Marcelo Centenaro

@mrcentenaro

O massacre de Sutherland Spring e a censura do Facebook: entrevista com Paulo Figueiredo Filho

À esquerda, Johnnie Langendorff. À direita, Stephen Willeford.

Paulo Figueiredo Filho fez uma postagem no Facebook sobre o massacre de Sutherland Spring, com várias informações que a imprensa omitiu ou distorceu. Por causa do texto, foi bloqueado por sete dias.

Reproduzimos abaixo as informações da postagem. Segue nossa conversa com ele.

Reaçonaria: Você foi bloqueado pelo Facebook por uma postagem sobre o ataque a uma igreja batista de Sutherland Spring, Texas. O Facebook deu alguma justificativa? Como você foi informado do bloqueio?

Paulo Figueiredo Filho: Não tive justificativa. Apenas soube que minha postagem “violava as regras da comunidade” ao entrar normalmente no meu perfil.

Reaçonaria: Em que isso atrapalhou você? Você pensa em alternativas às redes sociais que não curtem liberdade de expressão?

Paulo Figueiredo Filho

Paulo: As redes sociais acabam entrando na nossa rotina. Hoje tem cerca de 30 mil pessoas que interagem comigo através delas e, naturalmente, é inconveniente ser silenciado de forma unilateral. Mas o que causa certa revolta e repugnância é o motivo do bloqueio.

Sobre as alternativas, é muito difícil hoje fugir do Facebook. O Twitter e o Facebook não funcionam como um simples fórum para a discussão política. São mais como um “clube” onde as pessoas encontram seus amigos e familiares para contar piada, mostrar fotos, falar do cotidiano e — eventualmente — discutem política também. É por isso que as redes se tornaram tão relevantes. Só que isto ajudou a romper a espiral do silêncio imposta pela ideologia de esquerda compartilhada por 90% da grande mídia, que é a mesma do vale do silício. Idéias de “direita” passaram a ter um canal e, naturalmente, a turma da Califórnia não está feliz com isto.

A única maneira, portanto, de criar redes “alternativas” é se as pessoas comuns tiverem outros interesses nessas redes alternativas e migrarem para elas. Ou, se as pessoas perceberem que aquela rede não é de fato mais um espaço livre. Fora isto, o Alexandre Borges tem feito um serviço inteligente de “boletim diário” de áudios por WhatsApp. É uma gambiarra, mas ajuda quando você está sendo constantemente censurado. Na verdade, é inacreditável que não exista ainda um portal ágil que compartilhe os artigos/comentários do pessoal mais conhecido da direita no Brasil.

Reaçonaria: Há alguma inverdade ou afirmação questionável no seu texto?

Paulo: Não sei. Podem questionar à vontade. Eu canso de responder a questionamentos nos meus comentários. Este post já passava de 6 mil curtidas e centenas de comentários, vários dos quais eu respondi com prazer. Mas entre questionar e censurar, vai uma longa distância.

Reaçonaria: Compartilhei sua postagem em meu perfil pessoal e em alguns grupos. Alguns amigos não gostaram da frase “Ateus e muçulmanos seguem firmes na disputa de quem mata mais no mundo.” Fale um pouco sobre essa disputa.

Paulo: Vou escrever à respeito em mais detalhes, mas, grosso modo, se você somar os mortos em nome do Islã e os mortos em regimes ateus (como os comunistas), você está falando em algo como 200 milhões de mortos. Os terroristas mais procurados da lista do FBI por exemplo são 90% muçulmanos e os 10% restantes são ateus.

Nem um cristãozinho (ou um budista, ou um hindu, ou um judeu) na lista.

Reaçonaria: O movimento antimanicomial é tão danoso nos Estados Unidos quanto é no Brasil?

Paulo: Mas é claro. Só o nível de sensibilidade é diferente. Basta ligar a TV nestes programas “Brasil Urgente”, “Cidade Alerta” e você vai ver a quantidade de maluco homicida que tem no Brasil.

Reaçonaria: Esta atitude do Facebook é mais um pequeno ataque entre tantos à Primeira e à Segunda Emendas da Constituição Americana. O que fazer para que as redes sociais obedeçam às leis?

