Penso Estranho

@pensoestranho

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O “ethos” reaça e o fim da farsa do isentismo.

A isenção é mercadoria valiosa no mercado profissional. Médicos, advogados, jornalistas, administradores e até mesmo químicos, engenheiros e matemáticos são vistos com bons olhos se não deixam suas visões pessoais influenciarem nas atividades que exercem.

Essa valorização, nos últimos tempos, espalhou-se para as convicções pessoais e políticas. Hoje ser uma pessoa “isenta” ideologicamente e nas relações familiares e interpessoais parece ser o objetivo buscado por muitos. É compreensível. O isento ideológico ou  afetivo mantém-se em uma zona de conforto onde os conflitos e embates ficam à distância segura, sob responsabilidade de outros, os emotivos, os radicais, os impetuosos.

Sem tomar posições com ao menos uma ressalva que garanta ao outro lado seu quinhão de virtude ou razão, o isento não confronta, não é confrontado, fica (sob o ponto de vista dele) bem quisto por todos, sem deixar de dar sua opinião. São estes os valores aceitos como corretos por boa parte dos bem-pensantes atuais, principalmente se este “bom-pensamento” for de viés progressista.

O progressismo de esquerda conseguiu, ao menos nos meios de comunicação, na política e na burocracia estatal, firmar-se como centro médio dos valores que regem esses setores, deixando de fora deste “senso comum”, à esquerda, apenas alguns poucos radicais sectários que abandonaram o “centro adernado à esquerda” por conta própria (mas que atuam como linha auxiliar sempre que as circunstâncias apresentam alguma ameaça ao “status quo”) e, à direita, todos os que não lhe prestarem as devidas homenagens e reconhecimentos.

Nos últimos 12 anos, os formadores e frequentadores desse campo de isenção viveram em zona de conforto sem precedentes: suas pautas eram as únicas em discussão no país; o autoritarismo e o clientelismo nelas embutidos eram meros efeitos colaterais, inevitáveis em um país “atrasado, injusto e com uma dívida social de 500 anos para com seu povo”; as roubalheiras, falcatruas e desmontes realizados em nome deste “resgate da justiça social”, contingências impostas a seus autores, vítimas de seu altruísmo ante a perversidade das elites e do sistema político falido; os poucos adversários, membros ressentidos da elite que espoliou o país desde 1500, deslegitimados inclusive de seu papel de opositores (no que esses opositores aquiesceram com uma servidão das mais repulsivas). Uma zona de conforto construída metodicamente, mas sempre com muita isenção.

Eis que, em algum momento, a redoma retórica que protege esse isentismo de críticas e contraditas começa a apresentar fissuras. Falas e textos conservadores começam a aparecer na imprensa sem pagar pedágio ideológico ao progressismo; discursos outrora incensados como o ápice da inteligência são questionados e ironizados; pautas executadas sem óbices começam a ser confrontadas com suas incongruências e efeitos, propostas alternativas à direita surgem no debate político. O desvio do prumo ideológico começa a aparecer.

Aos que pouco vivenciaram situação diversa, estes questionamentos ao senso comum progressista, indevidamente levado ao centro do espectro ideológico, causa profundo desconforto. A reação vem em forma de desqualificação. Quem não reza pela cartilha progressista é atrasado, ignorante, autoritário, elitista, excludente, em suma: reaça.

Heureca! Encontrou-se uma expressão, um termo, capaz de resumir e rotular os inimigos do povo. Talvez com isso eles aquietem e deixem os progressistas continuarem a sua obra de justiça social reparadora de séculos de iniquidades.

Mas aí os “reaças” assumem a expressão, tomam as rédeas da construção do seu significado, agrupam pessoas sob o termo e resolvem construir suas próprias pautas. Sem pagar pedágio ideológico a progressismos ou esquerdismos para ficar bem com a turma da opinião sensata.

Não contentes, os reaças começam a fazer paródias sarcásticas do discurso progressista. Perfis notórios das redes sociais por seu progressismo inflamado são analisados e suas fragilidades teóricas, retóricas e morais são expostas por análises absolutamente não isentas. O filtro conservador começa a tomar forma e ser utilizado por cada vez mais pessoas. É um ruído que, paulatinamente, mostra onde de fato está o centro da prumada ideológica e qual a verdadeira posição que cabe ao progressismo nesse espectro.

