Marcelo Centenaro

@mrcentenaro

Tripudiando sobre o cadáver de Josef Mengele

TripudiandoEm 2012, Diogo Mainardi publicou A Queda – As memórias de um pai em 424 passos. Narra o nascimento de seu filho Tito, com paralisia cerebral devido a um erro médico. É um livro muito forte, que li de uma tacada. Na ocasião, escrevi este post.

(Aproveito para recomendar o site de Diogo Mainardi e Mario Sabino, O Antagonista. As poucas linhas que eles escrevem diariamente valem mais que todo o conteúdo da Folha de S.Paulo, do Estadão e da Globo juntos.)

Vou reproduzir um capítulo em que Diogo trata de Josef Mengele.

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Agora estamos na praia da Enseada, em Bertioga.

Em 7 de fevereiro de 1979, entrando no mar, na praia da Enseada, Josef Mengele teve um derrame cerebral e morreu.

Vim até aqui, com meus filhos Tito e Nico, seguindo o rastro de Josef Mengele. Quero entrar no mar em que ele morreu. Quero tripudiar sobre seu cadáver. Quero comemorar o valor da vida de um filho inválido.

Sou o Simon Wiesenthal da paralisia cerebral.

Josef Mengele está morto. Tito está vivo.

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Josef Mengele, pouco antes do final da Segunda Guerra Mundial.

O médico nazista Josef Mengele trabalhou no campo de concentração de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial. Selecionava quem deveria ir para a câmara de gás e quem seria poupado. Fez diversas experiências dolorosas e cruéis com seres humanos, especialmente com gêmeos, pessoas com um olho de cor diferente do outro e anões.

Mengele amputava membros desnecessariamente. Inoculava doenças em um gêmeo para observar sua evolução e, quando o paciente morria, matava o outro irmão e dissecava os dois para comparar. Injetava substâncias químicas nos olhos de suas vítimas para tentar alterar sua cor. Expunha pessoas a drogas diversas e a raios X. Em um experimento mencionado por Diogo Mainardi, costurou duas crianças ciganas uma na outra. Elas morreram de gangrena depois de vários dias de sofrimento.

Depois da derrota da Alemanha, fugiu para a Argentina. Em 1960, outro criminoso de guerra nazista, Adolf Eichmann, foi seqüestrado na Argentina pelo Mossad, o serviço secreto israelense. Foi levado a Israel, julgado, condenado à morte e enforcado. Mengele fugiu então para o Brasil, onde viveu o restante de sua vida. Em 1985, autoridades alemãs descobriram que Mengele havia morrido em Bertioga e estava enterrado em Embu das Artes. Um exame de DNA, feito em 1992, constatou que o corpo era dele mesmo. Sua família não quis receber seus restos mortais. Ele permanece insepulto, no Instituto Médico Legal de São Paulo.

Em 7 de janeiro de 2015, o mesmo dia do atentado contra o Charlie Hebdo em Paris, tive a oportunidade de também levar meus filhos a Bertioga. Vimos um monumento aos pracinhas da FEB, perto da praia. Depois, fomos até a Enseada, para também tripudiarmos sobre o cadáver daquele assassino abjeto. Minha filha, uma amiga dela e eu pisoteamos a areia para lembrar das vítimas do nazismo. Meu filho não quis participar.

Josef Mengele está morto. Meus filhos estão vivos.

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Revisado por Maíra Pires @mairamacpires

Imagens de autoritarismo no Congresso Nacional

1.

Deputada Mara Gabrilli sendo entrevistada na Câmara dos Deputados, em 02/12/2014, na preparação das atividade do Dia da Acessibilidade. A Deputada, que é cadeirante, protestou contra a arbitrariedade da Mesa.

Deputada Mara Gabrilli sendo entrevistada na Câmara dos Deputados, em 02/12/2014, na preparação das atividade do Dia da Acessibilidade. A Deputada, que é cadeirante, protestou contra a arbitrariedade da Mesa.

