Gilmar Siqueira

@GilmarSiqueira

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O dia em que Putin deu um nó em Obama

Putin e Obama

Como escrevi em meu último post, o presidente Barack Obama resolveu procrastinar uma possível solução para o problema do uso de armas químicas na Síria até depois da reunião do G-20. Mas, de lá para cá, muita coisa aconteceu e o comandante-em-chefe americano viu que estava em maus lençóis. Ele provavelmente se tornaria o primeiro presidente cuja autorização do Congresso para um ataque seria negada. Mesmo membros do Partido Democrata estavam dispostos a votar não.

Seu constante apelo ao povo e aos políticos jogando incessantemente a culpa em Bashar Al-Assad e relembrando as vítimas não surtiu efeito. Depois da derrota de Cameron no Parlamento britânico, Obama também sabia que iria perder. Foi então que o presidente russo Vladimir Putin entrou na história. Para evitar um ataque estrangeiro contra a Síria, ele propôs que o Assad entregasse seu arsenal químico para a comunidade internacional. O governo sírio, por seu turno, concordou.

Foi aí que Obama, isolado, decidiu ceder e adiou a votação no Congresso. A França ainda tentou uma última jogada alegando que, caso a Síria não cumprisse com sua palavra, o Capítulo VII da Carta da ONU deveria ser invocado. Mas a Rússia, rechaçando toda e qualquer possibilidade de ataque à Síria, discordou. Putin, em artigo publicado no NYT, comemorou:

Uma nova oportunidade para evitar uma ação militar surgiu nos últimos dias. Os Estados Unidos, a Rússia e todos os membros da comunidade internacional devem aproveitar a vontade do governo sírio de colocar seu arsenal químico sob controle internacional para a posterior destruição. A julgar pelas declarações do presidente Obama, os Estados Unidos veem isso como uma alternativa à ação militar.

Muitos, como eu, devem estar se perguntando sobre a “linha vermelha” traçada por Obama. Pois é. Parece que ela foi para o espaço. Ele disse claramente que, se houvesse utilização de armas químicas na Síria, os Estados Unidos interviriam. Esta declaração dada no período eleitoral serviu apenas para empurrar com a barriga a questão da guerra civil no país. A opinião pública exigiu uma resposta de Obama e ele deu. Agora, quando chegou a hora de tomar uma atitude, se enrolou completamente. Primeiro veio a público dizer que uma resposta deveria ser dada a Assad; depois esperou para ver o que acontecia na Grã-Bretanha; e por fim teve de concordar com a proposta de Putin — e suas condições — para tentar resolver o problema.

O presidente russo, no mesmo artigo supracitado, lembrou também que ainda não existem provas de que Assad tenha sido o responsável pelo ataque químico. Ele ainda fez questão de lembrar sobre a Líbia, o Iraque e o Afeganistão. Quanto a estes dois últimos nem precisava, haja vista o fato de que os Democratas fazem isso constantemente (neste artigo Ann Coulter detona tamanha ironia). Sim, porque a postura internacional de Obama é a mais ridícula e vergonhosa desde Jimmy Carter, mas a culpa é sempre de Bush. Putin ainda alfinetou: “é alarmante que a intervenção militar em conflitos internos em países estrangeiros se tornou comum para os Estados Unidos. É do interesse a longo prazo dos Estados Unidos? Duvido”.

Não sei se ainda lembram de um certo candidato Republicano à presidência. Um tal de Mitt Romney. Ele dizia que a Rússia ainda era a grande rival dos Estados Unidos. Na época — por volta um ano atrás! — foi chamado de “teórico da conspiração”. Aí está a teoria da conspiração dele. A análise da Stratfor foi muito precisa neste ponto:

A questão se transformou em um confronto russo-americano. O objetivo de Rússia é ser vista como igual aos Estados Unidos. E se ganhar pode ser vista como protagonista em relação aos Estados Unidos. Se parecer que Washington se absteve de um ataque por manobras russas, o peso de Moscou aumentará drasticamente. (…)

O estratagema russo sobre o controle de armas foi seguido pela jogada brilhante de abandonar as opções de ataque. O discurso de Obama na noite de 10 de setembro foi dirigido ao público dos Estados Unidos e à sua base altamente fraturada (…).

