Penso Estranho

@pensoestranho

Ridendo Castigat Mores, Ridendo Dicere Severum

Na semana monopolizada pela “Lista de Janot”, que mantém o país em transe mas, ao mesmo tempo, causa fortes convulsões, uma iniciativa deu o que falar entre os perfis que discutem política nas redes sociais: a Humans of PT. Um perfil  de Facebook e Twitter que expõe as melhores pérolas do pensamento esquerdista e suas contradições, teve quase 40 mil curtidas em uma semana de existência e causou mais uma onda de indignação dos progressistas da internet: blocks, cadeados, perfis deletados, e muito mimimi por causa da exposição de suas opiniões sem filtros, edições ou contexto.

Aí o incauto pode perguntar: por que as pessoas ficam indignadas com a exposição de suas opiniões, se elas não foram editadas e estão aí, públicas, disponíveis para quem quiser ler? As respostas são as mais variadas: a página tira as frases do contexto, é uma página de perseguição política, é macarthismo, estão tentando deslegitimar a esquerda.

O verdadeiro problema é o seguinte: quase nenhuma opinião destes esquerdistas resiste fora do contexto em que foi emitida, porque elas tem pouco ou nenhum valor intrínseco, nem buscam ter esse objetivo. O petismo no poder não tem qualquer interesse em defender esta ou aquela bandeira, e sim quer que suas ações sejam aceitas e referendadas pela turminha bem-pensante, tudo em nome da governabilidade. Então, se precisar o petista defende a expansão do crédito e, logo depois, as medidas recessivas; defende as benesses do consumo ao mesmo tempo em que louva o estado interventor; defende a liberdade de expressão ao mesmo tempo em que cobra a votação da “ley de medios”.

Podem dizer, em defesa desta maleabilidade: “é bom mudar de opinião”. O petista não muda de opinião, pois isso significa analisar criticamente o contexto, identificar mudanças objetivas e calibrar sua opinião anterior ao cenário atual, mantendo os valores que lhe dão base. O único cenário analisado pelo petista é a manutenção do partido no poder. Todo o resto é subsidiário, matéria-prima a ser utilizada na obtenção desse objetivo principal. Esse é o contexto do petista: o PT no poder, custe o que custar.

Quando suas opiniões são tiradas deste contexto, o ridículo, o contraditório, o grotesco aparecem. E isso incomoda MUITO. É compreensível a grita dos homenageados pelo “Humans of PT”. Estão acostumados a viver o presente eterno do PT no poder, em grupos onde esta forma de pensar é bem aceita, estimulada e aplaudida. Esperam que todos pensem assim. Quando vêem sua fragilidade intelectual e moral exposta por pessoas que não caem na patrulha e pouco se importam em serem chamadas de “coxinha”, “reaça” ou conservadores, os esquerdistas entram em parafuso.

Como um partido, que se diz “de lutas e conquistas”, e seus militantes/simpatizantes chegaram a este ponto de extrema sensibilidade e auto-engano? Foram os doze anos de poder praticamente sem oposição que os tornaram tão soberbos e, ao mesmo tempo, tão suscetíveis? Pode ser parte da resposta, mas a origem disso é anterior.

O Histórico do PT é conhecido de todos: por várias vezes, o partido deixou de lado os interesses e necessidades do país em prol do seu projeto de poder. Não quis ser parceiro na reconstrução do Estado na Constituinte, na queda do Collor, no Plano Real, na Lei de Responsabilidade Fiscal, dentre outros momentos cruciais em que o Brasil necessitava de unidade e o PT não correspondeu. Os petistas preferiram construir, isoladamente, a história do PT, até que o partido pudesse ter o poder e mandasse, sozinho, no Brasil.

Ao chegar ao poder, o PT exacerba esta dinâmica, principalmente após o mensalão, e o petismo/esquerdismo torna-se contrato de adesão. Ou você aceita incondicionalmente o PT e suas ações para manter-se no poder, ou é um reacionário elitista contra os pobres. A primeira vítima deste pedágio ideológico é o pensamento crítico. Por isso, a matéria prima para páginas como “Humans of PT” é tão abundante.

