Da Cia

@da_cia

Uma troca de mensagens com a Folha

A Folha de São Paulo publicar na capa de sua edição que foi às bancas no mesmo dia dos protestos contra Dilma um editorial contra Eduardo Cunha me fez levantar algumas questões e suspeitas, já informadas anteriormente por aqui. Mas eu não me contentei em opinar, tentei contatar o jornal para conhecer seus critérios. Suspeitando de três hipóteses, perguntei quais delas eram determinantes para tal procedimento. Foram essas:

– É pelas evidências de envolvimento em crimes que a Folha recorre aos procedimentos? Pergunto isto pois, assim como há um delator envolvendo Eduardo Cunha no esquema montado pelo PT na Petrobras, há quatro delatores que já afirmaram que as campanhas de Dilma receberam dinheiro do esquema. Dois desses disseram mais, que Dilma sabia dos acordos. Se o critério é evidência de envolvimento em crimes, por que não há um editorial pedindo o afastamento da presidente Dilma Rousseff?

– É pelo uso da máquina pública para defender a si próprio em processo? Pergunto isto pois, assim como Eduardo Cunha tem feito uso de seus auxiliares na Câmara e de brechas no regimento para adiar sua cassação, a presidente Dilma Rouseff tem mobilizado ministros de estado e instalações da presidência para organizar sua defesa. Pergunto também pelo fato do líder de Dilma no Senado ter mantido, até duas semanas atrás, intensas atividades no sentido de obstruir as investigações da Lava Jato e ajudar um criminoso a fugir. Há também a clara negociação de cargos políticos manejados pela presidência com o intuito de interferir em um partido aliado ( PMDB). Se o critério determinante é o desvio de atividades de uma autoridade pública, por que não há um editorial pedindo o afastamento da presidente Dilma Rousseff?

– É pelo número de investigações ocorrendo contra a autoridade? Pergunto isto pois, assim como Eduardo Cunha está sendo investigado em dois inquéritos da Lava Jato, Renan Calheiros está sendo investigado em três abertos pela mesma operação, além de outros três que remontam a suspeitas de crimes que quase o levaram à cassação  em 2007. Se o critério determinante é o volume de investigações em curso, por que não há um editorial de primeira página pedindo o imediato afastamento de Renan Calheiros?

Gostaria de ter estas três perguntas respondidas. Do quanto acompanho o jornal, a única diferença que percebo entre Eduardo Cunha, Renan Calheiros e Dilma Rousseff  que justificaria um editorial de primeira página contra um e nada contra os outros dois é o posicionamento em relação ao PT: Eduardo Cunha é atualmente contra o partido, Dilma pertence ao partido e Renan age por ele.

A resposta da editoria de Opinião do jornal foi a seguinte:
Evidências de envolvimento em crimes, uso da máquina pública em benefício próprio e número de investigações acumuladas contra a autoridade não são critérios para a publicação de editorial na Primeira Página. Tais aspectos, naturalmente, podem ser levados em consideração. O fato de uma autoridade agir contrariamente ou a favor do PT nem sequer é levado em consideração.
A resposta revela uma confusão mental impressionante pois em um momento diz-se que os três itens não são critérios relevantes e logo a seguir é dito o contrário, que podem ser levados em consideração. Também se negou levar em conta se algo beneficia ou prejudica o PT, o que era uma negação esperada – editorialistas de um jornal que se prega isento de partidarismos jamais assumiriam o que temos dito, que seus editoriais são sim partidários.
Mandei uma nova mensagem ao jornal:

A resposta não diz nada. Afinal de contas, há algum critério? Se não é por evidências de envolvimento em crimes, não é pelo volume de investigações simultâneas,  nem pelo uso do poder para obstruir as investigações e também não é pelo posicionamento em relação ao PT, por que então houve o editorial em primeira página? Por que não há nenhum editorial normal pedindo o afastamento de Renan Calheiros?