Em seu discurso de terça-feira (10) tudo o que Obama fez foi repetir mais do mesmo. Fez todo aquele drama posando  como presidente preocupado, voltou a mencionar os vídeos que ele chama de “provas de que Assad usou armas químicas” e disse que a comunidade internacional não pode se calar. Para justificar seu apelo ao Congresso alegou que, como não há ameaça iminente aos Estados Unidos, os parlamentares deveriam ser consultados. No final tentou se desdobrar concordando com aqueles que dizem que os “USA não podem ser a polícia do mundo” e que por isso a alternativa diplomática de Putin deveria ser levada em consideração.

Respondeu a questionamentos que “muitos têm feito”. Só não falou com contundência sobre os jihadistas e o eventual cenário pós-ataque. Adoraria saber o que ele pensa sobre o ataque a Ma’aloula. Fiquei curioso também para saber a respeito de uma punição a Assad. Ora, se para Obama ele usou armas químicas, então deve ser punido por isso. O problema é que a Rússia não pensa da mesma forma. Então, o que fazer? Esta é minha pergunta e a de outros que contestam as atitudes lamentáveis do presidente americano.

“Esta é a semana em que os Estados Unidos perderam seu status de superpotência”, disse Glenn Beck. Na mesma semana em que nos recordamos do 11 de setembro de 2001. O lugar onde cada um de nós estava quando tudo aquilo (desculpem, não conseguiria usar outra expressão) aconteceu. Agora temos também que nos lembrar do 11 de setembro de 2012, quando quatro americanos morreram em Benghazi por irresponsabilidade de administração Obama. E depois saíram por aí a dizer que foi por culpa do “filme islamofóbico”. Triste semana para a América.

E se o netinho de Pelosi tiver razão?

Boehner, Obama e Pelosi

Boehner, Obama e Pelosi.

No sábado (31/08), o presidente americano Barack Obama apareceu no Rose Garden ao lado de seu vice Joe Biden para comunicar que o uso de armas químicas na Síria merecia uma resposta, mas que só haveria intervenção em caso de aprovação do Congresso. Ele ainda atribui a culpa a Bashar Al-Assad garantindo ter provas de que o ditador foi mesmo o responsável. Nesta semana Nancy Pelosi defendeu a posição de Obama, alegando a necessidade de uma “intervenção humanitária”.

Pelosi afirma ter perguntado ao seu netinho, de 5 anos, se ele achava que a intervenção seria correta. A resposta foi “não”. Ela então se sentou com ele e explicou o perigo das armas químicas. Como disse Timothy Santley, podemos tirar duas conclusões deste episódio surreal: (a) Nancy discute política externa com uma criança de 5 anos; e (b) ele sabe bem mais do que ela. Também sabe mais do que Obama, John Kerry, John McCain e Lindsey Graham. Veremos isso mais adiante.

A proposta do presidente Obama é de uma intervenção “reduzida e limitada”, na qual as possibilidades de Assad voltar a usar armas químicas (se é que ele o fez alguma vez) seriam amplamente reduzidas. Ademais, tanto ele quanto Kerry asseguraram que não haverá boots on the ground e que ataques de mísseis resolveriam o problema. Me atrevo a dizer que os problemas só aumentariam com o eventual ataque. Os senadores Republicanos (?) — ou que ao menos se intitulam assim — concordaram com Obama, ainda que prefiram uma intervenção mais longa e vasto apoio aos rebeldes. Como se este apoio, dadas as atuais circunstâncias e a evolução da guerra civil, fosse mesmo fazer a diferença. O objetivo da operação, para McCain e Graham, deveria ser o de derrubar Assad.