O incômodo, cada vez maior e menos silente, ainda é residual. Os reaças são vistos como outsiders  quase que benéficos ao “status quo”, pois ao existirem sem ameaçar, acabam comprovando a tolerância e capacidade de convívio com a diversidade do “establishment”, além de ser mais um indício do vigor de nossa democracia.

Alguns textos geram muxoxos aqui, uns questionamentos geram grita e “blocks” acolá, o humor sarcástico é visto como “coisa de mau gosto”, mas nada que demande maiores reações.

Até que ocorrem as eleições, Dilma vence e, para surpresa de muitos, surge uma militância popular, espontânea, de reaças indignados com a vitória de uma campanha suja, imoral, que se valeu de mentiras disseminadas no horário político, nas redes sociais, em panfletos, cartazes, por telefone, mensagens de texto e carros de som para difamar adversários, pregar o medo da mudança e chantagear os eleitores mais vulneráveis, tudo com o objetivo de garantir mais quatro anos de poder aos protagonistas dos maiores desmandos e escândalos de corrupção desde a redemocratização.

Aí os reaças já estavam abusando. Quem essa turma pensa que é para questionar a presidente reeleita, seu partido e seus áulicos, uma vez que as urnas lhes deram a vitória? Para os progressistas, urna é tribunal, confessionário e lavanderia de reputações (menos quando seus adversários vencem).

Se a reaçada vai protestar, pedir apuração dos escândalos, pedir o impeachment da presidente se comprovado seu conhecimento sobre os bilionários escândalos de corrupção na Petrobrás, o que resta aos isentistas senão desqualificar, de todas as formas possíveis (de preferência, as piores) esses agitadores?

Ocorre que os progressistas, em especial os mais novos, são lenientes, mal-preparados, presunçosos, folgados. Não participaram do processo de construção da pauta hegemônica, nem do partido que a executa, mas são beneficiários diretos do processo. Resultado: consideram a conjuntura o estado natural das coisas. Não se atentam para a imoralidade inerente a boa parte do que defendem, e a replicam. Não levam a sério a legitimidade da oposição e a liberdade de expressão. Daí consideram, por raciocínio reverso, que qualquer estratégia é legítima para combater o outro, ilegítimo por natureza e destino histórico.

Quando são pegos com a boca na botija, aproveitando-se de suas funções profissionais, para, coordenadamente, executar uma missão político-partidária, fazem o papel da vítima com maestria; os colegas de profissão, por corporativismo e por afinidade ideológica, fazem coro às reclamações de perseguição, apontando um “macartismo à brasileira” de difícil compreensão (posto que o macartismo, por essência, é a defesa, por métodos questionáveis, do “status quo” por gente do “status quo”); os profissionais do ramo, os servos voluntários e os acólitos de diversos matizes fazem sua parte e reverberam a grita, acusando os reaças de perseguidores que ameaçam a liberdade de imprensa, brandindo denúncias a entidades de classe, pedidos de processo e todo o tipo de ação que consiga, de algum modo, calar aqueles que apontam a atuação deliberada e coordenada desses falsos isentos, que agora fingem-se de vítimas para acobertar sua pusilanimidade.

Tempos estranhos estes em que a exposição de posicionamentos ideológicos de simpatizantes do governo (simpatia esta só conhecida porque eles fizeram questão de expô-la nas redes sociais) gera tamanha comoção, como se a vinculação de pessoas ao petismo fosse uma ofensa grave. Talvez seja.

Talvez o isentismo progressista, cada vez mais estridente em textos e matérias jornalísticas, em posts de redes sociais, em conversas de bar, não esteja mais resistindo como dantes à introspecção, ao silêncio que dá espaço à consciência, àqueles valores mais profundos que foram renegados em nome de um projeto mas que, de alguma forma, teimam em lhe dizer quando algo está profundamente errado, mas você faz ouvidos moucos.

Talvez essa reação toda seja um pedido de socorro, uma súplica para que todas essas incongruências entre discurso e prática sumam e a mentira em que todos se enredaram, e que ainda beneficia a muitos, permaneça sem resistências.  Se for isso, não contem conosco.