 

Ontem saiu uma nova notícia contra Renan Calheiros, a de que Cerveró, notório delator, entregou US$ 6 milhões em propinas desviadas de recursos públicos para o senador. A Folha não acha que isto basta para pedir o afastamento de Renan Calheiros?

 

Se não é pelos motivos apontados na mensagem anterior, devo pensar então que a pressão sobre Cunha não se aplica a Renan e Dilma pelo fato do primeiro ser cristão (“evangélico”) e os outros dois não. É isso?

A editoria de Opinião da Folha não respondeu se o que diferencia Eduardo Cunha, que tem editoriais pelo seu afastamento, de Renan Calheiros e Dilma Rousseff, é o fato dele se denominar cristão.
Revisado  por Maíra Adorno @mairamadorno

A arte dos medíocres

No Brasil atual, a política é uma prática que rebaixa o comportamento humano. Imiscuídos num meio orgulhosamente imoral e descolados da realidade, os mais bem sucedidos políticos brasileiros são aqueles que fingem mais, melhor e com menos pudores. Mas não é só na prática que nossos grandes políticos são desprezíveis: em sua maioria, são também incapazes de elaborar pensamentos complexos, originais ou verdadeiros. O que os políticos brasileiros definem como política é algo de valor igual ao que produzem. Mas a política não é isso. No campo teórico ela sempre inspirou grandes pensadores, homens de valor e intelecto. Quem se interessar pelo tema, ao buscar as diferentes definições de política ao longo da história do pensamento, encontrará preciosidades.

Para Platão, trata-se da “arte de educar rebanhos, dividindo-se os mesmos inicialmente em cornudos e não cornudos, em seguida em bípedes e quadrúpedes” e que, assim, “consegue unir, com habilidade, todas as coisas como num tecido”. O político e teórico francês Marcel Prélot resumiu o conjunto de significados que Platão dá em sua obra à política de forma excelente: “Política é a arte de governar os homens com o consentimento dos mesmos“.

Russell Kirk, um dos maiores estudiosos e teóricos conservadores do século XX, afirmou que a “verdadeira política é a arte de apreender e aplicar a Justiça que deve prevalecer em uma comunidade de almas“. William F. Buckley Jr, editor e fundador da National Review, disse que a política era algo a ser ignorado por pessoas decentes se eles confiassem que os políticos os ignorariam.

Mário Ferreira dos Santos, talvez o mais complexo (e por isso pouco estudado e compreendido) filósofo brasileiro, colocou-a em seu devido lugar ao afirmar ser “a arte de uma minoria governar a maioria, arte de conquistar o poder e de conservá-lo, ampliá-lo, etc.” Outra das muitas definições que deu à prática, ainda mais precisa, foi a de que a “política é uma arte intermediária, de métodos intermediários e indiretos, com a finalidade de obter o poder e de conservá-lo. Querer dar-lhe um conceito puro e científico, é apenas separá-la da realidade prática, da praxes.“. O sempre ótimo Roberto Campos tem uma definição bem-humorada “A política é a arte de fazer hoje os erros do amanhã, sem esquecer dos erros de ontem”.

Não pesquisei mais porque o tema é imenso e encontraria dezenas de ótimas citações. Mas tudo isso é trazido aqui apenas para reafirmar a miséria política que vivemos. Diante da maior crise política de nossa república, fruto de crimes inesgotáveis que geraram uma crise econômica, não vemos surgir no meio oficial nenhuma alternativa política que seja inspiradora, tanto como exemplo pessoal quanto pela  capacidade de formular algo relevante. A visão de nossa elite política quanto ao seu papel é risível. Se Dilma não desperta paixões por ser uma nulidade pessoal completa, podemos dizer que o vácuo no campo oposicionista permite, por pura preguiça, a percepção de que a continuidade deste governo é uma boa alternativa. Afinal de contas, lutar contra ela para fortalecer a quem?

