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Esquerda e liberdade individual: uma relação estranha


dilma_ue

Uma pergunta para o pessoal de esquerda: vocês são a favor ou contra as liberdades individuais? E outra: o indivíduo é ou não capaz de cuidar de si próprio e de sua vida? Sério, a esquerda precisa resolver-se quanto a isso.

Explico.

A esquerda acredita, por exemplo, na autonomia do indivíduo quanto ao consumo de determinados entorpecentes ou mesmo na decisão de interromper uma gravidez (não entrarei no mérito, apenas coloco os pontos para o que vem a seguir).

Ao mesmo tempo, essa mesma ideologia não acredita na capacidade do assalariado de gerir o próprio dinheiro. Pois é, não acredita.

Pergunte a um único esquerdista – especialmente defensor da legalização do aborto ou liberação de drogas – o que ele acha de acabar com o FGTS ou demais encargos para o governo. Ele será contra.

Mas esses encargos são nada menos que a gerência (e posse), pelo governo, do dinheiro que é do trabalhador. Não falo aqui de imposto ou algo assim, mas de dinheiro DO EMPREGADO que vai para as mãos do governo. A isso se soma, por exemplo, a aposentadoria obrigatória (INSS), que todos pagam e nem todos desfrutam.

Assim, para a esquerda, as pessoas seriam plenamente capazes de decidir sobre temas de complexidade filosófico-existencial, mas não possuem autonomia bastante para cuidar da própria grana.

O motivo dessa contradição é simples (e também idiota): sustentar o Estado. E essa sustentação estatal, para a esquerda, está acima da autonomia do indivíduo – mesmo quando se trata de um trabalhador assalariado. Antes e acima de tudo, é preciso garantir o funcionamento do governo (depois entram as liberdades – como o direito a usar todo o salário).

E, assim, surge uma maluquice teratológica (fiquemos apenas com o FGTS, mas serve para todas as outras): a remuneração do empregado é RETIDA pelo governo e, para isso, há uma estrutura estatal que consome muito dinheiro, bem como a fiscalização do sistema (que também consome grana) e processos judiciais os mais diversos (mais e mais dinheiro queimado).

Cabe perguntar: será que é o assalariado que não sabe cuidar de seu dinheiro? Porque nem o mais perdulário e irresponsável dos indivíduos joga tanto dinheiro na fogueira quanto o governo… cuidando do dinheiro dos outros!

Eis a relação no mínimo curiosa da esquerda com as liberdades individuais. Parece haver uma defesa (aborto, drogas etc.), mas não há: é preciso, antes de tudo, abrir mão de muita coisa em nome do Estado.

Por fim, caso você acredite ser “de esquerda”, mas ao mesmo tempo considera o indivíduo livre, capaz e responsável, independentemente do objeto dessa liberdade, trago a seguinte notícia: você não é esquerdista, mas sim libertário.

Pois é. Mas não fique bravo, e nem é preciso mudar um milímetro de sua crenças. Apenas aguarde uma semana, pois esse é o tema do próximo texto.

Do esquerdismo como religião e do estado como seu deus

Odin, o deus em que acredito (mas cuja crença mantenho restrita ao plano íntimo-metafísico)

Odin, o deus em que acredito (mas cuja crença mantenho restrita ao plano íntimo-metafísico)

Considero injusta a tradicional associação que se faz da religião à direita mais acentuada, especialmente quando se trata do estado. Sim, de fato alguns direitistas defendem a permanência de crucifixos em prédios públicos (sem o mesmo empenho quando se trata de uma imagem de Ogum ou Tupã).

Também consideram importante haver leis determinando os gêneros que podem ou não contrair matrimônio. Ok, é verdade, também não reclamam quando há ensino religioso cristão nas escolas, embora – aí com razão – não aceitem a doutrinação ideológica quando se trata de História.

Mas vamos à esquerda e sua associação comum ao ateísmo. Dica: trata-se de erro imbecil.

Isso porque os esquerdistas, quanto a estado/governo, são verdadeiros carolas. É preciso, antes e acima de tudo, ter muita fé para de fato defender essas bandeiras.

A idéia de tutela estatal ampla e quase irrestrita, constante da bandeira esquerdista em geral, é perfeitamente encaixável em formulações teológicas. Para essa turma, os indivíduos são única e exclusivamente o rebanho da divindade estatal, imaterial e onipresente, representada entre os mortais pelo governo.

Cabe ao estado, providenciado pelos governantes, garantir não apenas comida, serviços médicos, segurança e moradia, mas também transporte, estudos, lazer, dinheiro em espécie, seguridade social, espaço para andar de bicicleta ou skate e até mesmo o “direito à felicidade”. Sim, há projeto para mudar a Constituição Federal “garantindo” felicidade ao povo.