E mais uma vez devemos levantar aquele questionamento: foi mesmo Assad quem ordenou o ataque químico? Os governos de França, Grã-Bretanha e Estados Unidos disseram que sim, mas até agora não apresentaram provas concretas. Vale lembrar que, logo após o ataque, John Kerry se pronunciou vociferante em favor da ação militar e culpando o ditador Baathista. Com o pronunciamento do presidente passando a “batata quente” para o Congresso foi forçado a abaixar a cabeça e esperar. O estranho é pensar que existem pessoas convencidas de que alguém como Kerry possa ter credibilidade. Professor Olavo de Carvalho escreveu sobre ele.

A verdade é que Obama tomou a decisão de pedir votação no Congresso após David Cameron ter sofrido um duro revés no Parlamento Britânico. Até mesmo membros do seu partido, o Tory, se opuseram à intervenção na Síria e ele foi voto vencido. Em seguida houve uma especulação de que talvez, no decorrer dos fatos, os britânicos poderiam se envolver militarmente de alguma forma. Mais pressionado do que nunca o primeiro-ministro foi forçado a negar.

A situação de Obama não é muito diferente. O presidente, que está a pagar por seus inúmeros erros na política externa, tem chances de perder a votação no Congresso. Foi esta, inclusive, a pergunta dirigida pelo senador Rand Paul (este sim um verdadeiro Republicano!) a John Kerry. Paul questionou o Secretário de Estado se, em caso de veredicto contrário, o presidente respeitaria a decisão. A resposta foi: “talvez não”. Como assim talvez não? Se Obama não precisava do Congresso para tomar a decisão por que raios o convocou? Mas nós sabemos muito bem como este presidente age e  ele tentará dar um jeito de sair por cima da situação.

O que menos importa são a credibilidade e voz ativa dos Estados Unidos, que foram para o espaço já há muito tempo. Como frisou Ann Coulter (traduzida por Alexandre Borges):

Vejam como a esquerda é: ficamos anos aguentando a imprensa gritar que Donald Rumsfeld teve relações diplomáticas com Saddam vinte anos antes, o que é o que se espera em termos de diplomacia com países que não estamos em guerra. E agora? Cadê a imprensa cobrando todos os elogios do governo Obama e dos líderes Democratas a Assad? Quem está perguntando à Nancy Pelosi porque ela disse que Assad era um líder moderado e reformista?

Os que se colocam a favor da intervenção dizem que Assad ultrapassou todos os limites e que isso não pode continuar. Pois bem. Façamos então um pequeno exercício de imaginação: partiremos do pressuposto de que o ditador tenha mesmo usado armas químicas contra os civis. Quem garante que ele não fará isso de novo? A discussão no Congresso, que só volta dia 9 de setembro, deve se desenrolar até meados deste mês. Em resumo, Assad teria tempo para se proteger e resguardar seu arsenal. Como se não bastasse isso, após um ataque “limitado”, ele logo sairia se declarando vitorioso e preparando uma resposta. Se ele foi louco o bastante para lançar mão de armas químicas, seria capaz de qualquer coisa para responder a um ataque externo.

Continuemos com o exercício de imaginação. Agora pensem num cenário imediatamente posterior à intervenção. Assad logicamente sofreria um revés no campo de batalha e isso provocaria duas consequências imediatas: a ascensão dos rebeldes e uma provável resposta dos principais aliados do regime, Irã (coloquem o Hezbollah no pacote do Irã) e Rússia. Putin não aceitaria assim tão facilmente ver um aliado seu cair, ainda mais depois de tanto bater numa tecla que, pelo menos até agora, é real: não existem provas que incriminem Assad pelo uso de armas químicas.

