Gilmar Siqueira

@GilmarSiqueira

No teatrinho de Kerry, Netanyahu tem tudo para ser o vilão

Aguardando cenas dos próximos capítulos.

Aguardando cenas dos próximos capítulos.

Recentemente o Secretário de Estado americano, John Kerry, veio a público dizer que as negociações entre israelenses e palestinos — congeladas há três anos — estavam prestes a ser retomadas. Os dois lados, depois de certa negação inicial, resolveram corroborar Kerry. Segundo Silvan Shalom, ministro da energia de Israel, as negociações poderiam recomeçar já na próxima semana.

Logicamente os intensos esforços de John Kerry para resolver a questão palestino-israelense deveriam resultar em alguma coisa mais dia menos dia. E aí está. O problema é: até quando vai durar este teatrinho todo e quem será o vilão? A resposta está mais do que clara não apenas pelo título deste post, mas pelas atuais condições geopolíticas da região.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu está isolado. Enquanto era pintado por muitos como “ultraconservador” e detestado pela mainstream media ocidental deu para suportar. Mas agora, com a nova coalizão de governo, as coisas ficaram mais complicadas. Como bem lembrou David Weinberg, as pastas mais importantes no âmbito interno foram para Yair Lapid e Naftali Bennett. No que tange as relações exteriores, o PM nada poderia fazer quanto a Síria e Irã a não ser esperar.

Pressionado pelo imenso setor esquerdista israelense parece que aos poucos ele começa a cair no conto de que “o atual status quo é insustentável” e que “Israel precisa mudar as coisas”. Ademais, ninguém se surpreenderia caso houvesse também uma motivação política por trás disso tudo. Como mencionado acima, a aliança entre Yesh Atid Habaiyt Hayehudi dificultou as coisas para o líder do Likud-Beytenu, de modo que implodi-la e trazer para si os haredim e/ou o  Partido Trabalhista seria uma alternativa para centralização de poder.

Agora passemos a analisar o outro lado. Mahmoud Abbas não demorou muito para vir a público e se mostrar otimista com o possível reinício das negociações. As condições palestinas todos conhecem: fronteiras ao menos próximas às de antes do conflito de 1967, ter Jerusalém Oriental como capital e garantir a volta de refugiados palestinos para seus lugares de origem. Com respeito a isso existe um impasse: os assentamentos israelenses que comportam por volta de 500 mil habitantes. Para os palestinos as expansão deveria parar imediatamente.

Pelo menos por enquanto — felizmente! — Israel não aceitou nenhuma destas exigências. A única atitude que tomará será a de libertar alguns presos. No entanto, não sabemos exatamente quantos serão. Quem confirmou o ato foi o ministro de assuntos estratégicos Yuval Steinitz. Segundo ele esta foi uma exigência dos palestinos a Kerry. Steinitz ainda disse que alguns destes prisioneiros haviam sido condenados por crimes violentos contra israelenses.

Se por um lado Netanyahu sofre tanto uma pressão interna quanto externa, do outro Mahmoud Abbas passa por quase a mesma coisa. Apesar de ser visto pelo Ocidente como um “amigo da paz”, sua influência vem, aos poucos, caindo dentro da Cisjordânia. Escândalos de corrupção e o desempenho do Hamas na última operação israelense empreendida contra a Faixa de Gaza deixaram o grupo chefiado por Khaled Meshal com mais confiança frente aos palestinos. Detalhe: Israel e Hamas concordaram em um cessar-fogo, mas para a propaganda do grupo terrorista foi uma vitória.

Como se não bastasse tudo isso, a União Europeia resolveu dar uma “mãozinha” a causa palestina com um embargo às regiões anexadas por Israel em 1967. A partir de agora, qualquer organização israelense que coopere com a UE deve provar que não tem qualquer relação com Judeia, Samaria, Jerusalém Oriental e as Colinas de Golã. A proibição abrange também financiamento, concessão de bolsas, fundos de pesquisas e até mesmo prêmios para qualquer um que resida nestes lugares.

