Marcelo Centenaro

@mrcentenaro

O Deus da Máquina, capítulo XVII

EstataisNo capítulo 17 de O Deus da Máquina, A Ficção da Propriedade Pública, Isabel Paterson compara a sociedade de economia livre às sociedades coletivistas.

Ela afirma que não existe propriedade pública, apenas propriedade governamental. Se algo pertence ao governo, não significa que pertença “ao povo”. Nenhuma pessoa do povo pode se utilizar de uma suposta propriedade pública como se fosse o dono. Se a propriedade pública é uma estrada, por exemplo, o povo terá o direito de usá-la passando por ela. Mas, em primeiro lugar, ninguém pode se fixar na estrada. Segundo, se todas as pessoas tentarem usar a estrada ao mesmo tempo, isso não será possível. Se a propriedade pública é uma usina hidrelétrica, as pessoas só podem usar a eletricidade produzida se pagarem a conta de luz. Quem não usa nenhuma eletricidade também ajuda a sustentar a usina, com o que paga de impostos. Se a usina der lucro, esse lucro não será dividido entre os cidadãos. E nenhum cidadão, supostamente dono de uma fração da usina, pode entrar nela quando quiser, ou vender sua parte.

Os coletivistas usam a palavra “direito”, assim como muitas outras, com o objetivo de confundir. Falam em direitos civis numa sociedade coletiva, quando essa sociedade necessariamente abole todos os direitos civis. Não pode existir nela nenhum lugar onde os direitos podem ser exercidos, nem materiais que possam ser usados para exercer esses direitos. Isso só é possível com a propriedade privada. Ninguém pode exercer o direito à liberdade de expressão, de crença ou de associação, porque ninguém possui meios materiais para exercer esses direitos. Tudo o que os membros da sociedade coletiva fazem é por ordem ou por permissão. Sua situação é idêntica à de um escravo.

Os inimigos da propriedade privada afirmam que um desempregado é alguém cujo “direito ao trabalho” foi negado. O que é esse direito ao trabalho? Os meios de produção de uma economia industrial não estão prontos na natureza. Para que alguém trabalhe, é necessário que existam ferramentas, capital e uma economia organizada para o comércio e a distribuição dos bens produzidos. Se uma fábrica ociosa, com estoque de matéria-prima, fosse entregue a trabalhadores desempregados, a continuidade da produção dependeria da venda das mercadorias com lucro. Nessa situação, os trabalhadores conseguiriam apenas usar todo o estoque e parar a produção.

O desempregado está nessa condição por não ter acesso à terra? Na Europa, em tempos modernos, todas as terras tinham dono. Mas, nos Estados Unidos, sempre houve terras selvagens. Mesmo assim, nos tempos difíceis, os desempregados não migraram para as terras selvagens. Pelo contrário, buscaram empregos assalariados em cidades e regiões industriais.

Portanto, o desempregado não perdeu seus direitos naturais e não está em uma situação de privação maior do que estaria no estado de natureza. É livre para buscar o que precisa, mas, naquele momento, o que busca é escasso, difícil de encontrar. O que falta não são meios de produção, é uma conexão ao mercado.

O principal ponto da acusação coletivista é que a economia de mercado não é infalível. Então, o coletivista promete um sistema ideal, infalível, perfeito. E o que ele entrega é um sistema em que as pessoas perdem todos os seus direitos em troca de absolutamente nada. Se o governo é o único empregador e o dono de tudo, todos têm de pedir emprego ao governo e precisam de permissão para tudo sempre, dia após dia, hora após hora. Se é verdade que, com a propriedade privada, algumas pessoas num dado momento ficam em desvantagem quando procuram emprego, com o coletivismo, todos ficam nessa condição.

Bibliotecas paulistanas perguntam a cor da pele dos leitores

Costumo levar meus filhos à biblioteca municipal do bairro, mas fazia alguns meses que não íamos lá. Voltamos a visitá-la recentemente.

Existe um formulário que todos os leitores preenchem na entrada, informando nome, faixa de idade, escolaridade, bairro em que moram. Agora, mais duas informações são solicitadas: profissão e “raça”.

Comunicado aos usuários da biblioteca

Escrevo “raça” entre aspas porque não existem raças de pessoas. Quem tem raça é cachorro, cavalo, boi. E as raças animais são o resultado do trabalho humano, que as produziu por meio da seleção artificial de espécimes e cruzamentos sucessivos. Os seres humanos são misturados, felizmente.

O que a biblioteca chama de “raça” é a cor da pele. As opções são: Amarela, Branca, Indígena, Parda, Preta e Não Declarada.

Pelo menos, existe a Não Declarada. Quando o Censo passou em minha casa em 2010, essa alternativa não existia. Disse que me recusava a responder. O entrevistador disse que tinha que marcar alguma coisa. Respondi que então somos todos pardos.

Não sei qual é a intenção da Secretaria Municipal de Cultura em levantar essa informação. Não consigo imaginar utilidade para ela. Não acho que seja saudável classificar as pessoas pela cor da pele, seja na biblioteca ou em qualquer outro lugar. Existe racismo na nossa sociedade e o racismo deve ser combatido. A única forma que vejo para acabar com o racismo é convencer as pessoas de que as “raças” são uma ficção, sem base na realidade, e que todas as pessoas, independentemente da cor da sua pele, pertencem à raça humana. A iniciativa da Secretaria vai no sentido contrário.

Minha resposta está aqui:

2014-02-01 15.15.08

Estou preparando algumas respostas para as próximas vezes:
– Perguntem ao Conde de Gobineau.
– Perguntem a Josef Mengele.
– “Sonho com um mundo em que meus filhos sejam julgados por seu caráter, não pela cor de sua pele.” Martin Luther King Jr.
– Klingon, hobbit, paulama.

Aceito sugestões para outras respostas.

Década Perdida, um saudável exercício de masoquismo

Década Perdida 3

De alguns fatos, tenho uma lembrança muito vívida. De outros, já havia esquecido e o livro me fez relembrar. Em praticamente todos, uma certa alegria por reviver cada sofrimento.

Em primeiro lugar, a decepção. Não votei em Lula em 2002, mas acreditava que ele pudesse fazer um bom governo. Começaram as bobagens do Fome Zero, mas eu pensava que qualquer governo pode fazer um pouco de jogo de cena, por bons propósitos. O PT tenta algumas reformas, a oposição vota a favor e a base aliada vota contra. OK, era assim no governo Erundina em São Paulo.

O divisor de águas, para mim, foi o caso do INCA, o Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro, no segundo semestre de 2003. O órgão foi loteado politicamente e o atendimento praticamente entrou em colapso. A partir daí, passei a me considerar em oposição ao governo.

E vamos lembrando, por exemplo, da vergonha alheia sentida quando Lula visitou a Namíbia e disse que a capital do país nem parecia uma cidade africana, era bonita e limpa. Vem o escândalo de Waldomiro Diniz, uma prévia do que seria o Mensalão. A tentativa de Lula de expulsar do país o repórter americano que escreveu que o presidente abusava da bebida. A tentativa de amordaçar a imprensa, com o famigerado Conselho Federal de Jornalismo.

Chegamos a 2005 com o Mensalão ocupando toda a atenção do país. Revejo José Genoino chorando no Roda Viva, ao dizer que os empréstimos ao PT eram legítimos. Lembro de que eu ia encontrar minha esposa para uma consulta pré-natal quando ouvi a notícia de que José Dirceu tinha deixado de ser ministro. O depoimento de Duda Mendonça, quando pareceu que o governo e o PT iam acabar. E a imensa, imperdoável, incompreensível pusilanimidade da oposição, que resolveu deixar para lá e esperar a eleição de 2006.

José Serra tinha nessa ocasião muito mais votos que Lula. Mas o esporte predileto da oposição sempre foi se autodestruir. Alckmin é o candidato. Acontece o escândalo dos aloprados. A oposição não sabe o que fazer e Alckmin aparece com aquela roupa ridícula, cheia de logotipos de estatais. Lula é reeleito.

Revivemos os escândalos de Renan Calheiros e José Sarney, Marta Suplicy, Ministra do Turismo, dizendo “Relaxa e goza” para os turistas que enfrentam dificuldades no Brasil. O caos aéreo de 2007 e o trágico acidente da TAM, em 17 de julho. Um amigo meu não pegou aquele voo porque se atrasou. Um funcionário da empresa em que trabalho esteve no prédio da TAM pouco antes de o avião colidir com ele. Um dos atos mais covardes e odiosos foi a repatriação forçada dos boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que tentaram desertar da delegação dos Jogos Panamericanos.

Temos então o surgimento de Dilma Roussef como candidata, o poste de Lula, a “mãe do PAC”, seja lá o que isso signifique. E mais escândalos envolvendo Erenice Guerra. Mais brigas internas da oposição. Dilma, que mal sabe falar, é eleita com alguma facilidade. Temos aquele período em que caía um ministro por mês, quase todos por corrupção. E a imprensa e a oposição poupando o governo de si mesmo, evitando criticar os problemas com medo da popularidade da soberana.

Em 2012, temos pelo menos uma boa notícia, mesmo que incompleta, o julgamento do Mensalão.

Na conclusão, Marco Antonio Villa escreve:

“Não será tarefa fácil retirar o PT do poder. Foi criado um sólido bloco de sustentação que — enquanto a economia permitir — satisfaz o topo e a base da pirâmide. Na base, com os programas assistenciais que petrificam a miséria, mas garantem apoio político e algum tipo de satisfação econômica aos que vivem na pobreza absoluta. No topo, atendendo ao grande capital, com uma política de cofres abertos, em que tudo pode, bastando ser amigo do rei.”

Lembrar cada um desses fatos é necessário. Precisamos trabalhar para que, em 2023, Marco Antonio Villa não tenha de escrever “Outra Década Perdida”.