Essa era petista vai acabar e, quando isso acontecer, será necessário explorar e expor os bastidores, porões e sujeiras desta turma no poder. Economistas, administradores, auditores, historiadores e pesquisadores em geral deverão se debruçar sobre o legado de Lula e Dilma e expor verdadeira natureza de suas administrações.

Até lá, cabe-nos desconstruir a farsa discursiva do PT através do embate ideológico. Uma das armas mais eficazes para este embate é o humor, e o Humans of PT é apenas o front mais recente desta disputa de valores. Outras iniciativas recentes, como o “Cansei de ser Berne” tratam o tema por um viés testemunhal, quase psicanalítico, sem tanta repecussão mas também com ótimos textos.

O discurso esquerdista/progressista foi construído sem contradita por muitas cabeças e disseminado livremente durante vários anos. Identificar, nomear e expor suas fragilidades, contradições e imoralidades não é uma tarefa fácil, nem é possível de ser executada por um só caminho.

Se o PT escolheu ter uma história própria, da qual o país é coadjuvante, nós escolhemos dissecar as premissas e sub-textos desse roteiro, através do saber, do método, do rigor, da verdade e, por que não, do humor.

A fragilidade conceitual, lógica e moral do pensamento esquerdista já foi exposta, inclusive para os próprios esquerdistas. A vergonha em ter suas opiniões expostas fora do clubinho progressista é cada vez maior e mais explícita.

Essa turma e suas ideias, como diz a música daquele petista de elite, branco e de olhos azuis, “vai passar”, e seu legado será devidamente dissecado, avaliado, julgado e zoado.

Fernando Haddad e a modernidade tutelada: o atraso hipster

Fernando Haddad é um prefeito cosmopolita, ou quer nos passar essa imagem. Não há uma entrevista ou declaração sua que não mencione ao menos uma metrópole símbolo de modernidade. Londres, Nova York, Paris, Amsterdam, Berlim, Barcelona, Tóquio, Chicago, todas são usadas como exemplo por Haddad para explicar sua visão de futuro para São Paulo, principalmente quando os temas são ciclovias, mobilidade urbana, grafites e movimentos sociais.

Haddad quer a Prefeitura Municipal induzindo e coordenando a “modernidade paulistana”, esta compreendida num interstício que vai da turma do “fora do eixo” à descolândia do baixo Augusta, Jardins e Vila Madalena. O texto do Álvaro Pereira Jr. trata disso e usa alguns dos vocábulos aqui presentes, até então ausentes da grande imprensa quando o assunto é o prefeito da turma do “mais amor em SP“.

Esse entendimento sobre o que é “moderno” e sobre o papel do poder público na construção da modernidade são tão equivocados que não dá para esgotar sua desconstrução numa só penada, mas há um ponto crucial que me chama a atenção.

Sem entrar a fundo na questão conceitual e histórica do que é ser moderno, há algo em comum nos movimentos e grupos considerados modernos, tanto os antigos quanto os atuais: eles surgem como uma força espontânea da sociedade urbana, no âmbito da pintura, da música,da arquitetura, da literatura ou do comportamento, aproveitando pedaços do contexto para produzir inovações, questionamentos, novas estéticas, conceitos, ou simplesmente rupturas que trazem um novo significado à realidade de seu entorno e, às vezes, para além dele.

Ser moderno já foi ser impressionista, dândi, dadaísta, beatnik, roqueiro, hippie, mod, punk, yuppie, clubber e, hoje, com alguma ironia embutida, hipster. Qualquer que fosse a qualidade intelectual de cada um desses movimentos e de seu legado para a civilização, os modernos de qualquer época surgiram de anseios e talentos agrupados por conta própria, muitas vezes contrariando, incomodando ou ridicularizando o poder vigente.

Essa independência um tanto marginal acabava por ser a propulsora da ação desses grupos, reforçando o isolamento ou construindo estratégias de comunicação e inserção que levassem suas obras e atitudes a públicos e contextos maiores, até que fossem toleradas ou assimiladas pelo “status quo”, tornando-se assim parte da cultura e do ambiente em que surgiram.

Há nesse processo uma autenticidade inicial de propósitos e intenções, de gente disposta a sair de sua zona de conforto e correr riscos para agir conforme sua vontade, expressar-se e criar algo novo, ainda que não seja do interesse ou agrado da maioria.