Agora, se o maior incômodo for o conflito de consciência, e a reclamação seja porque vocês não sabem como sair dessa enrascada sem parecerem os imorais que estão sendo, fiquem tranquilos. Vai acabar. Já está acabando. Aí vocês terão muito tempo para entender as consequências desse bom-mocismo isento e repensar o que fizeram de suas vidas.

Os Seis Estágios da Decadência Social

Cyril Northcôte Parkinson é um historiador inglês conhecido pela “Lei de Parkinson”, segundo a qual “O trabalho aumenta de modo a preencher o tempo disponível para sua conclusão.”

Em seu livro “The Law of Longer Life” ele descreve os “Seis Estágios da Decadência Social”, conforme segue abaixo:

1. A supercentralização política, como na Babilônia, em Persépolis, em Roma, em Pequim, em Deli, em Paris e em Londres;

2. O crescimento imoderado a tributação, que se transforma no modo de interferência governamental na vida comercial, industrial e social. A tributação, levada ao limite e para além dele, sempre foi um sinal de decadência e um prelúdio do desastre;

3. O crescimento de um pesado sistema de administração central. Desenvolve-se uma grande e disforme máquina política. Os que são, teoricamente, homens poderosos, tem uma autoridade real surpreendentemente pequena, encontrando-se presos a uma máquina que se move vagarosamente, em direções involuntárias;

4. A promoção das pessoas erradas. No labirinto da burocracia política, ter ideias originais seria uma barreira ao sucesso. Essa situação é, provavelmente, inevitável e eterna, mas a mesma tendência em uma sociedade decadente desgasta as demais pessoas. Toda a sociedade, bem como toda a organização, se torna letárgica e incômoda, guiada pela rotina e subjugada;

5. O ímpeto de esbanjar. Depois de anos e décadas de gastos públicos excessivos, privado dos meios de melhoras a receita (tendo os impostos alcançado o nível máximo), o governo faz uma enorme dívida e a descarrega sobre os ombros de alguma geração futura;

6. A “opinião liberal” – isto é, um sentimentalismo fraco, que enfraquece a razão e a vontade de uma grande parte do povo de uma nação. Aquilo que diz respeito ao nosso argumento não é que os benfeitores do mundo estejam equivocados, mas que a postura deles é decadente. São movidos pelo sentimento, e não pela razão, e isso é, em si mesmo, um sintoma de decadência. Ainda mais relevante para a questão é o interesse deles estar somente no presente, e o futuro ser simplesmente o fim.

C. Northcote Parkinson é um dos muitos autores citados por Russel Kirk em seu livro “A Política da Prudência” (É Realizações Editora, 2014). Kirk e seu estilo enciclopédico de escrita, cheio de listas, citações e compêndios, provoca um efeito contraditório. Ao mesmo tempo que você quer seguir no livro até terminá-lo, a forma como determinados autores são citados ou inseridos no texto te impele a procurar sobre eles e, eventualmente, iniciar uma leitura paralela.

Esse livro de Russel Kirk já foi “abandonado” três vezes, por causa de Wilhelm Röpke e Malcom Muggeridge e, agora, para uma rápida leitura de “A Lei de Parkinson”.

Ao compartilhar esse pequeno trecho, assustadoramente condizente com nosso “espírito do tempo”, encontro um bom pretexto para também compartilhar o prazer destas leituras tão reveladoras.

O fim do governo PT não será bonito de se ver.

Nunca houve um segundo turno tão longo quanto esse.

O 05 de outubro que definiu a disputa entre Aécio e Dilma parece distante demais, calmo demais, civilizado demais. A polarização, que na grande maioria dos países democráticos é decorrência natural da consolidação do sistema de eleições livres, concretizou-se, para desespero de muitos analistas e especialistas. Os nossos isentos de plantão (que não se valem da isenção para o exercício de certas funções, mas enquanto escolha moral de vida, o que é sintoma de covardia), preferem, de forma mais ou menos explícita, o modelo em que um grupo representa e detém o discurso sobre determinados valores e consegue transforma-los na mediana dos bem-pensantes, restando aos demais a ingrata tarefa de desconstruir, preferencialmente de forma não organizada, o falso senso comum instalado.