Veja bem, há cristãos sendo perseguidos em todo o Oriente Médio por motivos religiosos, a Síria está no meio de uma intensa guerra civil na qual mais de 100 mil vidas foram ceifadas, os conflitos sectários no Iraque aumentam a cada dia, o Egito virou palco de uma batalha campal entre pró e anti-Morsi mas o problema mesmo são os habitantes dos assentamentos em Israel. Isso vale da mesma forma para aqueles que bradam a alta voz que, resolvendo o conflito israelense-palestino, o Oriente Médio estará pacificado.

“Ah, mas nesta semana a União Europeia colocou o braço armado do Hezbollah em sua lista de grupos terroristas”. Nossa! Agora vai! Como se esta atitude insignificante fosse dar em alguma coisa. Antes de mais nada, nem o Hezbollah trata a respeito desta divisão. Mais fácil acreditar que ela seja uma abstração que só existe na cabeça dos parlamentares europeus. Além disso, o próprio Sheikh Sayyed Hassan Nasrallah afirmou que esperava por esta decisão.

Os otimistas de plantão podem alegar que, de qualquer forma, as negociações deverão recomeçar. Pois é. Mas vão durar até quando? A prontidão de Abbas em atender Kerry foi criticada pelos Hamas, pela OLP e até mesmo por certos setores do Fattah. Ou seja, as chances de tudo ficar na mesma são enormes: representantes da AP se reunirão com israelenses, farão suas exigências absurdas, tomarão um não e aí o vilão mais uma vez será Netanyahu.

Seculares vs. Islamistas: disputa séria ou propaganda?

A bandeira negra…

Durante a última semana relatos de conflitos internos entre os rebeldes seculares e islamistas povoaram a mídia ocidental. A maioria viu com certo otimismo esta disputa entre ambos, alegando que a oposição secular passou a rejeitar os terroristas e isso, logicamente, facilitaria -e muito!- a ajuda estrangeira (principalmente vinda dos Estados Unidos).

Segundo a ONU, o número total de mortos passa de 93 mil e a crise de refugiados é a pior desde Ruanda: uma média de 6 mil pessoas deixam a Síria a cada dia em 2013. Com dados tão alarmantes é impossível que alguém não se compadeça com as vítimas desta maldita guerra civil. Os sírios imploram por intervenção (ao menos uma zona de exclusão aérea), enquanto os Ocidentais tentam agir de uma maneira mais moderada (não querendo “provocar” Rússia e China no Conselho de Segurança da ONU).

A administração Obama prometeu armar os rebeldes — coisa que já fez por baixo dos panos em outras ocasiões — mas encontrou uma séria objeção pela frente: a radicalização dos insurgentes. Os grupos jihadistas são os mais fortes e preparados da oposição. Com isso, o temor de que as armas parassem nas mãos deles foi mais do que lógico. A velha tática do “inimigo do meu inimigo é meu amigo” já deu errado várias vezes anteriormente e teve como vítimas os próprios americanos.

É fácil dizer que Obama deve armar os rebeldes. Difícil é prever as consequências futuras que tamanho ato pode trazer. Aliás, nem é tão difícil assim. Se recordam de Benghazi? Pois é. O embaixador Chris Stevens foi morto no ataque terrorista e Susan Rice saiu por aí a dizer que “foi por culpa do vídeo”. Se assim fez é porque algo tinha a esconder. Uma mentira deste tamanho devia ocultar um feito ainda maior.

Dadas as circunstâncias, o que a oposição secular — encabeçada pelo Exército Sírio Livre (FSA, na sua sigla em inglês) — precisaria fazer para receber as armas de que tanto necessita é se desvencilhar dos terroristas. O assassinato do líder rebelde secular Kamal Hamimi (ou Abu Bassir Al-Ladkani) aparentemente foi o estopim para que uma pequena revolta entre os próprios insurgentes estourasse. Inicialmente a culpa foi atribuída ao Estado Islâmico do Iraque e ash-Sham (ISIS). Na terça-feira, no entanto, o Conselho Militar de Aleppo (braço do FSA na cidade) desmentiu esta história, alegando que o ataque que vitimou Hamimi partiu de forças pró-Assad.

