Da Cia

@da_cia

O que é impossível na política brasileira?

No ano de 2004, quem falasse que Lula se tornaria amigo íntimo de empreiteiros, que os obrigaria a pagar-lhe prêmios como apartamentos a beira-mar, sítios luxuosos e a construção de um prédio em sua própria homenagem, certamente seria chamado de louco.

Quando Olavo de Carvalho começou a falar sobre o Foro de São Paulo, foi chamado de louco. Todos fomos conhecendo a organização aos poucos e, a primeira reação da esquerda e da imprensa na época, era falar que aquilo era ilusão nossa. Com o tempo o discurso mudou para “sim, ele existe, só que não faz tudo isso que vocês falam”. Até que vimos o avanço de implementação de ditaduras com idênticas estratégias – eventualmente conflitivas entre si – na Venezuela, Equador, Bolívia e Nicarágua. E vimos que os países dessa aliança também foram usados como rota criminosa e praça de atuação das empreiteiras aliadas a Lula (e do narcotráfico).

Entre de 2008 e 2009, ninguém poderia supor que Reinaldo Azevedo viraria um serviçal vulgar partidário como agora, muito menos que defenderia e abriria tanto espaço para criminosos, como fez em relação à Odebrecht. E vimos então ele passar a inventar versões, inventar interlocutores, receber releases de ministros do STF para divulgar como opinião própria e até chegar ao cúmulo de defender um novo imposto.

Nos anos do Mensalão, quem imaginaria que Demóstenes Torres era aliado de um bicheiro que também era aliado do governo Lula? Que ele levava informações privilegiadas a esse bandido?

Em 2004, Aécio Neves já deixava claro que sua ambição era estritamente pessoal, mas quem de nós imaginaria que no meio do caso do Mensalão ele atuaria para ocultar provas contra si e também para impedir o andamento das investigações contra o PT?

Em 2004 e 2005, Palocci era endeusado pela Folha, Estadão e Veja, que nos diziam que o ministro, que nunca trabalhara com economia, tinha uma perspicácia raríssima, além de ser um homem correto que ouvia os melhores conselhos para agir. Quem imaginaria que este homem estava enriquecendo ilicitamente, que cometeria crimes em suas três passagens por ministério e era um dos maiores bandidos do PT?

Do que seria chamado quem dissesse, em 2010, que Guido Mantega agia criminalmente, usava todo peso do cargo de Ministro da Fazenda para pressionar doadores, extraviar recursos mundo afora e seria o gerente das propinas pessoais de si e de Lula?

Alguém poderia supor que um empreiteiro investigado pressionaria a presidente da República para escolher determinado novo ministro para o Superior Tribunal de Justiça com o intuito específico de livrá-lo, em instâncias superiores, das condenações que já estavam como inevitáveis nas mãos de Sérgio Moro? Mais ainda, quem poderia imaginar que, enquanto essas tratativas ocorriam, um colunista de oposição, como Reinaldo Azevedo, repetiria com entusiasmo que as instâncias superiores certamente revogariam as ações de Sérgio Moro?

Quem imaginaria que o Supremo Tribunal Federal se dobraria diante de Renan Calheiros em nome da governabilidade de uma presidência do PMDB?

O nosso quadro institucional é caótico, tomado por bandidos e mentirosos. É sob esta realidade que se prova a maior das loucuras eliminar de imediato a hipótese da morte de Teori Zavascki ter sido armada por investigados. No Brasil de hoje, a grande surpresa será descobrirmos que o ocorrido em Angra dos Reis foi apenas acidente.

Revisado por Maíra Pires @mairamacpires

RETROSPECTIVA 2016 – A internet política neste ano

O ano de 2016 consolidou o novo modelo do mercado de notícias políticas em que importa muito menos o conteúdo do que a intenção passada. De preferência no título e com uma imagem chamativa, favorecendo as “páginas de Facebook”.