A surpresa, entretanto, faz-se presente: o PT, na qualidade de catalisador e potencializador desta artificial mediana de valores, perdeu a eficácia discursiva de outrora, subjugado pela realidade de suas ações. Da mesma forma em que moldou-se como representante de determinadas ideias, ocupando de forma consistente e exitosa várias dimensões do poder público e da vida social, usou das estratégias mais obscuras para garantir as chamadas “condições objetivas” (vale dizer, recursos e infra estrutura) à disseminação de seu discurso.

Esse “modus operandi” de fazer política só dá certo em duas circunstâncias: para atingir objetivos de curto prazo ou se vier acompanhado da supressão das liberdades democráticas. Como o PT tem um projeto hegemônico de longo prazo e não conseguiu suprimir a liberdade de imprensa, nem subjugar as instituições, a contradição cedo ou tarde acabaria aparecendo e, por consequência, chegaria ao conhecimento geral.

Ao ser apanhada em ampla, geral e irrestrita contradição entre pregação e prática, a reação esperada de uma agremiação política seria a expiação, a correção de rumos, a reconstrução do discurso e das práticas. Mas não o PT. O partido não viu problemas nas ações delituosas de sua cúpula, que culminou no maior julgamento criminal da história do STF, mas sim na rejeição que muitos setores da sociedade, inclusive alguns simpáticos ao partido, apresentaram à discrepância entre pregação e prática.

Por algum tempo, o partido ainda manteve o verniz do discurso, amparado em alguns bons resultados da economia, no bolsa-família e nas vitórias eleitorais. Bastou, contudo, a mera perspectiva de derrota, para não deixarem dúvida quanto à predominância da estratégia clientelista e autoritária em detrimento das táticas lastreadas no discurso progressista. Primeiro foi Marina, uma ex-petista em tudo identificada com a fachada de valores petista, difamada sob o signo da “desconstrução”; agora, há uma semana da votação decisiva, o leque de adversários foi ampliado sobremaneira. Não é apenas Aécio que é difamado, injuriado e caluniado em comícios, projeções, posts das redes sociais: são todos os que o PT considera representantes ou desdobramentos da “visão atrasada” simbolizada pela candidatura tucana. São os reaças, os coxinhas, os playboys, os banqueiros, as elites, os rentistas, e quem mais ousar dizer que vota para tirar o PT do poder.

A estratégia de “terra arrasada” utilizada pelo partido, queimando todas as pontes com setores da sociedade não-vinculados ao petismo e seus satélites, parece contraproducente, mas tem sua lógica.

Desde sua origem, o PT nunca aceitou sem luta as regras do estado de direito e da cultura democrática: expulsou seus deputados que votaram em Tancredo, recusou-se a assinar a Constituição de 1988, a participar do governo de aliança proposto por Itamar Franco após o impeachment  de Collor (expulsando Erundina, que participou da empreitada), combateu e sabotou o quanto pôde o Plano Real. Composição, para o PT, só se o partido for protagonista, e via “contrato de adesão”.

Quando chegou ao poder, o PT deixou claro qual era a moeda de troca: cargos, poder, influência, contratos. Alianças programáticas nunca interessaram. Os valores progressistas, que moldaram a militância nos primórdios do partido, foram utilizados como tática para mascarar a verdadeira estratégia, que é a ocupação das estruturas do estado, o enfraquecimento das instituições e poderes autônomos, a cooptação de setores da sociedade dispostos ou a fortalecer a estrutura real do partido, ou a manter o discurso tático que encobre essa estrutura.

Na atual perspectiva de derrota, não há dignidade a manter, pontes a serem construídas, dignidade ou lisura a se preservar. O negócio é demonizar o adversário e seus simpatizantes onde der, do jeito que der, quando puder. Sem limites, sem decoro, sem disfarces. Não há interesse em dar satisfações à sociedade, apenas em radicalizar (ridicularizando, se necessário, qualquer pessoa ou grupo considerados adversários), num processo de “depuração” dos quadros internos através da diferenciação extremada.

