Da Cia

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Até quando Lula negará ser dono do Sítio Santa Bárbara?

Alguém no staff de Lula teve a idéia, lá atrás, de negar que o Sítio Santa Bárbara era propriedade dele. Não se sabe qual foi o cálculo político nesta opção de defesa mas cada dia que passa a versão fica ainda mais insustentável. Vejam todos os argumentos que o Ministério Público tem hoje para afirmar que Lula e sua família são donos, ou os únicos “usuários”, da mansão:

– A assessoria de Lula sempre se referia ao Sítio como propriedade de Lula antes das investigações atuais. Relembrem aqui em nosso post que foi citado pelo Jornal Nacional e deverá ser usado na peça de acusação contra Lula: “Todas as vezes em que Lula afirmou que o Sítio Santa Bárbara é de Lula“;

– O caseiro do Sítio, ao ser perguntado sobre número de telefone dos proprietários, indicou o número do advogado de Lula, conforme reportagem de O Globo;

– O extraordinário número de idas de seguranças oficiais ao sítio, em rotina de revezamento para que sempre ao menos um estivesse por lá, divulgado pela revista Época: “Planalto pagou 968 diárias para segurança de Lula em sítio que “não é do Lula“;

– A nota fiscal do barco adquirido por Dona Marisa para ser entregue no sítio, revelada pela Folha: “Folha obtém nota fiscal de barco comprado por Marisa para o “sítio que não é do Lula“;barco

– As declarações da dona da loja de materiais para construção que forneceu material para a reforma feita para Lula, localizada pela Folha: “Depósito que vendeu materiais para sítio usado por Lula fecha as portas, muda de nome e endereço“;

– Os pedalinhos do Sítio têm nomes de netos de Lula. Isso foi descoberto por leitores do Antagonista e publicado primeiramente por Felipe Moura, da Veja Online, após reportagem do Jornal Nacional com vista aérea do sítio ter focado de passagem os brinquedos: “Pedalinhos de “sítio que não é do Lula” têm nome de netos de Lula“;Pedalinhos-close-mega

– Os pedalinhos com nomes de netos de Lula foram comprados por seguranças da presidência alocados para fazerem a segurança do ex-presidente, conforme revelou o site O Antagonista: “Servidor da presidência comprou pedalinhos de “sítio que não é do Lula“;notapedalinho

– A antena de celular localizada próxima ao sítio e que praticamente só serve ao sítio foi um presente do ex-sindicalista Zunga, conforme revelou a Folha. Uma antena dessas custa mais de R$1 milhão;

Como sabemos que o pessoal do Instituto Lula nos lê, este é também um trabalho de gratidão pela audiência: o post compila tudo o que vocês do Instituto precisam preparar para apresentar na defesa à Justiça. Boa sorte, o trabalho não será pequeno.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

A VEJA e os 3 eixos da política

A crítica política no Brasil desde a redemocratização gira em torno de temas econômicos. Ela se motiva pelo pressuposto de que o objetivo de um país é ser rico, ter o povo com bastante dinheiro. É assim na maior parte das eleições pelo mundo também. Todos devem já ter ouvido o super clichê do “É a economia, estúpido!”, usado na campanha vencedora de Bill Clinton (conheçam aqui).

O tema da corrupção ganha destaque e passa a ser fortemente explorado por aqueles que estão fora do poder e se opõem ao modelo econômico do partido que comanda o país. Comparar as opiniões de petistas antes e depois da chegada ao poder  deixa bem claro o quanto a corrupção era explorada e como, após vencerem a presidência, foi reduzida, chegando ao ponto de nos anos pós-Mensalão petistas até fazerem piada de quem criticava a corrupção. Lembravam que o povo estava feliz por ter mais dinheiro e era isso o que o povo queria saber – estavam certos.

