Flanela 2

@LeticiaFlaP

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Reclamação, faça a sua

São Paulo é a queridinha dos movimentos, dos protestos, dos boicotes, não é mesmo? Graça nenhuma se indignar contra qualquer coisa em Jandira…

É claro-claríssimo que parte desses protestos são legítimos, óbvios, vêm do melhor da alma universal – pela redução da maioridade penal, pelo fim da corrupção –, embora se possa duvidar de sua eficácia pela pulverização das demandas e por eventuais miopias de entendimento. Mesmo assim, ok. Ainda bem que tem.

O problema é que hoje qualquer vontadinha de Facebook ganha as ruas (ou o contrário, elas são criadas POR CAUSA do Facebook, gente vivendo disso), o que dá azo a gloriosas tolices, que de tão batatudas nem cabe aqui exaurir uma lista.

Mas há dois movimentos recentes que merecem uma tricotomia. O primeiro é o Metro24Horas, e o outro é o BoicotaSP.

Lá pro começo de abril deste ano alguém achou razoável iniciar um movimento internético para que o Metrô de São Paulo funcionasse ininterruptamente. Alegaram-se o sistema “caótico” dos ônibus, o fato de que “muitos trabalham e estudam de madrugada”. Mas não é difícil de adivinhar o ponto principal: “os táxis são extremamente caros”, “a Lei Seca inviabiliza a ida de automóvel para barzinhos, baladas, festas, dentre outros meios de diversão”.

Não fosse pela falta de discernimento do proponente – noções de oferta X demanda, responsabilidade com o erário, por exemplo –, uma pesquisa rápida e ele perceberia que o Metrô de São Paulo não tem condições técnicas de funcionar 24 horas. A companhia reserva as madrugadas para fazer a manutenção das composições, não só os reparos propriamente técnicos como os consertos de tudo o que a população destrói no dia anterior – forçar portas, por exemplo.

“Ah, mas o Metrô de Nova York funciona 24 horas, e blá-blá-blá.” É, o Metrô de NY funciona 24 horas, porque tem trilhos paralelos aos de uso comum, destinados justamente à manutenção sem interferência na circulação. Lá tem. Aqui e em muitas outras metrópoles não tem, e ponto.

Até aí a petição não teria nada de mais, está no Avaaz e tudo. O problema é que atingiu mais de 90 mil assinaturas, todo mundo achando uma boa o metrô funcionando só pra levá-los de volta pra casa após as baladas. Não fosse suficiente, à retumbante aspiração da população juntou-se um punhado de forças de oposição, daquelas que sempre apontam o descaso-do-governo-tucano-com-alguma-coisa. Dois deputados, que já tinham seus projetos de lei sobre o tema (!), aproveitaram e organizaram uma audiência pública na Assembleia Legislativa, a que compareceu um técnico no Metrô que finalmente explicou a simples inviabilidade técnica de tal chilique boêmio. E aí o negócio meio que murchou.

Já o tal do BoicotaSP é um nome horrendo, uma escolha infeliz, parece que é algo geral e evoca a histórica implicância jeca com a cidade. Poderia ser relativo ao preço dos transportes, dos aluguéis e preços dos imóveis e da hotelaria, aos péssimos salários da mão de obra abundante e desqualificada, ou conclamar a certo concerto nacional em ir pra Nova York sem escalas em São Paulo; mas não. É basica e simplesmente contra os preços da comida chique.

Não vou nem entrar em considerações (de novo!) sobre oferta X demanda, aquela coisica que qualquer avó fazia sem alarido ou indignação. O que chama a atenção é que está faltando alguma coisa nessa equação. Se o trabalhador que recebe um salário de R$ 1.800,00 – exemplo dado pelo próprio organizador – está protestando contra um restaurante de alto nível que cobra R$ 40,00 por um omelete (sim, dou o gênero o que quiser ao omelete), e imagina ser viável para si o consumo corriqueiro de Guiness, Häagen-Dazs e Jack Daniel’s, temos aí de dar aquela paradinha constrangida na discussão.

Sabe, existe uma coisa chamada mundo. O mundo e suas circunstâncias. O crack da Bolsa de NY, a Alemanha pós-guerra, o tsunami no Japão, os terremotos, as pestes… Coisas, desgraceiras que obrigam as pessoas a se reenquadrar sem esperneio. O Brasil ainda está no lastro do bundalelê do crédito farto da era Lula, em que você podia quase tudo pra tentar virar gente, desde os implantes dentários até aquele carro massa em 450 prestações. Viagens, restaurantes, diversões em que a maioria das pessoas caiu de boca, como se não houvesse amanhã. Com outras coisas, porém, não costuma haver jogo de cintura quando o cinto aperta. Comida e imóveis não podem ser pagos em prestações; e, last but not least, salários baixos são salários baixos. Se você é um trabalhador daqueles bem comuns e “formar um amplo espaço de discussão” nasredes pra tentar “abrir a cabeça” do seu chefe pra melhorar seu salário, por exemplo, o mais provável é que ele te mande embora. (Então ficam descartadas “discussões abertas” sobre salários de merda, certo?)

A adolescência e juventude hoje são um flagrante do Brasil que se achou, mas que nunca foi. O consumo a crédito explodiu, mas a condição social não melhorou muito, porque o nível de formação permaneceu baixo ou de má qualidade e o país não se desenvolveu como deveria. Por isso, os salários dos jovens são baixíssimos. Assim, eles não só optam por continuar com os pais como não precisam colaborar em nada no orçamento doméstico (aluguel, comida, água, luz, gás, tv a cabo,  internet, IPTU e condomínio é tudo com papis e mãmis), o que dá uma certa ilusão poder arcar com gastos relativamente sofisticados. Mesmo assim, parece que não está dando.