Parte disto se deve a uma mudança da forma como as pessoas lidam com as notícias. Com as redes sociais e o amplo acesso a todo tipo de veículo, elas são repassadas também como forma de afirmação pessoal: a pessoa que quer passar uma imagem, mostrar ou reforçar sua preferência por alguns ideais compartilha o link de notícias e páginas que reforçam ou afagam essas certezas.

A imprensa também é responsável por essa mudança, graças à queda crescente de sua credibilidade. Os leitores acreditam que um veículo tem determinada tendência e por isso evitam acessá-lo ou divulgá-lo, acessando as mesmas notícias por outros canais. Como a maior parte das reportagens políticas no país hoje se originam de materiais produzidos por órgãos estatais de investigação, jornais e revistas disputam para ver quem tem melhores acessos ao Ministério Público, à Polícia Federal ou à Receita. A escolha sobre qual link ler depende mais da leitura que os veículos farão da mesma fonte primária da notícia. É daí então que  há mais compartilhamentos das interpretações desses materiais em sites (em que podemos incluir o nosso) do que no link do primeiro veículo que teve acesso ao material bruto produzido pelos órgãos oficiais.

No campo da disputa entre PT contra oposição, ou esquerda contra a direita, progressistas contra conservadores, podemos dizer que os segundos se saíram bem melhor. Talvez o exemplo mais caricato dessa nova realidade seja a comparação entre a página Caneta Desesquerdizadora, anti-esquerdista, que em pouco tempo superou a original “Caneta Desmanipuladora” , que defende o PT e os bandidos do petrolão.

Outra evidência interessante é notar que as páginas de tendência claramente de esquerda precisam se escorar em eufemismos, não são mais afirmativas, evitam dizer que são esquerdistas e petistas. Nesse caso, a esquerda tem duas poderosas páginas: Quebrando o Tabu (6 milhões de seguidores no Facebook) e Catraca Livre (quase 8 milhões de seguidores no Facebook), ambas financiadas por grandes empresas, institutos de extrema-esquerda e, eventualmente, dinheiro público. Além disso, elas misturam conteúdo claramente militante contra a família, em defesa de bandidos e de defesa das drogas com receitas, vídeos de bichinhos e divulgação de shows.

No lado oposto, a mobilização de direita se dá por sites de grupos de protesto como o Movimento Brasil Livre (1,750 milhão de seguidores), que neste ano cresceu, se profissionalizou e se tornou o maior em número de seguidores. Há ainda a destacar o Vem Pra Rua (1,475 milhão de seguidores), principal organizador da grande manifestação em favor da Lava Jato no final do ano e o NasRuas (374 mil seguidores no Facebook), que com um grupo de pessoas muito menor é um dos melhores geradores de conteúdo em cima dos acontecimentos no Congresso e no STF. Ainda falando de páginas mobilizadoras, embora não ligadas a movimentos de rua, destacam-se a “Movimento Contra a Corrupção”  (3,075 milhão de seguidores) e a “Avança Brasil Maçons”  (765 mil). A página Revoltados Online (2 milhões de inscritos) foi derrubada do Facebook.

Embora as páginas de esquerda destacadas acima tenham um público muito maior, elas não representam ações espontâneas. Ao contrário das páginas de movimentos e de combate ao PT, elas são profissionais, têm múltiplos financiadores ligados ao meio político e existirão enquanto houver dinheiro. Não representam grupos populacionais proporcionais aos seus seguidores pois boa parte deles é conquistada com seus posts apolíticos, e a intenção é justamente essa, conquistá-los sorrateiramente, doutriná-los aos poucos.

A grande fragmentação existente no Facebook também se vê nas páginas normais de internet. Neste ano, o Instituto Liberal de São Paulo, o Terça Livre, o site JornaLivre e o Senso Incomum surgiram, ou aumentaram muito o volume de produção. Para nós, que há alguns anos surgimos com este nome diferente marcando posição em 2013 quando Dilma tinha elevados índices e parecíamos condenados a não termos outro partido no poder, é uma satisfação enorme viver essa mudança.

Por fim, num país com nossos índices de criminalidade e cuja intelectualidade ensina a ser leniente com bandidos, é salutar ver o crescimento de influenciadores de internet focados no problema que, para mim, é o maior do Brasil: o excesso de drogas (que então resulta em tráfico que se realiza com enorme cadeia de crimes).