A Veja não foge a essas regras. A grande discordância da revista em relação ao PT, embora explorada pelos petistas como algum ódio de classes ou ideologia (de direita e contra o esquerdismo petista), é mesmo da ordem econômica. Para sorte da Veja, os índices de corrupção nos anos petistas bateram recordes, propiciando boa atração para descontentes com o PT. Com o país crescendo em bom ritmo e saindo imune de algumas crises internacionais, qual seria o efeito chamativo da crítica econômica da Veja?

A grande prova de que a crítica da Veja à corrupção do PT é motivada muito mais pelas discordâncias econômicas do que por moralidade ou defesa da honestidade é a enorme leniência e mesmo deferência da revista com Antônio Palocci. Em mais de um editorial (“Carta ao Leitor”) e em dezenas de reportagens e colunas a revista defendia a idéia de que Palocci era uma ilha de razão e competência em meio aos ratos petistas. Afinal de contas, Palocci seria o petista tucano. Após o escândalo da quebra de sigilo Francenildo, a revista aplaudiu a nova chance de Palocci com Dilma. As notas de Lauro Jardim em defesa do ex-ministro eram uma festa só.

Como já pode ter ficado claro para muitos, a pura questão econômica não é bastante para distinguir PT e PSDB. Afinal de contas, ambos pensam que o Estado deve ser o grande direcionador e planejador do desenvolvimento do país. As diferenças existem e são relevantes em temas como o tamanho da abertura comercial (o PT tem uma postura mais nacionalista e anti-americana do que o PSDB, por exemplo), o alinhamento a movimentos internacionais (o PSDB mais ligado às esquerdas do primeiro mundo, o PT ligado ao movimento revolucionário americano e ao Foro de SP) e os temas caros para a implantação do bem-sucedido Plano Real. Mas são diferenças marginais, dentro de um mesmo espectro ideológico, o da social-democracia.

O que quero ressaltar aqui é que há um outro eixo que deveria se sobrepor ao tema principal, econômico, e o coadjuvante, a corrupção: a questão cultural. A cultura deveria ser o ponto de partida de todo debate político pois diz mais das características peculiares de cada povo, e portanto daquilo que se pode fazer para tornar a vida de seus habitantes mais ordenada e sã, do que um conjunto de fórmulas que visam apenas melhorias materiais. Olavo de Carvalho tem muitos artigos ótimos sobre o tema, destaco um trecho abaixo:

Considerando-se os nossos cinco séculos de história, a extensão física e o volume populacional deste país, a nulidade da nossa contribuição espiritual chega a ser um fenômeno espantoso, sem paralelo na história do mundo. O desinteresse, a letargia espiritual da cultura brasileira, a prisão da inteligência nacional na esfera do econômico imediato, são sinais de uma pequenez de alma que jamais se observou em tão impressionante escala coletiva. Se existissem verdadeiros estudiosos acadêmicos entre nós esse tema seria motivo de preocupação e debates. Mas toda a nossa vida acadêmica é ela própria reflexo desse fenômeno, que escapa portanto ao seu horizonte de visão: nossas classes letradas não têm força sequer para tomar consciência da sua própria miséria espiritual.”
(…)Toda aspiração nacional de tornar-se “grande potência” com uma base cultural tão nula está condenada, de antemão, seja ao fracasso, seja a um sucesso que se tornará, caso alcançado, um flagelo para a humanidade, obrigada a curvar-se ante a força bruta de novos bárbaros que nem sequer têm um senso próprio de orientação na História onde interferem cegamente.

Não estou aqui falando desta tolice muito comum hoje de precificar o conhecimento, transformando citação de livros e autores em produtos a se exibir na via pública, em ativos distintivo de classes de homens. Cultura não é isso. O estudo puro ou mesmo falsificado de “grandes autores” não cura o caráter de ninguém e o problema do Brasil não é falta de estudo… Do ponto de vista cultural, ou seja, do conjunto de valores, conceitos e princípios que criam idéias e ações, pouco se pode distinguir o PT do PSDB e mesmo da revista Veja. Se parece chocante esta afirmação, uma pesquisa nas “Cartas ao Leitor” da Veja pode ser bastante: a constância com que usam “modernidade” como sinônimo substitutivo de “bom” é impressionante. Outras vezes usam termos como “iluminação”, fala-se que tal coisa é ruim e “das trevas” pois ultrapassado, retrógrado e velho. Tudo é tão melhor quanto mais civilizado e moderno.