Foi pensando nisso que fiz um conjunto de definições de líderes políticos brasileiros para aquilo a que eles se dedicam integralmente. Vejam abaixo, com comentários:

Marina Silva 
“A política real é aquela que faz acontecer o que dificilmente aconteceria sem a nossa vontade e ação.”

Pela definição de Marina, famosa por dizer abobrinhas, política é qualquer ação humana. Eu só escovo meus dentes se tiver vontade para tal e me mover nesse sentido, logo é um ato político

Aécio Neves
“Política é a arte de administrar o tempo” e ” Política é a arte de administrar o tempo, até para não nos tornamos refém dele.”

Aécio Neves tem como virtude louvada ser um grande político e virou um grande político por ser parente de um grande político. Diz-se que não escreve os artigos que levam sua assinatura na Folha de São Paulo. Como acredita desde sempre ser destinado (pois herdeiro de grande político) a chegar à presidência, a questão do tempo lhe é muito importante desde que começou a fingir que era pré-candidato a presidente do PSDB em 2006. Pela definição de Aécio, executar com exatidão temporal suas tarefas ao longo do dia é um ato político. Seja pontual e organizado e será um grande político, dispensando até o peso do sobrenome.

Pezão
“Política é a arte da conversa”

O governador do Rio de Janeiro segue a recente tradição do estado de eleger ao seu governo grandes fanfarrões. Não tem nem o que ser dito aqui.

FHC
“A política é a arte de tornar possível o necessário”
“Política é a arte de tornar possível o necessário, o desejável”

Essas duas definições complementares encontram-se em diferentes livros e artigos publicados por FHC, o intelectual-político mais influente do país. Letrado e maquiavélico, FHC define a política como algo que deve ser feito. Sob quais critérios e valores isso nunca fica muito claro em toda a sua obra. Pode-se dizer que FHC acredita na teoria do Rei Filósofo, sendo ele obviamente o cume da sabedoria para quem tudo é permitido e tudo deve se submeter. Aliás, essa é a chave para se interpretar todas as ações de FHC: não há opinião que o ex-presidente dê sobre qualquer coisa que não tenha como prioridade fortalecer o nome histórico e inviolável que ele quer deixar gravado de si próprio.

Alckmin
“A política é a arte e a ciência ao encontro do bem comum”
“Para nós, a política é a arte de melhorar o mundo“

Bastante religioso e de fala robótica, repleta de enumerações, Alckmin dá duas das melhores definições deste apunhalado. Elas estão de acordo com seu perfil que, a despeito de parecer bobão, enfatiza a impressão que causa nos outros de ser alguém bonzinho e simples. Desnecessário dizer que as duas definições não valem nada como síntese do que seja a política.

José Serra
“Política é a arte de ampliar os limites do possível.”

José Serra é dos poucos grandes nomes ativos da política nacional que tem boa formação e ainda apresenta certa vaidade intelectual. Sua síntese do que é política, no entanto, é paupérrima e não serve como aforisma por nem sequer ter claro o objeto de sua definição, sendo facilmente desmontada ao transpor para casos em que ela serviria e não têm nada a ver com política. Para ficar num exemplo rápido de ridicularização, qualquer pesquisador científico ou quem trabalha na indústria tecnológica está sempre ampliando os limites do possível e nem por isso é um ator político

plato

Pedro Barruguete, Platão (~1477)

A melhor definição para o tema que encontrei de políticos contemporâneos é a que vai abaixo, de um Ministro de Dilma:

Edinho, Ministro da ‘Comunicação Social’
“Política é a arte de construir idéias majoritárias que fazem a sociedade se mover”

É uma ótima definição por descrever com perfeição a prática política da presidência.  O PT, que nunca teve seus ideais como majoritários no país, comprou os partidos para ganhar apoio. Para isso, precisou desviar dinheiro público. Quando pego, justifica-se dizendo que todos fazem isso e não há outra forma de agir para fazer aquilo que o país precisa. O PT roubou estatais para que suas idéias impusessem-se sem ser majoritárias, com o intuito de mover nossa sociedade para o seu sonho socialista.