Voltemos rapidamente a John McCain e Lindsey Graham. Eles têm defendido, como mencionado acima, um vasto apoio aos rebeldes. Mas aí resvalamos no problema dos jihadistas. Os senadores, em resposta, dizem que devem ser escolhidos a dedo os membros “moderados” da oposição. Mas, afinal de contas, quem são eles? O Exército Sírio Livre? Esta facção não passa de um conjunto de caras armados que não gostam de Assad e lutam para derrubá-lo. Ainda que sejam, vá lá, moderados, estão amplamente desorganizados. Os grupos jihadistas por outro lado, conquistaram vitórias significativas, têm apoio externo e são organizados (ISIS e Jabaht Al-Nusra que o digam). No final das contas, o auxílio aos rebeldes em detrimento dos extremistas não faria grande sentido.

Por ora nos resta esperar. Antes de o Congresso retornar para votar a intervenção ou não na Síria, haverá ainda uma reunião do G-20 onde Putin e Obama deverão se encontrar para discutir a questão. E a ONU ainda deve divulgar seu relatório nos próximos dias, que pode ser crucial para a decisão dos americanos.

Intervenção estrangeira na Síria é iminente

chemical attack

No passado dia 21 de agosto entre 500 e 1000 pessoas perderam a vida num subúrbio de Damasco. Elas foram atacadas durante a manhã. Todos os indícios apontavam para o uso de sarin. Os inúmeros vídeos e depoimentos que circularam na internet faziam referência a salivação, náuseas e vômito. Consequências do sarin. Encarregados da ONU foram imediatamente deslocados para o local. No entanto, nesta segunda (26), seu trabalho foi barrado por franco-atiradores.

Ainda assim a comissão das Nações Unidas conseguiu chegar até alguns hospitais. Em seu comunicado oficial (ver aqui e aqui) o Secretário de Estado Americano, John Kerry, foi duro e enfático. Ele disse que a responsabilidade pelo uso de armas químicas no passado dia 21 era do governo sírio. Os acusou também de “matança indiscriminada de civis” e cinismo tentando encobrir um “crime covarde”. Assad, por sua vez, disse que as acusações que partiram do Ocidente eram “absurdas” e altamente “politizadas”. Em suas palavras, “como é possível que qualquer país possa utilizar armas químicas, ou quaisquer armas de destruição em massa, em uma área onde suas forças estão localizadas?”

Devido aos acontecimentos foi realizada uma reunião de emergência em Istambul. Citando fontes diplomáticas que lá estiveram presentes, a Reuters informou que o conselho dado aos rebeldes é que esperem por uma ação militar e preparem-se para negociar a paz. “Foi dito à oposição em termos claros que a ação para impedir uma maior utilização de armas químicas pelo regime de Assad poderia vir tão cedo quanto nos próximos dias”, declarou a fonte acionada pela Reuters.

A Turquia, um dos países que mais apoia os rebeldes e que há tempos clama por intervenção na Síria, chamou o ocorrido de “crime contra a humanidade”. David Cameron, PM britânico, convocou uma reunião excepcional do Parlamento para quinta-feira, encurtando o recesso de verão dos políticos do Reino Unido. Chuck Hagel, Secretário de Defesa dos EUA, disse que o Exército Americano “está pronto a acatar qualquer ordem que o presidente deseje tomar”.

O principal obstáculo para a intervenção, mais uma vez, está no próprio Conselho de Segurança. Rússia e China também se manifestaram, alegando que os rebeldes podem ter sido os responsáveis pela utilização de armas químicas. “As tentativas de evitar o Conselho de Segurança da ONU, de criar outra vez pretextos artificiais sem provas para uma intervenção militar na região, podem acarretar novos problemas a Síria e consequências catastróficas para outros países (…)”, disse Aleksandr Lukashevich, porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da Rússia.

A verdade é que a linha vermelha já foi ultrapassada há algum tempo. No entanto, até o dia 21, ainda não havia ocorrido um ataque em larga escala. Existem indícios de que mesmo os rebeldes sejam responsáveis por crimes envolvendo armas químicas. O WND, em conjunto com Waelid Shoebat, lançou a denúncia de que os rebeldes poderiam estar envolvidos na tragédia em Damasco. Isso coloca em dúvida a declaração categórica de John Kerry.