Aí entra a parte mais chata e delicada, que é aventar a possibilidade de que esse estilo de vida entrevisto no BoicotaSP talvez não combine com a realidade salarial de seus reclamantes.

Pouquíssima gente não é a maioria da população. O resto é. Então, uma saída talvez seja voltar aos truquezinhos da vovó: se tem de comer fora todo dia, experimente trocar o D.O.M. por um quilinho simples, e troque o Häagen-Dazs por um Chicabon [picolé baratinho, não sei se já ouviu falar].

Sinto informar que mundo não vai mudar de planos só por causa das vontades e caprichos de quem cresceu em meio a uma economia estável e mais tarde desvairada. E é melhor que esses reclamantes se preparem, porque, com a volta da inflação, a coisa vai piorar.

De qualquer modo, hoje, abril de 2013, a clientela do Olivier Anquier (ai, como dói dizer isso!) talvez não seja o povo do BoicotaSP. Ele não vai baixar preços por causa de ninguém. Até porque, no dia em que se vir obrigado a fazer isso, vai fechar por causa de gastos, não porque ache você feio e pobre.

São Paulo, esse fim de mundo

Meu prato aqui neste espaço é São Paulo. Pode ser o estado ou a capital, tantufas. O conceito que segue independe das delimitações geográficas.

Quando meus antepassados saíram do Rio para se instalar em São Paulo, a família achou loucura. “Um lugar onde não há nada!” Isso foi lá para 1927, quando São Paulo era não a mais importante, mas já a maior cidade do Brasil. Continuava um ponto estratégico, agora não mais das entradas e bandeiras, mas das saídas do café para o mundo. Não mais como pousada de cavaleiros empoeirados, mas ponto de convergência da até hoje maior malha ferroviária do país.

Minha parentela carioca certamente nunca viu as fotos de Guilherme Gaensly, retratando uma São Paulo do início do século XX já toda bonitinha, urbanizada e organizada – e grande. Foi uma tratorada humana que acabou com o velho e pasmacento Triângulo, mas certamente não chegou aos pés da higienização violenta operada por Pereira Passos no Rio de Janeiro naquela virada de século.

De certa maneira, a falta de informação daquela época vem se reproduzindo em outros contextos e calcando e recalcando lugares-comuns: São Paulo é feia, São Paulo é cinza, São Paulo é poluída, São Paulo é barulhenta, São Paulo é o diabo e São Paulo não tem lugar pra estacionar, e além de tudo tem uma poeirinha aqui na plataforma do Metrô que o governo do estado NÃO VARREU!

Primeiro que não é verdade. Não é verdade um, dois, três, quatro, nada disso é verdade. Não e verdade absoluta, tampouco relativa. São Paulo é apenas o expoente máximo de uma dura realidade nacional, em que a vida no campo se revelou primitiva, ingrata, sem incentivo e sem perspectiva. Todo mundo foi para a cidade grande, mas veio mais para São Paulo.

Daí que a cidade é imensa e parcialmente desorganizada do jeito que é. Mas só parcialmente. Prefiro assim. Já pensou se ao longo dessas décadas rejeitássemos os imigrantes, os migrantes, os mendigos, os alienados e os desempregados com a clássica passagenzinha de volta fornecida pela mentalidade ordeira e superior? Não, né? Primeiro eu não estaria aqui. Nem eu nem quase ninguém. Segundo que São Paulo seria um troço de 20 mil metros quadrados com ruas organizadas e ajardinadas, com fofuras na varanda, recebendo turistas no inverno na base do chocolate. E mais nada.

Não. Prefiro a cidade enlouquecida, com seu trânsito, seus milhões de prédios, a faixa de ar sujo na marginal, as denúncias de bolivianos enclausurados, os turistas de negócios, a 25 de Março entupida em vésperas-chave, a Augusta decadente, a japonesa loura, a “rua dos Periquitos” em Moema, a periferia, o Centro Velho, as ciganas de araque e o publicitário-gênio. Prefiro topar com um monte de meninas indo para o trabalho mal e mal em saltos ambiciosos e terninhos mal cortados, com os carros importados, com os prédios espelhadíssimos, com as portinhas decadentes com cheiro de sabonete ruim, com calçadas sujas e com calçadas bacanas.

Prefiro. Porque, apesar de tudo, temos a melhor estrutura viária urbana, a melhor polícia, o melhor Corpo de Bombeiros, a melhor engenharia de trânsito, a melhor assistência à saúde pública e privada, os melhores negócios e – helás! – um nem sempre bem-sucedido programa de despoluição do Tietê – mas temos, entende? Apesar de tudo, nosso ar tem se revelado muito melhor que o de outras metrópoles, temos mais praças e parques, temos mais arborização, mais controle da violência, mais metrô, mais trens, e o mais importante: mais cafés de máquina e mais deliverys por metro quadrado, porque ninguém é obrigado a passar fome.

Críticos contumazes, seja por bairrismo, hábito preguiçoso ou por jogo político, costumam carregar nos estereótipos ruins da cidade e de seus moradores. Lá pra 1931 Mário de Andrade já os detectava e achava graça, não sem apontar as péssimas consequências do que chamou, na conjuntura da época, de “contraste” – gente de todos os cantos do país largando sua formação para vir empreender em São Paulo – com a diferença que, hoje, o elemento – nativo ou não – faz questão de trabalhar aqui, de preferência no doce ofício de achar a cidade uma porcaria.

Então é assim. São Paulo não seria o que é sem sua gente chata achando pelo em ovo. Mas há críticas e críticas. Há as descabeladas, as apaixonadas-ao-contrário e as reclamações simplórias. Vejamos, pois, o que vocês acham das minhas.

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