Fica a impressão de que esse tal estado seria algo mais poderoso que todos os deuses das mais variadas mitologias. Mas, claro, essa pletora de direitos e garantias resultam do pagamento de tributos, com aquela já tradicional comissão recolhida pelo governo sem a devida reversão proporcional em benefícios.

Seria como se de fato o dinheiro de uma seita fosse para as mãos de um deus, mas com retenção de 90% para a administração clerical. Troque clero por estado e temos o que ocorre, na prática, em um governo “de esquerda”. A diferença é que para o governo-representante-de-deus não se recolhe apenas dez por cento e a tarifa é obrigatória.

Mas o fundamental aqui é a crença, aparentemente sincera, de que realmente o estado vá salvar o mundo de todos os males. É uma fé totalmente religiosa, com direito a depender do intermédio de alguns “sacerdotes inspirados” (todos muito ricos e alguns transformados em santos) para dar conta da missão divina.

E há mais: a culpa. Nada mais religioso que a culpa e nossa esquerda é carregada disso. Há quem formule, a sério, que a culpa do crime possa ser associada à ostentação – ou ainda que simplesmente não se deva ostentar (esse raciocínio, se aplicado aos casos de estupro, mostra o nível de imbecilidade de quem o emprega).

Nesse contexto, a idéia do “individualismo” parece egoísmo-desalmado-de-gente-sem-coração-e-que-quer-ver-o-mundo-acabar-em-ladeira-para-morrer-deitado. Mas, não: é apenas a corrente de pensamento – e prática – pela qual cada um faz sua parte e é recompensado nessa proporção. Viu? Não é tão ruim.

O problema é que não há um deus-estado para salvar a pele mediante arrependimento e garantir um paraíso na terra (ou fora dela). Tudo depende do indivíduo, seja por seu intelecto, sorte, talento etc. Cabe ao governo, e usando a lei, apenas fiscalizar a harmonia de relações entre as pessoas – físicas e jurídicas.

Para parcela considerável da esquerda, o deus-estado garantiria os resultados (até a felicidade!), ao contrário do estado-de-verdade que garante (ou deveria garantir) apenas as condições para isso (e é importante não confundir “igualdade de condições” e “igualdade de resultados”, bobagem mocoronga meio recorrente).

Assim como ocorre com o ateísmo em relação à felicidade em geral, não acreditar num governo-salvador é uma barra pesada, pois temos apenas a nós mesmos para conseguir as coisas. Isso não quer dizer que devamos passar por cima dos outros; ao contrário, precisamos zelar para que haja pleno e irrestrito exercício das liberdades. E em todos os direitos.

Fica o recado aos que se consideram ateus nos sentidos metafísico e religioso, mas ao mesmo tempo acreditam piamente num estado com aspectos de divindade, que seria representado na terra por salvadores muito bem intencionados (e também ricos).

Minha sugestão é que tirem suas crenças da prática política, mantendo-as apenas no plano místico. Não faz sentido brigar tanto um “estado laico” se, na verdade, o que se defende é uma estrutura estatal com atribuições divinas.

E, claro, isso torna ainda mais ridícula a troça de muitos sobre os religiosos, pois estes ao menos mantêm suas convicções imateriais no plano adequado.

ps – Até tentei responder a todos no último texto, mas ficou impossível; as opiniões contrárias (desde que não tenham ofensas) serão todas lidas e apreciadas, mas me desculpo antecipadamente caso não consiga responder.

A imbecilidade esquerdista da socialização da culpa

karlmarx

Uma das grandes burrices do pensamento de esquerda é quase sempre responsabilizar circunstâncias em vez de indivíduos. Parece picuinha ideológica, coisa de de quem acredita tanto na “coletividade” que se dispõe a também culpá-la mesmo quando apenas uma pessoa comete um crime. Mas pode ser também burrice ou a soma desses dois itens de fato similares.

Fato é que culpar “todo mundo” é o mesmo que responsabilizar ninguém. Nesse raciocínio ideológico deles, o criminoso é fruto de um conjunto de fatores, nunca de sua própria iniciativa de delinquir. E passam por cima até dos números, como esses demonstrados por pesquisa recente que confirma: os pobres cometem MENOS delitos.

Tal estudo – como se não bastasse a lógica pura e simples – demole o raciocínio de parte de nossa esquerda (quase toda formada por brancos de classe média) que acredita conhecer minuciosamente as mazelas do povo oprimido – conhecimento quase sempre adquirido no centro acadêmico de alguma faculdade de humanas localizada em bairro nobre.

Estão errados, evidentemente.

Quem comete crimes é o indivíduo e, portanto, é ele que deve ser responsabilizado. Estuprador é quem estupra, racista é quem pratica racismo, homicida é quem mata, ladrão é quem rouba e assim por diante. Identificar o responsável é uma etapa essencial para acabar com o crime ou, pelo menos, livrar a sociedade (que é vítima, não culpada) dos criminosos.

Então, qual seria o problema da esquerda em assumir que as pessoas cometem crimes por iniciativa própria e não por pressão inescapável de fatores sociais? Simples (por isso mesmo, bem idiota): toda a ideologia é baseada em soluções gerais e genéricas para “toda a sociedade”, colocando esse receituário acima daquilo que tanto odeiam e fazem o possível para rechaçar: o mérito.

Isso mesmo. Não aceitam a punição do indivíduo porque não acreditam na iniciativa individual para o progresso. Ou NÃO QUEREM acreditar (a essa altura da história do mundo e como dito no primeiro parágrafo, parece mais picuinha). De todo modo, refutam o “demérito do indivíduo” porque implicaria na obrigação de aceitar o “mérito individual”.

No meu texto de apresentação, recebi pedradas (com as quais construirei meu castelo :P) por me dizer favorável à legalização do aborto (e disse isso na “bio”, o texto em si até não passou de uma apresentação bem simples).

No mesmo espaço dedicado ao resumo dos participantes (e o meu ficou grande porque todo mundo achou bonitinho mandar só uma frase), também me mostrei favorável à legalização das drogas, casamento entre pessoas do mesmo sexo, adoção de crianças por elas etc. E continuo favorável (mandem mais pedras, quero um castelo bem bonito).

Isso porque acredito no indivíduo, não no governo. Não acho que caiba ao estado decidir sobre aspectos íntimos ou morais. Se é permitido o entorpecimento por álcool, por que não por outras drogas? (isso será tema de outro texto, a pergunta retórica fica de gancho)

Quanto ao aborto, creio que a tutela estatal deveria restringir-se a impor limitações (defendo que seja até a formação do córtex cerebral) e fiscalizar clínicas.

E a esquerda concorda comigo nessa parte do indivíduo ser livre para algumas escolhas, seja qual for sua classe social, mas discordamos na hora de entender que essas mesmas pessoas são responsáveis TAMBÉM na hora dos crimes que possam cometer.

Eu acho que sim, a esquerda acha que não. Ela não acredita na punição do criminoso, mas sim de uma reeducação da sociedade que se encontra toda ela imersa em culpa por fatores alheios à vontade do indivíduo e que o acabam levando ao crime de maneira a abrir mão da própria vontade.

Eu acredito que o cara precisa ser preso, mesmo. E, agora, não se trata mais de uma questão de achismo ou fé cega ideológica. Há números corroborando: a culpa não é da sociedade, mas de quem comete o crime. Parece simples e, olha só!, é simples de verdade.

Assumir essa obviedade não vai diminuir a preocupação social de ninguém, apenas situa o sujeito no plano dos que fazem jus aos polegares opositores. E abre a possibilidade para o debate seguir adiante na busca de soluções concretas e não disputar qual turminha grita mais alto.

Apresentação

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A esquerda brasileira, especialmente a militância governista, não responde críticas com argumentos, mas com rótulos. A depender do que se diga contra a gestão do PT, as respostas são algo como “fascista”, “nazista” (sim), “racista” (é mole?) e, claro, “reacionário” – ou “reaça”.
Vamos aos significados: reacionário é aquele que pretende manter o status quo, contrapondo-se, portanto, aos revolucionários. O Partido dos Trabalhadores está no poder há dez anos, com perspectiva de pelo menos mais dois. Desse modo, reacionário é quem luta por manter esse governo, reagindo aos que pretendem mudá-lo ou até mesmo às críticas.
Mas a graça do termo, usado aqui reforçando o erro, está exatamente na burrice desse pessoal que, de forma simbólica, tem Emir Sader como tutor intelectual – e também suplente de senador pelo Rio de Janeiro (pois é, a tal “piada” pode assumir uma cadeira no Senado Federal…).
Somos os reaças e, assim, criamos a Я∑∆ç◊и∆Яⅰ∆, cuja idéia já está muito bem exposta no editorial.
Escreverei por aqui uma vez por semana e conto com a participação dos leitores nos comentários, sugestões, críticas e, se for o caso, até mesmo elogios.
Mesmo nossa esquerda-web formada por pessoas brancas da classe média, ou aqueles que jogam videogame com 30 anos nas costas e chamam os outros de coxinhas. Até porque todos serão temas de futuras colunas.
Sejam todos bem vindos a este espaço.

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