Marcelo Centenaro

@mrcentenaro

Dia Internacional da Lembrança do Holocausto

Arbeit-macht-frei

Entrada de Auschwitz I

Há 70 anos, o Exército Vermelho chegava ao campo de extermínio de Auschwitz. Os nazistas já haviam fugido. Encontraram cerca de 7500 prisioneiros vivos e 600 corpos deixados para trás. Não é possível saber quantas pessoas morreram lá, mas as estimativas mais modestas passam de um milhão e meio.

Mortes de judeus no Holocausto

Proporção de judeus assassinados nas diferentes regiões da Europa

As principais vítimas do Holocausto foram os judeus, com 80 a 90% das mortes. Mas também foram massacrados eslavos não-judeus, especialmente poloneses, ciganos, prisioneiros de guerra soviéticos, deficientes físicos e mentais, doentes mentais, homossexuais, maçons, testemunhas de Jeová e combatentes republicanos da Guerra Civil Espanhola. É um evento único na história da Humanidade. Um governo decidiu que determinado grupo de pessoas devia ser completamente aniquilado, incluindo velhos, mulheres, crianças e bebês. Qualquer pessoa que tivesse três ou quatro avós judeus teria de ser exterminada, sem exceções.

Em maior ou menor proporção, o genocídio foi perpetrado em toda a área subjugada pela Alemanha, que hoje pertence a 35 países diferentes. Uma exceção notável é a Dinamarca. É o único caso entre os países da Europa, ocupados, parceiros do Eixo ou neutros, em que os nazistas encontraram uma resistência pacífica determinada e ativa contra sua política de extermínio. Segundo Hannah Arendt, em seu excelente livro Eichmann em Jerusalém, quando os alemães tentaram propor que os judeus da Dinamarca usassem a infame estrela amarela, os dinamarqueses responderam que o Rei seria o primeiro a usá-la e que todos os cidadãos também a usariam. Os funcionários públicos disseram que qualquer medida contra os judeus causaria a imediata renúncia de todos eles. Quando os alemães exigiram que os judeus de origem alemã, declarados apátridas, fossem entregues a eles, os dinamarqueses responderam que, ao declará-los apátridas, a Alemanha tinha renunciado a qualquer jurisdição sobre eles. Muito poucos judeus na Dinamarca foram mortos. Os dinamarqueses provaram que é possível resistir contra a opressão.

A estrela amarela

A estrela amarela

Não podemos nos esquecer das inúmeras pessoas que arriscaram a vida para salvar pessoas ameaçadas. A lista é imensa, vou mencionar só quatro. A enfermeira polonesa Irena Sendler tirou cerca de 2.500 crianças do Gueto de Varsóvia. O britânico Nicholas Winton organizou o resgate de 669 crianças da Tchecoeslováquia ocupada. Luis Martins de Souza Dantas, embaixador do Brasil na França, concedeu vistos irregulares a centenas de pessoas perseguidas para que entrassem no Brasil. Foi punido pelo Governo Vargas por isso. Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa era chefe da Seção de Passaportes do Consulado brasileiro em Hamburgo. Seu futuro marido, o escritor João Guimarães Rosa, era o Cônsul. Em 1938, o governo Vargas emitiu a circular secreta 1127, que restringia a entrada de judeus no país. Aracy ignorou a circular e emitia vistos sem identificar quem era judeu. João Guimarães Rosa apoiou e incentivou esse trabalho. Todos os heróis que participaram desse esforço merecem meu mais profundo respeito e admiração.

Elsa-Cayat

Elsa Cayat

Hoje, os judeus continuam sendo perseguidos. Elsa Cayat, única mulher vítima do ataque contra o Charlie Hebdo, foi alvejada porque era judia. Muitos judeus estão deixando a Europa, por medo do terrorismo islâmico. Diversas universidades no Reino Unido e nos Estados Unidos têm feito boicotes contra Israel. Neste vídeo, alunos da Universidade de Berkeley, na Califórnia, aceitam tranqüilamente que se agite uma bandeira do Estado Islâmico no campus e reagem com insultos contra uma bandeira de Israel.

Neste 27 de janeiro, uma grande celebração acontece em Auschwitz, para lembrar desse capítulo torpe da nossa história. Contará com as notáveis ausências de Barack Obama e de Vladimir Putin.

