Da Cia

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RETROSPECTIVA 2016: O triunfo de Donald Trump

Não há nenhuma dúvida de que a personalidade política e do showbiz mundial, em 2016, foi Donald Trump. Mega empresário e apresentador de TV, sua incursão no mundo político como candidato a presidente dos EUA foi sempre tratada como algo que não era sério, e se fosse sério, não chegaria a lugar algum. De certa forma ele ainda é tratado assim, como se sua vitória obtida no colégio eleitoral não fosse virar um mandato, há uma eterna expectativa de que ele não exercerá o cargo de presidente dos EUA.

O mehor da vitória de Trump é representar uma enorme derrota para a imprensa mundial. Não é só aqui no Brasil que a classe jornalística vive em um universo auto-referencial e distante das pessoas normais. Após o resultado, ficou claro o quanto são incapazes de captar o que se passa e deturpar os fatos. Viu-se ainda como, quando sob risco da evidência de suas mentiras, aumentam a dosagem. É notável que justo quando mais as pessoas têm acesso a informações e notícias, as principais empresas do ramo caíram em descrédito. Ser associado à grande imprensa ou benquisto por jornalistas virou uma espécie de maldição nas grandes disputas eleitorais que ocorreram nas principais democracias em 2016 .

É inegável, no entanto, que o sucesso do ex-apresentador destacou o lado mais sombrio da política não-esquerdista. Com argumentos como o de que Hillary seria muito pior, que a imprensa mente e que ele derrubaria o establishment (esta palavra praticamente servia como detector de texto-bosta em favor de Trump em 2016), foram justificados muitos atos imorais e vergonhosos do candidato, e o contágio desses padrões vulgares pelos seus defensores foi visível.

Os ataques à família de Ted Cruz e à memória de um soldado do exército dos EUA por ser muçulmano foram alguns dos momentos em que o utilitarismo e a imoralidade de apoiadores de Trump chegaram ao ápice. Para piorar, numa época em que as grandes obras culturais de massa são séries de TV em que todos os personagens têm os piores vícios, e quanto mais acentuados mais bem-sucedidos eles se saem, o mundo da opinião política virou uma grande cena de seriado idiota político. As avaliações dos fatos não se baseavam em imperativos básicos de pessoas sãs como “isto é certo ou errado?” mas “falar que isso é errado não pode ajudar os inimigos?”. É algo ainda mais bizarro por ver o padrão ser repetido por brasileiros comentando em redes sociais lidas por outros brasileiros, ou seja, gente que não estava realmente preocupada com o efeito de sua opinião sobre o resultado da eleição. Era um rebaixamento às garras do demônio totalmente gratuito, o sacrifício de valores que supostamente se defendem em nome de… do quê mesmo?

Além dessa vulgaridade opinativa despropositada, a candidatura Trump também recebeu apoios baseado numa escala de valores negativos e absurdos. Em resumo, seria algo como:

  • A esquerda usa os muçulmanos para potencializar a destruição de determinados valores. Logo, devo odiar os muçulmanos;
  • A esquerda policia a linguagem (pelo politicamente correto) como forma de impôr sua agenda. Tal policiamento inclui condenar xingamentos. Logo, todo xingamento é bom.
  • Os esquerdistas são bem mariquinhas. Logo, ser bem grosseirão é o ideal.
  • A esquerda usa os imigrantes para crescer politicamente. Logo, imigrante não presta.

 

Os exemplos se multiplicariam indefinidamente e todos encontraram em Trump, que no final das contas irritava a esquerda, um herói. A contaminação do objeto passivo de exploração política por agentes da exploração é tão errado como burro. E é daí que então passa a ser natural xingar os mexicanos, dizer que todo muçulmano é um terrorista e deve ser expulso dos EUA, que apontar defeitos físicos em determinadas pessoas é divertido e justo. Se o fenômeno já era grande no Brasil, fortalecido pelo revide popular e natural contra a hegemonia esquerdista, a candidatura do bilionário midiático norte-americano mostrou como ele acontece no mundo todo.