Ao noticiar com grande empolgação a “rejeição dos jihadistas”, muitos cometeram o erro de deixar passar um dado ainda mais importante: seculares e islamistas precisam uns dos outros para vencer Assad. Isso é um fato inegável. Nas palavras de Michael Weiss:

Ao contrário das teorias da conspiração propagadas por Damasco e seus servos russos e iranianos, isto (a união dos grupos) não evidencia  tanto uma forte afinidade ideológica entre FSA e Al-Qaeda quanto uma parceria conveniente que está se tornando inconveniente. Uma guerra civil dentro de outra, nesta fase, principalmente após a perda de Qusayr e o cerco de Homs, iria revelar-se desastrosa para o esforço militar combinado de derrotar o regime. O próprio porta-voz do FSA, Louay Moqdad, admitiu isso numa entrevista.

No mesmo artigo Weiss comenta que o ato de fomentar as diferenças entre secularistas e extramistas  —  existentes desde o início do conflito — partiu de vários membros da oposição, sobretudo os que estão fora da Síria, justamente com o intuito de acelerar a chegada de armas (além daquelas que já vêm da Arábia Saudita e do Qatar).

Portanto, qualquer ato ainda deve ser pensando com extrema cautela pelos Estados Unidos. Se de um lado existe um carniceiro que mata a sua gente — e tem o apoio de Rússia e Irã — do outro existem rebeldes desesperados que pouco a pouco são cooptados por jihadistas e, ao contrário do que disse Weiss, não vejo possibilidades de pessoas deixaram os grupos extremistas com tanta facilidade quanto entraram.

“Não sou culpado”, disse Tsarnaev

No passado dia 15 de abril os Estados Unidos sofreram com mais um ataque terrorista. Durante a maratona de Boston, explosões vitimaram três pessoas e deixaram mais de 260 feridos. O alarde foi enorme, mas ainda assim o presidente Obama se recusava a falar em terrorismo. Poucos dias depois foram encontrados os primeiros suspeitos: Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev, de origem russa.

Os terroristas se utilizaram de  uma panela de pressão, dentre outros materiais, para produzir as explosões. Na caçada promovida pelos policiais Tamerlan morreu (e também matou o policial San Collier) e seu irmão, ferido, ficou mais um tempo foragido até ser encontrado. Nesta quarta (10), na frente do juiz, Dzhokhar se declarou inocente. Como se não bastasse isso do lado de fora do tribunal havia um pessoal protestando em seu favor.

E pelas vidas que foram tiradas, quem protesta? E pelas famílias que perderam seus entes queridos? “Ah, mas foi só mais um ataque isolado que não teve nenhuma conexão com o Islã”. Este argumento zumbi ficou tão batido que até me tira do sério. No ano passado os dois irmãos foram para seu país de origem e, segundo relatos, voltaram “mais radicais“. Tamerlan se inscreveu em um canal no Youtube chamado “Allah é o único“. Seu irmão postou um vídeo onde elogiava jihadistas na Síria. Nenhuma conexão com o Islã, não é mesmo?

Antes que apareçam aqueles politicamente corretos insuportáveis, sou forçado a bater naquela mesma tecla que sempre bato quando escrevo sobre extremismo islâmico: logicamente não são todos os muçulmanos terroristas, mas os irmãos Tsarnaev são adeptos do Islã e isso, sem dúvida, precisa ser levado em conta. Mas sabem como é, todos os que dizem isso são chamados de “fundamentalistas”.

Dois destes “fundamentalistas” inclusive — Robert Spencer e Pamela Geller — há poucos dias foram proibidos de entrar na Inglaterra para prestar suas homenagens ao soldado Lee Rigby. Sabem que motivo a “segurança” do país alegou? “Eles poderiam incitar o ódio”. É mesmo? Spencer e Geller incitariam o ódio? E os muçulmanos que cortaram aquele soldado no meio da rua, gritaram “Allahu Akbar” e disseram que “suas mulheres veem isso todos os dias”? Eles não incitam o ódio? “Ah, mas isso não tem nenhuma conexão com o Islã”. Já sei que escrevi esta frase acima, mas repeti. Repeti da mesma forma que certos setores o fazem, negando aquilo que é óbvio. Acho que Edward Said anda fazendo escola, não? Melhor nem entrar neste tema agora.

