data certa para terminar. A esposa fez uma pequena mala com objetos pessoais e algumas roupas e tentou entregar aos delegados. Eles olharam e acharam engraçado. Não iam carregar aquilo. Ele que o fizesse.

Todas as vezes em que escrevi neste site sobre algum livro, sempre com o intuito de indicá-lo como boa compra, comecei falando propriamente do tema, da abordagem, talvez do autor, publicava algumas citações e então concluía com os elogios finais e a indicação. Para este “Lava Jato”, de Vladimir Netto, faço diferente, recomendando logo no início. Comprem e leiam o quanto antes.

O primeiro motivo para indicar este livro pode ser ilustrado com a citação inicial desta resenha. Embora estejamos todos acompanhando e vibrando com cada nova revelação desta enorme operação de combate ao crime organizado que é a Lava Jato, deixamos passar muitas coisas sem dar a devida atenção. Informações assim de bastidores, que somente o contato com as pessoas diretamente envolvidas nos fatos poderiam nos trazer, permeam todo o livro. E para ter esses acessos, não há cartão de acesso melhor do que trabalhar na maior empresa de comunicação do país, a que mais investe em jornalismo e a que deve ser a mais procurada pelos investigadores  e investigados para tentarem influenciar a opinião pública, a Rede Globo. Um jornalista da Folha de São Paulo, por exemplo, jamais conseguiria fazer um bom livro sobre a Lava Jato pelo fato do jornal, por muitas vezes, ter ficado ao lado dos criminosos investigados pela Operação. Os investigadores não colaborariam com aqueles que ideologicamente são ligados aos criminosos e por isso torcem contra as descobertas.

A leitura deixa a certeza de que policiais federais, promotores, o juiz Sérgio Moro, Rodrigo Janot, presos ilustres, parentes de presos e advogados foram consultados para construir um relato que conseguisse, mesmo tratando temas que estão presentes no noticiário há meses, ser original e capaz de prender a atenção.

Diante das muitas possibilidades de tentar contar o que já aconteceu nesta Operação, Vladimir Netto acertou ao não fazer um relato temporal linear. Por muitas vezes o livro foge da cronologia das fases para aprofundar as consequências de uma delas, para dimensionar os desdobramentos ou para lembrar outras frentes relevantes ao processo político que giram próximas às investigações e que acabaram por influir nela.

Para evitar qualquer tom político ao relato, o autor mostra-se bastante compreensivo com algumas escolhas de Rodrigo Janot que já lhe garantiram a desconfiança de boa parte da população. É inegável que o envolvimento de Eduardo Cunha com a quadrilha da Petrobras era profundo e bem documentado, e o livro reforça isso ao trazer os elementos colhidos pelas investigações, mas é ainda mais evidente que Janot tem tido enorme parcimônia com Renan Calheiros e autoridades petistas. Até para evitar a continuidade dos esquemas, que não pararam mesmo após as primeiras prisões, era mais importante para a Procuradoria-Geral da República “escolher” ir para cima primeiro daqueles que mantinham o poder no governo petista. Este é talvez o ponto mais baixo do livro, a tentativa de colocar Rodrigo Janot no mesmo patamar de destemor e isonomia nas investigações que há na “República de Curitiba”, o que é injusto com Deltan Dallagnol, o delegado Igor Romário e tantos outros.

Mas a estrela do livro é realmente Sérgio Moro. São contados detalhes sobre sua personalidade, seus hábitos antes de se tornar essa grande referência nacional e seu estilo de trabalho. É impossível não admirá-lo, não alçá-lo ao posto de ídolo quando se percebe em sua figura a soma de honradez com inteligência, além de um pouco de sorte – ter de decidir sobre as punições dos acusados pelo MP ficou muito mais fácil graças ao ótimo trabalho da força-tarefa organizada por Deltan Dallagnol. Aliás, a chegada de Dallagnol à Operação, que quase foi inviabilizada devido a uma viagem dele para surfar na Indonésia (?!?!) é uma das curiosidades mais divertidas desta grande empreitada.

Quanto ao mais, o livro traz a oportunidade de, sem a urgência das notícias, enxergar o tamanho dos esquemas de desvios montados pelo PT. Na euforia das operações, dificilmente conseguimos enxergar todas as ligações que levaram às buscas e prisões do dia e, com uma nova operação, logo esquecemos da anterior. O livro tem seu clímax perto do final, quando mostra os passos dos investigadores até a tensa decisão de conduzir Lula para prestar depoimento e, pouco tempo depois, liberar ao público os grampos sobre o ex-presidente, quando houve a mais abjeta manobra para proteger um suspeito no Brasil.