As páginas de policiais compõem um fenômeno que ainda não foi devidamente notado, pelo jornalismo por exemplo, justamente pela bolha em que vivem. Vídeos em que bandidos se dão mal, muitas vezes morrendo em tentativas de crime,  são rotina nas timelines e grupos de WhatsApp. Para desespero da esquerda brasileira  há muitas páginas assim, o que torna impossível ações delinquentes do jornalismo ou mesmo dos controladores de  redes sociais para resolver o problema. Páginas como Amigos da Rota (938k seguidores no Facebook), Sargento Fahur (que chegou a mais de 1,5 milhão até ser tirada do ar), Coronel Telhada (937k), Tenente Derrite (909k), Sargento Alexandre (736k), Sargento Galesco (422k) e Apoio Policial (512k). Juntar a eles as páginas de Jair Bolsonaro (3,6 milhões) e seu filho Eduardo Bolsonaro (1,1 milhão) deixa claro o potencial de influência que uma candidatura presidencial focada em combate a bandidos terá, além de já ser perceptível o efeito da opinião pública em relação a temas como pena de morte, combate às drogas e fim do estatuto do desarmamento.

Quanto ao futuro, é bastante incerto. As recentes notícias dos planos de Facebook, Google e Twitter de instituírem uma forma de controle das publicações ainda maior, marcando determinadas páginas como propagadoras de mentira, pode representar uma forma de censura com eficiência enorme – e, além de tudo, fará água da teoria de que mais liberdade de mercado resulta em maior liberdade de opiniões, ou de que apenas o Estado é quem censura. Some-se a isto a nossa nova realidade em que o centro de todos os debates políticos dos últimos 14 anos não está mais na presidência do país.

Quanto a nós, do Reaçonaria, seguiremos nosso caminho enquanto ainda houver tempo, disposição e, especialmente, tantos amigos leitores que comentam, compartilham, criticam e nos estimulam. Não vai ser fácil, o desgaste e o desgraçamento da cabeça continuarão sendo grandes, mas a recompensa que sentimos ao incomodar filhos da puta continua sendo um pagamento mais do que justo.

A internet política escapa ao campo de ação estatal e dos grandes grupos de comunicação

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

 

 

RETROSPECTIVA 2016: O triunfo de Donald Trump

Não há nenhuma dúvida de que a personalidade política e do showbiz mundial, em 2016, foi Donald Trump. Mega empresário e apresentador de TV, sua incursão no mundo político como candidato a presidente dos EUA foi sempre tratada como algo que não era sério, e se fosse sério, não chegaria a lugar algum. De certa forma ele ainda é tratado assim, como se sua vitória obtida no colégio eleitoral não fosse virar um mandato, há uma eterna expectativa de que ele não exercerá o cargo de presidente dos EUA.

O mehor da vitória de Trump é representar uma enorme derrota para a imprensa mundial. Não é só aqui no Brasil que a classe jornalística vive em um universo auto-referencial e distante das pessoas normais. Após o resultado, ficou claro o quanto são incapazes de captar o que se passa e deturpar os fatos. Viu-se ainda como, quando sob risco da evidência de suas mentiras, aumentam a dosagem. É notável que justo quando mais as pessoas têm acesso a informações e notícias, as principais empresas do ramo caíram em descrédito. Ser associado à grande imprensa ou benquisto por jornalistas virou uma espécie de maldição nas grandes disputas eleitorais que ocorreram nas principais democracias em 2016 .

É inegável, no entanto, que o sucesso do ex-apresentador destacou o lado mais sombrio da política não-esquerdista. Com argumentos como o de que Hillary seria muito pior, que a imprensa mente e que ele derrubaria o establishment (esta palavra praticamente servia como detector de texto-bosta em favor de Trump em 2016), foram justificados muitos atos imorais e vergonhosos do candidato, e o contágio desses padrões vulgares pelos seus defensores foi visível.