Voltemos a Boston. Os irmãos Tsarnaev já deveriam estar sendo vigiados de perto pelo FBI. Isso desde 2011. Explico: nesse ano, mais precisamente em 11 de setembro, três jovens judeus foram assassinados (tiveram suas gargantas cortadas). Inicialmente os Tsarnev foram ligados ao crime devido a evidências que os colocavam na cena no exato dia em que ele ocorreu. No entanto, tudo parou por aí. As investigações só foram retomadas após a foto dos dois ser divulgada publicamente por conta do atentado em Boston. Foi então que a namorada de um dos rapazes assassinados (Brendan Mess) acionou a polícia dizendo que Tamerlan era frequentador assíduo de sua casa. Ela relatou ainda que seu namorado tinha uma arma e que ela havia desaparecido no dia do crime. Vale lembrar que Tamerlan estava armado (tanto que matou um policial).

Muitos devem estar pensando: “mas Gilmar, não havia provas que os incriminassem efetivamente neste caso”. Concordo. Só acho que a polícia deveria estar de olho neles pelo simples fato de serem suspeitos. Além disso, a viagem para a Chechênia e esta mudança de comportamento precisava ser notada. Enquanto o governo Obama monitorava grupos cristãos, judeus e pró-vida taxando-os de”fundamentalistas” eles tiveram tempo de armar tudo e colocar em prática.

Mohamed Morsi não é mais o presidente do Egito

Comemoração na Praça Tahrir.

Nesta quarta-feita (3) Mohamed Morsi foi oficialmente deposto. Os intensos protestos organizados pelos opositores resultaram em uma intervenção militar que tirou o (ex?) membro da Irmandade Muçulmana da chefia do poder executivo.

No passado dia 30 de junho Mohamed Morsi completou seu primeiro ano na presidência. Para que esta data realmente fosse marcante seus adversários organizaram intensos protestos que tinham apenas um fim: derrubar o presidente. Liderados pelo grupo Tamarod (rebelião), eles se mobilizaram no país todo e prometeram não descansar até que Morsi abandonasse o cargo.

A Irmandade Muçulmana, por sua vez, fez com que seus militantes se preparassem para defender a legitimidade do presidente. Desde sexta-feira eles acamparam em frente ao palácio presidencial esperando pelos opositores.

O exército disse que só iria interferir caso a situação se tornasse ainda mais caótica. E foi exatamente o que aconteceu. Na segunda-feira (1), através de um comunicado oficial, deram 48 horas para o presidente Mohamed Morsi apresentar uma resposta satisfatória ao povo. O engenheiro disse que seu poder estava em consonância com as forças armadas e que não toleraria qualquer golpe. Esta foi claramente uma resposta aos militares, e não aos manifestantes.

Nas ruas, pouco a pouco, os confrontos entre os pró e os anti-Morsi iam se intensificando. A sede da Irmandade Muçulmana em Alexandria foi atacada após um dos membros atirar contra os manifestantes. O Egito esteve (e para falar a verdade ainda está) à beira de uma guerra civil. Os relatos de violência (incluindo  46 agressões sexuais) e os 16 mortos deixam isso muito claro.

Mas como as coisas chegaram a este extremo?

Para entender as circunstâncias que levaram à queda de Morsi, devemos fazer uma retrospectiva até o cenário político egípcio logo que o ditador Hosni Mubarak foi deposto. Na época os militares também tiveram um papel vital, se encarregando das eleições parlamentares e da organização das presidenciais.

Como expliquei em minha análise da Primavera Árabe realizada no ano passado, a ascensão da Irmandade Muçulmana (da qual falei aqui e aqui) era mais do que lógica. Afinal de contas, não havia qualquer outro grupo organizado. No entanto, o fato de Ahmed Shafiq, ex-ministro das relações exteriores de Mubarak, ter ficado na segunda colocação revelou o receio que parte dos seculares sentiam da Irmandade e seu candidato.

A maioria dos observadores externos não sabia o que pensar da entidade. Para eles o fato de Morsi ter se afastado dela oficialmente (o que não corresponde à realidade) e algumas divergências iniciais com personalidades políticas muçulmanas mostravam que ele seria um presidente “moderado”. A grande ajuda do governo Obama desde o início do mandato também moldou o pensamento das demais nações ocidentais.