Desprovida de virtudes pessoais e indigente intelectualmente, a média dos líderes políticos brasileiros é uma tragédia que nem se permite rir de si própria. São pessoas assim que conduzirão o país quando e se conseguirmos nos livrar do banditismo de hoje.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

Os impressionantes números de Aécio no último Datafolha

O instituto Datafolha divulgou ontem números atualizados da corrida presidencial de 2018. Resumidamente, o cenário mais importante e realista traz os seguintes números:
Cenário 1: Aécio 26%, Lula 20%, Marina  19%,  Ciro Gomes 6% e Bolsonaro 4% dos entrevistados.

É impressionante o resultado de Aécio Neves.

Levando-se em conta que o senador mineiro em 5 anos de Senado apresentou apenas um projeto de lei, aliás inconstitucional (pois avança sobre o uso de dinheiro de pessoas: o projeto queria proibir ocupantes de cargos públicos de confiança de darem porcentagem de seus salários ao partido que os indicou).

Levando-se em conta que Aécio Neves é incapaz de formular uma crítica original ou contundente ao cenário caótico que vivemos.

Levando-se em conta que Aécio Neves prometeu fazer uma oposição “incansável e intransigente” pelo Brasil dias após perder o segundo turno em 2014 e que, pouco depois, anunciou viagem a Paris para descansar e desde então não articulou com sucesso nada de relevante da oposição.

Levando-se em conta que seu aliado Eduardo Azeredo, ex-governador, senador e deputado por Minas, acabou de ser condenado a vinte anos de prisão.

Levando-se em conta que Aécio Neves agiu contra o PSDB da Câmara meses atrás, impedindo os deputados de entrarem com pedido de impeachment antes do PT se reorganizar e fechar acordo com o PMDB de Renan Calheiros.

Levando-se em conta que Aécio Neves, embora tenha tido bastante espaço nos telejornais para contrapor o governo, é incapaz de empolgar qualquer pessoa que acompanhe política, não seja militante dele e/ou não esteja recebendo para apoiá-lo.

Levando-se em conta tudo isso, é um feito e tanto que o senador mineiro tenha esses expressivos números que o colocam perto do limite da margem de erro à frente de Lula e Marina Silva.

Imaginem quando ele começar a trabalhar? Imaginem quando ele for capaz de liderar? Imaginem quando ele tiver alguma boa idéia que seja? Imaginem quando Aécio Neves tiver alguma qualidade real e efetiva, diferente do desvio que é ser reconhecido como bom “articulador político”?

Aécio Neves

Aécio Neves

P.S.: Os cenários envolvendo Geraldo Alckmin são desprezíveis e estão à altura do desempenho do governador, especialmente após o covarde e oportunista recuo diante do vandalismo de grupos de extrema esquerda em escolas públicas.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

Contra o “isso não vai dar em nada”

Quando Roberto Jefferson escancarou os métodos de poder petistas, muitos devem ter lido aquilo e pensado: “Isso não vai dar em nada”.

Quando o Procurador-Geral da República ofereceu a denúncia do Mensalão ao STF, muitos pensaram da mesma forma, que não daria em nada

Quando o PT de tudo fez para anular o Mensalão no STF, não teve total êxito muito graças à pressão daqueles que não pensavam que aquilo “não daria em nada”.

Quando alguns conhecidos resolveram abrir um site para aglutinar críticas aos roubos na política, combater o discurso oficialista propagado pela imprensa, os jornalistas militantes e ridicularizar a esquerda, muitos pensaram que fazer isso não mudaria nada. Este site, o nosso Reaçonaria, tem hoje mais acessos que todos os sites financiados pelo governo para defender bandidos políticos.

