Gilmar Siqueira

@GilmarSiqueira

Share

A confusão da oposição

Nesta semana Estados Unidos e Grã-Bretanha anunciaram a paralisação temporária de ajuda “não-letal” aos rebeldes sírios. A decisão foi tomada depois que militantes islâmicos tomaram armazéns nos quais o Conselho Militar Supremo (CMS, entidade da Coalizão Nacional responsável pelo Exército Sírio Livre) mantinha os suprimentos e controlava sua distribuição. Os países ocidentais anunciaram que a medida foi tomada tendo em vista o perigo de equipamentos caírem nas mãos de jihadistas. Não se sabe ao certo se havia também armas.

Os primeiros relatos — assim como todos  os que provém da Síria — foram muito confusos. O nome da Brigada Islâmica, da qual falaremos mais adiante, foi mencionado por diversas vezes. No final das contas, em uma coletiva de imprensa, o porta-voz da Coalizão Nacional Khaled Saleh disse que a Brigada Islâmica na verdade veio atender a um pedido de ajuda do chefe do CMS Salim Idriss. Seu papel foi o de expulsar militantes do Estado Islâmico do Iraque e da Síria (EIIS) que tomaram, praticamente sem resistência, os armazéns situados próximos à fronteira com a Turquia. Surgiu um grande alarde pela  suposta fuga de Idriss para o Qatar, relato que também foi desmentido por Saleh.

Independentemente do esclarecimento da situação por parte de Idriss e da Coalizão Nacional, a fraqueza dos “moderados” apoiados pelos países ocidentais ficou ainda mais clara depois desse episódio — se é que já não estava antes. A ousadia que o EIIS teve para atacar e a ridícula resistência encontrada pela frente foi uma grande vergonha. Como se não bastasse isso, o apelo à Brigada Islâmica é um péssimo sinal. Mostra que o Exército Sírio Livre está ainda pior do que se imaginava.

Apesar do nome, ainda há certas divergências sobre a Brigada Islâmica. Não se sabe exatamente se constitui uma entidade organizada ou apenas um corpo de milicianos tal qual o próprio Exército Sírio Livre — que só existe solidamente na cabeça de gente como John McCain e Barack Obama. A ideia desta “Brigada Islâmica” começou quando Abdelaziz Salame, maior líder político da Brigada Tawhid em Aleppo, emitiu um comunicado no qual falava em nome de 13 distintas facções islâmicas. O conteúdo do comunicado girava em torno do descontentamento de tais grupos com as lideranças rebeldes apoiadas pelo Ocidente. Na tradução de Aaron Lund, Salame dizia que não reconheceriam “governos de exilados”. Ademais, a principal proposta apresentada consistia em considerar a sharia como única fonte de legislação. Estima-se que as facções tenham entre 40 e 50 mil combatentes à disposição. Tal fato não poderia jamais provocar uma resposta dura por parte da Coalizão Nacional, que tentou então apaziguar os ânimos.

A única objeção por parte da CN enquanto tentava manter suas ligações com o Ocidente e não irritar os muçulmanos foi com respeito a participação do Jabaht Al-Nusra no acordo assinado pelas brigadas islâmicas. Mas de nada adiantou bater o pé. A organização classificada como terrorista pelos Estados Unidos segue no grupo.

Quanto ao outro problema, o da unidade da Brigada Islâmica, ainda não existe nenhuma informação concreta. No final de setembro Aaron Lund contactou o porta-voz da brigada Tawhid e disse que não havia qualquer planejamento com o intuito de organizar os grupos em uma única facção. Prova disso é que não há lideranças que se apresentem como tal. A Brigada Tawhid se define apenas como mensageira. No entanto, Lund ressalta que a unificação também não é algo impossível. Tudo depende, segundo ele, da maneira como caminhará o conflito.

O cenário atual para a oposição não é nada bom. Embora as brigadas Tawhid e Liwaa al-Islam tenham conseguido manter com certas dificuldades suas posições em Aleppo e Damasco, respectivamente, as forças do presidente Bashar Al-Assad seguem em ascensão.  Depois de tomar Qusayr há alguns meses, o exército sírio recuperou Deir Attiya e imediatamente rumou para a vizinha Nabak. As duas cidades se localizam em pontos estratégicos do corredor que liga Damasco a Latakia e também gozam de proximidade da fronteira com o Líbano. O norte da Síria ainda está predominantemente nas mãos dos rebeldes.