Mediar o cessar-fogo entre Israel e o Hamas só abrilhantou a imagem de Morsi. Mas a “lua-de-mel” com o Ocidente durou pouco. A coisa começou a mudar de figura quando ele anunciou um decreto faraônico no qual submetia todas as decisões a seu poder sem revisão judicial até que uma nova Constituição fosse elaborada. Apesar do autoritarismo, não houve pressão externa e os protestos dentro do país foram facilmente controlados.

O autoritarismo da Irmandade e a desorganização da oposição

Passados alguns meses desde que assumiu o poder já era evidente o caráter autoritário de dr. Morsi e a influência da Irmandade no governo. Ainda que não tenha conseguido afastar a “ameaça” dos militares (Abdul Fattah Al-Sissi se tornou ministro da defesa) ele fez o que pôde (o general Hussein Tantawi foi aposentado compulsoriamente). Ademais, a disputa com o judiciário remanescente de Mubarak (por isso chamado de felul) era cada vez maior.

O único problema que Morsi não conseguia enfrentar era o da economia. Nem a ajuda do governo americano foi suficiente. O empréstimo do FMI não foi liberado porque as negociações emperraram. Enquanto isso o povo perecia e saía às ruas protestando contra o governo.

Não vendo outra saída possível, aqueles se intitulavam opositores formaram uma coalizão — a Frente de Salvação Nacional — capitaneada por Mohamed El-Baradei. A única coisa que os unia era a vontade de derrubar Morsi. Resultado: não houve qualquer discurso que pudesse ao menos propor uma alternativa para a população. Nada de propostas, apenas “Fora Morsi”.

A gota d’água e a intervenção militar

Enquanto a oposição se concentrava em bater em Morsi e na Irmandade, a qualidade de vida dos egípcios ficava cada vez mais precária (o valor da libra caiu 25% em relação ao dólar desde o fim do governo Mubarak). Isso durou até o momento em que o povo resolveu dar um basta.

Durante todo o mês de junho os protestos se tornaram mais contundentes. A aliança de Morsi com o Al-Gama’a Al-Islamiya, um grupo assumidamente terrorista, só piorou as coisas. Na passada quarta-feira o presidente foi ridicularizado em público por seu discurso lamentável. O grupo Tamarod disse que juntou 22 milhões (!) de assinaturas pedindo sua saída. Os comícios organizados pela Irmandade foram insignificantes.

Quando a situação política beirava o colapso os militares interviram. Após uma reunião com representantes da FSN, da Igreja Copta e muçulmanos, Abdul Fattah Al-Sissi, por volta de 21h00 horário local, anunciou as modificações e o plano político futuro para o Egito: (1) suspensão da Constituição; (2) eleições antecipadas serão realizadas; (3) a chefia do executivo ficará a cargo do presidente da Suprema Corte Constitucional (Adly Mansur); (4) será formado um governo de coalizão nacional; e (5) haverá uma comissão para analisar emendas à Constituição.

Em apoio à atitude dos militares e em tom conciliador falaram Mohamed El-Baradei, o papa copa Tawadros II e o grande imã de Al-Azhar, Sheikh Ahmed El-Tayyeb. Contudo, o que ainda preocupa é uma possível (e até provável) reação da Irmandade Muçulmana. O primeiro comunicado do grupo, que inclusive teve apoio do partido salafista Watan, dizia que este “golpe” não seria tolerado. E nem é preciso dizer que a Irmandade é uma organização extremamente forte e influente.

Concluindo: acho sim que a população tem motivos para comemorar (sobretudo os coptas) e vejo com bons olhos a intervenção militar. Só acho que este foi apenas o primeiro passo para os egípcios. Agora eles precisarão estar preparados pela resposta da Irmandade (seus partidários já cantaram “reação, reação, reação” depois do anúncio de El-Sissi) e para resistirem a este quadro econômico que ainda é demasiadamente complicado.

O “gigante” turco acordou também?

Gull e Erdogan.

Já que ficam berrando a torto e a direito “o gigante acordou” por aí (fazem isso até na minha pequena ~irrisória~cidade) decidi usar o clichê também. Ademais, faltou criatividade para um título melhor para tratar dos protestos que estão ocorrendo na Turquia.

