Penso Estranho

@pensoestranho

A Lava-jato vai muito além de Lula

Uma pergunta até agora sem resposta: até onde pode chegar a lava-jato?

Alguns apostavam que não chegaria em ministros: perderam; outros, que não passaria de deputados: também perderam; os que diziam que jamais chegaria no núcleo petista do poder estão calados. Esta semana, caiu o último tabu: Lula só não é formalmente investigado ainda por uma questão procedimental, mas o desencadeamento natural dos fatos apresentados na 22ª fase da operação não deixa dúvidas quanto ao resultado.

A lava-jato já perdeu sua linearidade rumo ao topo: agora, a investigação de espraia para todos os lados, independente de hierarquia, poder ou instância federativa, num padrão que se assemelha ao crescimento de plantas trepadeiras. As tentativas de conter o ânimo de policiais, procuradores e juízes, até agora, fracassaram.

Por que a lava-jato tem tantos êxitos, e por que só agora?

É difícil apostar em um plano bem urdido e articulado. O máximo de indícios que temos conhecimento nesse sentido é o texto de Sérgio Moro sobre a “operação mãos limpas”. Fora isso, nada oriundo da PF, do MPF, do Judiciário. Apenas desdobramentos em cima de desdobramentos de investigações, denúncias, delações e condenações, um fio da meada cujo fim ninguém mais aposta onde está.

As condições objetivas para tais acontecimentos foram dadas pelos poderes hoje colocados em xeque pela operação. Nos últimos anos, tanto o executivo quanto o legislativo responderam a escândalos apresentando ou aprovando projetos de lei endurecendo os mecanismos de combate e punição à corrupção e aos crimes de colarinho branco. Foram propostas pontuais, desconexas, algumas até mesmo contraditórias, mas que, aos poucos, municiaram as instituições ora protagonistas da lava-jato de instrumentos para chegar longe como nunca antes fora possível.

Por outro lado, estes mesmos políticos que viabilizaram tais instrumentos continuaram a se valer das práticas clientelistas e patrimonialistas já conhecidas, agora aparelhadas, centralizadas e potencializadas nos governos petistas. Aparentemente, ninguém considerou a hipótese de tais leis voltarem-se contra os donos do poder, e nenhum assessor jurídico teve a cautela de alertar sobre os riscos.

Faltava uma articulação entre polícia, ministério público e justiça, disposição para usar adequadamente os novos instrumentos jurídicos, cautela para evitar as arapucas processuais e uma completa ausência de rabo preso e subserviência para levar as investigações até onde as provas permitissem.

Quando esses fatores se aglutinaram em Curitiba, a lava-jato, que começou como uma investigação normal de lavagem de dinheiro tornou-se a nêmesis do poder constituído. Até agora, nenhuma instância do legislativo e do executivo passou incólume e nenhuma das prerrogativas ou foros privilegiados teve o condão de livrar a cara daqueles que, por conta de delações premiadas e provas coletadas, entraram na mira da operação.

Hoje, a lava-jato é uma espécie de pesque-pague de tubarões do poder. Grandes, ameaçadores e aparentemente unidos, esses tubarões escondiam uma fragilidade insuspeita: embora predadores, por estarem muito tempo encastelados no poder, desacostumaram-se a caçar, e passaram a considerar-se um coletivo; ameaçados, voltaram a agir conforme sua natureza de caçadores solitários e, em nome da sobrevivência, atacaram uns aos outros quando entenderam necessário.

Na única ação aparentemente coordenada para construir uma contradita à lava-jato, advogados em tese desinteressados redigiram um manifesto contra os métodos da operação, da força-tarefa do MPF e do Juiz Sérgio Moro, mas o conteúdo do documento afrontava os fatos de maneira tão descarada que a repercussão sobre oscilou entre a indignação e o escárnio, sem modificar em um milímetro a percepção que a sociedade tem quanto à lisura dos agentes públicos responsáveis pelas investigações.

A metodologia da lava-jato parece ter dado frutos: investigações de políticos e agentes estatais de estados e municípios começam a se valer de delações premiadas para avançar na cadeia de comando que assalta os cofres públicos de todas as instâncias, levando as denúncias imediatamente ao conhecimento da população e, assim, dificultando o acobertamento dos fatos e a manipulação das investigações.

Aparentemente, há um padrão em construção: as ações com maior potencial para chegar aos núcleos do poder iniciam-se longe dele, o que faz algum sentido. Delegados, promotores e juízes fixados em comarcas médias, ou, no caso da lava-jato, em capitais distantes do governo federal, estão afastados dos núcleos de poder investigados.

