EDITORIAL: Temer, o eleitorado lontra e a EMBRAER

O presidente em exorcismo Michel Temer (MDB) é o favorito do eleitorado lontra para a condução das “reformas estruturantes“. Mesmo que chefie um governo estatizante e controlador, a propaganda vale mais que os atos.

O presidente herdou um déficit calamitoso do governo anterior. Mesmo assim, garantiu um reajuste que vai custar mais de R$ 130 bilhões aos cofres públicos. O déficit autorizado pelo Congresso Nacional é de R$ 157 bilhões (era R$ 159 bi, mas já foi revisto). A desculpa oficial foi que o governo anterior já tinha negociado os aumentos, a realidade é que o governo esperava comprar o MP, o Judiciário e a elite do funcionalismo. Assustado com a própria incompetência em cortar gastos e o apoio que não veio, o governo sinaliza que pode rever os aumentos no ano que vem. A tese do “acordo do governo anterior” era balela.

Do Contas Abertas: “A União gasta, em média, R$ 13.290 com a remuneração dos 119 mil servidores federais do Judiciário, R$ 12.516 com os quase 36 mil servidores do Legislativo (Câmara, Senado e Tribunal de Contas da União”. 

Para saber o perfil salarial dos servidores beneficiados pelo reajuste e se assustar, clique aqui.

O eleitorado lontra sabe que a queda na produção e a corrosão do poder aquisitivo foram responsáveis pela queda da inflação, mas atribuiu essa “conquista” ao Temer. Da mesma maneira, sabe que os juros caíram acompanhando os resultados da indústria, ajustando o veneno sob medida para não matar o paciente. Com a retomada do crescimento, já se prevê um aumento em fevereiro da SELIC, o que demonstraria que a queda dos juros não é mérito de convicção do governo, mas necessidade e pressão do setor produtivo. O eleitorado lontra diz que é política do governo Temer.

Temer criou mais de 2 mil cargos de indicação política na administração direta do governo federal.

Para o eleitorado lontra, não existe problema em ser governado por mafiosos. Em uma das denúncias da PGR, cujas tomadas de depoimento continuaram com Raquel Dodge, se investiga o controle de um terminal do Porto de Santos por um grupo político. O grupo supostamente é formado por laranjas que, surpresa das surpresas, são ex-funcionários públicos sem recursos para tamanho empreendimento. Qual é o grau de máfia de um grupo que controla um terminal no maior porto da América Latina?

Se cobra do deputado Jair Bolsonaro a defesa das privatizações. Por que o eleitorado lontra não cobra do presidente Temer, que tem maioria no Congresso e seria chefe de um governo liberal, a privatização da Caixa, BB, BNDES, Correios, Petrobras e as mais de 140 estatais brasileiras? A aparência e o discurso é tão mesmerizante a ponto de a prática ficar relegada ao segundo plano? Em termos de participação acionária, o governo é dono até de hotéis e fábricas de lingerie. São mais de 330 empresas com participação estatal. Por que o governo não se livra desses ativos? Por que o eleitorado lontra não cobra isso do governo que, segundo eles, coaduna com essas políticas?

Aliás, no Orçamento aprovado para 2018, os dividendos da participação acionária em estatais vão render apenas R$ 6,78 bilhões para o governo. Um troco perto do Orçamento de R$ 3,5 trilhões (não confundir com as receitas ou valores de mercado das empresas).

É melhor até não dar sugestões, pois o governo já sinalizou quando anunciou a intenção de privatizar todo o setor elétrico (anterior ao anúncio de privatização da Eletrobras) que queimaria os recursos das privatizações com salários irreais e custeio da máquina inchada e desfuncional.

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E a privatização da Eletrobras? Firula. O anúncio só serviu para reconquistar apoio do mercado e valorizar as ações da empresa. Nem o governo acredita que conseguirá privatizar a empresa. O eleitorado lontra acredita.

O mesmo ocorre com a reforma da previdência. O jornal Valor Econômico analisou os prazos e cravou que a aprovação ocorreria apenas em novembro ou dezembro de 2018. Em outras palavras, não ocorrerá, mas o governo usará a reforma como justificativa da própria existência.

Até lá, o próximo factoide a entrar na agenda do país é a reforma tributária. Não será aprovada. Todas as discussões no Congresso Nacional emperram em uma compensação da União aos Estados durante a transição com a mudança do ICMS. Em tempos de crise, o governo não terá como bancar a mudança. É capaz de a única alteração ser a volta da CPMF com o nome de CSS. Surpresa: a equipe econômica “liberal” do governo apoia.

E aí entra a EMBRAER, que o governo brasileiro detém ações com poder de veto. Após o anúncio de negociações entre a Boeing e EMBRAER – que resultou na valorização das ações da empresa em até 22,5% com o valor de mercado saltando de R$ 2,7 bilhões para R$ 14,8 bilhões – o presidente Temer (MDB) disse que: “em meu governo, a Embraer jamais será vendida”. Posição compartilhada pelo ministro Jungmann (PPS), que participou de reunião sobre o tema com o presidente.