Vale lembrar que as conversações entre membros da oposição e do governo foram marcadas para o dia 22 de janeiro. Pela primeira vez desde o início do conflito os dois lados concordaram com essa proposta. O problema disso tudo, como bem colocou Con Coughlin, é que a oposição considerada “moderada” não terá qualquer respaldo para decidir alguma coisa. O fortalecimento dos jihadistas, tanto político quanto militar, será o maior empecilho para as negociações. Como mencionado acima, a Brigada Islâmica não reconhece o governo da Coalizão Nacional embora admita lutar lado a lado com o Exército Sírio Livre. Do outro lado, as recentes vitórias impedirão que Assad dê o braço a torcer com facilidade. Sem contar, é claro, o significativo apoio da Rússia.

“As potências mundiais reconheceram o direito nuclear do Irã”

US Secretary of State Kerry hugs European Union foreign policy chief Ashton after she delivered a statement during a ceremony at the United Nations in Geneva

Com essas palavras o presidente iraniano Hassan Rouhani se manifestou acerca do acordo “provisório” celebrado entre P5+1 e a república islâmica ainda nas primeiras horas de domingo. O líder supremo Ali Khamenei seguiu a mesma linha e agradeceu a Allah pelo acordo. O presidente americano Barack Obama, tentando claramente mandar um recado para Israel e Arábia Saudita, disse que se o Irã não honrar seu compromisso as sanções serão novamente apertadas.

Dentre os pontos do acordo destaque para:

– O enriquecimento acima de 5% será parado e as conexões técnicas necessárias para fazê-lo serão desmontadas;

– O progresso na capacidade de enriquecimento será contido através de: nenhuma nova instalação de centrífugas, a inoperabilidade de metade das centrífugas de Natanz e três quartos das de Fordow e limitação da produção de centrífugas apenas para substituir as danificadas;

– O reator de Arak não será alimentado, comissionado, testado, abastecido e nem haverá possibilidade de construção de um local visando reprocessamento, sem o qual o Irã não terá capacidade para separar o plutônio do combustível irradiado;

– O Irã deverá fornecer à AIEA: acesso diário para os inspetores em Natanz e Fordow, permitindo visualização das imagens do sistema de segurança; acesso às instalações de montagem de centrífuga; acesso às minas de urânio e moinhos; informações do projeto para o reator de Arak; e  acesso mais frequente para o reator de Arak.

O Irã, caso cumpra com os pontos elencados acima, terá os seguintes benefícios:

– Nada de novas sanções pelos próximos seis meses;

– Suspensão de certas sanções de exportação a metais preciosos, setor automotivo e petroquímico, fornecendo ao Irã aproximadamente US$ 1,5 bilhão em receitas;

– Permissão para transferir US$ 400 milhões de auxílio governamental em contas restritas para estudantes iranianos em outros países;

– Nos próximos seis meses a venda de petróleo bruto do Irã não pode aumentar. Apenas as sanções deste setor resultarão em US$30 bilhões em receitas perdidas, comparando o que o país ganhou em 2011 também num período de 6 meses. Enquanto US$ 15 bilhões em receitas serão mantidas em contas restritas no exterior, a república islâmica terá acesso a US$4,2 bilhões.

Mas Israel alerta para as muitas lacunas contidas no acordo. A primeira delas gira em torno da suspensão de enriquecimento a 20%, coisa que estava a ocorrer desde o famoso discurso da “linha vermelha” feito por Netanyahu. Ademais, dizer que Arak não pode operar em seis meses é uma piada! Ora, o reator ainda levará pelo menos 12 meses para ser construído.

As perspectivas de Washington e Israel sobre Genebra são completamente diferentes. Enquanto Kerry ficou todo feliz e deu até um abraço em Catherine Ashton depois de o acordo ser concluído, Netanyahu disse que “foi um erro histórico”. Os americanos tratam este como apenas o primeiro passo para um “acordo maior” que envolve “objetivos maiores”. Confesso que essa visão futurista não me é demasiado animadora. Possíveis abstrações e fantasias para o que poderá vir não são formas sérias de se pensar. Em sua coluna no Israel Hayom, David Weinberg disse algo parecido. Reiterou a ideia de que o Irã será a nova Coreia do Norte. Também pudera, o homem que esteve por trás de muitas das negociações com o país asiático é o mesmo que trata do problema do Irã, o subsecretário de Estado para Assuntos Políticos Wendy Sherman.