A intervenção, que divide opiniões dentro e fora do Congresso Americano (ver aqui e aqui), caso venha a ocorrer será semelhante à da Líbia com intuito de neutralizar as forças de Assad. No final das contas ele terá duas opções: negociar a paz ou cair. Difícil será fazer os rebeldes pararem depois que as forças do ditador sírio estiverem caídas. Kaddafi e os rebeldes seguiram lutando. Deu no que deu.

Para quem se pergunta se há respaldo do Direito Internacional para intervenções humanitárias, digo que o tema é polêmico. O artigo 2 (4) da Carta da ONU permite a intervenção militar em autodefesa. E isso por si só já resulta em uma controvérsia enorme (principalmente nos casos de target-killing e preemptive attack). Oppenheim, em 1905 (data de publicação de seu livro International Law) abordou a questão:

Muitos juristas dizem que a intervenção seja admissível, ou até conte com bases legais, quando exercida em razão de condições humanitárias na proposição que visa o fim das perseguições religiosas. Não restam dúvidas de que estes poderes foram utilizados no passado. Assim, Grã-Bretanha, França e Rússia intervieram contra revolucionários na Grécia e na Turquia, tendo em vista que a opinião pública estava horrorizada com as crueldades cometidas durante a luta. E intervenções aconteceram a tempo de fazer cessar a perseguição aos cristãos na Turquia. (OPPENHEIM, 1905, P.186)

Se então era prevista, pelo menos de certa forma, a intervenção de caráter humanitário por que ela não foi adicionada à Carta da ONU se esta buscou positivar o Direito Internacional Consuetudinário? Podemos dizer que foi uma tática de centralização de poder para o Conselho de Segurança, de modo que os critérios de intervenção tenham se tornado rigorosos. Michael Byers, autor de A Lei da Guerra: Direito Internacional e Conflito Armado, tem uma opinião sobre as intervenções humanitárias:

Não existem precedentes fundamentais para a alegação de intervenção a bem da democracia. Na ausência de precedentes, tampouco existem práticas de Estado ou opinio juris que a corrobore, nem, portanto, qualquer norma de direito internacional consuetudinário. O Conselho de Segurança da ONU poderia autorizar uma intervenção com a finalidade de restabelecer ou apoiar a democracia, como se pode considerar que fez no Haiti em 1994, mas não existe fundamentação jurídica para que este tipo de alternativa seja tomada individualmente por algum país ou por um grupo de países. Nem mesmo os dois possíveis precedentes citados por estudiosos — as invasões de Granada (1983) e do Panamá (1989) — podem socorrer aqui. (BYERS, 2010, p.110)

Então o que fazer? Deixar que as pessoas morram na Síria por que o Direito Internacional não abarca a intervenção humanitária e Rússia e China são uma pedra no Conselho de Segurança? A resposta é não. Como me disse uma vez o professor Jónatas Eduardo Machado, “onde há vontade há caminho”, ou seja, pode ocorrer uma intervenção. O principal problema seria quais os seus reflexos para os sírios a curto/médio prazo. Por mais que se pare para pensar, não há uma alternativa que seja realmente boa para a resolução do conflito.

Mubarak tinha razão

 

Coptas orando em igreja depredada.

Após esgotadas absolutamente todas as possibilidades de acordo entre Irmandade Muçulmana e governo interino egípcio, as forças de segurança do país se viram obrigadas a tomar uma atitude e desfizeram os acampamentos da entidade muçulmana. O resultado foi, só no primeiro dia (17 de agosto), mais de 500 mortes.

De quarta à sexta-feira, segundo o Al-Masry Al-Youm, o número girou em torno de 800. A carnificina, como era de se supor, está a gerar uma grande comoção internacional. O presidente americano, Barack Obama, interrompeu suas férias para pedir ponderação aos dois lados do conflito e anunciar o cancelamento de exercícios militares em conjunto com o exército egípcio que estavam previstos para este mês.

O presidente interino, Adly Mansur, declarou estado de emergência e toque de recolher nas principais cidades do país por pelo menos um mês. O caos reina e o Egito está a beira de uma guerra civil.