3 de dezembro é o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. Para comemorar essa data, a Câmara dos Deputados se propôs a realizar o Dia da Acessibilidade. Seria realizada uma cerimônia no Espaço do Servidor (Anexo 2), às 15h, em que a Câmara apresentaria os produtos e serviços implantados para torná-la cada vez mais acessível aos públicos interno e externo.

Apresentaria, porque nada disso aconteceu. Mais de 1000 pessoas portadoras de deficiência foram simplesmente impedidas de ter acesso ao Congresso Nacional. O governo, com medo da presença do povo na sessão que discutiu o ilegal e imoral PLN 36/2014, que promove a maquiagem das contas públicas da União, impediu que os visitantes adentrassem o prédio.

Não houve acessibilidade nem para cadeirantes, nem para caminhantes. Houve apenas o autoritarismo arreganhando seus dentes.

2.

Lobão, barrado na entrada do Congresso Nacional

Lobão, barrado na entrada do Congresso Nacional

O governo deu uma grande demonstração de sua natureza autoritária. O povo foi impedido de entrar no Congresso Nacional, que é a casa do povo.

Uma das pessoas que esteve lá foi João Luiz Woerdenbag Filho, o Lobão. Tentou entrar como os outros brasileiros que pretendiam protestar contra a maquiagem imoral e ilegal das contas públicas da União.

Ofereceram acesso a ele, com a condição de que ninguém mais entrasse. Chegaram a anunciar no plenário que ele entraria. Nesse momento, aqueles parlamentares que protestaram contra as vaias das galerias vaiaram Lobão. Ele recusou a proposta. Só concordaria com o acesso de todos.

Saiu dali, foi à Procuradoria Geral da República e ao Supremo Tribunal Federal e impetrou um Habeas Corpus solicitando acesso ao prédio do Congresso Nacional. Depois, voltou para lá e se encontrou com líderes da oposição. O autoritarismo do governo precisa ser denunciado, exposto, evidenciado. Lobão é um brasileiro admirável. Lobão está fazendo sua parte. Lobão me representa.

De vez em quando, vejo gente cobrando de Lobão se ele não vai sair do país, como disse que faria se o PT vencesse as eleições. Costumo perguntar a essas pessoas se elas defendem o “Brasil, ame-o ou deixe-o” da ditadura militar. Não é necessário dizer que cada um livre para decidir o que fazer de sua vida, sair de seu país ou ficar nele, mudar de idéia, ter atuação política ou não. Pelo menos, por enquanto.

Mas quero agradecer ao Lobão por ter decidido ficar e lutar. Lobão está defendendo nossa liberdade. E nós?

3.

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Quero fazer uma homenagem a uma pessoa muito especial: D. Ruth Gomes de Sá. D. Ruth é aposentada, tem 79 anos. Poderia estar em casa, cuidando dos netos ou das plantas, lendo Shakespeare ou Augusto Cury, assistindo à Sessão da Tarde, fazendo crochê ou jogando Candy Crush. Mas D. Ruth foi ao Congresso Nacional defender nossa liberdade.

Ela costuma ir ao Legislativo, assistir sessões parlamentares e defender suas opiniões políticas. Ficou revoltada com a maquiagem das contas públicas realizada pelo PLN 36/2014 e foi protestar no dia 2. Quando o Senador Renan Calheiros mandou esvaziar as galerias, com o pretexto de que a Deputada Vanessa Grazziotin teria sido desrespeitada pelo público, muitas pessoas se recusaram a sair. Uma delas foi D. Ruth. Foi abordada pelos policiais legislativos que lhe ordenaram que se retirasse. Respondeu: “Não saio!”

D. Ruth levou uma gravata e foi arrastada por vários metros. Foi solta porque um deputado interferiu. Voltou-se contra seu agressor e tentou dar um tapa nele.

Saindo do prédio, D. Ruth não foi para casa. Dirigiu-se à 5ª Delegacia de Polícia e prestou queixa. No dia seguinte, estava novamente na porta do Congresso para expressar sua revolta.