Como dito logo após a primeira rodada de negociações, tudo tende a piorar quando as ambições políticas superam todas as outras. E politicamente falando esta alternativa é a “menos pior” para a administração Obama. Primeiro porque afasta a possibilidade de um novo conflito para os Estados Unidos (vimos qual foi a resposta do povo americano para a interferência na Síria), além de melhorar a imagem do presidente que está muito arranhada. Em segundo lugar, isolar Benjamin Netanyahu nunca é um mau negócio para Obama, principalmente agora que Isaac Herzog, um baba-ovo de Democratas, foi eleito novo líder do Partido Trabalhista de Israel.

Curioso é que alguns setores da imprensa tratem como positivo o comentário do aiatolá Ali Khamenei endossando o acordo poucos dias depois de ele ter chamado os Estados Unidos de “Grande Satã” e ter dito que “a entidade sionista entrará em colapso”. Mas Khamenei também sabe fazer política. Ele não poderia romper com anos de demonização do Ocidente em virtude apenas de um acordo que o favorece. A AP indicou que mesmo antes da eleição de Rouhani estavam a ocorrer negociações secretas entre representantes dos EUA e do Irã. A posse do “Sheikh Diplomata” serviu para reforçar este estreitamento de laços entre as duas nações.

Segundo a AP, o premiê israelense soube das conversações um dia antes de seu discurso na Assembleia Geral da ONU, quando chamou Rouhani de “lobo em pele de cordeiro”. A partir daí começou sua campanha desesperada para alertar a todos sobre o perigo de um Irã nuclear. Agora só nos resta esperar e torcer para que o acordo não seja inútil, isto é, as esperanças são quase nulas.

Me engana que eu gosto

Bibi

Na última semana foram retomadas as negociações em Genebra visando ao menos paralisar o programa nuclear iraniano. Como das últimas vezes a euforia na imprensa internacional é enorme. O rótulo de “moderado” (seja lá o que isso for) dado a Hassan Rouhani pegou de tal modo que o pensamento de muitos está a girar em torno de um “agora vai”. Enquanto isso o ranzinza do Netanyahu segue esbravejando em Israel.

Seria bonito se tudo pudesse dar certo assim, num passe de mágica. Mas não dará. Vemos o Ocidente mais uma vez caindo no jogo de cartas marcadas do Irã. Como disse o tenente-coronel Ralph Peters, “estamos oferecendo a eles uma Ferrari e ganhando em troca uma bicicleta com pneus furados”. A “Ferrari” seria o alívio nas sanções que realmente estão a prejudicar o Irã. A proposta inicial refere-se a uma paralisação no enriquecimento de urânio a 20% (passando a 3,5%) e a suspensão dos trabalhos nas centrífugas IR-2. Sem contar, é claro, os preparativos para a operação de Arak, reator de plutônio que deve começar a trabalhar a partir de 2014.

A proposta pode, inicialmente, parecer um tanto razoável. Ora, atrapalhar o processo de enriquecimento de urânio do Irã daria ao Ocidente mais tempo para pensar em alguma atitude enérgica e efetiva. Contudo, não é o que vai acontecer na prática. O governo iraniano, aliás, receberá uma oxigenação das potências para diminuir a pressão interna enquanto terá a oportunidade de seguir com seu aparato nuclear a todo vapor. Foi exatamente assim que aconteceu quando Rouhani estava à frente das negociações. As ameaças ocidentais e a aparente concessão iraniana serviu para dar continuidade ao projeto. Estratégia simplista que pode dar certo novamente.

A intransigência iraniana fica muito clara nas palavras de seu Ministro das Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif: “O Irã suspendeu todo o seu programa de enriquecimento de 2003 a 2005. Então nós já testamos isso. E não produziu efeitos positivos. Nós não vamos testar isso de novo”. O mesmo ministro foi quem, em viagem à França, disse que por vezes o país é mais “duro” do que os Estados Unidos nas negociações. Isso enquanto jantava com empresários franceses que praticamente se atropelaram para trocar algumas palavras com o iraniano “esclarecido”.