Finalmente, há que se ressaltar que toda ação ou movimento “moderno” surge em contextos onde as necessidades básicas estão atendidas, ou seja, não são fruto da demanda por comida, saúde, habitação, educação ou saneamento básico, ao contrário. Quanto mais bem resolvidas as cidades em termos de atendimento universal destas necesssidades, maiores as chances de proliferarem os mais diversos tipos de modernos em seu meio. A modernidade é, em resumo, fruto da abundância (ainda que relativa).

Haddad não quer esperar esse tipo de fenômeno espontâneo. Em São Paulo, a modernidade é tutelada pela Prefeitura, tem chancela oficial. A onda é cicloativismo? A prefeitura encampa e enche a cidade de ciclofaixas vazias. A turma do grafite tá meio esquecida? O prefeito libera patrimônio histórico para ser grafitado e até dá uma demonstração de talento, ao pixar um Pato Donald digno de aluno do primário, para festa dos jornalistas. O fim de semana tá meio fraco? Dá-lhe Haddad tocando guitarra em show de grupo de rap americano e em exposição de quadrinhos.

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Numa cidade onde a falta de água e luz ora se alternam, ora coincidem, onde a degradação urbana só faz aumentar, o “arco do futuro” ficou no passado, Plano Diretor é uma obra de papel inexequível e o hipsterismo porcamente emulado das metrópoles do hemisfério norte foi alçado à categoria de política pública.

Estes pseudo-modernos, acólitos de Haddad, são o exato contrário do que se pretendem: aderem a uma estética cujo processo de formação lhes é estranho, afetam comportamentos que denotam excepcionalidades ou talentos inexistentes e, pior de tudo, o fazem dentro da zona de conforto proporcionada pelos atuais donos do poder e suas linhas, oficiais e oficiosas, de patrocínio.

Ser descolado em São Paulo, hoje, significa estar alinhado com o poder municipal. O resto, é coxinha, reaça ou recalcado (quando não é tudo junto).

Esta “modernidade regulada”, cópia mal-feita do que é feito nas cidades admiradas por Haddad e sua turma, sem talento e/ou força para produzir algo verdadeiramente novo e relevante, tutelada e paparicada pelo poder de plantão, resulta em indulgência e intolerância. Não é necessário ser talentoso e brigar por espaço quando se é parceiro da prefeitura. Basta ter mais amor. Não por São Paulo, mas por Haddad e pelo PT.

Por isso, nossa modernidade cala-se diante das diversas cracolândias surgidas como resultado da negligência e do programa “braços abertos”; nossos artistas de SESCs, Viradas Culturais, festivais públicos fazem vistas grossas para o descaso com o ordenamento urbano da cidade; a descolândia bate palmas para ciclovias inúteis e mal planejadas, grafites em patrimônio histórico e toda a cafonice inerente às aparições públicas de Haddad posando de jovem antenado. É uma modernidade de gabinete, falsa e vazia, que conta com as benesses dos cofres públicos para continuar levando a boa vida entre um convescote oficial e uma ação de apoio ao Prefeito.

Na melhor das hipóteses, os modernos tutelados são irrelevantes; na pior, perniciosos. Ao tornarem-se prioridade da gestão de Haddad, sua visão de mundo leviana e despreparada relega à irrelevância os reais problemas da cidade e passa a dar guarida a lateralidades como o cicloativismo e os grafiteiros, ou a grupos mais problemáticos, como o MTST, o Fora do Eixo, o MPL e seu braço forte, os black blocs.

Se no resto do mundo a modernidade representa a renovação da urbe e a expansão do repertório da estética e do saber, em São Paulo os auto-intitulados modernos renovam-se apenas quando o Diário Oficial permite. Que este cenário deprimente não dure muito tempo.

 

 

Um país em transe

Estamos mesmerizados pelos escândalos em série da Petrobrás. É um descalabro de tal monta que, mesmo longe de conhecermos sua real amplitude, absorve praticamente a totalidade das atenções da opinião pública, da imprensa e dos órgãos de controle. A desastrada saída de Graça Foster, que não aceitou repetir, na presidência da Petrobrás, o papel degradante de gestor embalsamado vivido por Mantega no Ministério da Fazenda, é apenas o capítulo mais recente de uma tragédia que drenou bilhões dos cofres públicos para viabilizar um projeto de poder e garantir a boa vida de seus mentores.

Também fomos capturados pelas incompetências em série de Dilma e seu ministério de não-notáveis. Todo dia há um resultado negativo, uma barbeiragem, um acacianismo, uma picaretagem oriunda do executivo federal que, pela quantidade e ritmo de seus anúncios, embotam nossa capacidade de indignação, tornando-nos cínicos sado-masoquistas, que buscamos sentido e conforto na derrocada de um governo há muito prevista por aqueles que ainda preservam algum senso crítico. Vamos todos para o brejo, mas pelo menos alguns sabiam disso há mais tempo.

O presente eterno instituído pelos petistas, na qualidade de atuais donos do poder, retirou-nos a capacidade de olhar de forma objetiva para o passado e pensar o futuro com alguma ambição. Vivemos um constante “é o que tem para hoje”, contentando-nos com o fato de que “Com Aécio seria pior”. É o que nos oferecem os petistas, enquanto enfiam suas garras cada vez mais fundo nas entranhas do Estado.

São tantos os desmandos, são tão amplas as corrupções, que não há mais como absorver e compreender tudo. O cenário de anomia estendeu-se também para a vida privada, onde é cada vez mais difícil encontrar um fornecedor ou prestador de serviços confiável, que entregue o combinado sem muita briga e cobrança. A qualidade, confiança e excelência de produtos e serviços existe apenas nas propagandas.

O campo de confiança mútua é cada vez mais estreito na sociedade. Somos uma nação de oportunistas, com um estado parasitário e uma iniciativa privada letárgica e negligente, tudo permeado por uma selvageria normalizada que nos faz viver uma vida cada vez mais paranóica e fechada, pelo medo da criminalidade disseminada, responsável pela façanha de 50 mil homicídios anuais, absorvidos por nós da mesma forma que absorvemos a derrota do time do coração na última rodada.

Não bastasse tudo isso, o fantasma do racionamento de água e luz já é a mais assustadora realidade para muitos, explicada pelos governos federal e estaduais como meros resultados das variações climáticas. É muito clima ruim de uma só vez.

Desistimos de fato do direito de ambicionarmos sermos melhores, de projetarmos um futuro um pouco mais auspicioso, ou é apenas um sono longo demais?

O terrorismo islâmico é o mal do Século XXI

Normalmente, somos apresentados à segunda guerra mundial a partir do holocausto. A “solução final” nazista para o “problema judaico”, cujos métodos e escala só foram descobertos na metade final do conflito, é o ápice macabro de um maligno fenômeno social, político e ideológico cheio de ineditismos os quais, aliados à covardia de alguns e a conivência de outros, permitiram aos nazistas levar a prática do mal tão longe e por tanto tempo.

Dentre estes ineditismos, um de compreensão particularmente difícil para mim era o da “blitzkrieg”, a estratégia de batalha do exército alemão que atordoou todos os demais exércitos europeus, fazendo com que a França e quase metade do continente europeu caísse de joelhos diante de Hitler em pouco mais de um ano. O que de tão novo poderia haver num exército, que as defesas de outros não conseguiam sequer compreender ou explicar? Como puderam nações tão poderosas e tão mais numerosas sucumbir de maneira tão completa?

A resposta para esta minha dificuldade talvez surja da vivência de incompreensão semelhante. Apavorado, indignado, enraivecido e paralisado pelo terror islâmico, não consigo sequer nomear o que grupos como Estado Islâmico, Boko Haram, Al Qaeda e similares nos esfregam à cara com frequência e selvageria cada vez maiores.

Nos anos 90, vivemos o período de negação do problema; após os atendados de 11 de setembro de 2001, nos apegamos à ilusão de que era uma “guerra assimétrica”, de povos e religiões “oprimidos” contra nações imperialistas. O “grande satã” ganhou forma e sentido nos corações e mentes inclusive dos que dele fazem parte, legitimando, em consequência, uma “jihad” cada vez mais ampla e sem regras.

Hoje, só os piores covardes e mal intencionados não aceitam que o terrorismo islâmico deflagrou uma ofensiva sem precedentes contra tudo e todos que não se submetem aos seus insanos caprichos. Se a carnificina e a destruição não são maiores, é por pura limitação de meios materiais. São massacres de milhares na África, ataques a veículos de comunicação na Europa, decapitações e atrocidades de igual quilate contra americanos, europeus, asiáticos e quem mais estiver ao alcance, para expor ao mundo quais as intenções desses grupos e o tamanho de sua disposição em desconsiderar qualquer aspecto de humanidade para impor suas vontades.

O que significa exatamente tudo isso? De onde virá o próximo ataque? Há limites para a selvageria deste terror? Qual a sua real amplitude? Quais os objetivos dos terroristas? Como combatê-los e subjugá-los? Se não for possível, há como eliminá-los?

O sentimento de estupefação e incompreensão que me assola talvez seja parecido com os de muitos franceses, poloneses, tchecos e belgas que enfrentaram as temidas “blitzkrieg” nazistas. Se a analogia fizer sentido, estamos em maus lençóis.

A comparação do terror islâmico com o nazismo não é gratuita, tampouco exagerada. As semelhanças são evidentes, e as diferenças, muitas, não necessariamente colocam o nazismo à proa do mal.

Dentre as semelhanças, a principal talvez seja o terreno fértil em que ambos surgiram e se consolidaram: o desalento, ausência de valores, covardia e inerente malignidade dos entusiastas, aliado à hesitação, covardia e pusilanimidade dos que buscaram (com o nazismo) e agora buscam, com o terror islâmico, compreende-los, justificá-los e, no extremo da torpeza, atendê-los, fortalecendo, pela negação, sua natureza totalitária.

Outra semelhança aterrorizante entre nazismo e o extremismo islâmico é o desprezo pela vida humana, tanto dos inimigos quanto do próprio grupo, e aqui há um agravante no caso atual. Enquanto o nazismo mantinha seus campos de extermínio, laboratórios de testes com cobaias humanas e crimes de guerra longe das propagandas do Reich, os terroristas de Alá exibem, orgulhosos, seus homens-bomba, suas crianças assassinas, as decapitações, os corpos carbonizados, para não deixar dúvida quanto à autoria e as intenções. Aí surge uma das principais diferenças, que desafia nossa compreensão, por subverter toda uma forma de pensamento construída ao longo de séculos.

Os nazistas justificavam o mal em nome do futuro, o “Reich de Mil Anos”. Os remanescentes do extermínio eugênico e ideológico, após o triunfo total do nazismo, viveriam uma era de progresso e prosperidade ininterruptos. O terror islâmico nada promete, a não ser a punição, a submissão e a morte dos infiéis. Quando muito, acena com um estado teocrático absolutista e bárbaro, onde a ciência, o saber, as artes, o belo e o bem parecem ser mais ameaças que aspirações. Não há futuro para o terror islâmico, apenas um presente eterno de devoção a Alá e submissão a seus mensageiros.

Como lidar com isso, num contexto onde vigora o politicamente correto, o relativismo moral, cultural e social, que laceraram nossa forma de pensar e se expressar, tornando-os mental e conceitualmente lenientes, incapazes de descrever o mal de forma clara e peremptória?

Sem essa capacidade de descrever, identificar e situar esta ameaça que se torna cada vez mais próxima de cada um de nós, não há como combatê-la. Para fazer isso, temos que ultrapassar, abandonar, renegar toda uma forma de pensamento e expressão gestada, no seio da nossa cultura, com o único objetivo de negá-la e desconstruí-la. Não é uma escolha fácil, tampouco o é o caminho para torná-la realidade.

Ou esperamos o mal tornar-se tão grande e presentes, que combatê-lo será questão de sobrevivência, ou assumimos a responsabilidade e as consequências de defender valores considerados risíveis ou obtusos, como o bem, a verdade, a compaixão e a honra, dando nome e endereço de seus inimigos e detratores, tratando-os como tais.

Não sou otimista a esse respeito.

Temos receio da generalização, ojeriza em assumir responsabilidades por decisões difíceis e pavor do embate. O simples fato de caracterizar o terrorismo como “islâmico” já é motivo para indignação de muitos. Se nem todos os muçulmanos são terroristas, não é absurdo dizer que todos os muçulmanos estão subjugados pelo terrorismo, assim como estavam os alemães subjugados pelo nazismo.

Os nazistas levaram a Alemanha e os alemães à destruição, inclusive os que eram adversários ferrenhos do nazismo. Se os muçulmanos não tomarem atitudes drásticas a respeito dos terroristas que agem em nome do Islã, terão o mesmo destino.

Tampouco sou otimista quanto a essa possibilidade.

A repetir-se a história, infelizmente não como farsa (como prega o famoso adágio), ainda teremos muitas tragédias tolamente interpretadas até que a completa natureza do mal se desvele e o senso de humanidade, premido pela necessidade de sobrevivência, nos leve à compreensão correta do que está em curso e das ações necessárias. Não teremos do que nos orgulhar nos próximos anos.

Qual é a Resolução de Ano Novo das Oposições?

Já é possível dizer: 2014 passou.

Se não foi uma hecatombe, tampouco deixará saudades: a economia entorpecida pelas desastrosas intervenções estatais, uma copa do mundo cujo principal legado para a história será o 7 x 1 sofrido pelo outrora país do futebol, uma eleição presidencial marcada pela tragédia, pela mentira oficial e pela estratégia de campanha mais baixa já vista, um escândalo de corrupção na maior estatal do país que elevou a propina à casa do bilhão (dando razão, por vias tortas, a Delúbio, ao transformar o mensalão, comparativamente, em piada de salão).

Ah, sim. Dilma foi reeleita, como se não bastasse. Há que ache isso uma boa notícia, mas não tem coragem de dizer nem ao espelho.

Os não-governistas que insistem em ver o lado positivo da coisa comemoram o renascimento da oposição. De fato, desta vez a campanha tucana foi menos covarde, com momentos memoráveis até. A reação popular à vitória de Dilma, às baixarias da campanha petista, aos escândalos que jorram diariamente dos jornais e tribunais provando que de fato Dilma e o PT fizeram o diabo para vencer esse pleito são um alento, um fio de esperança, porém frágil.

Sim, as oposições, capitaneadas pelo PSDB, iniciaram o pós-eleições no Congresso combativas, cobrando, obstruindo, denunciando, vendendo caríssimo a derrota na votação do PLN36. Estão atentas às investigações da Operação Lava-Jato, ao noticiário sobre a débâcle da Petrobrás. Enfim resolveram afastar o subserviente adjetivo “propositiva” de sua auto-denominação, como se exercer vigorosa e incansavelmente o contraditório contra o governo de plantão não fosse a melhor proposta possível que uma oposição pudesse ofertar à sociedade.

Mas, e daí? Onde chegaremos com isso, senão na perenização do “modus operandi” petista na gestão da coisa pública?

São tantos, tão extensos e tão profundos os escândalos protagonizados pelos petistas e sua camarilha de aliados subalternos que sobra pouco tempo para analisar e discutir o resto. Mas esse resto é grande demais, importante demais para ser negligenciado.

Falo de projetos, alternativas, aspirações, sonhos, metas, diretrizes, rumo. Basta apenas denunciar os desmandos, cobrar celeridade e rigor da Justiça, comemorar eventuais demissões e prisões? Óbvio que não!

Precisamos ambicionar, aspirar, conceber, planejar alternativas. Novas formas de administrar a coisa pública. Projetos de amplo espectro, melhorias de impacto profundo, novidades. Ao mesmo tempo, precisamos resgatar certa moralidade (pouca, é verdade) outrora vigente no ambiente político, quando os bandidos corruptos ao menos não justificavam seus roubos com visões deturpadas da história e um discurso ligeiro sobre justiça social.

Essas tarefas não são triviais. Demandam esforço, planejamento, capacidade, persistência, mas necessitam, antes de tudo, desprendimento da lógica vigente no setor público hoje em dia, mesmo nos estados e municípios não administrados pelo PT.

Doze anos de petismo em Brasília (com mais quatro pela frente, em tese) disseminaram uma visão embaçada de futuro, no qual o progresso individual, o crescimento econômico, a eficiência estatal, a produção de riqueza tem pouco valor ou concretude; a falácia da “justiça social”, a onipresença do estado, a hegemonia dos valores progressistas do momento são os ingredientes que formam o horizonte projetado pelo petismo para o país. Por vagos, tais valores amoldam-se às necessidade de ocasião, ora configurando conquistas que merecem ser preservadas contra a “ameaça golpista reaça”, ora apresentados como o porvir em construção, justificando assim o voto de nariz tapado, mas convicto, de muitos hoje silentes nas redes sociais, rodas de amigos, conversas de boteco.

Estamos vivendo um cenário de “presente eterno”, onde tudo o que puder ser capitalizado em prol do governo é apresentado como o “estado da arte” em termos de gestão pública e as poucas inovações, quando surgem, ou pagam o pedágio ideológico do progressismo para serem reconhecidas, ou então são impiedosamente atacadas como retrocesso “neoliberal”, “elitista”, “excludente”, “higienista” ou qualquer outro dos muitos adjetivos interditórios à disposição dos donos do poder.

Para ser oposição, não basta combater os desmandos e a corrupção reinantes; não adianta apenas criar obstáculos no Congresso para desacelerar a marcha do trator governista. A oposição precisa começar a apresentar propostas para o país, assumir posições que contrariam os interesses estabelecidos, correr o risco de verbalizar a insatisfação popular.

Problemas a espera de um bom plano de ação não faltam: o caos da saúde pública, auxiliado pelo descontrole das empresas de planos privados; a periclitante segurança pública que nos premia com mais de 50 mil homicídios por  ano, dezenas de milhões de roubos e furtos, crime organizado enfrentando as polícias de forma cada vez mais frequente e destemida, fronteiras arreganhadas; transporte público colapsado; serviços essenciais prestados por concessionárias de forma quase pré-capitalista, graças ao desmonte das agências reguladoras; educação pública disfuncional, perdulária e ideologicamente aparelhada.

Escolham aí uma política pública e encontrarão um rol de desafios aguardando enfrentamento. Um campo tão vasto para a oposição que é fácil perder o foco. Quem dera.

O problema da oposição não é falta de foco, mas de iniciativa. Não há um tema relevante sobre o qual conheça-se uma posição de consenso das oposições, ou mesmo uma posição de consenso do PSDB, na qualidade de maior partido oposicionista.

Mesmo governando o maior estado do país (São Paulo) e mais outros sete estados, a única, e cada vez mais questionável marca do PSDB é a da capacidade gerencial. Nestes últimos quatro anos não se viu uma única marca de governo tucano reverberar pelo país. Talvez isso ajude a explicar a queda de performance do partido nas eleições de 2014, ao eleger apenas cinco governadores, em comparação com os oito de 2010.

Ser um bom gestor de uma estrutura razoável não leva ninguém muito longe; ser gestor razoável de estruturas ultrapassadas é o caminho para a insignificância.

Em 2015 o PSDB e os demais partidos oposicionistas terão uma bancada relevante nas duas casas do Congresso. Em compensação, terão menos governos estaduais para servir de vitrine, uma conjuntura econômica absolutamente desfavorável, um governo federal cada vez mais hostil, uma sociedade insatisfeita e ansiosa por alternativas. O que os tucanos, como líderes da oposição, poderão oferecer nesse contexto? Mais do mesmo?

É hora das oposições, em especial os tucanos, se decidirem: ou começam a entender o que está em curso no país, alinham-se aos anseios dos que estão fartos com o que o modelo petista tem a oferecer e começam a propor alternativas consistentes, ambiciosas e factíveis, ou serão suplantados pelas forças que, quase semanalmente, vão às ruas clamar por novos rumos.

Se as lideranças hoje estabelecidas na oposição não souberem captar estas mensagens e transforma-las em novos projetos, sonhos, expectativas, alguém o fará, inclusive o PT. E mais um pouco de nossa democracia dará lugar à hegemonia que tanto energiza o ânimo e os bolsos dos atuais donos do poder.

Que 2015 seja um ano menos amargo para os que desejam seriedade, decência e prudência na política.

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