Assim como a Lava Jato ainda não acabou, o trabalho de Vladimir Netto também prossegue. Nada impede que surja uma continuação deste livro com bastidores de tudo o que já aconteceu de maio de 2016 para cá e o que vai acontecer daqui para a frente nas investigações. Até lá, este livro é o melhor registro possível dos fatos.

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Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

Do Comunismo, de Vladimir Tismaneanu

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Há um erro muito comum, tanto no Brasil quanto no resto do mundo, na análise sobre o comunismo e outras ideologias: tratar o discurso do ideólogo como se fosse a própria ação real e a definição científica de um determinado movimento político, e a partir disso inferir a impossibilidade da ação real desse movimento contradizer qualquer elemento de seu discurso ideológico, por menor que seja. Um exemplo: definir o socialismo apenas como “estatização dos meios de produção”. Isso, claramente, não explica nem o processo de estatização, nem mesmo os meios necessários para atingir tal meta. Marx, por exemplo, no Manifesto do Partido Comunista, escreve sobre maneiras progressivas de chegar ao objetivo de “estatizar os meios de produção”, portanto, até ele separou a ação real do objetivo (não definido no tempo nem em seu funcionamento, como ele seria) que justificaria a ação.

Do Comunismo, de Vladimir Tismaneanu, não passa nem perto de cometer esse erro. Vladimir, romeno, filho de ativistas comunistas, que depois se desencantaram com a ideologia, narra o funcionamento do governo romeno, suas ligações com a URSS, as divergências e concordâncias com o que Moscou mandava, a relação entre nacionalismo e internacionalismo e algumas ações de destaque dos governos comunistas do leste europeu.

Os nomes de alguns capítulos mostram o tipo de abordagem do livro:

  • O que foi e o que ainda é o comunimo
  • O stalinismo no Leste Europeu
  • O que foi o stalinismo nacional?
  • O labirinto da Guerra Civil da Espanha
  • Suicídios na alta nomenklatura comunista

Este último capítulo citado, inclusive, busca analisar a vida e as ações dos que possuíam poder quase total sobre uma sociedade e os efeitos que tamanho poder causava nas mentes dessas pessoas no comando.

Pessoas e ações: o livro fala disso, não de abstrações.

Algumas vezes a leitura fica lenta por causa da quantidade de nomes, principalmente nomes russos, romenos e de outras nacionalidades do leste europeu; mas isso faz parte da análise concreta dos acontecimentos: pessoas agem, pessoas se relacionam umas com as outras, pessoas planejam e executam; não são ideologias que agem imaterialmente na história, mas indivíduos e grupos reais.

Quando Vladimir Tismaneanu escreve sobre a Guerra Civil Espanhola, percebe-se a preocupação com a análise concreta e o combate aos mitos criados em torno do conflito. O autor cita os contatos dos comunistas espanhóis e europeus (ocidentais) com partidos comunistas do leste europeu e com Moscou. Menciona até mesmo a participação de seus pais, além dos militantes comunistas que foram à Espanha com o objetivo claro de implantar o comunismo no país, não a “democracia”, que era a desculpa. Tismaneanu, portanto, vai além das ideologias na guerra e descreve os agentes e suas conexões com outros movimentos revolucionários na Europa (inclusive com Moscou).

Do Comunismo é diferente do que é feito na “intelectualidade” universitária brasileira. Aqui os professores “imparciais” ensinam que ideologias agem na história, como se fossem tentadas e defendidas por classes, ou melhor, “corpos sem faces” – não há responsabilização das pessoas, é similar ao que fazem quando tratam de criminosos e a “sociedade opressora”. Essas ideologias se materializariam na história independente da ação humana. Já Vladimir busca a realidade dos governos, movimentos e agentes comunistas (desde militantes aos comandantes) no ocidente e no oriente europeu.

Tudo isso não é bonito como falar “o proletário tomou o poder porque era oprimido”, mas qual a beleza do comunismo, que “é a realidade humana em sua faceta mais abjeta”?

Para comprar:

Amazon – Livro

Livraria Cultura – Livro

Saraiva – Livro

Livraria do Seminário – Livro

Vide Editorial – Livro

 *Detalhe importante: a tradução foi feita do romeno para o português. Tradutor: Elpídio Mário Dantas Fonseca.

Revisado Por Maíra Pires @mairamadorno

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