É a cultura predominante na redação da Veja que permite imprimir em sua capa uma matéria tão distante da realidade problemática brasileira como aquela sobre os pré-adolescentes que acham o máximo todo mundo beijar todo mundo sem nenhuma distinção de quantidade, sentimento ou sexo. É moderno, logo bom. Essa matéria foi a maior demonstração de uma linha de orientação que se tornava cada vez mais nítida e, espero, agora esteja totalmente percebida por todos.

Petistas e tucanos, como a revista Veja, não suportam carregar uma opinião que possa desafiar qualquer moda “moderna”.  Lembrem-se de FHC falando em favor da legalização da maconha com o argumento de que o combate ao consumo e tráfico de drogas é algo “ultrapassado”.  Lembrem-se do PSDB defendendo o parlamentarismo por ser uma forma de governo mais moderna. Reparem nos esforços do PT em absorver agendas politicamente corretas diretamente importadas dos EUA e Europa – e notem como é ridículo alguém dar prioridade a isso num lugar com nosso número de bandidos e em que tratamento de esgoto é coisa de cidade rica.

Tudo isto está aqui registrado para falar que não estou muito preocupado com a mudança na revista Veja, que agora passará a ser comandada por André Petry. Em relação a mim, meus valores, minhas opiniões sobre sentido da vida, natureza humana, função e sentido do Brasil e seu povo, não vejo como ela possa se distanciar significativamente tanto a mais do que já está hoje. Politicamente, é provável que ela fique ainda com mais cara de eco das opiniões de FHC. FHC está há anos dedicado a sua disputa pessoal de prestígio contra Lula, por isso é contra a cassação de registro do PT e o impeachment de Dilma. André Petry pensa o mesmo – e a Veja ainda tem Roberto Pompeu de Toledo, descaradamente um porta-voz de FHC. Isto deve se acentuar ainda mais daqui para a frente. Como influenciará na cobertura jornalística eu realmente não sei. Quanto aos escândalos de corrupção, serão destaque enquanto houver esta forma de distinguir o PT do PSDB.

O fato é que a Veja não vai virar petista e este risco nunca foi o seu problema, que persistirá com

a nova direção.

AndrePetry_RobertoPompeudeToledo

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

PSDB: Para vossa fantasia, mui estreita é essa barca

O PT é o partido mais rico do Brasil e que domina os meios culturais e acadêmicos. O segundo maior partido nestes termos é o PSDB. O curioso é que, em meio à ruína petista, o PSDB não assuma a posição de restaurador do país. Falta-lhe firmeza, caráter e valores, além de em muitos aspectos possuir a mesma visão política do PT.

Enquanto os dirigentes do PT se aproximam da cadeia, os líderes tucanos enfrentam um inferno que não os permite vislumbrar grandes futuros. Aécio vê seu aliado Azeredo correr risco de prisão e é xingado por eleitores quando alivia a situação do PT. FHC teve seu nome manchado pelas denúncias de uma ex-amante. Serra entrou no rolo por empregar uma irmã dessa amante de FHC. Já Alckmin vê seu aliado e presidente da Assembleia Legislativa ser envolvido num caso de desvios de recursos para compra de merenda escolar.