Uma dúvida natural que pode surgir é a seguinte: se as propostas parecem melhores para o Irã do que para o Ocidente, e se isso é mesmo tão óbvio, por que o P5+1 insiste tanto nelas? Por puro e simples ímpeto político. Não é fácil ser pressionado em casa por parlamentares e populares enquanto o Irã tem a possibilidade de desenvolver uma bomba atômica. Assim sendo, uma medida para mascarar a situação é bem mais simples do que algo efetivo e contundente. Ou acaso acham que Rússia e China — principalmente depois da resolução acerca da Síria — permitiriam uma intervenção no Irã?

Vale lembrar também que as negociações foram retomadas em um momento extremamente complicado para Netanyahu, pressionado dentro e fora de Israel. Há poucos dias aconteceu a libertação da segunda remessa de terroristas que estavam presos no país (a grande maioria por crimes hediondos praticados contra israelenses) o que gerou, mais uma vez, grande insatisfação. Desta feita não foram só os parentes de vítimas que protestaram, mas também membros da coalizão de Netanyahu (Naftali Benett, do Habaiyt Hayehudi, foi o mais inflamado) e até de seu partido Likud-Beytenu. O possível corte de verba para o IDF, defendido tanto por Bibi quanto por Moshe Yaalon, também não foi nada animador para o atual governo.

E justamente nesse ínterim é que recomeçaram as negociações com o Irã. Se não deram ouvidos a Netanyahu desde o início, muito provavelmente não o farão agora. Parece que o discurso de Rouhani na Assembleia Geral da ONU ainda está a ressoar nos ouvidos de muitos por aí. O premiê israelense, durante reunião com John Kerry, tentou deixar as coisas ainda mais claras:

Lembrei a ele quando disse que acordo nenhum é melhor do que um mau negócio. E o negócio que está sendo discutido agora em Genebra é ruim. É um negócio muito ruim. O Irã não é obrigado a desmontar sequer uma centrífuga. Mas a comunidade internacional está a aliviar sanções pela primeira vez depois de muitos anos. Irã recebe tudo o que queria nesta fase e não paga nada. E isso quando está sob forte pressão. Exorto o Secretário Kerry a não se apressar para assinar, a  parar, reconsiderar, para obter um bom negócio. Mas este é um mau negócio, muito, muito mau negócio. É o negócio do século para o Irã, é um negócio muito perigoso e ruim para a paz da comunidade internacional.

As palavras de Bibi dirigidas a Kerry e a todos os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU soam com muita força. Em inúmeros momentos ele faz questão de enfatizar o quão ruim é este negócio. Ele sabe do que está a falar, e todos deveriam saber não fosse esta aparente estupidez mesclada com o que Rick Moran chamou de “Acordo Pôncio Pilatos”:

Ninguém no Ocidente quer atacar o Irã. Eles querem lavar as mãos de todo o assunto e deixar Israel decidir o que fazer. As negociações fracassadas nos últimos 5 anos confirmaram que o Irã não está interessado em ceder coisa alguma para o Ocidente em relação ao que eles veem como ‘direito’ soberano de enriquecer urânio. Portanto, os contornos deste negócio que pode ser assinado tão cedo quando hoje, não incluirão a paralisação do enriquecimento de urânio por parte dos iranianos a qualquer nível. Esta tem sido a posição negociadora dos Estados Unidos por mais de uma década.

Israel tenta de todas as maneiras pressionar a comunidade internacional e alertar sobre o perigo de um Irã nuclear mas nunca obtém resoluções satisfatórias. O Ocidente segue pelo mesmo caminho de antes. Essa hipótese levantada por Moran de isolar ainda mais os israelenses passa a fazer todo o sentido. Não é possível se cometer o mesmo estúpido erro por duas vezes inocentemente.

O novo queridinho da imprensa americana

Rouhani

Na passada semana, pouco antes do “fechamento” do governo americano, o recém-eleito presidente iraniano Hassan Rouhani ocupou as manchetes da imprensa dos Estados Unidos como um “moderado” que está a buscar o diálogo com o Ocidente. Sua aparente cordialidade no discurso para a Assembleia Geral das Nações Unidos deixou todos muito impressionados e esperançosos.