Os ataques à família de Ted Cruz e à memória de um soldado do exército dos EUA por ser muçulmano foram alguns dos momentos em que o utilitarismo e a imoralidade de apoiadores de Trump chegaram ao ápice. Para piorar, numa época em que as grandes obras culturais de massa são séries de TV em que todos os personagens têm os piores vícios, e quanto mais acentuados mais bem-sucedidos eles se saem, o mundo da opinião política virou uma grande cena de seriado idiota político. As avaliações dos fatos não se baseavam em imperativos básicos de pessoas sãs como “isto é certo ou errado?” mas “falar que isso é errado não pode ajudar os inimigos?”. É algo ainda mais bizarro por ver o padrão ser repetido por brasileiros comentando em redes sociais lidas por outros brasileiros, ou seja, gente que não estava realmente preocupada com o efeito de sua opinião sobre o resultado da eleição. Era um rebaixamento às garras do demônio totalmente gratuito, o sacrifício de valores que supostamente se defendem em nome de… do quê mesmo?

Além dessa vulgaridade opinativa despropositada, a candidatura Trump também recebeu apoios baseado numa escala de valores negativos e absurdos. Em resumo, seria algo como:

  • A esquerda usa os muçulmanos para potencializar a destruição de determinados valores. Logo, devo odiar os muçulmanos;
  • A esquerda policia a linguagem (pelo politicamente correto) como forma de impôr sua agenda. Tal policiamento inclui condenar xingamentos. Logo, todo xingamento é bom.
  • Os esquerdistas são bem mariquinhas. Logo, ser bem grosseirão é o ideal.
  • A esquerda usa os imigrantes para crescer politicamente. Logo, imigrante não presta.

 

Os exemplos se multiplicariam indefinidamente e todos encontraram em Trump, que no final das contas irritava a esquerda, um herói. A contaminação do objeto passivo de exploração política por agentes da exploração é tão errado como burro. E é daí que então passa a ser natural xingar os mexicanos, dizer que todo muçulmano é um terrorista e deve ser expulso dos EUA, que apontar defeitos físicos em determinadas pessoas é divertido e justo. Se o fenômeno já era grande no Brasil, fortalecido pelo revide popular e natural contra a hegemonia esquerdista, a candidatura do bilionário midiático norte-americano mostrou como ele acontece no mundo todo.

Ainda como evidência dessa degradação restaram os elogios a Trump. Vê-lo ser chamado de brilhante, inteligentíssimo, revigorador duma cultura conservadora.  Ser um bilionário bem sucedido nos negócios e no showbiz virou prova de que era um homem de raras qualidades indispensáveis à presidência dos EUA. O candidato republicano que menos conhecia a história dos EUA, que menos falava em valores caros à maior nação do mundo, o menos religioso, o que menos pensa no lugar histórico de seu povo no mundo, o mais promíscuo político e pessoalmente ganhava ares de iluminado. O apontamento de seus defeitos pessoais era revidado com argumentos maquiavélicos que colocam a conquista do poder como bem maior a ser perseguido. Uma época doentia, sem dúvidas.

Embora Donald Trump já tenha causado todo este impacto como candidato e vencedor das eleições, será pelo que fizer como presidente, cujo mandato se inicia no dia 20 de janeiro, que ele deixará sua marca na história da humanidade e dos EUA. Daqui para frente, discursos, teorias e expectativas se confrontarão com atos reais. Os desafios que terá pela frente serão imensos e, à nossa grande distância e pequena relevância, resta apenas torcer para que tome as medidas mais corretas dentro do possível, ou que causem os menores estragos.

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

Charges de Natal para quem passou por tempos difíceis

Prestes a encerrar, 2016 representa para o Brasil uma grande mudança. Os 14 anos de PT no poder aumentaram a corrupção e a injustiça, fizeram a vida urbana virar um inferno atormentado por drogas e criminalidade, além de tornarem o espírito de nossas leis ainda menos representativos daquilo que a maioria pensa. Apesar de tudo isso, o PT só foi realmente chutado do poder público oficial por conta da tragédia econômica.