Não há nessa dinâmica qualquer compromisso com as instituições hoje governadas pelo PT; qualquer apreço pela melhoria da cultura política nacional; nenhum apego por eventual legado de governo, ou por políticas públicas implementadas durante os governos petistas. O que há é aversão pela alternância de poder, desprezo por aqueles que não simpatizam com as bandeiras táticas do partido (seu lado progressista) ou aderem às suas diretrizes estratégicas (aparelhamento do estado, hegemonia partidária, cooptação e subjugação dos divergentes). Além, claro, do medo do que um governo de oposição pode apurar sobre os últimos doze anos.

Felizmente, a discrepância entre as dimensões tática e estratégica do partido, conjugada com os fracassos das empreitadas de controlar a imprensa, o MP e o Judiciário, diminuiu consideravelmente o prazo de validade do modelo petista. Hoje, o PT representa o velho, o arcaico, o atraso. Daí a dianteira de Aécio nas pesquisas, as baixarias na campanha oficial do PT e nas redes sociais, o discurso de ódio de Lula em comícios cada vez mais esvaziados. É um circulo vicioso para o PT, virtuoso para o país: a saturação da sociedade em relação à retórica petista faz com que os petistas aumentem a intensidade dos ataques, ampliando a percepção geral de que a época do PT no governo acabou.

Esse é um processo que só termina com a saída do PT do poder, independente do resultado das eleições. Se Dilma ganhar, as represálias e perseguições aos adversários e dissidentes instituirão tamanha entropia no governo que a reação institucional, via legislativo ou via judiciário, virá cedo ou tarde. Uma vitória de Dilma domingo prolongará um processo que em nada nos beneficia enquanto sociedade.

Por outro lado, a vitória de Aécio domingo, se confirmada, será a reação via sociedade. Um final adequado a um governo medíocre, corrupto e beligerante, escrito por uma maioria que, após tanto tempo silenciosa, começa a superar a amarra retórica petista que, por tanto tempo, prevaleceu sobre os valores de um país que ainda não sabe expressa-los.

São Paulo elege policiais: onde vamos parar?

O Estado de São Paulo exagerou dessa vez!

Além de reeleger Alckmin direto no 1º turno, com 57% dos votos válidos, alavancou a ascensão de Aécio Neves ao 2º turno, dando-lhe 44% dos votos válidos para presidente no estado. Essa performance garantiu aos paulistas um dia de fúria nas redes sociais.

Esses, contudo, são apenas os dados mais evidentes da dinâmica eleitoral paulista. Há muito mais para deixar ensandecidos os esquerdistas e progressistas de plantão, que repudiam – com razão! – qualquer vinculação pejorativa entre a cultura dos nordestinos e sua predileção por Dilma e o PT, mas não pensam duas vezes antes de despejar os mais baixos adjetivos sobre os paulistas, simplesmente porque estes não votam de acordo com a cartilha do progressismo influente.

Vejamos a performance dos candidatos a deputado federal e estadual no estado, vinculados ao tema da segurança pública.

Na Assembléia Legislativa, o deputado mais votado (306 mil votos), Fernando Capez, tornou-se conhecido por combater a violência das torcidas organizadas. O segundo mais votado (254 mil votos) é o Coronel Telhada, ex-comandante da ROTA e defensor resoluto do enfrentamento direto à criminalidade sem concessões. O quinto mais votado (195 mil votos) é um Delegado da Polícia Civil, Antonio Olim, notório por sua atuação na Divisão Anti Sequestros e no DHPP.

Além destes, foram eleitos o ex-comandante da PM paulista, Coronel Camilo (atualmente vereador por São Paulo) e o Coronel Edson Ferrarini, conhecido por sua luta contra a dependência de drogas.

No âmbito federal, a turma da segurança também se fez presente. O Major Olímpio Gomes, combativo deputado estadual na luta por melhores condições de trabalho para os policiais, consegue seu primeiro mandato para o Congresso Nacional, com quase 180 mil votos.   O Delegado Gilberto Nascimento, do PSC, também garantiu sua vaga no congresso, com 120 mil votos. Também do PSC, o policial federal Eduardo Bolsonaro pegou carona no sobrenome famoso do pai e, com 82 mil votos, elegeu-se deputado federal. Fechando a lista do congresso, temos o Capitão Augusto, defensor da criação do Partido Militar, que, graças ao quociente eleitoral, elegeu-se pelo PR com 46 mil votos.

