Marcelo Centenaro

@mrcentenaro

O direito de expressar indignação

Eu vaiei o Lula no PanDesde a abertura da Copa do Mundo, algumas pessoas vem se pronunciando contra a atitude do público. A presidente Dilma Roussef foi vaiada e xingada repetidas vezes durante o jogo Brasil x Croácia.

Em primeiro lugar, quero dizer que planejava vaiar Dilma do sofá da minha casa, quando ela aparecesse. E vaiar também pelo Twitter e pelo Facebook. Ainda guardo com carinho as camisetas que fiz em 2007, para mim e para minha filha, com a inscrição “Eu vaiei o Lula no Pan”. Foi só pela televisão, mas foi muito bom. Fiquei frustrado porque, na hora em que o locutor anunciou Blatter e Dilma no estádio, todas as emissoras estavam passando comerciais. Depois dizem que “a mídia é golpista e direitista”. Os órgãos de imprensa todos protegem este governo até onde é possível.

As pessoas estão fartas de áulicos. Vemos, por toda parte, gente bajulando o governo. Alguns sendo bem remunerados por isso, com patrocínios do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobras, Correios, BNDES, a lista não tem fim. Até a oposição bajula o governo na maior parte do tempo. De vez em quando, eles se lembram de se opor a alguma coisa. Quando é possível acontecer uma manifestação espontânea, como a da abertura da Copa, isso é uma verdadeira catarse, tanto para quem está lá como para quem gostaria de estar.

Às pessoas que reclamaram da falta de educação, pergunto: Já foram a um estádio de futebol alguma vez na vida? Já assistiram a um jogo pela televisão, que seja? Um estádio não é, de forma alguma, um lugar solene. Não é uma sessão do Congresso, não é um convento. O linguajar usado contra Dilma, rude, grosseiro, é o linguajar típico do ambiente em que ela estava. Quem decidiu trazer a Copa do Mundo para o Brasil e tentou capitalizar eleitoralmente o evento foi o governo do PT. Não deu certo; é hora de enfrentar as conseqüências.

Vi gente perguntando por que não vaiam o Alckmin. Céus! Cada vez que alguém critica o PT, é fatal vir esse coro: “Mas e o PSDB”? Gente, o PSDB resolveu trazer a Copa para o Brasil? Alguém viu o secretário estadual dos Esportes falar sobre a “aproximação da idéia da possibilidade” de os estádios ficarem prontos até dezembro de 2013? O Alckmin, por acaso, ocupou uma cadeia de TV para tentar faturar popularidade com a Copa? Foi ele quem disse que ir ao estádio de Metrô é babaquice e que as pessoas iriam até de jumento?

Pelo contrário. O governo do estado foi firme com a absurda greve do Metrô, conseguiu que tudo funcionasse normalmente no dia do jogo e a PM ainda teve de controlar um grupo de visigodos que tentou interromper a Radial Leste. O povo queria vaiar a Dilma mesmo.

Os piores são os que dizem que a manifestação das arquibancadas é ilegítima porque os torcedores são brancos, são paulistas, têm dinheiro para comprar ingressos. Para esses, paulista não tem liberdade de expressão. Branco não é cidadão. Só quem recebe Bolsa-Família deveria ter o direito de ter opinião, quiçá o de votar. Esse argumento é profundamente autoritário.

O governo federal paga, com o nosso dinheiro, uma rede de blogueiros progressistas e militantes do ambiente virtual (MAV), para inundar a Internet de xingamentos e acusações falsas contra os adversários do petismo. E a presidente vem posar de ofendida e relacionar a atitude da torcida à tortura da ditadura militar. Quem a xingou foi o povo, não os torturadores. E se Dilma foi torturada por uma ditadura, e todas as ditaduras são execráveis, isso aconteceu quando ela tentava implantar no Brasil uma ditadura muito pior.

Estamos cansados de mentiras. Estamos cansados do aparelhamento do Estado. Estamos cansados de ver e baderneiros sendo recebidos no palácio. Temos o direito de expressar nossa indignação. O grito contra Dilma e o PT estava entalado na nossa garganta. Viva a vaia!

viva

Lançamento do Diário de Classe

DSC04925No dia 2 de junho, aconteceu o lançamento em São Paulo do livro de Isadora Faber, Diário de Classe. Antes dos autógrafos, houve um debate com apresentação do jornalista Gilberto Dimenstein e participação de Isadora, do educador Gil Giardelli e do professor de História do Colégio Santa Cruz, Marco Cabral.

Gilberto começou perguntando por que ela resolveu transformar a página do Facebook “nessa coisa careta” que é um livro. Isadora deu a resposta natural de que um livro é algo muito mais duradouro, permanente que uma página de Internet.

Gil Giardelli é o autor do prefácio de Diário de Classe. Ao ler, fiquei incomodado com uma referência meio gratuita ao caso do menor delinqüente que foi preso a um poste com uma tranca de bicicleta. Ele escreveu “A educação nos livra dos grilhões e nos ensina a não amarrar pessoas em postes.” OK e a educação também nos ensina a não cometer crimes. Fiquei mais incomodado ao ouvi-lo dizer, no debate: “Vamos se posicionar” (sic). Sinto uma reação quase física, corporal, quando um educador comete um erro de português. Mas o pior foi quando ele disse, sobre a geração “nem-nem” (nem trabalham, nem estudam), que “a culpa não é deles”. A culpa seria da educação que receberam, ou algo assim.