Quando se juntaram na avenida Paulista algumas pessoas para protestar pouco tempo após a derrota eleitoral em 2014, muitos podem ter olhado aquilo e pensado que não daria em nada. As mentiras do governo se tornaram gritantes, os crimes eleitorais afloraram, os crimes nas estatais afetaram o país todo e em março aquele movimento cresceu ao ponto de realizar os maiores protestos políticos de nossa história.

Quando começou a Operação Lava Jato, muitas pessoas não deram atenção. Foram presos lobistas ligados ao PT e aos esquemas de desvios da Petrobras, mas alguns ignoraram achando que aquilo não daria em nada. Esses presos começaram a assinar as delações premiadas e cada vez menos pessoas podiam afirmar tranquilamente que aquilo não daria em nada. Quando os empreiteiros foram presos e grandes vestais do PIB brasileiro se mobilizaram para acabar com a operação, mais gente começou a repetir “isso não vai dar em nada”. Os trabalhos da força-tarefa da Lava Jato seguiram adiante, vieram mais prisões, mais acordos de delação e a turma do “não vai dar em nada” teve que se dobrar quando o líder do governo no Senado foi flagrado armando um esquema mirabolante para libertar um lobista preso.

Após a última vitória de Dilma, dois jornalistas se uniram para abrir um site com o intuito de comentar as notícias, fazer análises e trazer informações de bastidores do nosso conturbado ambiente político. Até mesmo eles devem ter pensado “Isso não vai dar em nada”. Em pouco mais de oito meses, O Antagonista se consolidava como o site político mais acessado do país e acrescentava mais um jornalista ao time, sendo hoje a melhor fonte para acompanhar as minúcias da Operação Lava Jato e do processo de impeachment.

Esses são apenas alguns exemplos de quando a turma do “isso não vai dar em nada” esteve errada. Quando se tem a certeza de agir corretamente, com honestidade, em defesa do que é certo, a recompensa é obtida não pelo resultado final mas pela paz na consciência. E quando ela vem incrementada com resultados práticos, ainda que levem tempo, tanto melhor.

Neste próximo domingo, quem está a favor do fim de um governo erguido e sustentado em pilares criminosos tem mais uma oportunidade de mostrar que não se guia pelo resultado imediato, que age pelo que acredita e que não se rende ao pessimismo imediatista do “não vai dar em nada”.

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Revisado  por Maíra Adorno @mairamadorno

Por que a imprensa poupa Renan Calheiros?

A imprensa brasileira devota às acusações contra Eduardo Cunha uma atenção que não dedica a Renan Calheiros, mesmo tendo o senador alagoano uma ficha corrida muito maior do que a do deputado carioca. Qual a diferença entre eles? Ambos são presidentes de casas legislativas mas um é historicamente credor e devedor do lulismo, enquanto o outro passou a ser demonizado tão logo virou opositor desse esquema de poder.

Desde o crescimento do movimento pelo impeachment de Dilma a imprensa usa Eduardo Cunha como válvula de escape dos graves crimes do governo petista. Tanto pior para ele, recentemente o movimento pelo impeachment minguou, diminuindo seu poder de barganha, ao mesmo tempo em que a Procuradoria Geral da Suiça (vejam aqui nosso contato exclusivo com o MP suíço sobre o caso) enviava documentos que comprovam que ele tem contas no paraíso fiscal europeu. Mas o fato de uma mesma notícia gerar diversas manchetes, que não traziam nada de novo em dias diferentes, não é a mais forte prova do partidarismo da imprensa brasileira (sendo específico: Folha de São Paulo, Rede Globo, Valor Econômico) em favor de Dilma Rousseff. A chefia da outra casa legislativa carrega um cadáver moral cuja vida política só se sustenta nos acordos com o petismo – e a imprensa ignora essa anomalia.