Uma frase dessas, carregada de nacionalismo estatizante, seria um “Deus nos acuda” com o deputado Bolsonaro. Centenas de análises surgiriam na imprensa sobre o risco nacionalista. Com Temer, o eleitorado lontra perdoa.

Enquanto isso, o condenado Lula (PT) faz um intensivão na imprensa para resgatar a nostalgia do mercado financeiro durante o seu governo. Tem dado certo. Em uma mesma entrevista (aqui) ele defende a implementação da censura na imprensa e a volta da “Nova Matriz Econômica” dizendo que o Estado tem que se endividar para garantir o desenvolvimento. Mas a imprensa destaca que Lula pede para não terem medo de sua volta. O condenado também diz que não haverá novo pacto com o mercado e o setor produtivo com uma “Carta aos Brasileiros”, mas que fará uma nova carta só para o povo, pois para a elite ele não deve prestar contas.

A economista-chefe da XP Investimentos escreveu uma coluna para o Estadão dizendo que não há risco de um Lula bolivariano, apenas um Lula medíocre. Inacreditável. A volta de Lula significaria uma luta insana contra o MP e o Judiciário para enterrar de vez a Lava Jato. Sem contar as promessas econômicas citadas acima. Se isso não é bolivarianismo, então ninguém sabe o que é bolivarianismo. Sabe, ou faz parte do eleitorado lontra, só que com o sinal ideológico trocado.

Aliás, em uma participação no Roda Viva, a economista-chefe da XP repetiu a bobagem de que o governo Lula 1 foi liberal e promoveu um ajuste fiscal. Puro marketing da época. Durante o governo Lula houve explosão de gastos. Mesmo com superávit, o crescimento da receita não seguiu o mesmo ritmo. Sem contar que o famoso “ajuste fiscal” do primeiro ano não foi corte de gastos, mas contingenciamento. O eleitorado lontra comprou a ideia.

O ex-ministro Palocci, o bandido favorito da elite brasileira, deixou saudades. E eleitorado lontra, que aplaudiu Lula, Dilma e Temer (que foram eleitos juntos), segue ativo no debate público em que o marketing vale mais que ações.

Lontra em exibição no Museu Nacional -UFRJ

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7 comentários para “EDITORIAL: Temer, o eleitorado lontra e a EMBRAER

  1. danir

    Existe na Embraer uma “golden share”, para ser usada em questões estratégicas, que em princípio protege a empresa contra ataques para contrôle acionário por grupos hostis. No caso de uma junção com a Boeing, a questão é: Como sobreviver à associação feita entre Bombardier e Airbus, se não houver uma associação da Embraer com um parceiro do mesmo porte da Airbus, que no caso seria a Boeing. A questão está em garantir uma forma que melhor se adapte á situação sem que haja uma perda real face a um gigante que não tem escrúpulos e não joga limpo, como ficou provado no passado com as ações da bombardier recebendo um “suporte” do governo canadense. Ainda existem questões em aberto contra a Bombardier tanto pela Boeing como pela Embraer. Esta questão envolve os quatro gigantes do mercado, sendo que Embraer e Bombardier se equivalem e Boeing e Airbus são várias vezes mais poderosas. A quastão não é simples, e creio que algum tipo de combinação deverá ser feita para garantir a sobrevivência da Embraer e a posição da Boeing. O Temmer falar que de nenhuma forma vai aceitar a venda da embraer é uma declaração para a arquibancada, sem nenhum vestigio de uma análise mais profunda da questão. O que pode estar em jogo, é a sobrevivência da embraer face à associação da Bombardier com a Airbus. Não é uma venda, mas uma associação que deixa as duas unidas contra seus arquirivais (Boeing e Embraer) em uma posição de força. Vamos ver se o que vai prevalecer será uma atitude positiva para a preservação da Embraer ou uma jogada política que a médio prazo levará a Embraer para o segundo plano. Pessoalmente acredito que alguma forma de acordo com a Boeing deve acontecer, e o governo brasileiro deve atuar de forma a não melar esta ação por meio de uma patriotada. Para sintetizar meu pensamento; uma associação com a Boeing, com as devidas salvaguardas para a Embraer, sim. Uma associação com qualquer empresa chinesa; não em nenhuma hipótese.

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  2. danir

    Eu concordo em tudo que voces colocaram neste artigo. Somente um ponto ficou mal esclarecido. O que vocês têm contra as lontras? Porque lontra; este animal é tão ruim e desprezível assim? Eu proponho eleitorado barata ou hiena ou bactéria apesar de que em qualquer hipótese, o referido animal estará em desvantagem confrontado com este grupo de pessoas.

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    • Editor Posts do autor

      Confesso que no momento em que pensei “eleitorado lontra” já tive receio em cometer uma terrível injustiça contra as lontras. Mas foi ficando, ficando…,o texto terminou e a imagem no final é de uma simpatia irresistível.

      Eu precisava de uma justificativa para ter essa lontrinha como imagem 🙂

      Obrigado!

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      • danir

        Ok. Perdoado. Eu tambem simpatizo com as lontras, embora não com o tal eleitorado. Lontra é uma palavra forte por si só. Talvez pudesse usar lorpa, por semelhança fonética e aproximação de significado. Boas Festas e um 2018 produtivo e de sucesso.

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