Estupefatos, os tucanos não conseguem entender porque motivos aquelas pessoas que criticam o PT, que querem ver o fim do PT, não os ajudam nesses momentos constrangedores. Uma boa forma de explicar a eles é trazer trechos do Auto da Barca do Inferno, de 1517, escrita por Gil Vicente. Reler esta peça é ainda mais importante agora que o MEC petista quer retirar do currículo de formação de nossos estudantes o estudo da literatura portuguesa. Abaixo os trechos especialmente selecionados para os tucanos e, mais adiante, toda a cena I e II, em que participa o Fidalgo:

Fidalgos não entendem porque não embarcaram na Barca rumo ao Paraíso

Fidalgos não entendem porque não embarcaram rumo ao Paraíso – Ilustração por Gabriel Artie*

Vem o Fidalgo e, chegando ao batel infernal, diz:

FIDALGO Esta barca onde vai ora,
que assi está apercebida?
DIABO Vai para a ilha perdida,
e há-de partir logo ess’ora.
FIDALGO Pera lá vai a senhora?
DIABO Senhor, a vosso serviço.
FIDALGO Parece-me isso cortiço…
DIABO Porque a vedes lá de fora.

(…)

FIDALGO Não há aqui outro navio?
DIABO Não, senhor, que este fretastes,
e primeiro que expirastes
me destes logo sinal.
FIDALGO Que sinal foi esse tal?
DIABO Do que vós vos contentastes.

(…)

ANJO Que querês?
FIDALGO Que me digais,
pois parti tão sem aviso, se a barca do Paraíso
é esta em que navegais.
ANJO Esta é; que demandais?
FIDALGO Que me leixês embarcar.
Sou fidalgo de solar,
é bem que me recolhais.

ANJO Não se embarca tirania
neste batel divinal.
FIDALGO Não sei porque haveis por mal
que entre a minha senhoria…
ANJO Pera vossa fantesia
mui estreita é esta barca.
FIDALGO Pera senhor de tal marca
nom há aqui mais cortesia?

Venha a prancha e atavio!
Levai-me desta ribeira!
ANJO Não vindes vós de maneira
pera entrar neste navio.
Essoutro vai mais vazio:
a cadeira entrará
e o rabo caberá
e todo vosso senhorio.

Ireis lá mais espaçoso,
vós e vossa senhoria,
cuidando na tirania
do pobre povo queixoso.
E porque, de generoso,
desprezastes os pequenos,
achar-vos-eis tanto menos
quanto mais fostes fumoso.

(…)

FIDALGO Ao Inferno, todavia!
Inferno há i pera mi?
Oh triste! Enquanto vivi
não cuidei que o i havia:
Tive que era fantesia!
Folgava ser adorado,
confiei em meu estado
e não vi que me perdia.
Venha essa prancha! Veremos
esta barca de tristura.

(…)

Entrai, meu senhor, entrai:
Ei la prancha! Ponde o pé…
FIDALGO Entremos, pois que assi é.
DIABO Ora, senhor, descansai,
passeai e suspirai.
Em tanto virá mais gente.
FIDALGO Ó barca, como és ardente!
Maldito quem em ti vai!

*Conheçam o trabalho de Gabriel Artie em suas páginas:

 

 

                                              O AUTO DA BARCA DO INFERNO

Vem o Fidalgo e, chegando ao batel infernal, diz:

FIDALGO Esta barca onde vai ora,
que assi está apercebida?
DIABO Vai pera a ilha perdida,
e há-de partir logo ess’ora.
FIDALGO Pera lá vai a senhora?
DIABO Senhor, a vosso serviço.
FIDALGO Parece-me isso cortiço…
DIABO Porque a vedes lá de fora.

FIDALGO Porém, a que terra passais?
DIABO Pera o inferno, senhor.
FIDALGO Terra é bem sem-sabor.
DIABO Quê?… E também cá zombais?
FIDALGO E passageiros achais
pera tal habitação?
DIABO Vejo-vos eu em feição
pera ir ao nosso cais…

FIDALGO Parece-te a ti assi!…
DIABO Em que esperas ter guarida?
FIDALGO Que leixo na outra vida
quem reze sempre por mi.
DIABO Quem reze sempre por ti?!..
Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!…
E tu viveste a teu prazer,
cuidando cá guarecer
por que rezam lá por ti?!…

Embarca – ou embarcai…
que haveis de ir à derradeira!
Mandai meter a cadeira,
que assi passou vosso pai.
FIDALGO Quê? Quê? Quê? Assi lhe vai?!
DIABO Vai ou vem! Embarcai prestes!
Segundo lá escolhestes,
assi cá vos contentai.