Ao ver reações tão positivas com respeito ao discurso de Rouhani me veio à mente uma cena muito comum na minha pequena cidade: sempre que caminho pela rua e faço qualquer gesto para o primeiro cão que encontrar, ele logo vem até mim com carinha de feliz e abanando o rabo. Foi exatamente o que aconteceu com a imprensa americana e Rouhani. O “moderado” da vez deu sinal e a cachorrada veio toda com o rabo entre as pernas para lamber a sua mão. Obama quase conseguiu isso, mas se contentou com um “inédito e promissor” telefonema.

Será possível que ainda não aprenderam? O que impressiona é considerarem Hassan Rouhani um “moderado” sem qualquer motivo. Alegam que ele está sofrendo ataques políticos da Guarda Revolucionária e de outros conservadores por causa de sua aproximação com o Ocidente. Essa estratégia iraniana é tão velha quanto andar para frente. A cada eleição temos um novo “moderado”, uma nova “ponta de esperança” etc. Acreditam que até Mahmoud Ahmadinejad foi visto assim?

Transcreverei uma das falas do presidente iraniano que mais me chamou atenção:

(…) Uma tal ameaça imaginária é a ‘ameaça iraniana’, que tem sido utilizada como desculpa para justificar um extenso catálogo de crimes e práticas catastróficas ao longo das últimas três décadas. O armamento químico do regime de Saddan Hussein e o apoio ao Taliban e à Al-Qaeda são apenas dois exemplos de tais catástrofes. Deixe-me dizer com toda a sinceridade diante desta assembleia mundial que, com base em provas irrefutáveis, aqueles que falam sobre a ameaça do Irã ou são uma ameaça contra a paz mundial, ou promovem-se como uma ameaça. O Irã não representa nenhuma ameaça para o mundo ou a região. Na verdade, nos ideias, bem como na prática, o meu país tem sido um prenúncio de uma paz justa e abrangente.

Vejam só quanta sinceridade. O senhor Rouhani abriu seu coração na Assembleia Geral de ONU e teve seus clamores ouvidos pelos mais “esclarecidos” membros da imprensa americana. Que lindo, não? Notem que a “imaginária” (nas palavras do presidente) ameaça iraniana “justificou a realização de práticas catastróficas”. Interessante. Como se financiar terroristas na Palestina e no Líbano não fosse algo “catastrófico”. Isso sem contar, claro, o maldito enriquecimento de urânio.

Outro alardeado mito é que Rouhani, conhecido como “Sheikh Diplomata”, foi o responsável pela evolução das negociações durante a presidência de Mohamed Khatami. O que ele fez, na verdade, foi enrolar as Nações Unidas enquanto o programa nuclear iraniano seguia a todo vapor. Nas palavras de Abdullah Ramezanzadeh, ex-presidente do Parlamento, “estávamos realizando todas as nossas políticas em duas frentes: uma para continuar as negociações de forma aberta mantendo os americanos longe delas, e outra para continuar nossas atividades nucleares em segredo”.

E não é só isso. Rouhani integrou por 16 anos o Conselho Supremo Nacional, sendo homem de confiança do Aiatolá Ali Khamenei. Para piorar a situação, segundo o Washington Times, ele fez parte de uma força-tarefa responsável por planejar o atentado contra a AMIA (Asiciación Mutual Israelita Argentina), em 1994, no qual morreram 85 pessoas. Como bem lembrou Charles Krauthammer, Rouhani foi um dos seis candidatos presidenciais enquanto outros 678 (!) foram desqualificados pelo regime. Simples assim. Currículo de grande moderação, não acham?

Parece que Obama e a imprensa americana acham. Pelo menos essa bagunça não durou muito tempo. O premiê israelense Benjamin Netanyahu, em seu discurso, chamou Rouhani de “lobo em pele de cordeiro” e fez o possível para desmascará-lo em público. Ele sabia do tamanho da responsabilidade que estava em seus ombros e, nas palavras de Isi Leibler, “deixou os israelenses orgulhosos”. Bibi usou sua extraordinária habilidade oratória para deixar as coisas bem claras: “Israel não vai permitir que o Irã tenha armas nucleares”.