Nestas últimas semanas vi inúmeras comparações entre os protestos do Brasil e os de lá (disseram até que “se fosse na Turquia você iria!” devido a minha cautela e preocupação) e então decidi escrever sobre o que acontece no país de Erdogan com intuito de deixar as coisas claras e fazer com que os oportunistas de plantão pensem duas ou três vezes antes de saírem por aí falando.

Os protestos começaram no dia 31 de maio no Gezi Park, famosíssimo parque de Istambul que se localiza na Praça Taksim. Inicialmente a polícia reagiu de forma mais enérgica contra um grupo de ambientalistas que protestavam contra a demolição do parque para a criação de um shopping center. No entanto, após a reação das autoridades o número de pessoas que se aglomerou no local não parou de crescer e os protestos tomaram um rumo completamente inesperado.

Hürriyet, principal (e um dos poucos) jornal da oposição, noticia que por volta de 2,5 milhões de pessoas foram às ruas para protestar desde o dia 31 de maio. Logicamente que, com o passar do tempo, os revoltosos de Gezi Park foram ficando para trás e deram lugar aos descontentes com o governo do premiê Recep Tayyp Erdogan.

O governo Erdogan

Entendam que o pequeno balanço que fiz acima foi apenas um apanhado geral dos protestos. Acredito que seja necessário ter isso em mente antes que possamos especular as raízes deste descontentamento em determinados setores da população turca. Neste tópico mister se faz entender como o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP na sua sigla em turco) chegou ao poder.

O partido foi fundado em 2001 por um vasto leque de políticos já bem conhecidos no cenário nacional e por outros jovens. No começo houve uma mistura entre ditos conservadores e islamistas. Todos se uniram a Erdogan que logo nas eleições de 2002 se tornou primeiro-ministro. De lá para cá oficialmente o partido se apegou à “democracia conservadora”. Não creio que seja essencial entrar nisso agora e fugir ao nosso tema, mas sabemos que tal história de “democracia conservadora” não convence ninguém. Os não-islâmicos que o digam.

De qualquer maneira, o trabalho que Erdogan tinha pela frente como PM era duríssimo. Ele precisava arrancar o país de uma crise econômica (a recessão e a inflação eram galopantes) e ainda se desviar da constante ameaça de golpes militares. No final das contas, se deu bem. A economia turca se recuperou graças aos investimentos estrangeiros constantemente incentivados pelo premiê (ver aqui e aqui).

Quanto aos militares e outros “conspiradores”, se livrou da maioria deles. Os militares das mais altas patentes que levantassem qualquer suspeita logo eram derrubados. A prisão de jornalistas infelizmente sempre foi comum no governo Erdogan. O medo que ele tinha do “Estado Profundo” foi meticulosamente engendrado também na população. O indiciamento, em 2011, de mais de 300 pessoas no caso Ergenekon só fez aumentar a “sensação de segurança com Erdogan”.

Basicamente podemos dizer que o AKP foi muito eficiente em sua missão de desconstituir o establishment kemalista e instituir um novo. O problema é que este último conta, da mesma forma, com caráter autoritário. Nas palavras da colunista Nura Mert:

“Por muito tempo pensou-se que a Turquia estava no caminho certo da democratização e que o AKP eliminou a hegemonia militar. É verdade que o AKP chegou ao poder em 2002 e foi uma espécie de revolução democrática. Desde então o AKP conseguiu alterar o papel dos militares na polícia civil e pôde eliminar a ideologia oficial rigidamente secularista. No entanto, este era o limite da ‘democratização’ política do AKP, pois seu objetivo não era mudar o sistema político autoritário, mas eliminar as autoridades e centro de poder”.

Percebem? A única causa para o partido de Erdogan ter promovido esta queda de um antigo autoritarismo era simplesmente para colocar em prática o seu. Aliás, até nome essa política já tem: neo-otomanismo. Desde aquela coisa que chamam de ~neoliberalismo~ — que até hoje não descobri o que é — tenho um certo receio a tudo que vem precedido por “neo”. No entanto, quem acompanha a política turca sabe muito bem o que esta palavra quer dizer. Dentro deste contexto vale a leitura do bom texto de Raymond Ibrahim sobre as posições do premiê turco (link aqui).

