Marcelo Centenaro

@mrcentenaro

O Deus da Máquina, capítulo VIII

Grupo de Dukhobors canadenses, fotografados em 2001.

Grupo de Dukhobors canadenses, fotografados em 2001.

No capítulo 8 de O Deus da Máquina (A Falácia do Anarquismo), Isabel Paterson afirma que somente sociedades primitivas podem funcionar sem governo.

A partir do momento em que uma sociedade chega ao estágio de possuir agricultura ou pecuária, as relações entre seus membros passam a depender do espaço e do tempo. Seus acordos e suas regras precisam funcionar por longos períodos e à distância. Isso não é viável se não existir um governo que garanta o cumprimento desses acordos e dessas regras.

Isabel nega que o governo possa ser baseado na força. Numa tribo, ou em qualquer tipo de sociedade, o mais forte dos homens não é mais poderoso que qualquer pequeno grupo que decida se opor a ele. Não é possível se impor pela força física, somente pela força moral.

O Deus da Máquina, capítulo VII

O Nobre SelvagemNo capítulo VII de O Deus da Máquina (O Nobre Selvagem), Isabel Paterson ressalta o assombro que tomou a Europa quando se descobriu que algumas tribos de índios americanos não tinham governo. Mesmo assim, viviam em relativa paz. Os europeus acreditavam que a ausência de governo representaria fatalmente a guerra de todos contra todos. Se não era assim na América, os índios americanos deveriam ser essencialmente bons. Essa é a origem do mito do Nobre Selvagem.

Para os colonos americanos, o índio era um inimigo presente e cruel. Essa diferença de percepção talvez seja a origem do cisma entre as ideias europeias e americanas. Os americanos, em contato direto com a vida selvagem, não tinham porque idealizá-la. Mas podiam notar que a necessidade de governo era relativa. Como diz Isabel: “Se, em certas condições, o governo pode ser completamente dispensável, por que e até que ponto ele é realmente necessário em qualquer condição?” Os americanos observavam a sociedade de status funcionando na Europa. Viam as sociedades selvagens dos nativos americanos. E viam, principalmente, a sociedade que construíram, na qual pessoas das mais diferentes origens e crenças conviviam em paz e prosperavam num ambiente de grande liberdade. Além de tudo isso, viam a grande aberração da sociedade americana, a escravidão. A maioria dos problemas sociais trazidos da Europa não foi resolvida, simplesmente evaporou.

Os americanos procuraram criar um tipo de governo que permitisse a paz e a liberdade. Sabiam que o governo era um mal necessário, que devia ser mantido tão pequeno quando possível e agir somente quando provocado. Esse governo deveria reconhecer o direito dos indivíduos à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Postularam que a fonte da autoridade secular era o indivíduo.

Nessa visão, o homem não é totalmente nobre nem incorrigivelmente mau. É uma criatura imperfeita, dotada da fagulha divina e, portanto, capaz de progredir. Isso é uma aplicação secular da doutrina cristã do livre-arbítrio, que permite o pecado e o erro, mas possibilita a salvação. Isabel Paterson considera que é impossível reescrever a Declaração de Independência dos Estados Unidos sem a referência à fonte divina dos direitos humanos.

O Deus da Máquina, capítulo VI

VinlandNo sexto capítulo de O Deus da Máquina (Liberdade, Cristianismo e o Novo Mundo), Isabel Paterson nos diz que os europeus sempre imaginaram um lugar feliz a oeste do Oceano Atlântico. Essa tradição começa com Platão e a lenda de Atlântida e passa pelas Ilhas Afortunadas, a Ilha de São Brandão, Avalon, Hy-Brasil e Tir-Nan-Og.

Para que um lugar fosse feliz, era necessário que fosse livre. Os europeus criaram a ideia de um mundo mítico de liberdade e depois foram buscá-lo. Os primeiros a fazer isso foram os vikings. Procurando liberdade, Leif Ericsson chegou à América por volta do ano 1000 e estabeleceu uma colônia, que teve curta duração.

Isabel Paterson mostra que, em grande parte, a expedição de Colombo foi resultado da iniciativa privada. E que a riqueza gerada pela descoberta da América, ao inundar um país rigidamente governado e absolutamente homogêneo, acabou por arruinar o Império Espanhol. A Inglaterra acabou dominando o mundo porque era o país com o governo mais limitado.