A concentração das cúpulas dos poderes nas capitais acaba por gerar proximidades e afinidades pessoais que, numa investigação ou processo, podem gerar constrangimentos ou mesmo certa tendência à acomodação. Além disso, é nas cidades distantes dos centros decisórios que os corruptos costumam alocar a parte operacional de seus esquemas. A distância que antes protegia agora torna-se o elo fraco dos esquemas de desvio de dinheiro público.

É uma quimera imaginar que a corrupção irá acabar com a lava-jato e similares, mas se estas iniciativas diminuirem a sensação de impunidade dos corruptos que hoje dominam a política, já será um ótimo resultado.

Um país em transe – 2

Quando escrevi Um país em transe, não imaginava que precisaríamos piorar tanto para enfim se iniciar o processo de impeachment.

As investigações avançaram, novas prisões ocorreram, as acusações contra o governo Dilma mudaram de patamar e de natureza. Mas o que diferencia esta crise de todas as anteriores?

O Estado brasileiro sempre foi mais ou menos corrupto, disfuncional, deficitário. O país sempre oscilou entre crescimentos claudicantes e recessões mais ou menos brandas. Entretanto, os políticos, empresários e intelectuais do país, com diferentes graus de sucesso, de alguma forma mobilizavam a sociedade a continuar investindo, consumindo, especulando, ou seja, acreditando que a roda continuaria a girar, a despeito de todas as adversidades, que o Brasil era o “país do futuro”, que “estava no caminho certo” e que enfim “tinha chegado sua vez”. Os governos, empresários, pensadores, a elite, em suma, conseguiam vender um futuro melhor, que mantinha o presente em andamento.

O governo Dilma, com a inestimável ajuda da oposição, quebrou essa escrita: não há um horizonte de melhoras que justifique qualquer sacrifício, ou mesmo uma aposta, no cenário presente, nem tampouco na ruptura. As chamadas “forças vivas” da sociedade, todos aqueles que, de uma forma ou outra, geram riqueza e empregos, simplesmente pararam de acreditar. Os que podem, transferem negócios e investimentos para outros países; os que não podem, mantém suas posições, reduzindo-as ao mínimo necessário para a subsistência própria e do negócio.

Alguns analistas hão de dizer: a diferença desta crise é a atuação das instituições! Apesar de tudo, o país dá uma demonstração de vigor democrático e institucional, ao investigar esquemas de corrupção cristalizados há decadas na estrutura do Estado e prender empresários e políticos como nunca antes! Errado.

Não há que se falar em “independência” inédita das instituições, muito menos em instituições que investigam porque o governo agora “deixa”. Polícia Federal, Ministério Público e Judiciário também ficaram à deriva, sem um futuro ou horizonte por parte dos poderes políticos, que também sempre nortearam o presente e futuro do sistema de justiça. Ao contrário da iniciativa privada, porém, essas instituições aproveitaram-se do vácuo de futuro criado pelo governo petista para aprofundarem as investigações sem enfrentar resistências outrora mais eficientes. O que é “ausência de oportunidades” para uns, é “janela de oportunidades” para outros.

Se não há um horizonte próximo na política, não há “donos do poder” com capital político efetivo ou potencial. O sistema de justiça é sim suscetível ao jogo de forças da política, se não formalmente, na prática, e investiga, denuncia e julga de acordo com esse contexto. Quando esse jogo de forças se paralisa ou entra em colapso, os vetores de pressão sobre os órgãos de controle perdem direção, foco e eficácia. Por isso, prisões até há pouco inimagináveis agora ocorrem numa sucessão e num crescente de importância difíceis até mesmo de compreender.

O sistema de justiça está, como nunca antes, desamarrado das forças políticas, pois estas perderam a capacidade de construir narrativas e ações minimamente coerentes e convincentes para manter o presente e mobilizar a sociedade em direção a determinado futuro. Sem esta capacidade, perdida principalmente pela corrupção generalizada em que os políticos se enredaram e pela inércia inepta da oposição, os políticos ficam sem força e poder para se contrapor às investidas da justiça, pois destituídos de apoio popular, este, hoje, direcionado quase completamente à faxina levada à cabo pelos órgãos de justiça.

A Lava-Jato é necessária, desejável e oportuna. Que ela se aprofunde mais e mais, desmontando o maior número possível de esquemas de desvio de dinheiro público, e prenda o maior número de bandidos, políticos e empresários, no processo. Mas não podemos esperar o fim das investigações e ações penais para pensar o que deve ser feito do país daqui para a frente.

A justiça, o ministério público e as polícias tem muito poder, mas não conseguem construir um plano para a retomada do crescimento, a melhora da educação, da segurança, do ordenamento urbano. Em suma, não conduzem o futuro, “apenas” estancam os malfeitos do presente, ao punir os crimes passados, e deixam “recados” aos futuros governantes sobre os limites a serem respeitados. Isso é apenas a moldura. Falta todo o conteúdo.

Esse conteúdo, que só pode ser construído pela política, é imprescindível para a gestão do Estado, para a melhoria das políticas públicas, e também para o sistema de justiça, na medida em que ele é parte do aparato estatal que demanda melhorias e depurações.

Não é por acaso que o impeachment de Dilma (condição necessária, mas não suficiente, para estancar a entropia da crise) foi deflagrado por um presidente da Câmara atolado em denúncias e prestes a ser julgado pela Comissão de Ética da casa que preside, pegando de surpresa o principal partido de oposição.

É o melhor retrato possível do esgotamento da política como instrumento de mediação de interesses e conflitos públicos: a presidente, eleita graças à campanha política mais suja da história do país, posta na fogueira do impeachment por um deputado (do partido da coligação que a reelegeu e indicou seu vice), cheio de processos na justiça e com o mandato sob risco de cassação, enquanto a oposição assiste, passiva, o desenrolar dos acontecimentos sem ter voz e capacidade de ação para intervir, ainda que apenas no campo da retórica, na dinâmica dos fatos.

Se, junto com a destituição do PT do poder, não vierem mudanças verdadeiras no modo de fazer política e de gerir a coisa pública no país, o impeachment será de pouca valia. Continuaremos à deriva, a política será apenas um instrumento para levar ao poder despreparados e oportunistas, e a espiral de desgovernança se ampliará.

O Petismo Está Trocando de Pele

“O PT está morto!”

“É o fim da era petista!”

“A esquerda, enfim, terá o que merece!”

Quantas vezes não se leu/ouviu estas frases, ou similares, no decorrer deste ano? Mesmo com a pior crise política desde o impeachment de Collor, a pior recessão desde o advento do Real e o governo mais inepto e corrupto da história do país, há espaço para otimismo na cabeça dos mais incautos. Infelizmente, essa esperança em relação ao fim do petismo e a um eminente enfraquecimento da esquerda é pura ilusão.

A última declaração de Lula sobre o Foro de São Paulo consolida um processo que já se anuncia há tempos e vem sendo percebido por um número cada vez maior de pessoas: o PT está se metamorfoseando, “trocando de pele”, para que sua natureza sobreviva, intacta e se possível mais forte.

Seja com a migração de petistas para outros partidos, como PSOL, PSTU e Rede, com a criação de novas ONGs e Institutos “apartidários”, veículos de comunicação “isentos e plurais”, o petismo como conteúdo e método sobrevive praticamente incólume à crise do governo Dilma. Por que?

Basicamente, porque boa parte dos brasileiros, embora não comungue do conteúdo petista, é useira e vezeira de seus métodos, a saber: oportunismo, carreirismo, fingimento, dissimulação, embromação, improviso, vitimização, pensamento e ação de curto prazo, ausência de visão estratégica e de mundo, pouca empatia com o próximo e o bem comum.

Num país onde tais valores vicejam como pasto, a hegemonia petista é decorrência natural. Estranho é o partido ter se fragilizado tanto, a ponto de ter sua existência ameaçada.

Uma hipótese para a derrocada petista, que está obrigando o partido a “trocar de pele”, é que Dilma desprezou um dos dogmas da esquerda: o esquerdismo é revolucionário, e a revolução sempre está em movimento. O esquerdista, por ser  revolucionário, não se sustenta vinculado a instituições, instâncias públicas ou privadas, territórios ou nações. Ele deve estar sempre promovendo a revolução, em busca do futuro hipotético que nunca chega, pois é isso que justifica e garante seu poder e influência.

Quando a esquerda chega ao poder, assume responsabilidades de gestão e manutenção institucional incompatíveis com sua dinâmica. Aí restam-lhes duas alternativas: ou subjuga os demais poderes e órgãos de controle que deveriam lhe cobrar as responsabilidades institucionais, instituindo o autoritarismo, ou cria rotas de fuga dentro do governo, referências contra as quais o governante de esquerda e seus áulicos sempre podem investir, mantendo a dinâmica de movimento permanente, cujo resultado é o rebaixamento ou anulação das instituições, mas sem comprometar a aparência democrática.