Quatro inquéritos de Renan Calheiros no STF e outro a caminho

RenanCalheiros_vs_Cunha

Você foi lembrado recentemente de algum dos quatro inquéritos contra Renan Calheiros no STF? Provavelmente não. E se você não é crackudo  em política, dificilmente se lembrará que Renan Calheiros está na lista de réus da Lava Jato.

Todas as vezes em que há protestos ou ações contra Dilma Rousseff os jornalistas correm a perguntar a quem está ousando criticar a presidente o que eles acham de Eduardo Cunha, presidente da Câmara e portanto pessoa que autorizaria o início de um processo contra Dilma Rousseff. Porém, por que não se pergunta também o que se pensa de Renan Calheiros, que tem mais processos correndo contra ele no STF e seria, de fato, o responsável pelo ato final do impeachment? Anteontem, o PSOL ganhou mais de quatro minutos de exposição no Jornal Nacional por se manifestar contra Eduardo Cunha… Por que não se perguntou aos parlamentares comunistas se eles também pediriam a cassação de Renan Calheiros?

Esses são os quatro inquéritos contra Renan Calheiros no STF:

1- Inquérito 2998 –

A ministra Cármen Lúcia assumiu esta relatoria em 2010 e decretou o sigilo da investigação. Vale lembrar que o inquérito contra Cunha por suas fortunas na Suiça já foi enviado e aceito pelo STF e o ministro Teori Zavascki imediatamente negou o sigilo do caso. Tudo o que se sabe deste inquérito 2998 contra Renan é que ele seria  acusado de ter usado laranjas para controlar rádios e jornais em sua terra natal;

2- Inquérito 2593 – Nascido de denúncia de janeiro de 2013 apresentada por Rodrigo Gurgel, então Procurador Geral da República, esta investigação se dá sobre as suspeitas de que Renan usou dinheiro do Senado para diversas operações pessoais. Renan responde pelos crimes de peculato, falsidade ideológica e uso de documentos falsos. Sua pena pode chegar a 23 anos de prisão. Isto não impediu Renan de ser eleito presidente do Senado e, desde então, poupado de constrangimentos por PSOL e demais braços “disfarçados” do PT. Sobre este processo, Lewandowski fez uma declaração que só lendo para crer:

Na última sexta-feira (1º), o ministro Ricardo Lewandowski disse que ainda não tinha analisado a denúncia e que aparentemente não havia motivo para dar prioridade ao caso. Lewandowski acrescentou que não pretende levantar o sigilo dos autos, pois há dados confidenciais do senador e de outros denunciados.
3- Inquérito 3589 –

Caso estranhíssimo… Renan Calheiros e sua esposa eram acusados de terem cometido crimes ambientais por pavimentar ilegalmente, com paralelepípedos, uma estrada de 700 metros na estação ecológica Murici, administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), no município de Flexeiras, a 66 km de Maceió. O instituto, porém, não foi consultado e não concedeu qualquer licença ou autorização para a obra. A unidade, de 6 mil hectares, conserva áreas de Mata Atlântica. A estrada liga a Fazenda Alagoas, de propriedade do grupo de Renan, à principal rodovia que corta o estado, a BR-101. No despacho em que extingue o inquérito, a Ministra Carmem Lúcia, novamente ela, apresenta uma justificativa inacreditável: ele não cometeu crime ambiental pois, como se pode ver de fotos mais recentes, a vegetação local está se refazendo. É exatamente isso que ela disse:

“Contudo, as fotos que instruem o documento demonstram que o acostamento da estrada encontra-se em franco processo de recuperação da mata ali existente.”

Este arquivamento ocorreu agora, no dia 29 de maio deste ano, quando Renan Calheiros já havia fechado um acordo com o governo Dilma para conter, dentro do PMDB e na sua alçada de poder, o avanço do impeachment.