Não sei nada sobre o Colégio Santa Cruz. Pelo que ouvi no debate, pareceu ser uma escola muito ruim. O professor Marco Cabral disse que o Colégio considera que seu cliente não são os alunos ou seus pais, mas a sociedade como um todo. Eu não colocaria meus filhos em uma escola que considerasse que o cliente dela não somos meus filhos e eu.

Na maior parte do tempo, quem falou foram os três. A senhora que estava ao meu lado na platéia reclamou várias vezes que estava lá para ouvir a Isadora. A autora do Diário é muito simpática, mas também é muito tímida. Gilberto Dimenstein parecia querer constrangê-la, ao invés de tentar deixá-la mais à vontade, por exemplo falando repetidas vezes sobe a timidez dela.

O mais impressionante da história do Diário de Classe não foi o fato de ter começado, mas de ter continuado e chegado até onde chegou. Isadora mostrou que o rei estava nu. E continuou afirmando isso, apesar de toda a pressão, de ameaças, de boletins de ocorrência, de processos judiciais, de pedras jogadas contra sua casa que feriram sua avó. Ela não teve a solidariedade de quase ninguém dentro da Escola Básica Municipal Maria Tomázia Coelho. Comentando exatamente isso, o professor Marco Cabral citava a falta de instrumentos de democracia direta. Falei para a senhora a meu lado que, se houvesse democracia direta por lá, Isadora seria crucificada na quadra.

Uma informação importantíssima é que, segundo Isadora, as coisas estão voltando a ser como eram antes na Escola Básica Municipal Maria Tomázia Coelho, agora que ela se formou no ensino fundamental e mudou de escola. A mãe dela, que foi chamada ao palco, disse que foi a formatura mais comemorada da história da escola. Gilberto Dimenstein perguntou se Isadora preferiria ter estudado em uma escola privada. Ela respondeu que o ensino teria sido melhor, mas ela não teria tido a oportunidade de fazer o que fez e de aprender tudo o que aprendeu.

A Revolta de AtlasAo final, Gilberto convidou as pessoas da platéia a participar do debate. Fiz duas perguntas. Primeiro, se depois de toda essa experiência difícil, de todos os problemas e de toda a falta de apoio, ela não chegava a sentir que a escola pública é simplesmente inviável. Segundo, mencionei a foto que circula na Internet dela com A Revolta de Atlas, de Ayn Rand, nas mãos. Perguntei se ela leu alguma coisa de Ayn Rand e o que achou.

Isadora disse que leu A Revolta de Atlas e gostou. Gilberto pediu que ela falasse mais sobre o livro. Fiquei com a impressão de que ele não fazia idéia de quem é Ayn Rand. Ela só disse que ganhou o livro de um jornalista e que era muito bom. Sobre a escola pública, Isadora fundou uma ONG para apoiá-la. Não, ela não acha que a escola seja inviável.

Um pai, na platéia, contou que tinha filhos numa escola municipal em São Paulo e que a escola substituiu as festas de Dia das Mães e Dia dos Pais por uma festa “da pessoa que cuida de mim”. Ele havia proposto à escola que fizessem uma festa a mais, mas não cancelasse as outras festas, mas a escola não aceitou. Um amigo meu, nessa hora, disse para mim que o cara devia ter lido a história no Reinaldo Azevedo e estava contando como se tivesse acontecido com ele. Então, o pai disse que levou essa reclamação para vários lugares e que o Reinaldo Azevedo publicou a história dele. Queria muito ter conseguido conversar com esse pai. Ele disse que era carteiro e estava cursando graduação em História. Infelizmente, não o vi mais quando saímos do auditório.

A última pergunta do Gilberto para a Isadora foi sobre como ela imagina que será a vida dela daqui a dez anos. Ela respondeu: “Nem sei o que pode acontecer daqui a um ano.” Foi vivamente aplaudida.

AutógrafoConversei um pouco com a mãe da Isadora depois de pegar meu autógrafo. Ela disse que as portas de todas as escolas municipais de Florianópolis estão fechadas para a ONG Isadora Faber. O fato é que o atual prefeito, Cesar Souza Junior, do PSD, quando candidato, usou sem autorização a imagem de Isadora em sua campanha, para atacar a administração anterior. A família de Isadora moveu um processo contra ele.

Como já escrevi antes, independentemente do que Isadora faça daqui para frente, de suas escolhas políticas ou das pessoas a quem ela se associe, admiro muito o que ela fez, sua coragem e determinação. Sua história é a história de um indivíduo lutando contra os abusos de poder das autoridades constituídas, usando como ferramenta apenas sua liberdade de expressão. Eu gostaria de ser Isadora Faber.

Revisado por Maíra Pires @mairamacpires

O Deus da Máquina, capítulo XXI

pba_schoolSe o capítulo anterior é o mais importante e mais famoso, o capítulo XXI de O Deus da Máquina, Nosso Sistema de Educação Niponizado, traz uma discussão de extrema importância para o Brasil de hoje, em que ouvimos propostas para que se gaste 10% do PIB com a educação pública. Isabel Paterson analisa a educação pública nos Estados Unidos (em 1943), critica violentamente a educação “progressista” e compara a filosofia educacional americana com a filosofia educacional japonesa do século 19.

O Deus da Máquina – XXI – Nosso Sistema Educacional Niponizado