O Holocausto toca a cada um de nós. Cada vítima dessa tragédia nos diminui. É nossa responsabilidade defender a liberdade e os direitos individuais. Não nos esqueçamos disso.

Revisado por Maíra Pires @mairamacpires

Tripudiando sobre o cadáver de Josef Mengele

TripudiandoEm 2012, Diogo Mainardi publicou A Queda – As memórias de um pai em 424 passos. Narra o nascimento de seu filho Tito, com paralisia cerebral devido a um erro médico. É um livro muito forte, que li de uma tacada. Na ocasião, escrevi este post.

(Aproveito para recomendar o site de Diogo Mainardi e Mario Sabino, O Antagonista. As poucas linhas que eles escrevem diariamente valem mais que todo o conteúdo da Folha de S.Paulo, do Estadão e da Globo juntos.)

Vou reproduzir um capítulo em que Diogo trata de Josef Mengele.

119

Agora estamos na praia da Enseada, em Bertioga.

Em 7 de fevereiro de 1979, entrando no mar, na praia da Enseada, Josef Mengele teve um derrame cerebral e morreu.

Vim até aqui, com meus filhos Tito e Nico, seguindo o rastro de Josef Mengele. Quero entrar no mar em que ele morreu. Quero tripudiar sobre seu cadáver. Quero comemorar o valor da vida de um filho inválido.

Sou o Simon Wiesenthal da paralisia cerebral.

Josef Mengele está morto. Tito está vivo.

Josef_Mengele

Josef Mengele, pouco antes do final da Segunda Guerra Mundial.

O médico nazista Josef Mengele trabalhou no campo de concentração de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial. Selecionava quem deveria ir para a câmara de gás e quem seria poupado. Fez diversas experiências dolorosas e cruéis com seres humanos, especialmente com gêmeos, pessoas com um olho de cor diferente do outro e anões.

Mengele amputava membros desnecessariamente. Inoculava doenças em um gêmeo para observar sua evolução e, quando o paciente morria, matava o outro irmão e dissecava os dois para comparar. Injetava substâncias químicas nos olhos de suas vítimas para tentar alterar sua cor. Expunha pessoas a drogas diversas e a raios X. Em um experimento mencionado por Diogo Mainardi, costurou duas crianças ciganas uma na outra. Elas morreram de gangrena depois de vários dias de sofrimento.

Depois da derrota da Alemanha, fugiu para a Argentina. Em 1960, outro criminoso de guerra nazista, Adolf Eichmann, foi seqüestrado na Argentina pelo Mossad, o serviço secreto israelense. Foi levado a Israel, julgado, condenado à morte e enforcado. Mengele fugiu então para o Brasil, onde viveu o restante de sua vida. Em 1985, autoridades alemãs descobriram que Mengele havia morrido em Bertioga e estava enterrado em Embu das Artes. Um exame de DNA, feito em 1992, constatou que o corpo era dele mesmo. Sua família não quis receber seus restos mortais. Ele permanece insepulto, no Instituto Médico Legal de São Paulo.

Em 7 de janeiro de 2015, o mesmo dia do atentado contra o Charlie Hebdo em Paris, tive a oportunidade de também levar meus filhos a Bertioga. Vimos um monumento aos pracinhas da FEB, perto da praia. Depois, fomos até a Enseada, para também tripudiarmos sobre o cadáver daquele assassino abjeto. Minha filha, uma amiga dela e eu pisoteamos a areia para lembrar das vítimas do nazismo. Meu filho não quis participar.

Josef Mengele está morto. Meus filhos estão vivos.

20150107_162705

Revisado por Maíra Pires @mairamacpires

Imagens de autoritarismo no Congresso Nacional

1.

Deputada Mara Gabrilli sendo entrevistada na Câmara dos Deputados, em 02/12/2014, na preparação das atividade do Dia da Acessibilidade. A Deputada, que é cadeirante, protestou contra a arbitrariedade da Mesa.

Deputada Mara Gabrilli sendo entrevistada na Câmara dos Deputados, em 02/12/2014, na preparação das atividade do Dia da Acessibilidade. A Deputada, que é cadeirante, protestou contra a arbitrariedade da Mesa.

3 de dezembro é o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. Para comemorar essa data, a Câmara dos Deputados se propôs a realizar o Dia da Acessibilidade. Seria realizada uma cerimônia no Espaço do Servidor (Anexo 2), às 15h, em que a Câmara apresentaria os produtos e serviços implantados para torná-la cada vez mais acessível aos públicos interno e externo.

Apresentaria, porque nada disso aconteceu. Mais de 1000 pessoas portadoras de deficiência foram simplesmente impedidas de ter acesso ao Congresso Nacional. O governo, com medo da presença do povo na sessão que discutiu o ilegal e imoral PLN 36/2014, que promove a maquiagem das contas públicas da União, impediu que os visitantes adentrassem o prédio.

Não houve acessibilidade nem para cadeirantes, nem para caminhantes. Houve apenas o autoritarismo arreganhando seus dentes.

2.

Lobão, barrado na entrada do Congresso Nacional

Lobão, barrado na entrada do Congresso Nacional

O governo deu uma grande demonstração de sua natureza autoritária. O povo foi impedido de entrar no Congresso Nacional, que é a casa do povo.

Uma das pessoas que esteve lá foi João Luiz Woerdenbag Filho, o Lobão. Tentou entrar como os outros brasileiros que pretendiam protestar contra a maquiagem imoral e ilegal das contas públicas da União.

Ofereceram acesso a ele, com a condição de que ninguém mais entrasse. Chegaram a anunciar no plenário que ele entraria. Nesse momento, aqueles parlamentares que protestaram contra as vaias das galerias vaiaram Lobão. Ele recusou a proposta. Só concordaria com o acesso de todos.

Saiu dali, foi à Procuradoria Geral da República e ao Supremo Tribunal Federal e impetrou um Habeas Corpus solicitando acesso ao prédio do Congresso Nacional. Depois, voltou para lá e se encontrou com líderes da oposição. O autoritarismo do governo precisa ser denunciado, exposto, evidenciado. Lobão é um brasileiro admirável. Lobão está fazendo sua parte. Lobão me representa.

De vez em quando, vejo gente cobrando de Lobão se ele não vai sair do país, como disse que faria se o PT vencesse as eleições. Costumo perguntar a essas pessoas se elas defendem o “Brasil, ame-o ou deixe-o” da ditadura militar. Não é necessário dizer que cada um livre para decidir o que fazer de sua vida, sair de seu país ou ficar nele, mudar de idéia, ter atuação política ou não. Pelo menos, por enquanto.

Mas quero agradecer ao Lobão por ter decidido ficar e lutar. Lobão está defendendo nossa liberdade. E nós?

3.

462398-970x600-1

Quero fazer uma homenagem a uma pessoa muito especial: D. Ruth Gomes de Sá. D. Ruth é aposentada, tem 79 anos. Poderia estar em casa, cuidando dos netos ou das plantas, lendo Shakespeare ou Augusto Cury, assistindo à Sessão da Tarde, fazendo crochê ou jogando Candy Crush. Mas D. Ruth foi ao Congresso Nacional defender nossa liberdade.

Ela costuma ir ao Legislativo, assistir sessões parlamentares e defender suas opiniões políticas. Ficou revoltada com a maquiagem das contas públicas realizada pelo PLN 36/2014 e foi protestar no dia 2. Quando o Senador Renan Calheiros mandou esvaziar as galerias, com o pretexto de que a Deputada Vanessa Grazziotin teria sido desrespeitada pelo público, muitas pessoas se recusaram a sair. Uma delas foi D. Ruth. Foi abordada pelos policiais legislativos que lhe ordenaram que se retirasse. Respondeu: “Não saio!”

D. Ruth levou uma gravata e foi arrastada por vários metros. Foi solta porque um deputado interferiu. Voltou-se contra seu agressor e tentou dar um tapa nele.

Saindo do prédio, D. Ruth não foi para casa. Dirigiu-se à 5ª Delegacia de Polícia e prestou queixa. No dia seguinte, estava novamente na porta do Congresso para expressar sua revolta.

Obrigado, D. Ruth, por defender minha liberdade. O Brasil precisa de mais pessoas como a senhora.

P. S.: D. Ruth me lembrou deste texto: Um Discurso Inaugural, de Joseph Brodsky. Leiam.

Revisado por Maíra Pires @mairamacpires