4- O inquérito da Lava Jato – Renan Calheiros é um dos muitos políticos que estão na denúncia apresentada por Janot em março deste ano referente à Lava Jato. Assim como Eduardo Cunha. A lista é enorme e pode ser relembrada em muitos posts, como este do UOL.

Além desses inquéritos já enviados ao STF, Renan responde a um novo processo por enriquecimento ilícito e improbidade administrativa. A Justiça Federal do Distrito Federal conduz um inquérito aberto pelo Ministério Público contra o senador neste ano.  Agora no dia primeiro de outubro, o MP ajuizou a acusação e isto ganhou repercussão mínima na grande imprensa. O site Jota.Info foi exceção:

Ministério Público Federal no Distrito Federal (MPF-DF) ajuizou, na Justiça de primeira instância de Brasília, ação de improbidade administrativa contra o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), por ter ele deixado de fornecer ao MPF informações necessárias em inquérito que apura supostas irregularidades na ocupação de cargos comissionados naquela Casa do Legislativo. O presidente do Senado ignorou sete ofícios reiterando o pedido de informações.

Já Eduardo Cunha tem dois inquéritos no STF: aquele que envolve dezenas de políticos na Lava Jato – inquérito de número 3983, que conta inclusive com Renan Calheiros entre os acusdos – e o mais recente, de número 4146, referente aos milhões do deputado depositados em contas na Suíça. Se Renan Calheiros tem mais poder que Eduardo Cunha, tem mais história que Eduardo Cunha e apresenta muito mais comprometimentos legais, por que ele é poupado pela imprensa? A única explicação razoável é que é pelo fato dele ser aliado de Dilma e do PT. Ou seria por que ele é um político de maior reputação? Alguém que sobreviveu ao governo Collor, nadou de braçada nos anos FHC, chegou ao topo na era Lula e foi por Lula resgatado de um processo  de cassação seria alguém digno de qualquer respeito?

Renan até chegou a ensaiar uma rebelião contra Dilma e o PT após ter seu nome envolvido na grande lista de investigados pela Lava Jato (relembrem um sinal de alerta público de Renan ao governo aqui). Mas Lula sabe lidar com  seus semelhantes e reconhecia no senador alagoano o maior risco político (relembre aqui e aqui o tamanho do problema que Renan representava). Lula encontrou Renan Calheiros no dia 14 de maio. Duas semanas depois Cármem Lúcia arquivaria um dos inquéritos contra Renan no STF e desde então Renan virou o segundo maior ator político pela sustentação de Dilma no poder, só abaixo de Lula.

Folha se esquece dos processos contra Renan nas chamadas de reportagens - ele é aliado do PT

Folha se esquece dos processos contra Renan nas chamadas de reportagens – ele é aliado do PT. Já os processos contra Cunha são sempre lembrados.

Não é errado órgãos de imprensa terem posicionamentos políticos. Mas o que dizer quando essas preferências se apresentam de forma tão acintosa, que as notícias publicadas e o nome dessas empresas se tornam suspeitos? Se não de uma compra política, ao menos de um deliberado partidarismo que serve aos donos do poder. Mais ainda, essas empresas, agindo assim, mostram-se a serviço de quem está no comando do país e já é réu em escândalos de valores tão impressionantes que levaram uma das maiores economias do mundo a sua pior crise financeira em muitas décadas.

Como se pode ver, não é por desejo de justiça que a Folha, a Globo e outros veículos de imprensa fazem barulho diante das graves acusações que pesam contra Eduardo Cunha. E, no final das contas, ele é apenas mais um dos beneficiários desse sistema de desvios montado pelo PT nas estatais. Eduardo Cunha serviu ao PT quando fez parte da engrenagem do Petrolão, como demonstram as descobertas até aqui, e serve agora ao PT como bode expiatório dos crimes de quem organizou o esquema todo. Já Renan Calheiros serve ao PT como barreira política ao impeachment, e por isso sua biografia é lavada nas manchetes.

Revisado Maíra Adorno @mairamadorno