Parece muito fácil interpretar todas estas ações como sinais de pura opressão militar sobre os membros da Irmandade, que protestavam “pacificamente”. Pelo menos é assim que portais como The New York Times e Washington Post referem-se à situação. As atitudes terroristas da Irmandade são o de menos. Ou vocês acreditam mesmo que os militares disparariam repentinamente na população? Não nego que houve abusos e que as forças de segurança do Egito estejam despreparadas para lidar com tamanha situação caótica. Prova disso foi a renúncia de Mohamed El-Baradei, que disse não poder “assumir a responsabilidade por decisões das quais discordava”. Mas há relatos de que as ações mais violentas ocorreram em resposta a membros da Irmandade que atiraram contra o exército. Tanto que 57 policias foram mortos e 563 ficaram feridos nas ações.

Incrível é que ainda tentam defender Ikhwan depois do denominado “Dia de Fúria” quando seus partidários saíram às ruas depredando tudo enquanto diziam que apenas estavam a tentar “restituir a democracia” e que o Egito “voltou para uma ditadura”. A pergunta que faço é a seguinte: quando foi que o país deixou de ser uma ditadura? O fato de Mohamed Morsi ter sido “democraticamente” eleito, no final das contas, não significou praticamente nada. Primeiro porque, de acordo com a oposição, o índice de fraude eleitoral foi altíssimo. Mas nem pretendo abordar este tema. O foco é Morsi como presidente. Ele levou o Egito a outro governo imensamente autoritário desta feita respaldado pela Irmandade Muçulmana. Além das constantes disputas com a Suprema Corte egípcia —  acusada por ele de felul, isto é, remanescente da era Mubarak —  Dr. Morsi lançou mão de um decreto no qual concentrava para si todas as decisões e, detalhe, sem revisão judicial. Para apascentar os paladinos  ocidentais da liberdade, tal decreto só duraria até que a nova Constituição fosse aprovada. Esta, por sua vez, estava impregnada pela Sharia e, durante sua votação, teve baixíssimo comparecimento do eleitorado.

Logo que Morsi — cujo apoio popular era praticamente nulo exceto por seu grupo — foi deposto pelas Forças Armadas, a Irmandade resolveu parar o Egito. Por mais que negociadores internacionais tentassem qualquer reconciliação ela não cedia. O governo interino se mostrou disposto a ouvir seus clamores, mas Ikhwan queria apenas o retorno de Morsi. Isso era impossível. Os acampamentos em importantes localidades do Cairo e a mobilização em outras cidades também já não podia mais ser tolerada. E a bomba explodiu. Como a Irmandade respondeu? Da mesma forma que prometeu: “estamos protestando ‘pacificamente’, mas só sairemos mortos!”

Querem saber de uma coisa? Infelizmente Mubarak tinha razão. Sim, Mubarak. Aquele ditador sanguinário que saiu do governo e deu lugar a um presidente “democrático” aos olhos do Ocidente. Em certa declaração, quando ainda era presidente do Egito, ele descreveu a estratégia que a Irmandade usaria para chegar ao poder:

Então eles se aproveitam da situação econômica distribuindo dinheiro para criar um estado de instabilidade no Egito. E esses grupos – nunca acreditem que eles querem democracia ou algo assim. Eles estão explorando a democracia para eliminá-la. E se eles começarem a governar, será uma ditadura feia…Uma vez um estrangeiro me disse: “bem, se esse é o caso, por que não os deixa formar partidos políticos?” E eu lhe disse: “eles atacam uns aos outros”. E ele disse: “então deixe que ataquem uns aos outros”. Só então vim a entender que por “atacar uns aos outros”, ele pensou que eu quis dizer por meio do diálogo. Durante anos temos tentado dialogar com eles, e ainda estamos. Se o diálogo se limita a palavras, tudo bem. Mas quando o diálogo passa das palavras a balas e bombas…[Mubarak balança a cabeça e, em seguida, fornece anedotas da polícia egípcia e detalhes de agentes de segurança mortos por homens da Irmandade e suas filiais. Essas histórias incluem uma sobre como 104 policiais foram mortos em 1981, e uma sobre como um policial foi baleado por um membro da Irmandade Muçulmana enquanto tentava salvar a vida de um menino].