Pois que já a morte passastes,
haveis de passar o rio.
FIDALGO Não há aqui outro navio?
DIABO Não, senhor, que este fretastes,
e primeiro que expirastes
me destes logo sinal.
FIDALGO Que sinal foi esse tal?
DIABO Do que vós vos contentastes.

FIDALGO A estoutra barca me vou. Hou da barca! Para onde is?
Ah, barqueiros! Não me ouvis? Respondei-me! Houlá! Hou!…
(Pardeus, aviado estou!
Cant’a isto é já pior…)
Oue jericocins, salvanor!
Cuidam cá que são eu grou?

ANJO Que querês?
FIDALGO Que me digais,
pois parti tão sem aviso, se a barca do Paraíso
é esta em que navegais.
ANJO Esta é; que demandais?
FIDALGO Que me leixês embarcar.
Sou fidalgo de solar,
é bem que me recolhais.

ANJO Não se embarca tirania
neste batel divinal.
FIDALGO Não sei porque haveis por mal
que entre a minha senhoria…
ANJO Pera vossa fantesia
mui estreita é esta barca.
FIDALGO Pera senhor de tal marca
nom há aqui mais cortesia?

Venha a prancha e atavio!
Levai-me desta ribeira!
ANJO Não vindes vós de maneira
pera entrar neste navio.
Essoutro vai mais vazio:
a cadeira entrará
e o rabo caberá
e todo vosso senhorio.

Ireis lá mais espaçoso,
vós e vossa senhoria,
cuidando na tirania
do pobre povo queixoso.
E porque, de generoso,
desprezastes os pequenos,
achar-vos-eis tanto menos
quanto mais fostes fumoso.

DIABO À barca, à barca, senhores!
Oh! que maré tão de prata!
Um ventozinho que mata
e valentes remadores!

Diz, cantando:

Vós me veniredes a la mano,
a la mano me veniredes.

FIDALGO Ao Inferno, todavia!
Inferno há i pera mi?
Oh triste! Enquanto vivi
não cuidei que o i havia:
Tive que era fantesia!
Folgava ser adorado,
confiei em meu estado
e não vi que me perdia.
Venha essa prancha! Veremos
esta barca de tristura.
DIABO Embarque vossa doçura,
que cá nos entenderemos…
Tomarês um par de remos,
veremos como remais,
e, chegando ao nosso cais,
todos bem vos serviremos.

FIDALGO Esperar-me-ês vós aqui,
tornarei à outra vida
ver minha dama querida
que se quer matar por mi.

DIABO Que se quer matar por ti?!…
FIDALGO Isto bem certo o sei eu. DIABO
Ó namorado sandeu,
o maior que nunca vi!…

FIDALGO Como pod’rá isso ser,
que m’escrevia mil dias?
DIABO Quantas mentiras que lias,
e tu… morto de prazer!…
FIDALGO Pera que é escarnecer,
quem nom havia mais no bem?
DIABO Assi vivas tu, amém,
como te tinha querer!

FIDALGO Isto quanto ao que eu conheço…
DIABO Pois estando tu expirando,
se estava ela requebrando
com outro de menos preço.
FIDALGO Dá-me licença, te peço,
que vá ver minha mulher.
DIABO E ela, por não te ver,
despenhar-se-á dum cabeço!

Quanto ela hoje rezou,
antre seus gritos e gritas,
foi dar graças infinitas
a quem a desassombrou.
FIDALGO Cant’a ela, bem chorou!
DIABO Nom há i choro de alegria?..
FIDALGO E as lástimas que dezia?
DIABO Sua mãe lhas ensinou…

Entrai, meu senhor, entrai:
Ei la prancha! Ponde o pé…
FIDALGO Entremos, pois que assi é.
DIABO Ora, senhor, descansai,
passeai e suspirai.
Em tanto virá mais gente.
FIDALGO Ó barca, como és ardente!
Maldito quem em ti vai!

  Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

Um editorial eugenista do jornal O Globo

O jornal carioca O Globo publicou hoje aquele que deve ser classificado como o mais vergonhoso editorial de sua história. Com verniz progressista, baseado em estudos científicos não conclusivos e diante duma visão utilitarista e covarde do valor da vida humana, o jornal defendeu que se faça abortos PREVENTIVOS à menor suspeita de que uma criança possa vir a ter um defeito.  Está escrito lá, sem meias palavras:

Uma alternativa para contornar a questão do prazo poderia ser a de dar à gestante a opção de, tendo contraído a zika, decidir pelo aborto preventivo. Todos os aspectos objetivos devem ser profundamente discutidos, reservando-se a subjetividade a decisões de foro íntimo da mulher. A interrupção precoce da gravidez é tema que suscita paixões, um terreno cujo debate implica ter prudência e bom senso.

Seria prudência e bom senso, numa suspeita não fundamentada de possibilidade de doença, interromper uma gestação?

Para deixar bem claro o absurdo do editorial, adaptei-o, trocando os surtos de zika e microcefalia por surto de menores estupradores e a medida extrema do aborto preventivo pela da execução preventiva de menores criminosos, com os outros ajustes necessários. O resultado só poderia ser uma monstruosidade, como a defendida pelo jornal O Globo

Menores estupradores põem a execução preventiva na agenda de debates

São muito fortes as evidências de que o preocupante aumento dos casos de menores estupradores no país tem relação direta com a impunidade. O Brasil, epicentro de um surto que ameaça se transformar numa pandemia, já comprovou que a criação desses crianças com essa má-formação foi comprometida pela maioridade penal, mas ainda assim não há um reconhecimento científico oficial da ONU sobre tal associação. Essa é uma das discussões provocadas por uma doença que entrou apenas recentemente no radar do país

Outra discussão, mais dramática, se refere às consequências em si dos cuidados que as mães têm com os estupradores. Essa questão reacende, na agenda da saúde pública, o debate sobre os limites legais da pena de morte.

Outra discussão, mais dramática, se refere às consequências em si da vida de menores que estupraram. Essa questão reacende, na agenda da saúde pública, o debate sobre os limites legais da pena de morte.

É um tema que precisa ser amplamente analisado, sem hipocrisias e depurado, por óbvio, dos aspectos diversionistas que, a seu tempo, ameaçaram inviabilizar a necessária decisão constitucional, pelo STF, de permitir a pena de morte em casos comprovados de jovens estupradores.

É preciso partir de um ponto inequívoco: jovens mães que já deram à luz filhos estupradores se deparam com todo tipo de dificuldades para deles cuidar, em razão, principalmente, de o país manter uma ineficiente, despreparada e leniente rede pública de atendimento médico.

Esse é um mal generalizado, mas que se torna ainda mais dramático no caso de bandidos que precisam de cuidados integrais desde o primeiro momento de vida.

Questões éticas e religiosas à parte, há aspectos ligados à segurança pública que permeiam a pena de morte a estupradores. Mas também aqui há um ponto a partir do qual se devem desenvolver as discussões no premente tema dessa específica consequência: no caso da execução preventiva de menor estuprador, resolução do Conselho Nacional de Justiça determina que a sentença do criminoso seja confirmada em segunda instância, um estágio ainda inicial da punição, portanto de menor risco para a sociedade de reincidência. Mas a sentença dos estupradores é bem mais tardia, quando o marginal já tem uma formação mais consolidada. O que é certo é que o debate precisa analisar questões extremamente complexas.

Uma alternativa para contornar a questão do prazo poderia ser a de dar à mãe, tendo percebido indícios do filho pervertido, decidir pela execução preventiva. Todos os aspectos objetivos devem ser profundamente discutidos, reservando-se a subjetividade a decisões de foro íntimo da mulher. A interrupção precoce da criminalidade é tema que suscita paixões, um terreno cujo debate implica ter prudência e bom senso.