Obrigado, D. Ruth, por defender minha liberdade. O Brasil precisa de mais pessoas como a senhora.

P. S.: D. Ruth me lembrou deste texto: Um Discurso Inaugural, de Joseph Brodsky. Leiam.

Revisado por Maíra Pires @mairamacpires

Cenas de um lançamento

ObjeçõesEstive nesta segunda-feira no lançamento de Objeções de um Rottweiler Amoroso, de Reinaldo Azevedo, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. É o quinto lançamento de um livro dele a que eu compareço. Cada um mais lotado que o anterior.

A Cultura poderia ter organizado melhor o evento. Cheguei cedo e fui direto ao caixa, onde havia uma fila razoável. Quando finalmente fui atendido, descobri que a fila era para comprar outro livro que também estava sendo lançado, Por uma vida mais doce, de Danielle Noce. Os do Reinaldo estavam só no último andar. Lá em cima, uma fila maior, que andava menos e só um caixa aberto. Atrás de mim, dois sujeitos conversando. Um deles com uma camiseta de Zumbi. Falavam de Markus Sokol, O Trabalho, MPL e a maldade das elites. Foi uma longa espera.

Comprei meus livros e fui para o fim da fila dos autógrafos, que descia a escada, saía pelos fundos da livraria e terminava no começo da rampa. Ocupei meu lugar e vi a fila crescer descendo a rampa inteira e sair pela Alameda Santos afora. Pessoas muito diferentes entre si, de idades diversas, falando de assuntos diversos, fazendo novas amizades. Também fiz alguns novos amigos lá.

Então, começamos a andar e, lentamente, subimos a escada. Chegando de volta ao último andar, vi o Tutinha, da Jovem Pan, fotografando a gente. Um sujeito de fala mole estava falando com ele, dizendo que achava o título do livro muito agressivo. Eu disse que o título era uma resposta à agressão que o Reinaldo sofreu. Ele falou que se espantava de que tanta gente viesse procurar um autógrafo do autor de um livro que não tinham lido. Respondi que já li os textos do livro. Saem na Folha há um ano, caramba! Ele veio com aquela conversinha de perguntar se o Reinaldo atacava só o governo ou também tinha criticado Aécio Neves e foi citando denúncias com aquela fala mole, que não consegui entender. Antes que eu pudesse responder, ele disse que achava aquele clima parecido com o da Alemanha de 1939. Falei que não dava para conversar com alguém que quer me ofender, que não admito ser chamado de nazista. Ele pediu desculpas, mas não me deixou responder mais nada. Meus amigos acharam que o sujeito estava bêbado.

Cheguei então à mesa, onde Reinaldo, sempre muito simpático, autografou meus onze livros. Nessa hora, Marco Antonio Villa chegou para lhe dar um abraço. Falei que era uma pena eu não ter levado Ditadura à Brasileira para pegar um autógrafo. Ele disse que estará na Cultura da Paulista na segunda, 1º de dezembro, para lançar Um País Partido: 2014 – A Eleição Mais Suja da História.

Me despedi do Reinaldo e do Villa e desci seguindo a fila, para procurar alguns amigos. Estavam ainda na calçada da Alameda Santos. Não cheguei a ver onde a fila terminava. Conversei um pouco com eles e vim embora.

No dia seguinte, entreguei os livros que os colegas de trabalho tinham encomendado. Mas fiquei surpreso com dois colegas que não tinham pedido o livro. Um era filiado ao PT até não muito tempo atrás (como o Reinaldo também foi, ele me diz). Hoje, ouve Os Pingos nos Is e pegou um livro para dar uma olhada. O outro costuma ir trabalhar usando uma camiseta com a bandeira de Cuba e me convidou uma vez a assinar um abaixo-assinado pelo financiamento público de campanha. Mas começou recentemente a ouvir o Reinaldo no rádio. Ficou interessadíssimo no livro e vai comprar um para ele.

A cada dia, mais pessoas estão descobrindo a importância de defender a liberdade.

Revisado por Maíra Pires @mairamacpires