A questão é que nós não gostamos de derramamento de sangue nem nossos soldados. Mas quando eu vejo que você está atirando em mim, tentando me matar, bem, eu tenho que me defender. Em seguida, as agências de notícias internacionais vão até esses grupos e eles lhes dizem: “vejam, estão nos matando, estão nos matando!” Bem, as agências de notícias não os vê [membros da Irmandade] matando a polícia! Eu te juro, nenhum dos policiais quer matá-los, e nenhum de nós. Aí eles dizem: “então, sr. Presidente, você deu ordens à polícia para abrir fogo indiscriminadamente?” – Eu não posso dar essa ordem. Ela contradiz a lei. Eu poderia ser julgado por isso.

Eu entendo as objeções daqueles que relutam acreditar em um ditador. E, afinal de contas, Hosni Mubarak foi um ditador! O problema é que a declaração transcrita acima revela realmente como a Irmandade Muçulmana atua. Isso não é mais segredo para ninguém. Mubarak poderia ter todos os defeitos, mas sabia com quem estava lidando. A verdade não deixa de ser verdade mesmo saindo da boca de alguém não tão confiável.

Repito uma frase: “Eles estão explorando a democracia para eliminá-la”. Pudemos constatar que este fato em menos de um ano com Morsi à frente do poder executivo egípcio. Agora os membros da Irmandade estão a dizer que “a democracia não funciona” e que eles precisam lutar. Sabem o que é pior? Tem gente que dá razão a eles!

O atual primeiro-ministro, Hazem Al-Beblawy, propôs um projeto que visa a dissolução da Irmandade como uma entidade legal. Sinceramente, não sei se esta medida fará uma grande diferença dadas as atuais circunstâncias. Até o momento mais de 1000 elementos da Irmandade foram presos e Ammar Mohamed Badie, filho do guia supremo de Ikhwan Mohamed Badie, foi morto.

Para finalizar esta análise, tocarei noutro ponto delicado: a perseguição aos cristãos empreendida pela Irmandade. Como se já não bastasse o fato de, durante o curto mandato de Morsi, mais cristãos terem sido atacados e presos por “blasfêmia” do que nos 30 anos da era Mubarak, os islamistas resolveram agora descontar nos cristãos. O apoio do Papa copta Tawadros II à ação militar que depôs Morsi culminou primeiramente em ameaças e, por fim, em atitudes concretas. Desde quarta-feira foram relatados pelo menos 39 ataques a Igrejas, mosteiros, escolas e outros estabelecimentos ligados aos coptas.

Em Sohag, cidade com uma grande comunidade cristã, a Igreja de Mar Gergiss foi incendiada e, em seguida, uma bandeira da Al-Qaeda foi hasteada. Desde a queda de Morsi o Papa Tawadros II precisou deixar a Catedral de São Marcos, sua sede oficial, por motivos de segurança. O general Abdul Fattah Al-Sissi deu a ordem para que todos os edifícios danificados fossem imediatamente reparados.

Escolhendo o “menos pior”

Abdul Fattah Al Sissi

Há pouco mais de um mês o presidente egípcio Mohamed Morsi foi deposto pelas forças armadas e um governo interino assumiu o poder. A previsão é de que haja eleições em cerca de seis meses. Antes disso uma nova Constituição será votada. Apesar do clamor popular por tais mudanças, a situação no Egito ainda segue caótica.

Como previsto, inúmeros manifestantes pró-Morsi e Irmandade Muçulmana protestaram em favor do ex-presidente. Desde a sua queda eles montaram acampamento em importantes localidades do Cairo, como o distrito de Nasr. Sua reivindicação tampouco surpreende. Querem o retorno de Morsi, o presidente “legítimo“. É bom lembrar que as forças armadas o prenderam sob acusações de incitação à violência e cumplicidade com entidade terrorista (no caso, o Hamas).