Além dos eleitos, Conte Lopes, ex-comandante da ROTA (73 mil votos), Delegada Graciela (59 mil votos), Protógenes Queiroz (28 mil votos), Sargento Barreto (17 mil votos), Coronel Azor (15 mil votos) e Ferreira Pinto (12 mil votos) completam os candidatos da segurança que tiveram mais de 10 mil votos para deputado federal. No âmbito estadual, são tantos os candidatos policiais que não me arrisco a fazer uma lista de não-eleitos.

No geral, com exceção da performance eleitoral de Ferreira Pinto, muito aquém de sua trajetória na área, com excelentes serviços prestados seja na Secretaria de Administração Penitenciária, seja na de Segurança Pública, os demais candidatos citados tiveram considerável votação, principalmente se levarmos em conta sua vinculação específica com a temática da segurança pública (a grande maioria deles é policial, uma carreira não muito bem vista pela imprensa e por formadores de opinião). Em uma conta grosseira, podemos dizer que os paulistas reservaram mais de 1 milhão de votos para a área, no âmbito estadual, e mais de 500 mil, no âmbito federal.

Os apressados dirão: isso é reflexo da crise de segurança que atinge o estado.

Assim fosse, os eleitos seriam os críticos da política de segurança adotada pelo estado há quase 20 anos (não conto aqui o primeiro mandato de Mário Covas, pois a gestão de José Afonso da Silva guarda pouca ou nenhuma relação com as subsequentes), acadêmicos e especialistas do tema, militantes dos Direitos Humanos defensores da desmilitarização, e não PMs da reserva, delegados de polícia, promotores, todos, ainda que com acentuadas diferenças de trajetória profissional, gestores e/ou executores das diretrizes estabelecidas pelos governos tucanos e seus chefes de polícia ao longo dos anos. Entre os eleitos, o Major Olímpio talvez seja o crítico mais agudo das escolhas do PSDB na área da segurança (com alguma atenuação durante a gestão Ferreira Pinto à frente da SSP), mas no espectro ideológico, podemos localizar suas críticas à direita dos tucanos. Os demais, se não explicitamente governistas, estão muito mais próximos do modelo tucano-paulista que das alternativas à esquerda apresentadas para a segurança pública no estado.

Mais adequado é dizer que esses votos representam um aval genérico aos rumos da segurança no estado, uma tentativa de preservar os acertos nesta área contra a ação dos críticos, principalmente aqueles que defendem a desmilitarização da PM como solução de todos os problemas. É um recado silencioso, mas eloquente, de que boa parte da população prefere melhorar o que está aí a promover uma ampla reforma no modelo de segurança.

Como já é de conhecimento geral, São Paulo é o estado que mais investe em segurança pública (R$ 16 bilhões ao ano para as polícias, além do sistema penitenciário e da Fundação CASA), está entre os menores índices estaduais de homicídio do país além de ter conseguido a façanha de transformar São Paulo na capital com o menor índice de mortes violentas do país.

São Paulo é talvez o único estado que pode dizer que universalizou a presença policial em todo seu território. Se isso não é suficiente para conter a escalada dos roubos, certamente garante o controle de muitos outros fenômenos criminais de variados potenciais lesivos, desde os homicídios e estupros até os distúrbios civis e acidentes de trânsito. As polícias paulistas, se não são altamente eficientes, são efetivas na prestação básica de serviços à sociedade, mesmo com todas as dificuldades legais, orçamentárias, logísticas e ideológicas existentes. As mais de 100 mil ligações diárias para o 190 são uma boa pista do quanto a população conta com as polícias.

O eleitor paulista, como as discussões nas redes sociais não deixam mentir, é altamente conservador. Teima em querer sair de casa e voltar incólume, sem ser morto, violentado ou agredido; tem a irritante mania de querer comprar o melhor que seus recursos permitem e utilizar seu patrimônio da forma que melhor lhe convém; sem a interferência de terceiros que não a lei; tem o estranho gosto por circular em ambientes tranquilos, ordenados e previsíveis, sem tumultos inesperados, arrastões, pancadões, rolezinhos ou qualquer outra forma de ocupação violenta do espaço público.