O que não se pode é passar ao largo do problema. O país está diante de um drama explosivo, que afetará um grupo potencialmente grande de pessoas, e precisa lhe dar resposta à altura.

Eis o editorial absurdo de O Globo. As partes em negrito e itálico foram substituídas no editorial adaptado:

Microcefalia põe o aborto na agenda de debates

São muito fortes as evidências de que o preocupante aumento dos casos de microcefalia no país tem relação direta com a epidemia de zika. O Brasil, epicentro de um surto que ameaça se transformar numa pandemia, já comprovou que a gestação das mães de 17 bebês nascidos com essa má-formação foi comprometida pelo vírus do Aedes aegypti, mas ainda assim não há um reconhecimento científico oficial da OMS sobre tal associação. Essa é uma das discussões provocadas por uma doença que entrou apenas recentemente no radar sanitário do país (as primeiras notificações datam de outubro do ano passado).

Outra discussão, mais dramática, se refere às consequências em si da gestação de grávidas que tiveram zika. Essa questão reacende, na agenda da saúde pública, o debate sobre os limites legais do aborto.

É um tema que precisa ser amplamente analisado, sem hipocrisias e depurado, por óbvio, dos aspectos diversionistas que, a seu tempo, ameaçaram inviabilizar a necessária decisão constitucional, pelo STF, de permitir a interrupção da gravidez em casos comprovados de anencefalia do feto.

É preciso partir de um ponto inequívoco: jovens mães que já deram à luz filhos microcéfalos se deparam com todo tipo de dificuldades para deles cuidar, em razão, principalmente, de o país manter uma ineficiente, despreparada e leniente rede pública de atendimento médico.

Esse é um mal generalizado, mas que se torna ainda mais dramático no caso de bebês que precisam de cuidados integrais desde o primeiro momento de vida.

Questões éticas e religiosas à parte, há aspectos ligados à saúde que permeiam o aborto de fetos anencéfalos e a possível interrupção da gravidez nos casos de microcefalia. 

Mas também aqui há um ponto a partir do qual se devem desenvolver as discussões no premente tema dessa específica consequência da zika: no caso do aborto de anencéfalo, resolução do Conselho Federal de Medicina determina que o diagnóstico da má-formação deve ser feito a partir da 12ª semana de gestação, um estágio ainda inicial da gravidez, portanto de menor risco para a gestante durante o procedimento. Mas o diagnóstico da microcefalia é bem mais tardio, quando o feto já tem uma formação mais consolidada. O que é certo é que o debate precisa analisar questões extremamente complexas.

Uma alternativa para contornar a questão do prazo poderia ser a de dar à gestante a opção de, tendo contraído a zika, decidir pelo aborto preventivo. Todos os aspectos objetivos devem ser profundamente discutidos, reservando-se a subjetividade a decisões de foro íntimo da mulher. A interrupção precoce da gravidez é tema que suscita paixões, um terreno cujo debate implica ter prudência e bom senso.

O que não se pode é passar ao largo do problema. O país está diante de um drama explosivo, que afetará um grupo potencialmente grande de pessoas, e precisa lhe dar resposta à altura.

Campo de concentração nazista em que se faziam experimentos em pessoas "com defeito". Em nome da ciência.

Campo de concentração nazista em que pessoas com defeito eram assassinadas ou vítimas de experimento. Em nome da ciência.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

Lula e o Guarujá – De retirante a presidente e depois de ostentador a investigado

A cidade de Guarujá, no litoral paulista, foi cenário de importantes momentos da vida do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva. Com o avanço das investigações que apontam um milionário apartamento do ex-presidente em nome de uma construtora que desviou bilhões da Petrobras, ela passa agora a representar o início e o fim da carreira política de Lula.