Esta última alternativa foi a escolhida por Lula em seus dois mandatos: ao renunciar às propostas históricas do PT e nomear uma equipe econômica totalmente alheia aos reclamos ideológicos do partido, Lula construiu a “rota de fuga” ideal para tempos de bonança. O que era bom, o governo capitalizava; o que era ruim, era culpa das concessões neoliberais feitas ao mercado, que obrigou a nomeação de estranhos no ninho. Nem mesmo a substituição involuntária de Palocci por Mantega alterou este cenário. Enquanto Meirelles dava as ordens no Banco Central, Mantega era o bem-intencionado que tentava fazer a coisa certa, mas não tinha poder.

Aqui, um parênteses: chamar Pallocci de “rota de fuga” pode soar estranho, uma vez que o ex-ministro é petista de longa data. Mas é um petista do interior de São Paulo, mais especificamente, um petista de Ribeirão Preto. Cidade do interior paulista que não tem faculdade pública ou MST praticamente não tem esquerdista “orgânico” (até nisso, Ribeirão Preto é uma exceção, pois tem Faculdade de Filosofia da USP, como bem lembrou um leitor). Logo, os petistas do interior de São Paulo que não são oriundos de movimentos agrários ou de faculdades de humanas o são pelos métodos, e não por comungarem do mesmo conteúdo ideológico. Palocci é o exemplo acabado desta espécie de petista, que também é encontrada no interior dos estados da Região Sul. Adiante.

Dilma, desde o início do seu primeiro mandato, não adotou essa estratégia. Seu núcleo duro não tinha elementos estranhos ao petismo. Desde 2011, a gestão do que interessa no governo federal é 100% PT. No início, Dilma ainda capitalizou essa estratégia, com a versão da “faxina” que tirava os ocupantes de cargos oriundos de negociações fisiológicas. Depois, foram as desonerações, queda de juros, intervencionismos diversos na economia, tudo sustentado por um ciclo benfazejo da economia mundial que já anunciava seu fim.

Em 2014, com as evidências do fim do ciclo de bonança já saltando aos olhos, Dilma passou a “raspar o tacho” da economia, transformando resquícios de um modelo esgotado em prenúncio de um novo ciclo de aumento de emprego, renda e infraestrutura, tudo com o objetivo de obter a reeleição. Em paralelo, a demonização dos adversários estabelecia um cenário de “tudo ou nada” para os eleitores: ou mantinha-se Dilma, e as benesses se preservavam, ou todas as conquistas seriam perdidas, e o país iria pro buraco.

Dilma ganhou. O país foi pro buraco, e o governo não tinha uma rota de fuga por onde canalizar todas as responsabilidades. O petismo ficou acuado. Nunca antes na história desse país o PT tinha ficado sem discurso, seja na oposição, seja no poder. Sobrou-lhe apenas a tese do golpe, mas é muito pouco, diante de tantos fatos escabrosos vindos à tona com a lava-jato e da magnitude da recessão que, combinada com a inflação crescente, atingiu em cheio a vida cotidiana da população.

A carapaça do PT ficou velha, perdeu viço. O petismo já não convence mais como símbolo de mudança, como porta-voz do bem comum. Para manter-se influente e ocupando espaços, precisa mudar de estrutura, de cara, de endereço, para preservar os métodos e, principalmente, o conteúdo, ainda tão sedutor e convincente nos meios jornalísticos, acadêmicos e “bem-pensantes” do país.

É um movimento de esquerda, sem dúvida, mas que não limita-se a esse espectro ideológico. Organismos e instituições de alegado cunho liberal, conservador, social-democrata e até mesmo “apolíticos” colaboram com o sucesso dessa empreitada de mudança. São pessoas e grupos que compartilham a predileção pelos mesmos métodos e que, mesmo dizendo-se adversários ideológicos do petismo, não hesitam em colaborar com o projeto de poder do partido, dentro e fora do governo. Lawrence Pih, Antonio Luiz Seabra, Guilherme Afif Domingos, Henrique Meirelles são apenas alguns exemplos de aliados petistas que dizem não comungar de sua ideologia.

É esse movimento de transição, nem muito discreto, nem muito sutil, que estamos presenciando hoje em dia. Sem perder de vista a desgraceira diária causada pelo governo vigente, é nesse processo que devemos prestar atenção para um futuro próximo. Ou ele é exposto e combatido desde o início, ou repetiremos, pioradamente, os mesmos erros, garantindo ao petismo, mesmo fora do PT, mais alguns anos no poder.

Um recadinho dos reaças

Todo governante se incomoda ao ser questionado sobre suas decisões, confrontado com seus erros ou escrutinado em seus gastos. Se estamos falando do governo mais corrupto da história democrática recente, com os piores índices de aprovação já registrados para um presidente da República, eleito graças à campanha política mais suja de todos os tempos, não espanta que o incômodo beire a histeria.

Esse estado de espírito, entre a cólera e o desalento, mas que tenta demonstrar controle da situação e bom humor, transpareceu nitidamente ontem, na nota do Ministério da Cultura respondendo a este artigo da Reaçonaria.

Reparem que em nenhum momento o artigo alega haver desvios, corrupção ou abuso de poder. Simplesmente faz questionamentos quanto à oportunidade e conveniência de alguns gastos específicos, de acordo com os princípios da Administração Pública previstos no art. 37 da Constituição Federal.

Foi o suficiente para que o Ministério da Cultura lançasse um esclarecimento cheio de ironia, desqualificação e empáfia, que mal disfarçam o intuito intimidatório. Ao final, o verdadeiro objetivo: exigem (sim, exigem) retratação ampla, geral e irrestrita.

Por que um post que aparentemente teve pouca repercussão (menos de 30 likes no facebook, menos de duzentos compartilhamentos no twitter) gerou tamanha reação?

Porque os governantes não lidam bem com questionamentos sobre suas escolhas de gestão, ainda mais quando são escolhas ruins, pouco transparentes e feitas ao modo de “ação entre amigos”,  como a nota do MinC deixa claro, ao dizer que as verbas são fruto de emenda de um parlamentar de um petista, em favor de uma prefeitura petista, para execução de um serviço cujos resultados não estão acessíveis.

Fosse uma acusação de corrupção, desvio de verbas, as respostas já estariam prontas, bem como as providências jurídicas correspondentes. Os petistas estão acostumados a lidar com esse tipo de coisa. Não foi o caso.

A Reaçonaria nada mais fez que questionar as escolhas dos gestores federais e municipais, às quais tiveram a contribuição também de um parlamentar, como informa a nota. Tudo isso é mesmo relevante, de interesse público e conveniente, num momento de crise financeira e aperto orçamentário em todas as esferas do poder público? Esse dinheiro não poderia ser aplicado em algo mais urgente, ou melhor, ser simplesmente economizado, para diminuir, ainda que minimamente, o rombo orçamentário do governo federal?

Essas respostas não vieram na nota do MinC, nem virão. Não é esse o objetivo da nota, nunca foi. Os petistas nunca desenvolveram o hábito de prestar contas sobre suas escolhas de como gastam (mal) os recursos públicos. O entendimento geral dos atuais detentores do governo federal é: “quando roubamos, é em nome de uma causa; quando não roubamos é a causa em si, e isso, apenas isso, é o certo”.

Mas há outro ponto que assusta os atuais donos do poder: a perspectiva de perda do poder. Serem apeados dos cargos de polpudos salários e benefícios do Governo Federal já assusta os petistas a ponto de perderem o controle emocional. Perceber que estão analisando os canais pelos quais eles financiam sua militância cultural, front no qual são mais hegemônicos que na política, os deixam à beira de um ataque de nervos.

Tarde demais. As entranhas destas diversas frentes de financiamento já foram descobertas e estão sendo esquadrinhadas. Aos poucos, os nexos de suporte econômico entre o governo e diversas iniciativas “apartidárias” na música, no cinema, na “arte de rua” e nos “movimentos culturais” serão devidamente expostas e, quando Dilma for apeada do poder, estes fluxos serão encerrados.

É isso o que mais irrita os petistas. O governo, eles controlam há 13 anos; estas fontes indiretas de recursos, desde que elas existem, e até hoje ninguém se preocupava com elas. Essa folga acabou.

Lula Inflável, brilha uma estrela (na Papuda)

Desde o dia 16 de agosto a economia deteriorou-se mais um pouco, a inflação não dá sinais de recuo, o desemprego aumentou, Michel Temer saiu da articulação política do governo, Dilma e Renan fizeram o acordão, Janot foi reconduzido ao cargo de Procurador-Geral da República, mas nada disso foi mais notícia que o bonecão do Lula, também conhecido como Lula Inflável ou Pixuleco.

