Osmar Bernardes Jr.

@osmar_bernardes

Armas – o argumento romântico

Sempre que o assunto ‘armas’ entra nas discussões na internet, televisão, jornais e até mesmo no Congresso, vários argumentos pipocam de todos os lados. Alguns vão na raiz da questão e falam que ter armas é apenas um meio de exercer o direito a defesa contra um agressor, seja ele um indivíduo ou o Estado. Sendo assim,  todos os outros argumentos – como os que, com dados e evidências, mostram que mais armas com a população não-criminosa implica em maior controle da criminalidade – são consequências dessa análise. Pronto, é falar isso para ser taxado de ‘lunático armamentista’, ‘romântico’, e gerar comentários cínicos como ‘tá bom que uma arma vai fazer a diferença se o Estado quiser te matar’, e por aí vai.

Alguns chegam a falar que o Estado – interno ou externo – é tão poderoso, com tanques, aviões e misseis, que ter armas na mão da população é ineficaz contra uma possível ação dele, portanto o desarmamento não seria problemático. Então quer dizer que o Estado é muitas vezes mais poderoso que o povo e você quer deixar este ainda mais vulnerável? Quer deixar o indivíduo ainda mais indefeso?  Não consigo imaginar que alguém use esse ‘argumento’ de maneira honesta.

Esses ataques não costumam vir de pessoas apolíticas, mas sim de quem defende ideologias revolucionárias que geraram as ditaduras mais genocidas da história ou que, ao ter base social-democrata, defendem que o Estado não seria capaz de cometer atos criminosos contra a própria população. “É só colocar as pessoas corretas lá”, “o sistema democrático não permite isso”, “o exército jamais assassinaria cidadãos do próprio país”, dizem muitos.

Claro, poucos governos que aplicam o desarmamento fazem isso pensando em confiscar alguma coisa, se tornar totalitário ou assassinar grande parte da sua população. A relação causa/consequência não é automática. Só que todo regime que cometeu essas ações precisou aplicar essa política.  O próximo governo, talvez apoiado pela maioria da população, poderia usar um “controle” pré-estabelecido para promover ações criminosas com uma minoria [1].

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Esse cara aí era amado pelo povo.

Sabendo desse perigo com relação ao Estado, os fundadores dos EUA colocaram na  constituição uma emenda apenas pra proteger o direito do cidadão em possuir e portas armas: a famosa 2ª emenda. Ela não está ali sem querer. Ela não foi feita para garantir o direito do americano caçar patos, mas sim para garantir o direito à defesa sem ter que pedir permissão para o governo [2] para adquirir e usar os meios necessários.

Não é só o ato físico de confiscar as armas, isso pode ser aplicado gradualmente ou ficar em segundo plano. É pregar que o cidadão não tem o direito de se defender de agressões. Não pode se defender da agressão de outro indivíduo e, consequentemente, não pode se defender da agressão do Estado. O ataque cultural é muito eficiente para o povo começar a apoiar crescentes controles estatais. Muitas ações anteriormente erradas se tornam ‘morais’ e apoiadas pela população.

Outros regimes revolucionários já começaram, por definição, aplicando grandes controles de armas. Desarmamento total do cidadão. Monopólio da violência. Fim do direito de defesa do indivíduo. A agenda padrão. Tudo está nas mãos do Estado. Tudo é controlado pelo Partido do povo.

Regimes, esses, que foram responsáveis pelos maiores genocídios da história da humanidade. Não só utilizaram armas de fogo contra a população nos famosos paredões, gulags ou nas valas, mas estatizaram – roubaram de pessoas, utilizando coerção armada – terras e produção alimentícia, causando milhões de mortes por fome [3].

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Um procedimento de extermínio na URSS. O outro era matar pela fome.

É errado falar que a consequência de todo desarmamento, ou qualquer controle que seja, é a criação de um governo totalitário. Mas mais errado, e desonesto, é negar a história e dizer que essa ação não é criminosa, anti-liberdades e necessária para a implementação de programas de exclusão, controle e extermínio.

Que romantismo é esse ao falar que um povo desarmado pode se tornar vítima indefesa contra o Estado? Que romantismo é esse que tem como base argumentativa vários acontecimentos pela nossa história? Que romantismo é esse que tem como ideologia uma defesa do indivíduo perante o Estado?

O romantismo, totalitário, está na cabeça dos revolucionários. O romantismo, puro, está na cabeça de quem confia sua vida ao Estado.

“Controle de armas é controle de pessoas”.

Notas:

[1] Começando em 1933, Hitler utilizou a base de dados, registros de armas, feita por governos anteriores para desarmar os judeus. Permissões foram cassadas. Casas foram invadidas. Armas foram confiscadas. Mais tarde, em 1938, o governo nazista fez uma lei proibindo a posse e porte de armas por judeus. Na Wikipedia:

[2] Nos períodos de lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos, muitos militantes eram proibidos de possuir ou portar armas por meio de regulações feitas por políticos democratas ligados à Ku Kux Klan. O próprio Martin Luther King teve permissão de porte negada, mesmo sofrendo ameaças de ataques pelo estado do Alabama, que tinha arbitrariedade na decisão. Apesar disso, MLK possuía muitas armas em casa.

[3] Holodomor. “Ukranian Famine”. Genocídio ucraniano 1932-1933.

Imagem de Hitler: http://www.benztuning.com/search/label/hitler

Imagem das valas de execuções soviéticas: http://bit.ly/ZPZeqp 

 Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

A Desigualdade – o tal “gap” naquele famoso vídeo da Thatcher

Quem conheceu a Reaçonaria antes mesmo de ler este texto provavelmente assistiu no You Tube nosso teaser, divulgado em março. O vídeo reúne depoimentos marcantes de alguns dos grandes indivíduos da corrente direitista e trechos de uma fantástica palestra sobre “el entendimento de la dialética(chô diria Marx também)“, ministrada pelo Paulo Freire.

Em um dos trechos selecionados na edição, a então primeira-ministra Margaret Thatcher responde a uma pergunta de um parlamentar opositor, que disse que o gap (diferença) entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres só aumentou durante o governo dela. Com as mãos, ela apenas ilustrou a diferença alegada pelo opositor e a que ele realmente gostaria. Uma resposta aparentemente engraçada, cuja simplicidade na explicação de Thatcher esconde a seriedade do tema e do absurdo uso dele como ataque daquele opositor.

Ao falar sobre a diferença, e só dela, uma pessoa negligencia dados e fatores importantíssimos na análise do nível de riqueza de um povo. Qual é o valor máximo – ou mínimo – de renda para a pessoa ser considerada pobre? E qual é a renda média do mais pobre? E qual o número de pobres? E como calcular a evolução do número de pobres? Existem ainda valores mais específicos, como a renda necessária para manter as necessidades básicas de uma família, e a razão entre impostos pagos e a renda do mais pobre, exercício que sempre mostra quem mais sofre com impostos sobre consumo: o pobre. Tudo isso é deixado de lado, de propósito, pois a demagogia, o discurso “do bem”, a retórica da guerra de classes e os votos são mais importantes do que a análise concreta da situação.

Além disso, há o erro matemático em si. Usar a diferença como análise do nível de renda é um absurdo. Qualquer estudo básico mostra que ela é irrelevante na análise sobre quão pobre é um povo. Vamos escolher dois valores: 10 e 100. O menor representará a renda média do pobre. O maior será a renda média do rico. Se ambas as rendas dobrarem, os números passarão, respectivamente, para 20 e 200. Antes do aumento o gap era de 90. Após, ele passou para 180. Mas isso quer dizer que a população está mais pobre? Que apenas os ricos enriqueceram? Claro que não, a análise da diferença apenas diz que ela mesma aumentou. O dado mais importante, o ganho de 100% no valor da renda do pobre, é totalmente negligenciado. O que acontecerá as rendas caírem pela metade? Os valores ficarão, respeitando a ordem, em 5 e 50. O gap novo será de 45. Maravilha! O país está menos desigual, “vitória” do socialismo.

Como Thatcher afirma na continuação do vídeo: “so long as the gap is smaller, they rather have the poor poorer. You do not create wealth and opportunity this way”. Em tradução livre: “enquanto a diferença for menor, eles preferem que o pobre seja mais pobre. Você não cria riqueza e oportunidade desse modo”. Logo, a argumentação do opositor é resumida na tentativa de aumentar a igualdade dentro da miséria. No caso, por meio de políticas sem sentido, que vão do aumento do poder do Estado sobre a economia até a ampliação dos tributos. Lembrando, mais uma vez, as palavras de Thatcher, “Não existe dinheiro público. Existe apenas dinheiro do pagador de impostos”.

A pobreza e a miséria? Quem disse que o objetivo dessas correntes é combater esses problemas? O objetivo é apenas acabar com o tal gap.

Margaret Thatcher faleceu em 08/04/2013.

*Revisado por @sarubo

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

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