Paulo: Todos deveriam respeitar as leis. Mas talvez haja uma solução mais “free market”: a maioria da população mundial é conservadora. E acredito que quanto mais claro ficar que o Facebook e as outras redes sociais estão censurando as opiniões que não condizem com as deles, naturalmente estas pessoas vão acabar se sentindo desconfortáveis e podem acabar abandonando estes espaços.


Este é o texto de que o Facebook não gostou.

1. O atirador, Devin Kelley, vocês devem ter visto, agrediu a mulher e filha em 2012, passou um ano na prisão e recebeu uma baixa por má conduta da Força Área.

2. Desde 1997 qualquer pessoa condenada por violência doméstica é impedida de adquirir legalmente qualquer arma nos EUA – no que se chama por aqui “Emenda Lautenberg”.

3. Em geral, baixas desonrosas também são impeditivos para se comprar uma arma nos EUA. Mas existe uma diferença entre baixas desonrosas e baixas por má condutas, sendo a primeira, mais séria que a segunda.

4. Apesar disto, Kelley conseguiu passar pela checagem de antecedentes (“background check”) que todos devem passar antes de comprar suas armas. Não deveria, já que uma ou ambas das condições acima o desqualificariam. Ao que parece, ele mentiu no formulário. Criminosos, como se sabe, não tem problemas em mentir.

5. Alguém nitidamente fez cagada. Não havia nada no banco de dados do Sistema Nacional de Crimes ou no sistema de crimes do Texas que o impedisse de comprar a arma. Este é o problema em confiar no governo para o controle de armas: governos geralmente são péssimos em tudo o que fazem.

6. O Texas é um estado que exige autorização para porte de armas velado. O atirador, curiosamente, aplicou para um e teve seu pedido negado. Mas é claro, portou mesmo assim – além do rifle, ao menos duas pistolas. Criminosos, como se sabe, não são bons em respeitar as leis (por definição).

7. Alguns jornais estão tentando pintar Devin Kelley como um ex-professor de bíblia e um extremista religioso. Isso é FAKE NEWS!!! Múltiplos reportes dão conta de que Devin era um conhecido militante ateu nas redes sociais que odiava religião e dizia que “pessoas que acreditam em Deus são estúpidas”. Ateus e muçulmanos seguem firmes na disputa de quem mata mais no mundo.

8. Devin Kelley deveria ter sido internado há tempos, se o ocidente não tivesse desistido de discutir suas políticas manicomiais. Toda vez que um maluco atira em alguém, a esquerda desvia a atenção para o debate do controle das armas, em vez de se focar no debate do controle… de malucos! Repare bem: nos noticiários, a culpa é sempre do objeto e nunca do agente.

9. No fim das contas, quem parou a ameaça foi um cidadão de bem armado (“good guy with a gun”). Não a polícia, não o Batman.

10. Stephen Willeford, um encanador cristão de 55 anos, casado há 30 anos, que morava ao lado da Igreja, foi acordado de uma soneca pelos tiros. O que ele fez? Pegou o seu rifle (YES!!! This is Texas!!!!), desceu DESCALÇO, se escondeu atrás de um carro e largou o berro no maníaco, que se feriu gravemente (fuzis sempre ferem gravemente). Isso fez Devin Kelley parar de matar todo mundo e fugir.

11. A história fica ainda mais incrível. Willeford parou a caminhonete de um passante, Johnnie Langendorff, e disse: “Eu preciso de ajuda! Esse cara estava atirando nas pessoas na igreja! Siga ele!”. Os dois então iniciaram uma perseguição ao atirador a 150km/h, que, muito ferido, finalmente perdeu o controle do carro, bateu e (aparentemente) se suicidou.

12. Criminosos mentindo e burlando as leis para ter acessos às armas, controles governamentais falhando, malucos à solta e bons samaritanos armados salvando vidas: nunca a narrativa da direita provou-se tão evidentemente correta.

Willeford e Langendorff são heróis e não há como estimar quantas vidas salvaram. Esse é o Texas. Essa é a América.

O Jardim das Aflições na UFBA: entrevista com Priscila Chammas Dáu e Pérsio Menezes

No dia 13 de novembro de 2017, estudantes tentaram exibir o filme O Jardim das Aflições, de Josias Teófilo, na Universidade Federal da Bahia (UFBA). A exibição foi sabotada pela reitoria da Universidade, que desautorizou o uso da sala que estava reservada. Os estudantes tentaram então exibir o filme num espaço externo da Universidade. Foram novamente sabotados, desta vez por militantes esquerdistas que levaram um carro de som e tentaram censurar e impedir a exibição.

Pérsio Menezes, espectador do filme, foi agredido por um manifestante. Nos dois vídeos abaixo, ele conta o que aconteceu. Reaçonaria conversou com ele e também com Priscila Chammas Dáu, que auxiliou na organização do evento.

 


Entrevista com Priscila Chammas Dáu

Reaçonaria: Como foi a aventura de apresentar um filme sobre Olavo de Carvalho em uma universidade pública? Como a direção da Universidade reagiu a essa iniciativa?

Priscila Chammas Dáu: Foi tenso. Apesar de não ser eu a organizadora (apenas levei data-show e caixa de som, mas não consegui participar ativamente da organização), acompanhei o estresse dos meninos desde o primeiro cancelamento do auditório, por parte do vice-reitor, com desculpas esfarrapadas que nunca são dadas quando o evento é de esquerda. Antes disso, havia saído na mídia notícias de que grupos ligados a centrais sindicais ameaçavam invadir o evento. Alguns organizadores, como Lucas Ribeiro, Higor Paiva, Micael Thomas e Felipe Vieira, dentre outros, chegaram na UFBA às 7h da manhã para ocupar o espaço (que já havia sido previamente autorizado, de forma documental) e evitar invasores. Quando eu cheguei, eles já haviam sido expulsos de lá pela direção da UFBA, e decidiram fazer a exibição numa sala desocupada em outro pavimento. Era pequena e quente, mas estavam todos dispostos a assistirem o filme ali mesmo. Quando montamos todo o equipamento, veio a notícia de que se não saíssemos de lá imediatamente, o aluno responsável por pedir a sala seria penalizado. Não sei se seria realmente possível, mas na hora do terrorismo, falaram até em jubilamento. De toda forma, para não prejudicar o colega, foi decidido fazer a exibição num espaço aberto, ao lado da biblioteca, projetando na parede pichada mesmo. Vale ressaltar que grupos de esquerda costumam fazer suas exibições de comunices no mesmo local, e nunca foram retaliados.

Reaçonaria: Conte sobre as atitudes dos militantes esquerdistas. Quando chegaram? O que fizeram? Quando começaram as agressões?

Priscila: Fomos todos para a biblioteca, instalamos o equipamento de novo e iniciamos a exibição. Estavam todos sentados no chão, assistindo o filme pacificamente, quando de repente um grupo vestido de vermelho e com bandeira do PCO começou a se aproximar, gritando num carrinho de som: “Fora fascistas!”. Eles estavam impedindo a livre manifestação na faculdade, mas os fascistas somos nós. Tinha até gente com um cartaz escrito: “Morte aos cristãos”. Algumas pessoas levantaram, mas logo foram contidas pela organização: “Vamos ficar sentados, não vamos entrar no jogo deles”. Mas os vermelhos continuaram a se aproximar, gritando palavras de ordem e conclamando todos os esquerdistas da UFBA a saírem de suas salas e participarem daquele “ato de resistência”. Uma mulher pegou o microfone e começou a berrar um monte de bobagens, elogiar Lula, dizer que a gente queria dizimar o povo negro. Tanta besteira, que meu cérebro nem se deu ao trabalho de registar. Nesse momento, um jornalista que estava assistindo o filme pegou o celular pra filmar a patacoada. Na hora, sentiu um soco que quebrou seu nariz, e quando recuperou a consciência, o agressor já tinha corrido sem ele ver quem foi. Fiz uma live depois, e ele mostra suas mãos ainda ensanguentadas pela agressão. Ele ficou muito bravo com o ocorrido (o que é compreensível) e queria ir lá revidar, mas foi contido pela organização da exibição. Os esquerdistas, vendo que ele era esquentado, continuaram provocando, dizendo que ele era bolsomínion, e que merecia apanhar mesmo (nem sei se ele é). O jornalista revidou com xingamentos e gestos obscenos (mostrou o dedo do meio para uma moça), e isso foi o suficiente para os esquerdistas se vitimizarem e tentarem inverter a situação. Depois disso, o clima esquentou mais, mas não soube de nenhuma outra agressão física. Até porque chegaram uns seguranças da UFBA e se puseram no meio dos dois grupos, que continuaram se xingando mutuamente, enquanto uma outra parcela voltou para tentar ver o filme.

Reaçonaria: É possível identificar e responsabilizar os agressores? É possível responsabilizar a direção da Universidade?

Priscila: Sim. Temos as características físicas de quem foi. Estamos tomando as providências cabíveis, mas não posso falar mais que isso porque corro o risco de ser processada. Quanto à direção da Universidade, terá que dar explicações sobre a censura.

Reaçonaria: Você conseguiu assistir ao filme? Pode fazer um comentário sobre a forma e o conteúdo? Você disse que não conhecia bem as idéias de Olavo de Carvalho. Você acha que o filme é uma boa introdução ao seu pensamento?

Priscila: A confusão começou a acontecer com cerca de 10 minutos de filme. A partir daí eu não consegui me concentrar mais, até porque não tinha legenda, e os esquerdistas estavam gritando no microfone. Mas já pedi emprestado um exemplar de “O Mínimo…”, para tirar minhas próprias conclusões.

Reaçonaria: Por que os militantes esquerdistas não podem tolerar a exibição de um filme em uma universidade pública? Do que eles têm medo?

Priscila: Eles estão assustados com o contraditório. Não estão acostumados com opiniões divergentes e acham que continuam tendo o direito de falar sozinhos, sem ninguém discordar.

Reaçonaria: Mesmo não conhecendo ou discordando de Olavo de Carvalho, você apoiou a organização do evento, conseguindo equipamentos. Não deveria ser a coisa mais natural do mundo que pessoas que pensam diferente dialoguem e procurem debater de maneira respeitosa?

Priscila: Deveria. Eu não sou conservadora. Na verdade, sou libertária minarquista (defendo um governo beeeem limitado), não conheço nada de Olavo e não votaria em Bolsonaro. A grande diferença é que eu sei conviver com opiniões divergentes. Tenho um monte de seguidores “bolsomínions” e convivo muito bem com os conservadores do meu ciclo social, mesmo deixando clara a minha posição, e os esquerdistas não conseguem entender como isso pode acontecer. Me “acusam” de “conservadora enrustida”.

Liberdade de expressão é uma pauta muito cara pra mim, afinal, sofri patrulha da esquerda minha vida inteira. Na universidade, claramente não existe espaço para nenhum discurso que fuja da agenda esquerdista, e foi nisso que pensei quando decidi ajudar. Pluralismo de ideias! Isso é necessário para os estudantes conhecerem todos os lados e decidirem qual caminho seguir. Essa deveria ser a função da universidade, mas eu não tive essa oportunidade na minha época. Em 2002, na UFBA, ou você era de esquerda, ou você não era nada, pois não existia outra opção. Escolhi ser nada, sofri bullyng, fui taxada de patricinha (mesmo pegando ônibus, enquanto eles ganharam carro do pai, por terem passado no vestibular), e só fui apresentada ao liberalismo anos depois, pelas redes sociais. Isso não pode continuar assim.

Reaçonaria: Que mensagem você gostaria de passar aos leitores de Reaçonaria?

Priscila: Eu vejo que a mobilização no Facebook e nos grupos de WhatsApp é boa, e isso tem a sua função. Mas não basta. Em vez de ficar perdendo tempo discutindo o sexo dos anjos com a sua bolha ideológica, é preciso dar as caras no “mundo lá fora”. Ocupar espaços nas universidades, promover eventos, mostrar às pessoas que existem outras opções. Também é importante ter um discurso mais palpável, mais acolhedor para as pessoas de senso comum, e até mesmo para os esquerdistas mais soft. Muita gente só está na esquerda porque não foi apresentada a outra coisa ainda. Conheço um monte de gente assim. É preciso atrair essas pessoas, e não se chama a galinha gritando xô. Mostrar exemplos do que deu certo em outros países é uma excelente estratégia.


Entrevista com Pérsio Menezes

Reaçonaria: Você foi à UFBA porque soube que O Jardim das Aflições estava sendo exibido. Que cena você encontrou lá?

Pérsio Menezes: Cheguei uma hora antes do horário marcado, o que me deu a oportunidade de acompanhar o número de interessados no pensamento de Olavo se avolumando. Penso terem sido mais de 300 pessoas. Em dado momento, fui informado que não poderíamos assistir ao filme na sala que havia sido reservada, desde uma semana antes, pela organização do evento para exibi-lo. O reitor, pessoalmente, havia cancelado a autorização que a administração do PAF III (prédio da universidade no qual fica a sala reservada) havia concedido.

Reaçonaria: Quem era o público? Além de alunos e seguidores do Olavo de Carvalho, havia muita gente querendo tomar contato com o pensamento dele?

Pérsio: Em verdade, não. O público era completamente composto de pessoas que já conheciam Olavo de Carvalho, os famosos “olavistas” (ou “olavetes”, como querem os detratores do “filósofo da Virgínia”). Quando começou o embate entre os comunistas e os seres humanos, muitos transeuntes paravam para perguntar que filme era aquele e por que o filme estava causando aquele rebuliço.

Reaçonaria: Conte como você foi agredido.

Pérsio: A exibição teve que acontecer praticamente ao tempo, no pilotis do prédio da Biblioteca Central da UFBA. Por conta do desrespeito com o qual os interessados na obra foram tratados, tivemos de nos dispor a sentar no chão de um local público para poder assistir ao filme. Aos 5 minutos de exibição, uma música muito alta começou a ser tocada. Quando olhei para trás, havia uma súcia de maconheiros piolhentos inimigos dos hábitos diários de higiene empurrando um sistema de som móvel montado em um carrinho de madeira, a partir do qual eram emitidos os mais “jegniais” “argumentos”, a exemplo de “fora, fascistas!”, “fora, nazistas!” e “fora, Temer!”. Eu me levantei do chão e fui registrar a performance circense com a filmadora do meu celular, sem que em nenhum momento dirigisse a palavra a qualquer um deles, apenas registrava como observador (tenho testemunhas). Depois de alguns segundos de filmagem, o animal que urrava ao microfone empurrou meu celular para trás, eu voltei a atenção para o aparelho porque poderia ser uma tentativa de assalto, foi então que um dos membros da camarilha me acertou com um murro no nariz. No momento da agressão, eu olhava para as imagens da tela do celular. O vagabundo que me acertou o fez de tal forma que nem sei quem foi, havia muita gente, era um ambiente muito caótico, só senti o murro e o sangue começou a descer.

Reaçonaria: Você foi a um hospital?

Pérsio: Não fui a um hospital porque julguei que não era necessário.

Reaçonaria: Você fez ou pretende fazer um Boletim de Ocorrência?

Pérsio: Não fiz o Boletim de Ocorrência porque, como não sei qual dos marginais foi o autor da agressão, considerei que seria perda de tempo. Recentemente um grupo de sedizentes “policiais militares” da Bahia lançou um “manifesto” contra a candidatura de Bolsonaro (link). Dado o atual grau de aparelhamento da máquina pública, nessas circunstâncias, dirigir-me a uma delegacia sem saber se o escrivão, o delegado e demais funcionários da força policial são “progressistas” ou seres humanos é uma atitude que coloca em risco minha dignidade moral e, no limite, até mesmo minha integridade física.

Reaçonaria: É possível identificar os agressores?

Pérsio: Um dos que estavam presentes para assistir ao vídeo disse que viu e saberia reconhecer o meliante que me agrediu. Quando isso foi dito, um amigo meu que é PM usou o celular para acionar a guarnição e, nesse momento, imaginei que o bisbórria seria encaminhado para a delegacia, onde preencheríamos um Boletim de Ocorrência. Desafortunadamente a PM demorou — na verdade, acabou não comparecendo — e eu perdi a testemunha na multidão.

Reaçonaria: É possível responsabilizar a Universidade?

Pérsio: Sim! A responsabilidade pelo sinistro é total e completamente da administração da UFBA. Uma súcia de rufiões se dispôs a usar um sistema de som muito potente com o objetivo de impedir a exibição de um filme e ofender os interessados na obra, os quais se dispuseram a trocar o convívio familiar pela oportunidade de prestigiar um documentários sobre um dos maiores pensadores que a Terra de Vera Cruz já produziu. Não houve nenhuma ação por parte da equipe de segurança da UFBA no sentido de conter a ação dos vândalos. Era autoevidente que eles estavam ali para arrumar confusão e agredir, o que tornava obrigatório que a segurança entrasse em ação para impedir as conseqüências inevitáveis dessa postura (meu único erro foi que imaginei que eles aguardariam algum tipo de revide às agressões verbais antes de partirem para a violência física, mas eles optaram — DADA A CERTEZA DA IMPUNIDADE — por não perder tempo com palavreado que não estava surtindo efeito e partir logo para o espancamento). Além disso, chego a cogitar a hipótese de ter sido tudo feito de caso pensando. Pelo que eu conheço do “modus operandi” dessa facção, pelo que nós já vimos antes na ação da Schutzstaffel petista, os chamados black blocks, e dos tais “protestos a favor”, sinto-me autorizado a acreditar que a decisão de cancelar a exibição do filme na sala do prédio do PAF III aconteceu exatamente para que a ação dos facínoras fosse viabilizada. Caso contrário, de onde eles haveriam de tirar um sistema de som móvel tão potente? Do bolso? Acaso alguém decidiu importunar a exibição do filme, enfiou a mão no bolso e achou algumas moedas, uma caixa de chicletes e um sistema de som móvel? Dadas as circunstâncias, dado o que já conheço dessa grei, pensando agora a posteriori, para mim, resta evidente que tudo foi arquitetado.

Reaçonaria: Por que os militantes esquerdistas não conseguem tolerar a exibição de um filme?

Pérsio: A esquerda esteve por décadas no controle da construção de narrativas, tendo dominado o sistema de comunicação de massa — o que inclui desde as reportagens enviesadas ideologicamente vinculadas em absolutamente todos os jornais tanto televisivos quanto impressos, até os enredos das obras ficcionais tais quais novelas de TV, passando por programas infantis, programas de auditório e tudo o mais que seja criado pela comunicação de massa; até quadros que supostamente seriam para debater questões de saúde são ocupados por discurso ideológico, como é o caso do “médico do Brasil”, Drauzio Varela — e o sistema de ensino — o que inclui desde o ensino fundamental, no qual as crianças estão sendo diariamente expostas à pauta da ideologia de gênero (inclusive com um episódio recente de uma “tia” que deu um tapa em um menino de 4 anos que se recusou a passar batom) até o ensino “çuperior”, o qual foi substituído por um teatro teratológico de criação de nulidades e TCCs que aviltam a própria dignidade humana (aqui e aqui), sem deixar de lado, e sobretudo, a historiografia, que foi completamente reescrita pela esquerda, ao melhor estilo “Ministério da Verdade” orwelliano. Com o advento das redes sociais, a sociedade finalmente pode furar o bloqueio ideológico estabelecido pelas instâncias controladas pela esquerda. A intolerância deles é uma reação de desespero à perda do controle da construção de narrativas.

Reaçonaria: Parece uma reação de extremo temor. Do que eles têm medo?

Pérsio: A reação extremada advém do fato de que o processo não é racional. Primeiramente porque o esquerdismo é uma espécie de “religião laica”, é uma crença que não é baseada no escrutínio dos fatos nem nas evidências da ordem da realidade, mas apenas em sentimentos torpes de inveja e ressentimento, que envenenam a alma e fazem turvar a lucidez. Em segundo lugar, mas esse é o aspecto principal, porque com o avanço do poder político da esquerda, que se deu desde a eleição de FHC, em 1994, o Brasil passou a ser submetido a um processo ponerológico — eu acredito que os leitores do Reaçonaria já estejam familiarizados com a explicação dada pelo psiquiatra polonês Andrzej Łobaczewski. Também existe a questão de que, em um primeiro grau, a turvação da lucidez, a qual me referi antes, e, em segundo lugar, pelo próprio processo ponerológico, essas pessoas se colocaram em estado de histeria. Dessa forma, quando estão agindo para silenciar as ideias que não estão intelectualmente aptas a entender, o que estão fazendo é, na verdade, defender a própria sobrevivência da estrutura psicológica nascida da patologia mental da qual padecem. Dito de outra forma, existem determinados aspectos da estrutura psicológica dessas pessoas que, por um lado, as escravizam, impedem que elas entrem em contato com a realidade mesma, mantêm-nas apartadas do mundo real, em um processo de esquizofrenia; mas, por outro, conferem-lhes determinado conforto, à medida em que lhes dão uma resposta pronta para os motivos dos próprios infortúnios, atribuem a responsabilidade desses infortúnios a terceiros — o que acrescenta mais uma dose de conforto psicológico, porque retira delas imperativo da ação. Além disso tudo, há a questão da identidade de massa. Esses dogmas que eles estão defendendo também atuam no sentido de criar um “grupo de pertença”, com códigos, valores e comportamentos próprios aos quais se pode aderir por mera mimetização, mas que fornece uma terceira dose de conforto psicológico ao criar a sensação de não se estar sozinho no mundo. Assim, eles não podem aceitar o dissenso, sob o risco de que sua frágil estrutura psicológica desmorone e cada um deles seja obrigado a se deparar com a realidade da inocuidade de suas existências.

Reaçonaria: Você editava a página “Meu professor de História mentiu pra mim”. Fale um pouco sobre essa experiência, sobre a perseguição do Facebook e sobre as reações das pessoas ao que você escrevia.

Pérsio: De início, a perseguição nem era do próprio Facebook, mas do MAV, que são só grupos bolivarianos treinados e remunerados para atuar em ambientes virtuais. Eles se organizavam, faziam denúncias em massa e conseguiam que o Facebook apagasse publicações; além das dezenas de ameaças — inclusive de morte — que eu costumeiramente recebia por “inbox”. Depois, houve um encontro entre Mark Zuckerberg e a Bandilma, após o qual, o próprio Facebook passou a perseguir não à MPDHMPM, mas também a todas as páginas que não estivessem alinhadas com a pauta chamada (muito invertidamente) de “progressista”. A MPDHMPM foi derrubada várias vezes, momentos nos quais eu recebi apoio de Romeu Tuma Junior, que disponibilizou o trabalho do escritório do qual ele é sócio — Gaiofato e Tuma Advogados (e aqui eu gostaria de deixar um agradecimento para Romeu e para todos os funcionários do escritório que dedicaram seu tempo a esse assunto) — para intermediar junto ao Facebook o retorno da página. Contudo, com a aprovação do “Marx Civil da Internet”, a situação ficou insustentável. Essa mudança na legislação obrigou essas empresas de Internet a exemplo de Facebook, Twitter, Youtube, etc, a terem uma estrutura administrativa em solo brasileiro muito maior do que tinham até então. E como a esquerda não dá ponto sem nó, essa situação foi aproveitada para aparelhar ideologicamente essas empresas. Com isso, o Facebook descontinuou a estratégia de “derrubar” a página (porque toda vez que isso acontecia eles recebiam uma notificação ameaçando levar o caso para a Justiça) e adotou um expediente muito mais inteligente: eles mantinham a página no ar e alteravam apenas o alcance das publicações. Nessa época, muitos amigos passaram a reclamar que não estavam mais visualizando as publicações da MPDHMPM em seus “dashboards”, mesmo que tivessem se inscrito para receber notificações. Assim, postagens que antes tinham 3 mil, 5 mil compartilhamentos, da noite para dia, passaram a ter 30, 50 compartilhamentos, sendo que essa nova estratégia de diminuir o alcance não deixava espaço para argumentação. O que os autores da página alegariam? Que seu público perdeu o interesse no assunto? Foi por conta desse histórico que resolvi descontinuar a página.

Reaçonaria: Que mensagem você gostaria de passar aos leitores de Reaçonaria?

Pérsio: Antes, eu gostaria de deixar uma mensagem para os autores do Reaçonaria: Parabéns! O trabalho de vocês é maravilhoso! Sou muito fã de vocês. Tenho o blog de vocês inscrito no meu Feedly, acompanho diariamente.

Aos leitores, eu digo: estejam preparados. O que vem por aí não é nada bonito. Não quero parecer ser pessimista, mas também não posso colocar uma lente cor-de-rosa para que tudo pareça estar bem, quando não está. O fato é que a Nomenklatura não vai permitir que Bolsonaro seja eleito, e eles têm diversas formas de fazer isso, a exemplo do STF. Depois que qualquer um dos outros que seja eleito, isso significará um agravamento da situação que já é nefasta. Essa agressão que eu sofri durante a exibição de “O Jardim das Aflições” expõe muito mais do que o aparelhamento ideológico do sistema de ensino e do que o nível alcançado pela esquerda no que diz respeito à hegemonia cultural. O ocorrido expõe o grau de acometimento ponerológico do qual padece a sociedade brasileira. Não se trata de um episódio isolado, antes houve o caso do “japa da pochete” e haverá mais, onde quer que o filme seja exibido, o público estará sob a ameaça desse tipo de ação. A imprensa “mainstream” também está aparelhada e subjugada pelas idéias enfermiças da esquerda, conforme os leitores do Reaçonaria estão carecas de saber, é só “fake news”. Penso que a sociedade brasileira já perdeu a capacidade de reação. Não vivemos um Estado de Direito, não há instituições em funcionamento, há apenas um establishment político altamente organizado vivendo uma vida nababesca às nossas custas e usando jovens que sofreram — não doutrinação, como se costuma dizer, mas — lavagem cerebral ideológica para fazer nas ruas as vezes da SS bolivariana, bradando a plenos pulmões que suas vítimas são fascistas, no exato momento em que estão agindo sob todos os aspectos conceituais dentro do que a historiografia convencionou chamar de “fascismo”. Enquanto aqueles que estão sendo oprimidos por essa ditadura estiverem mantidos na ilusão das “instituições funcionando”, das “eleições livres”, do “vencê-los nas urnas”, continuaremos seguindo no “Caminho da Servidão”, para usar uma expressão de Friedrich Hayek. Dessa forma, gostaria de encerrar com uma frase de Thomas Jefferson: “A árvore da liberdade deve ser regada de quando em quando com o sangue dos patriotas e dos tiranos”.

Post Scriptum: Acabei de receber um bloqueio de 30 dias no Foice&Burca. Como meu perfil era aberto, certamente a tropa do MAV ligada à UFBA foi colocada em ação para vasculhar e identificar postagens minhas que fossem passíveis de denúncia. A partir daqui, passarei a usar o Twitter @persiomenezes como canal de comunicação principal.

Desconstruindo Paulo Freire, de Thomas Giulliano

Paulo Freire é, de maneira justa, o patrono da educação brasileira. Ninguém simboliza nosso fracasso nessa área de maneira tão eloqüente quanto ele. Se formos buscar responsáveis pela situação calamitosa da escola no Brasil, sempre nos lembraremos dele. O livro Desconstruindo Paulo Freire, organizado por Thomas Giulliano Ferreira dos Santos, analisa essa figura sob diversos aspectos e nos ajuda a entender como chegamos a este ponto.

O livro é dividido em seis partes, escritas por seis autores diferentes. No primeiro capítulo, Thomas Giulliano analisa o pensamento de Paulo Freire de uma maneira geral, suas relações com o marxismo e com ditadores comunistas, suas fragilidades teóricas, seu pensamento sobre família e cultura. Em seguida, Clístenes Hafner Fernandes, professor de Artes Liberais do Instituto Hugo de São Vítor, expõe no que consiste a Educação Clássica, como um contraponto à educação defendida por Freire. O professor Rafael Nogueira critica um dos pilares do pensamento de Paulo Freire, exposto em seu livro mais famoso, Pedagogia do Oprimido, a “educação bancária”. O sociólogo Roque Callage Neto explica as relações entre o método de Paulo Freire e o construtivismo. O cientista político Percival Puggina analisa o pensamento político de Paulo Freire e suas raízes na Teologia da Libertação. Finalmente, o padre Cléber Eduardo dos Santos Dias demonstra que o método Paulo Freire é uma farsa, que o pensamento marxista é a origem desse método e não um resultado de sua aplicação e que a inspiração de tudo o que ele fez é a Teologia da Libertação.

Com tantos autores e assuntos, alguns capítulos são melhores que outros. É muito agradável ler Rafael Nogueira contando seus primeiros contatos com Paulo Freire, dissecando o espantalho que Freire criou, comparando-o com a verdadeira educação e com as idéias de Mortimer Adler, Hannah Arendt e Ken Wilber. O capítulo de Roque Callage Neto, muito mais técnico, explica o Construtivismo de Piaget e Vygotsky. Embora existam algumas semelhanças de procedimento com as propostas de Paulo Freire, Callage conclui que os métodos partem de epistemologias diferentes e chegam a conclusões muito divergentes.

As informações históricas e biográficas que Percival Puggina nos dá são preciosas. O ponto alto do livro é o capítulo do Pe. Cléber, que nos conta o que é o Método Paulo Freire e o que aconteceu realmente na famosa experiência de alfabetização em Angicos. Conta também o fracasso da aplicação do Método Paulo Freire na Guiné-Bissau.

Todos os formados em Pedagogia no Brasil deveriam ler este livro, como antídoto às idéias erradas que aprendem em seu curso.

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