Cronologicamente, a relação do ex-presidente com o Guarujá tem os seguintes momentos a destacar:

1978

Aristides Inácio da Silva é o pai de Lula e trabalhou no Porto de Santos. “Porto de Santos” é o nome do conjunto de estaleiros que fica nas duas margens do Canal de Santos: uma margem na cidade de Santos e outra em Vicente de Carvalho, distrito de Guarujá. Conta-se que Aristides morreu em 1978 enterrado como indigente em Vicente de Carvalho. Neste mesmo ano, Lula já era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos e decolava politicamente em meio às consequências da greve na Scania iniciada em 12 de maio e que se contaria depois com a adesão de demais trabalhadores de montadoras do parque industrial do ABC.

2002

Lula é eleito presidente do Brasil. Em Vicente de Carvalho seu irmão João Inácio da Silva Neto ensaia iniciar uma carreira política se candidatando a vereador de Guarujá. Então balconista, ele não levaria a idéia adiante.

2006 

Em sua declaração de bens entregue à Justiça Eleitoral, Lula declara “Participação Cooperativa Habitacional Apartamento em construção no Guarujá, no valor de R$ 47.695”

2008

Lula batendo recordes de popularidade vai passar as férias no Forte dos Andradas, base militar localizada num paraíso ecológico. Germano Inácio da Silva, irmão de Lula e morador de uma favela de Guarujá, por três vezes tentou aproveitar a estadia do irmão famoso por lá para ter uma audiência com ele e, quem sabe conseguir uma ajuda. Lula negou receber seu irmão por três vezes.

2014 

Em 1o de julho, iniciam as reformas da cobertura 164-A do Edifício Solaris, então obra já assumida pela OAS e reservada para a família de Lula. Marisa Letícia vai pessoalmente algumas vezes ao apartamento acompanhar a obra e conhecer as instalações do condomínio. Um dos lulinhas também. O presidente da OAS, Léo Pinheiro, acompanhou os lulas em uma das visitas. Um elevador privativo foi instalado para afastar os lulas do convívio com os moradores comuns  do condomínio milionário.
Em dezembro, o jornal O Globo revelar que o tríplex de Lula era um dos poucos apartamentos já prontos. A descoberta veio junto às investigações contra a Bancoop, que deu calote em mais de 3000 pessoas. Apenas ali começavam as revelações de que a OAS assumira a entrega do edifício repleto apartamentos reservados a petistas.

2015

Reportagens das revistas VEJA e ÉPOCA ouvem moradores, funcionários e fornecedores da obra do tríplex de Lula no Guarujá. A esta altura Lula já diz que não é dono do tríplex, nem ele nem sua esposa, mas que apenas tinham a opção de comprar um apartamento.

2016

O Ministério Público confirma tudo o que fora levantado pela imprensa e pelo inquérito contra a Bancoop e avisa que tem tudo para apresentar denúncia contra Lula e Marisa por ocultação de patrimônio,o que é indício de pagamento de propina e lavagem de dinheiro. 30 testemunhas confirmam que Lula e Marisa são donos oficiais do apartamento. A porteira e o zelador do prédio trazem revelações minuciosas das visitas da família lula ao prédio.

Enfim, Lula e Marisa são intimados a depor na condição de investigados.

Solaris_Guaruja

* Há na cidade de Guarujá uma lenda interessante que liga Paulo Maluf a Lula. Os dois políticos de personalidade forte, cultuados por pobres, envolvidos em inúmeras suspeitas e sempre hábeis para fugir a condenações. Maluf tem inúmeros imóveis pela cidade. Diz-se que ele apresentou ao seu advogado e amigo Márcio Thomaz Bastos uma das praias “privadas” da cidade – praias de acesso restrito a carros, controlado pelos condomínios que construíram as estradas que levam até lá. Márcio Thomaz Bastos então adquiriu uma mansão por ali e, anos depois, já amigo de Lula, apresentou-a a Lula em um reveillon. Lula   ficou encantado. Não há relato de que Lula tenha chegado a adquirir imóveis nessas praias “privadas”, ele preferiu a dos Astúrias, próxima à área central da cidade e também próxima ao Forte dos Andradas, paraíso natural e reserva do exército em que, quando presidente, Lula passava as férias. 

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno