Marcelo Centenaro

@mrcentenaro

O Deus da Máquina, capítulo I

Estátua de Pítias, de Auguste Ottin, na fachada do Palais de la Bourse, em Marselha.

Estátua de Pítias, de Auguste Ottin, na fachada do Palais de la Bourse, em Marselha.

O Ciclo de Energia no Mundo Clássico, primeiro capítulo de O Deus da Máquina, de Isabel Paterson, nos apresenta Pítias, o navegador grego que cruzou o Estreito de Gibraltar, por volta de 300 A.C., e navegou pelo Atlântico. Ele era um misto de cientista e aventureiro. Precisou de grande coragem para empreender sua viagem solitária, e relatou com precisão técnica suas descobertas geográficas e de astronomia aplicada à navegação. Principalmente porque, nessa época, os fenícios controlavam o Estreito de Gibraltar e bloqueavam completamente a navegação por ali. Quem tentasse furar o bloqueio tinha grandes chances de ser morto.

Isabel lembra que os fenícios são mencionados no Antigo Testamento, quando Salomão contrata os homens de Hirão, rei de Tiro, para construir seu palácio e depois o Templo. A partir de onde hoje é a Síria, os fenícios avançaram como um furacão rumo a oeste, até a Espanha. Sua maior realização foi Cartago, metrópole comercial entre o mar e o deserto.

Ela menciona as longas guerras entre a Grécia e Cartago, cujo resultado ainda era indefinido quando surgiu Roma e derrotou ambas. As Guerras Púnicas, entre Roma e Cartago, foram predominantemente navais. Enquanto os gregos e os cartagineses tinham grande experiência no mar, a marinha romana era completamente improvisada. Ela diz que “os romanos recuperaram uma embarcação púnica encalhada e o usaram como modelo para construir uma frota, enquanto treinavam as tripulações necessárias em terra, usando bancadas estacionárias dotadas de remos”. Mas tentaram transformar um encontro no mar em algo semelhante a um combate em terra e isso deu certo. Conseguiram sucessivas vitórias contra os cartagineses.

Ela lembra que, no tempo da Invencível Armada, a Espanha dominava os mares e a marinha inglesa era mais fraca e improvisada. Porém, a Inglaterra destruiu a Armada. E compara os romanos com os franceses de Napoleão e o Sul dos Estados Unidos na Guerra Civil, levantando algumas hipóteses para a vitória de Roma e rejeitando-as em seguida.

Sobre a famosa expedição de Aníbal com elefantes cruzando os Alpes rumo a Roma, Isabel considera que a estratégia foi correta. Porém, Aníbal esperava que nações subsidiárias de Roma se rebelassem contra ela e isso não aconteceu. Mas, quando Cipião levou a guerra para a África, aliados tradicionais de Cartago o apoiaram.

Não são as vantagens materiais o que determinou a vitória dos romanos sobre os cartagineses. Os imponderáveis são mais importantes que qualquer fator material. As questões levantadas aqui serão respondidas nos capítulos posteriores.

O Deus da Máquina – I – O Ciclo de Energia no Mundo Clássico

Homenagem às Mulheres

lane_paterson_randEm homenagem a todas as mulheres, apresento a tradução completa do artigo de Jim Powell, Rose Wilder Lane, Isabel Paterson, and Ayn Rand: Three Women Who Inspired the Modern Libertarian Movement, escrito em 1996.

Li esse artigo em março de 2010. Procurei pelos livros e comprei imediatamente The Discovery of Freedom. Fiquei fascinado pelo livro, uma das coisas mais originais que já vi. Baixei da Internet Give Me Liberty e The God of the Machine e li os dois com grande prazer. Credo não estava disponível na Internet. Consegui comprar a edição original em papel, digitei o texto e está publicado, em primeira mão, na Reaçonaria.

Gostaria que mais gente conhecesse as ideias tão originais dessas pensadoras. Traduzi Give Me Liberty com o nome de Quero Liberdade, Credo como Profissão de Fé e esses textos estão no site. O Deus da Máquina está saindo capítulo a capítulo, conforme eu for traduzindo.