“Se Israel for obrigado a ficar sozinho, Israel ficará sozinho”. Esta frase foi, para mim, a mais significativa. Os israelenses sabem que não podem contar com a ajuda de Barack Obama e o primeiro-ministro não quis tapar o sol com a peneira para se proteger politicamente. Tocou direto no ponto crucial. Depois das inúmeras ameaças a Assad quanto a “linha vermelha”, o Irã tem consciência de que precisa apenas ganhar um pouco de tempo. E isso, com a atual administração americana, será uma tarefa bem pouco complicada.

Sou forçado a citar Isi Leibler outra vez:

(…) a diplomacia por si só não é suficiente para impedir os iranianos. Netanyahu pode reivindicar o crédito por ter insistido em um campanha mundial para alertar a todos sobre os perigos de o Irã se tornar uma potência nuclear. Ele não foi belicista, como seus críticos acusaram, mas sim reconheceu a realidade pedindo aos líderes mundiais para impor sanções e ameaça de ação militar a menos que as centrífugas parassem de girar.

(…)

Netanyahu advertiu adequadamente que, a menos que haja uma reviravolta dramática (que Rouhani nunca deu a entender que iria fazer), a estratégia iraniana é de procrastinar as negociações com os Estados Unidos e líderes globais eufóricos proporcionando o tempo necessário para alcançar seus objetivos.

É difícil acreditar que tantos estão a cair nessa conversinha mole de moderação por parte de Hassan Rouhani. Em todas as suas aparições ele negou veementemente que o Irã esteja a enriquecer urânio com fins bélicos e em nenhum momento disse que seu país cederia em algo nas negociações. Ora, as sanções então devem ser aliviadas a troco de nada? Que raio de negociação é esta em que uma parte apenas exige e a outra cede? Parece até Barack Obama “negociando” com os Republicanos em casa.

62 mortos e um discursinho abominável

Westgate

No último sábado (21) em Nairobi, no Quênia, militantes do Al-Shabaab invadiram o shopping center de Westgate e fizeram vários reféns. Inicialmente não havia números oficiais dado o tamanho da confusão. As primeiras informações que chegaram já se referiam aos mortos: pouco mais de 30. Nesta segunda (23) o estabelecimento ainda está cercado pelas forças de segurança do governo e houve confirmação oficial de que 62 pessoas perderam a vida.

O grupo terrorista Al-Shabaab assumiu a autoria do atentado e disse que não negociaria sob hipótese alguma. Eles apenas exigiram a retirada de tropas quenianas da Somália. Vale lembrar que o exército do Quênia — cujo efetivo é o mais importante dentro da missão da União Africana — é um dos grandes responsáveis pelas sucessivas derrotas dos terroristas ligados à Al-Qaeda no país (deixaram a capital Mogadíscio em 2011 e Kismayo há cerca de um ano). Os quenianos também apoiaram o atual presidente Hassan Sheikh Mohamud, que venceu as eleições no ano passado.

Os terroristas, usando suas velhas táticas, quiseram responder e atacaram Westgate. Segundo os relatos de testemunhas que conseguiram escapar, eles ordenaram que todos os muçulmanos deixassem o local. Os outros deveriam ficar. Infelizmente isso não é surpresa nenhuma. Se falou que mulheres estavam envolvidas também no ataque mas o ministro do interior queniano negou, dizendo que havia sim homens vestidos com roupas femininas.

O recém-eleito presidente do Quênia, Uhuru Kenyatta, se mostrou enérgico em condenar o ato em sua conta no twitter:

Nós superamos ataques terroristas antes. Nós lutamos corajosamente e os derrotamos dentro e fora de nossas fronteiras. Nós vamos derrotá-los novamente. Terrorismo em si, é a filosofia dos covardes.

Vamos caçar os criminosos onde quer que eles corram. Vamos pegá-los. Vamos puni-los por este crime hediondo.