E vêm das restrições financeiras os piores sentimentos dos brasileiros em relação a este ano. A economia não deveria ser a grande causa de correções de rumos de uma nação desgraçada como a nossa, nem definidora da vida, mas é justamente desta parte que vemos agora neste pós-PT a maior chance de correção de rumos.

Não há época melhor para renovação da fé em dias melhores do que o Natal. Para tantos que acreditam ter passado pela beira do fim do mundo, é bom colocarmos as coisas em seu tamanho real.

Foi pensando nisso que recuperei algumas charges publicadas pela YANK: THE ARMY WEEKLY, uma revista produzida por e para soldados americanos que batalhavam na Segunda Guerra Mundial. O Natal de 1945 foi a época em que a revista se despedia, a guerra havia chegado ao fim naquele ano. Era o primeiro Natal pacífico para o mundo. Embora estivesse claro para todos a sensação de que o pior havia passado, que um grande mal fora vencido, era também um tempo de incerteza e insegurança, especialmente econômicas. A Europa devastada, a restrição de crédito, os enormes déficits, o “custo da guerra” e os milhões mal alimentados faziam crer que, superados os inimigos demoníacos do Eixo, o mundo sucumbiria pela falta de dinheiro.

Neste clima, a YANK re-publicou algumas charges natalinas dos três Natais anteriores enviadas por combatentes do exército dos EUA.

Não se iguala um mundo saído da pior das guerras a um país devastado por bandidos e quebrado financeiramente. Feita a ressalva, convido aos amigos do Reaçonaria a apreciarem estas charges natalinas que destacam a alegria, o sentimento de dever a cumprir e a esperança em meio à desordem. Temos muito a fazer e o Brasil passará por esta gente.

Feliz Natal.

 

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

A lei contra abuso de autoridade é puro casuísmo

O Senado de Renan Calheiros aprovou ontem a urgência da tramitação de um projeto de Lei para tratar sobre abuso de autoridade. Existente desde 2009 e nascido de uma iniciativa promovida pelo ministro do STF Gilmar Mendes, com aval de Teori Zavascki (ele ainda não era ministro do STF naquela época) e sob autoria de Raul Jungmann, o projeto foi resgatado dos arquivos do Congresso recentemente. Membros da força-tarefa da Lava Jato, assim como o juiz Sérgio Moro, associações de magistrados e o Procurador Geral da República Rodrigo Janot se posicionaram radicalmente contra o projeto, vendo nele graves riscos para o andamento das investigações em andamento contra políticos. Do outro lado da balança, políticos e jornalistas ligados a partidos políticos dizem que a Lei é urgente e necessária, que representaria um enorme avanço institucional.

Quem quiser entrar em minúcias deve fazer um exercício: ler o Projeto de Lei endossado entusiasticamente por Renan Calheiros neste link e compará-lo com os artigos 3o e 4o da Lei 4898/1965, neste link. Porém, para quem não tiver tanto tempo, sugiro um raciocínio básico que vale para o debate desta Lei e de qualquer outra proposta, um mínimo que deixa de ser observado nessa urgência contemporânea que há de se opinar sobre tudo.

Leis não nascem do vácuo. Especialmente as que lidam com tipos penais, devem ser uma resposta da sociedade a algo que se condena, se quer proibir ou evitar. Como não cabe ao legislador e ao Estado criar em lei prêmios ao bom comportamento, resta-lhe coibir o que é prejudicial à vida em comunidade. E é assim que elas são criadas combinando um equilíbrio entre a filosofia por trás delas e a aplicação prática temporal. Como exemplo, não é correto a priori que um governo obrigue os cidadãos a se protegerem de determinados males mas, quando tais são tão recorrentes e há formas simples de coibi-los, abre-se exceção e a sociedade aceita de bom grado essa tutoria. São assim por exemplo as leis que tratam do consumo e comercialização de drogas, do abuso de álcool, do controle de determinados remédios, da comercialização de alguns componentes químicos e até mesmo a obrigatoriedade de se usar o cinto de segurança. Se algum dia os veículos automotores deixarem de ser usados, então todas as leis de condução e segurança deles se tornariam obsoletas, esquecidas.  Este ajuste entre a filosofia por trás da lei, a situação temporal  e a aplicabilidade não é fácil de equilibrar e é daqui que nascem as maiores polêmicas. Mas isto não é tudo.