Boas leituras!

Três Mulheres que Inspiraram o Movimento Libertário Moderno

Profissão de Fé, de Rose Wilder Lane

Foto da revista original

Foto da revista original

Se procurarmos na Internet por textos de Rose Wilder Lane, vamos saber que ela escreveu, em 1936, um artigo chamado Credo para a revista The Saturday Evening Post. É uma defesa entusiasmada da liberdade individual contra todas as formas de opressão. Esse artigo foi revisado e ampliado por ela em 1944 e publicado em forma de livro, com o título Give Me Liberty. Podemos encontrar algumas cópias do texto, em formatos diferentes, com os dois títulos. Porém, o texto sempre é o de 1944.

Intrigado com isso, entrei em contato com a revista. The Saturday Evening Post foi fundada em 1728, por Benjamin Franklin, e continua existindo. Responderam que o artigo foi publicado na edição de 7 de maio de 1936, mas não dariam mais informações. Procurei essa edição em sebos e achei um que tinha, no Alabama. Enviaram um exemplar em perfeito estado de conservação; uma revista grande, de 112 páginas pouco menores que uma folha A3, cheia de anúncios de carros (Chevrolet, Buick, Pontiac), refrigeradores, rádios (Philco) e outros produtos (Listerine, Aspirina). E com o texto original de Credo, cuja tradução apresento, com notas indicando as diferenças para a versão de 1944. Em português, chamei Credo de Profissão de Fé, e Give Me Liberty de Quero Liberdade.

O texto não mudou muito. Existem pequenas melhorias estilísticas; algumas ambiguidades foram eliminadas e algumas ideias foram expressas de maneira mais completa. O texto foi enriquecido com uma comparação entre os agricultores da Rússia transcaucasiana, onde Rose visitou uma aldeia comunista, e os colonos de Illinois, uma bela declaração baseada na introdução da Declaração de Independência dos Estados Unidos e provocações a Marx. Algumas narrativas são mais detalhadas, especialmente a da caça aos trustes por William Jennings Bryan.

Há diversas histórias novas em Quero Liberdade que eram apenas sugeridas, ou nem isso, em Profissão de Fé. Por exemplo, aquela em que o carro de Rose quebra na Itália, ou a burocracia na compra de um novelo de lã em Paris, por causa de um decreto de Napoleão. A mais marcante é a da batida policial que Rose acompanhou na Hungria.

Um ponto importante é que, em Profissão de Fé, Rose afirma que a liberdade individual é uma ideia que nunca ocorreu a nenhuma civilização antes do surgimento dos Estados Unidos. Em Quero Liberdade, ela reconhece que a ideia existia como princípio religioso dos judeus, cristãos e muçulmanos. Mas ressalta que nunca havia sido um princípio político.

Mais relevante é uma pequena troca de palavras. Em Profissão de Fé, ela se refere algumas vezes à democracia. Em Quero Liberdade, ela sempre diz liberdade individual. Nesse intervalo de oito anos, Rose percebeu que a democracia, sendo o governo da maioria, poderia não ser garantia suficiente para as minorias e que a menor minoria que existe é o indivíduo.

Existem dois trechos de Profissão de Fé que foram suprimidos em Quero Liberdade. São aqueles em que Rose elogiava alguns serviços públicos dos Estados Unidos, especialmente escolas públicas.

O último capítulo de Profissão de Fé, O Hiato que se Fecha, foi bastante ampliado. Ficamos sabendo muito mais sobre a vida da comunidade rural dos Montes Ozark, próxima à fazenda onde Rose morou por longo tempo.

E o último capítulo de Quero Liberdade é completamente novo, conclamando os americanos a deixarem de lado o conformismo e o pessimismo e passarem para a ação, para defenderem sua liberdade ameaçada.

Defendamos a nossa!

Profissão de Fé

Credo