Diplomatas ocidentais foram até o Egito para tentar estabelecer negociações entre os diferentes grupos. Catherine Ashton, enviada da ONU, chegou a visitar Morsi na prisão. Khayrat El-Shater, líder do Partido da Liberdade e Justiça (braço político da Irmandade), também recebeu diplomatas estrangeiros. Mas nada feito. Ikhwan bateu o pé e tudo seguiu na mesma.

Para piorar ainda mais a situação, houve dois massacres perpetrados contra membros da Irmandade. O primeiro aconteceu alguns dias depois da queda de Morsi, quando pouco mais de 50 pessoas foram assassinadas em frente ao palácio presidencial. No segundo, por volta de 80 militantes morreram em Nasr. Porta-vozes da entidade muçulmana afirmam que as forças de segurança foram responsáveis. Estas, por seu turno, dizem que as mortes foram resultado de confrontos entre habitantes da região e partidários da Irmandade, após o grupo ter bloqueado o acesso à uma importante estrada.

Dificilmente saberemos quem disse a verdade. Provavelmente ambos mentiram. Abdul Fattah Al-Sissi, chefe da junta militar, chamou a população às ruas para lutar contra o terrorismo da Irmandade, apoiar as forças armadas e o governo interino. Por mais que o golpe tenha sido respaldado por parte da população, tal medida é um convite para mais violência. Do outro lado, a Irmandade fica por aí a bradar que seus protestos são pacíficos, mas que só deixarão seus postos quando estiverem mortos ou quando Morsi for restituído. Quanto pacifismo, não? Chego até a me emocionar.

Logo após o golpe a Arábia Saudita foi o primeiro país a manifestar seu apoio ao novo governo do Egito. Os Estados Unidos preferiram esperar. Esperaram tanto e conseguiram ser ainda mais odiados tanto por membros da Irmandade quanto por outras facções. Uns acusaram os norte-americanos de cumplicidade com a entidade islâmica; outros de apoio ao golpe. Só no final de julho é que John Kerry se manifestou oficialmente, dizendo que a intervenção fora necessária “mas que a democracia precisava ser restituída o mais rápido possível”.

Uma declaração tão óbvia quanto aquelas de Ban Ki-Moon pedindo a paz ao estourar qualquer conflito. A lentidão do comunicado americano ocorreu porque, segundo as leis internas, a ajuda externa deveria cessar em caso de golpe. E querendo ou não este foi o cenário do Egito. 1,5 bilhão de dólares a menos seria um tanto prejudicial para um país que, desde 2011, anda mal das pernas. Em se tratando de apoiar o “melhor lado” ou aquele “que luta pela democracia”, é um tanto complicado tomar qualquer posição que pareça realmente boa. Como disse João Pereira Coutinho, “às vezes é uma luta entre dois males igualmente perversos”. Neste caso, há três. Entre os remanescentes de Mubarak, a Irmandade e o SCAF me parece difícil pensar no pior para o Egito.

Agora que a missão de paz internacional falhou, Ahmad Al-Tayeb, grande-Iman de Al-Azhar, chamou todos os grupos políticos para um debate visando reconciliação nacional. E a resposta da Irmandade? Não participarão porque Al-Azhar foi parte integrante do golpe que derrubou o presidente “legítimo”. Assim fica difícil qualquer diálogo. Mais protestos devem acontecer durante esta semana. As forças armadas que se preparem.

Enquanto Ikhwan não der o braço a torcer e aceitar que Morsi não voltará — sob hipótese alguma! — à presidência do Egito é impossível imaginar um grande diálogo nacional. Como bem ressaltou Ziad Akl, a fraternidade ainda pode usar a violência a seu favor se apresentando como vítima, tendo em vista o fato de as forças de segurança já serem conhecidas por não aliviar muito durante a dispersão de manifestantes.

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