O que era para ser uma grande ilustração das manifestações de 16 de agosto tornou-se meme nas redes sociais e objeto de profundo ódio por parte dos petistas, especialmente do próprio homenageado e seus acólitos incrustados na Prefeitura de São Paulo.

Lula Inflado/pixuleco foi aplaudido, vaiado, xingado, trollado, filmado, fotografado, ameaçado, favoritado, curtido, retuitado, comentado, cuspido, hackeado e esfaqueado.

Por que um boneco inflável despertou tamanha comoção?

Inicialmente, por gerar imagens de impacto numa manifestação que, embora gigantesca, sofreu a cobrança equivocada de ser maior que as manifestações de 15 de março. Os números de 16 de agosto não foram maiores, mas a imagem do Lula inflado ganhou o mundo. Até então, estávamos no campo da indignação bem humorada. Seriam dois, três, cinco dias de piadas e gozações na internet, e o tema se esgotaria.

Mas as esquerdas, o PT e, principalmente, Lula, não engoliram a piada. Nem poderiam, afinal o Lula Inflado era uma nódoa na hagiografia do líder petista, meticulosamente elaborada pelo próprio, seu partido e os milhares de colaboradores da imprensa e do meio artístico.

Lula é o símbolo da esquerda que deveria ser lembrado pelas fotos épicas das greves dos anos 70, pela intransigência pseudo-ingênua dos anos 80, pela transição ao pragmatismo dos anos 90 e pelo governo “pai dos pobres” dos anos 2002-2010. Incluir uma piada de 12 metros de altura com roupa de presidiário nessa história não cabe – a não ser se fosse para reforçar o mito de vítima da ditadura – e a esquerda não admite tal intromissão em seu roteiro. Retire das esquerdas o monopólio da verdade, da virtude; retire até o poder, mas não lhes retire o controle da narrativa. Os caras ficam malucos mesmo, desacorçoados.

O Lula Inflável representa exatamente isso: um passa-moleque na construção da narrativa mitológica de Lula. A reação das esquerdas só fez aumentar o prazo de validade da piada, que transformou-se em coisa séria. O boneco passou a ser requisitado em várias cidades do país. Criou-se uma logística de transporte e segurança em torno dele digna de celebridades. Ameaças a sua integridade pululam pelas redes sociais e blogs governistas.

Em São Paulo, o boneco passeou por pontes, foi esfaqueado e teve que circular pela Paulista com seguranças privados. Resultado? Matérias em jornais internacionais, persianas fechadas na Rede Globo, modelos de adesivos para imprimir em casa circulando pela internet e milhares de pedidos de miniaturas, chaveiros e toda sorte de replicação do mais novo ícone da indignação popular.

Não conformados com a perda da narrativa, os petistas agora querem acrescentar ao boneco o status de vítima do poder que por tanto tempo lhes serviu: interdições administrativas, ações proibitórias, uso da lei cidade limpa… censura, enfim. De alguma forma, querem impedir o boneco de circular e aparecer em espaços públicos. Se adentrarem na seara jurídico-administrativa, vão perder; se ganharem, perderão em dobro.

Lula Inflável é daquelas ótimas sacadas que parecem geração espontânea, mas são fruto de planejamento e perseverança de um grupo de anônimos, como nós, cansados de tanta corrupção, incompetência, autoritarismo e empáfia dos petistas no poder. Pessoas que resolveram dar um passo além de ir às ruas e agregaram à multidão amorfa um ponto de referência que resume, sem palavras, quem é o responsável por todo o descalabro que ora se descortina perante o país.

Graças à dificuldade que os petistas têm em lidar com a perda de protagonismo em protestos e manifestações populares, o pixuleco vem mantendo sua popularidade em alta, com possíveis desdobramentos que só farão crescer a notoriedade do anti-mito de vinil.

Mas não percamos o senso de perspectiva: o prazo de validade do pixuleco é limitado.

Seu efeito é o mesmo de um bom cruzado de direita no boxe: atordoa, mas não derruba. Sem uma sequência de ações semelhantes, bem planejadas, impactantes, viralizantes, a derrocada de Dilma e do PT do poder não se acelera.

Lula inflável já fez mais pela queda de Dilma que toda a oposição do Congresso. Natural, afinal Lula inflável é a nossa representação direta.

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