Mais estranho que tudo isso: para garantir todas estas aspirações reacionárias, o paulista conta com suas polícias e expressa seu reconhecimento aos que se destacam de várias formas, inclusive nas urnas. Há quem ache isso mero uso do aparelho excretor na urna.

Nova Política – formadora de líderes do nada

O último dia 16 de setembro resumiu bem as causas do desalento do brasileiro para com a política. Enquanto a cidade de São Paulo é novamente sitiada por grupos de pressão, travestidos de movimentos sociais, adeptos da ação direta e claramente dispostos ao confronto com as forças de segurança, o sistema de justiça e o estado em geral, os candidatos à presidência da república protagonizam um espetáculo de mediocridade, deixando claro que estão, todos, aquém do desafio que se lhes impõe.

Esclarecendo logo: não estou igualando os três candidatos relevantes à presidência. Entre Dilma, Marina e Aécio, este último é o que tem mais condições de, ao menos, estancar a tendência de deterioração institucional que resolvemos impingir ao país.

Ocorre que mesmo a Aécio faltam requisitos para encarar como se deve os problemas do país: além da recessão econômica vigente, da lenta e contínua desindustrialização do país, que nos torna importadores de cerâmica, bonecos de pelúcia, cadeados e outros produtos básicos, do desmonte de cadeias produtivas com potencial de impulsionar novas áreas econômicas (a indústria de etanol é o exemplo mais escandaloso), da ausência de perspectivas de crescimento e inovação, estamos flertando cada vez mais perigosamente com a dissolução da fronteira entre o uso legítimo da força pelo Estado, uso este lastreado na lei e no sistema de justiça, e a ação direta de grupos organizados, grupos estes defensores, protagonistas ou beneficiários de ações natureza criminosa em variados graus.

O crime organizado clássico (desconsiderando o âmbito da política) já descobriu o caminho para se imiscuir na economia formal e nas instituições, e vem trilhando-o com rapidez e método; os grupos de pressão autointitulados “movimentos sociais” já não veem necessidade sequer de adotar uma retórica de respeito à lei e às instituições. Seu discurso é explícito em favor do uso da força contra propriedades privadas, políticas públicas, indivíduos contrários às suas teses e qualquer critério ou valor que não se encaixem nos conceitos vistos como “adequados” por esta nova “vanguarda da sociedade”.

Diante deste cenário, qual a reação dos candidatos à presidência? Discutem temas de interesse exclusivo de grupinhos influentes (aborto, maconha, casamento gay, pré-sal), dão legitimidade aos métodos dos autodenominados “manifestantes” e, diante de canalhas e carbonários em geral, dispensam-lhes tratamento lhano e respeitoso. Quem dispensa tais mesuras à canalha não a torna mais civilizada, mas se torna um pouco mais canalha, por adesão.

Não é isso que a grande maioria da população espera. Ninguém quer viver em eterno estado de mobilização e confronto. Quando tentáculos petistas como o MTST ou o MPL resolvem sitiar o centro de São Paulo em nome de causas sociais, não há adesão ou comoção popular, ao contrário: as pessoas afastam-se o mais rápido possível do raio de ação do confronto e buscam, desesperadamente, retomar a normalidade ameaçada. Não é alheamento ou desprezo pelo contexto: é a manifestação possível do indivíduo não-organizado em grupos de pressão. Espontaneamente, a sociedade passa seu recado silencioso, mas eloquente. Quer tocar sua vida em paz, que as coisas funcionem de forma  minimamente previsível e que os conflitos sejam resolvidos pelas instituições sustentadas pelos impostos que paga.

Quando estas pessoas assistem o horário eleitoral e procuram alguém que represente estes anseios mínimos, nada encontram. Não há propostas que verbalizem as demandas do cidadão não-progressista, não-militante, não-mobilizado. Não há sequer uma nesga de indignação autêntica contra esse tipo de coisas. Parecem todos amigos em um teatro amador, que durante a peça deixam-se escapar dos personagens e escancaram a encenação entre amigos.

Aí prometem a nova política, como solução para todos estes males. Não é de nova política que precisamos. É de política, apenas. O que temos hoje é só farsa.

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