Uma outra evidência sobre a temporalidade das leis e sua resposta aos problemas é que não as criamos para problemas que não existem e não se apresentam como possibilidades problemáticas. É óbvio, por exemplo, que leis que tipificam criminalmente certos comportamentos na internet só se tornaram urgentes quando a internet passou a ser algo comercial e acessível. Esta é a razão pela qual não temos legislação para tráfego aéreo individual em grandes cidades. Se um dia inventarem carros e motocicletas que se locomovem a poucos metros do solo será então necessário criar um novo Código de Trânsito, verificar também a ocupação do espaço aéreo por carros estacionados no ar ou coisas do tipo.

Se a filosofia em que se baseia a lei é boa e em determinado local e tempo há uma necessidade de se instituí-la para combater algo de ruim que acontece e que não é coberto pelas leis atuais, ela então é perfeita como resposta institucional.

Voltemos então ao caso desta lei para combater abusos de autoridades. A existência de algo assim só é justificável pelo fato de nossas autoridades não respeitarem outras leis e códigos de conduta. Logo, é muito claro que esta lei é inspirada num bom princípio, o de combater maus funcionários públicos. O que não se justifica na proposta acelerada por Renan Calheiros e pela classe política é a temporalidade dela. Afinal de contas, desde quando se passou a ter novas modalidades destes abusos que tenham criado tal urgência? Qual é o fator novo para acelerar um projeto de 2009 que estava esquecido? Quem se deu ao trabalho de ler a nova lei e compará-la com a atual verá que não há nada de novo objetivamente, apenas citações subjetivas que PODEM ser usadas contra juízes e promotores. Por exemplo, o artigo 9o tipifica a punição para quem “ordenar ou executar captura, detenção ou prisão fora das hipóteses legais ou sem suas formalidades”. Oras, há alguém sendo preso abruptamente nos últimos tempos fora das hipóteses legais? Aliás, do artigo 9 ao 38, que tratam das penas e sanções, só há casos aplicáveis a juízes e promotores.

A Lei está batizada como combate ao abuso de autoridade e diz na introdução ser voltada também a punir legisladores mas, a bem da verdade, não menciona um ato sequer de abuso que seja possível de praticado por deputados e senadores. Mas o exemplo mais estranho é o artigo, passível de múltiplas interpretações:

“Promover interceptação telefônica, de fluxo de comunicação informática e telemática, ou escuta ambiental, sem autorização judicial ou fora das demais condições, critérios e prazos fixados no mandado judicial, bem assim atingindo a situação de terceiros não incluídos no processo judicial ou inquérito”.

Oras, quer dizer que uma interceptação telefônica ou escuta ambiental só será válida se os dois que estiverem conversando forem alvos do mesmo inquérito? Neste caso, a nova lei proposta fala em prisão de um a quatro anos. O artigo 28 é outro criado perfeitamente sob encomenda para proteger políticos e autoridades:

Reproduzir ou inserir, nos autos de investigação ou processo criminal, diálogo do investigado com pessoa que, em razão de função, ministério, ofício ou profissão, deva guardar sigilo, ou qualquer outra forma de comunicação entre ambos, sobre fatos que constituam objeto da investigação:

A punição para este caso variaria de seis meses a dois anos de prisão.

Não há como mentir. A lei de abuso de autoridade tem todas as características de ação casuística para proteger bandidos, especialmente da delação da Odebrecht que deve arrastar para a lama toda a elite política to país e também muitos jornalistas. O pedido de urgência conduzido por alguém como Renan Calheiros só facilita o trabalho de reconhecer como pilantragem aquilo que tem cara de pilantragem, é conduzido por pilantras e defendido com argumentos pilantras. Quem não fala isso de pronto é porque está comprometido demais para falar.

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

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