Gezi Park foi a válvula de escape

Os protestos em Gezi Park serviram pura e simplesmente para que os descontentes tivessem onde canalizar toda a sua revolta. A partir de Istambul os protestos se espalharam por toda a Turquia. A única coisa que tinham em comum era o desagrado com as políticas de Erdogan. Tirando isso, nada mais.

Para se ter uma ideia, protestaram juntos kemalistas, comunistas, ambientalistas, pessoas sem qualquer ideologia, alevitas (a polêmica em torno destes já é bem antiga) e até integrantes do movimento LGBT turco. Mais desorganização impossível. O saldo disso foi a danificação de 58 prédios públicos e 337 localidades de empresas privadas, além da inutilização de 240 veículos da polícia, 214 carros particulares, 90 ônibus municipais e 45 ambulâncias.

A desorganização da oposição

Desde 2002 o kemalista CHP (Partido Republicano do Povo) deveria ser a principal voz da oposição. O problema é que na prática isso não acontece. Além de servir como bode expiatório para todos os problemas da Turquia (acreditem, Erdogan joga a culpa no CHP sempre que pode!), o partido ou se cala ou tem sua voz abafada. Tudo bem que grande parte da imprensa é pró-AKP, mas também não é raro ler em jornais de oposição pedidos para que o partido pelo menos se manifeste.

Quando houve um atentado na cidade de Reynhali — momento que se acreditou que a Turquia poderia passar a intervir mais ativamente na Síria — o primeiro-ministro tratou logo de acusar formalmente o partido opositor de ter fomentado o ataque. Este, por sua vez, rebateu a acusação. Mas ninguém ouviu.

Não é de hoje que pedem mais uma reforma política dentro do CHP (que inclusive faz parte da Internacional Socialista). O difícil é fazerem alguma coisa. Agora tentaram aproveitar os protestos e se meter no meio mas não conseguiram. Veja bem, não conseguiram. A dificuldade de concentrar o discurso contra Erdogan e usar os ventos a seu favor é uma coisa assustadora.

A resposta de Erdogan e a pequena esperança dos descontentes

Mesmo a contragosto o PM turco se reuniu com manifestantes pró-Gezi Park e fez algumas concessões. Nada importante para falar a verdade. O que chamou mesmo atenção foi sua retórica inflamada desde o início condenando todas as manifestações e invocando até mesmo teorias que falam sobre financiamento internacional de países e ONGs contra seu governo (deixe Israel fora disso, por favor).

Outro ponto que Erdogan teve a seu favor foi a depredação que já mencionei acima. Graças a ela muita gente que a princípio concordava com a manifestação passou a defender o AKP apenas para que este possa restituir a ordem. Afinal de contas, na cabeça dessas pessoas, se Erdogan cair quem vai assumir o barco? E como elas não veem representação alguma na oposição preferiram ficar com o “mal menor”.

Cabe salientar ainda que o apoio do AKP no país é de 50%, ou seja, vai ser difícil fazer com que alguma coisa mude a curto prazo. Aproveitando-se de tamanho apoio Erdogan convocou comícios para responder aos manifestantes e tem sido muito bem-sucedido.

Acreditem ou não, mas a única –e pequena — esperança destes descontentes é uma possível divisão dentro do AKP entre o PM e o presidente da república Abdullah Gul. Erdogan está em seu terceiro mandato como primeiro-ministro e no presente momento leva a cabo uma modificação para ampliar os poderes do presidente, cargo que atualmente é bastante cerimonial. Ele quer isso porque almeja a presidência.

Deste modo, segundo o Al-Monitor, as distintas abordagens dos dois com relação aos protestos pode indicar que Gul queira disputar o cargo novamente e contra Erdogan. Mesmo depois que o PM corroborou seu discurso agressivo e teve apoio de muitos membros do partido, Gul seguiu firme tentando apascentar os manifestantes. Não nego que este seja um indício, mas acredito que ainda é muito cedo para tirar qualquer conclusão.

Página 3 de 41234