Nestes últimos dias o Quênia virou o centro das atenções nos noticiários. E isso é algo bastante óbvio dado o tamanho do ataque. Mas, como se o ato já não fosse algo abjeto em si, começaram a aparecer aqueles que culpam o Ocidente, a “mídia” e absolutamente todos — menos os próprios terroristas! — pelo maldito ataque. O pior deles foi Sir Simon Jenkins, no Guardian:

Às vezes devemos parar e perguntar por que os terroristas cometem atrocidades como esta no shopping center de Nairobi. A resposta é sempre sobre as grandes reações Ocidentais de extrema violência. Se o Al-Shabaab subisse apenas uma rua em Mogadíscio, Cameron correria para o Cobra? Assim é, Cameron ajudou a enviá-los para o topo das paradas dos terroristas.

(…)

Não há defesa contra as armas terroristas. Nem em qualquer sociedade, livre ou repressiva, há defesa contra o fanatismo até a morte em busca de uma causa louca ou desesperada.

A melhor defesa é o senso de proporção. A “guerra ao terror” falhou em seus próprios termos. Ela tornou dezenas de países não pacificados, mas apavorados. Ao implantar a violência contra uma sucessão de estados muçulmanos, as principais potências do mundo têm feito seu negócio e convidado a retaliação. Eles não esmagaram a Al-Qaeda mais do que suprimiram o extremismo islâmico. Eles têm revigorado ao invés de diminuído o extremismo, e fizeram o mundo menos seguro como resultado.

Percebem a mentalidade deste senhor? Basicamente os ocidentais são os culpados por aumentarem a “radicalização” dos muçulmanos. Ora, segundo ele então, se não houvesse intervenção o mundo seria um lugar melhor. O próprio Sir Jenkins faz menção ao massacre de cristãos em Peshawar neste fim de semana. Então ele atribui isso também ao Ocidente? Os cristãos são atacados por causa da guerra ao terror, do imperialismo americano etc.

Sir Jenkins só se esqueceu de uma coisa: terroristas não precisam de motivo nenhum para atacar ninguém. Desvincular o Islã desta onda de violência é um erro crasso cometido pela grande maioria dos governos ocidentais. E eles ainda assim são chamados de “islamofóbicos”. Recentemente li um escritorzinho que disse o mesmo que o senhor Jenkins, “a mídia e a guerra ao terror foram os culpados pelo crescimento da Al-Qaeda”. Claro, alguns desgraçados tomam aviões e os jogam contra dois prédios e não querem que falemos disso? Então a Al-Qaeda cresceu exponencialmente depois de ganhar este “crédito”? E outros grupos terroristas que sequer são conhecidos, como ficam? O Boko Haram tem um domínio enorme sobre o norte da Nigéria. No entanto, não vejo a mídia ocidental falar muito dele ou tropas americanas entrando no país. A culpa é de quem então? Dos cristãos que são mortos?

Meditemos ainda um pouco mais sobre o Boko Haram. Seu nome significa “a educação ocidental é pecaminosa”. Mas o que vem a ser esta “educação ocidental”? Para eles, toda e qualquer influência cultural que venha do Ocidente. Desde comida até programas de TV. E sabem quem são os grandes propagadores desta “educação ocidental” dentro da Nigéria? Os cristãos. Sim, os cristãos. Portanto, eles devem ser combatidos como uma “ameaça ao Islã”.

Alguns devem estar se perguntando por que eles têm tanto medo assim da cultura ocidental. Bem, se você vive na Sharia e se te oferecem uma oportunidade para ter liberdade é normal que a agarre com unhas e dentes. Outra questão que surge aí é: por que os Estados Unidos são mais odiados do que a Europa? Atualmente os muçulmanos veem a Europa como uma zona livre de ameça tanto política quanto cultural. As grandes levas de imigrantes na Grã-Bretanha, França e Bélgica deixam isso muito claro. Já com os EUA a história é outra. Sua influência cultural sobre os jovens do Oriente Médio é enorme. E evidentemente uma ameaça à Ummah.

Feitas estas observações voltemos ao Quênia. Como bem colocou Con Coughlin, a pressão criada sobre o Ocidente depois dos conflitos no Iraque e no Afeganistão fez com que as potências parassem de mandar tropas para o combate aos terroristas. A estratégia agora é alimentar países mais próximos que possam fazer isso. Grã-Bretanha e Estados Unidos oferecem material e apoio tático ao Quênia desde 2011. Como resultado o país agora comandado por Kenyatta se tornou um alvo para os terroristas.

Página 1 de 41234