Ainda como evidência dessa degradação restaram os elogios a Trump. Vê-lo ser chamado de brilhante, inteligentíssimo, revigorador duma cultura conservadora.  Ser um bilionário bem sucedido nos negócios e no showbiz virou prova de que era um homem de raras qualidades indispensáveis à presidência dos EUA. O candidato republicano que menos conhecia a história dos EUA, que menos falava em valores caros à maior nação do mundo, o menos religioso, o que menos pensa no lugar histórico de seu povo no mundo, o mais promíscuo político e pessoalmente ganhava ares de iluminado. O apontamento de seus defeitos pessoais era revidado com argumentos maquiavélicos que colocam a conquista do poder como bem maior a ser perseguido. Uma época doentia, sem dúvidas.

Embora Donald Trump já tenha causado todo este impacto como candidato e vencedor das eleições, será pelo que fizer como presidente, cujo mandato se inicia no dia 20 de janeiro, que ele deixará sua marca na história da humanidade e dos EUA. Daqui para frente, discursos, teorias e expectativas se confrontarão com atos reais. Os desafios que terá pela frente serão imensos e, à nossa grande distância e pequena relevância, resta apenas torcer para que tome as medidas mais corretas dentro do possível, ou que causem os menores estragos.

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

Charges de Natal para quem passou por tempos difíceis

Prestes a encerrar, 2016 representa para o Brasil uma grande mudança. Os 14 anos de PT no poder aumentaram a corrupção e a injustiça, fizeram a vida urbana virar um inferno atormentado por drogas e criminalidade, além de tornarem o espírito de nossas leis ainda menos representativos daquilo que a maioria pensa. Apesar de tudo isso, o PT só foi realmente chutado do poder público oficial por conta da tragédia econômica.

E vêm das restrições financeiras os piores sentimentos dos brasileiros em relação a este ano. A economia não deveria ser a grande causa de correções de rumos de uma nação desgraçada como a nossa, nem definidora da vida, mas é justamente desta parte que vemos agora neste pós-PT a maior chance de correção de rumos.

Não há época melhor para renovação da fé em dias melhores do que o Natal. Para tantos que acreditam ter passado pela beira do fim do mundo, é bom colocarmos as coisas em seu tamanho real.

Foi pensando nisso que recuperei algumas charges publicadas pela YANK: THE ARMY WEEKLY, uma revista produzida por e para soldados americanos que batalhavam na Segunda Guerra Mundial. O Natal de 1945 foi a época em que a revista se despedia, a guerra havia chegado ao fim naquele ano. Era o primeiro Natal pacífico para o mundo. Embora estivesse claro para todos a sensação de que o pior havia passado, que um grande mal fora vencido, era também um tempo de incerteza e insegurança, especialmente econômicas. A Europa devastada, a restrição de crédito, os enormes déficits, o “custo da guerra” e os milhões mal alimentados faziam crer que, superados os inimigos demoníacos do Eixo, o mundo sucumbiria pela falta de dinheiro.

Neste clima, a YANK re-publicou algumas charges natalinas dos três Natais anteriores enviadas por combatentes do exército dos EUA.

Não se iguala um mundo saído da pior das guerras a um país devastado por bandidos e quebrado financeiramente. Feita a ressalva, convido aos amigos do Reaçonaria a apreciarem estas charges natalinas que destacam a alegria, o sentimento de dever a cumprir e a esperança em meio à desordem. Temos muito a fazer e o Brasil passará por esta gente.

Feliz Natal.

 

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

A lei contra abuso de autoridade é puro casuísmo

O Senado de Renan Calheiros aprovou ontem a urgência da tramitação de um projeto de Lei para tratar sobre abuso de autoridade. Existente desde 2009 e nascido de uma iniciativa promovida pelo ministro do STF Gilmar Mendes, com aval de Teori Zavascki (ele ainda não era ministro do STF naquela época) e sob autoria de Raul Jungmann, o projeto foi resgatado dos arquivos do Congresso recentemente. Membros da força-tarefa da Lava Jato, assim como o juiz Sérgio Moro, associações de magistrados e o Procurador Geral da República Rodrigo Janot se posicionaram radicalmente contra o projeto, vendo nele graves riscos para o andamento das investigações em andamento contra políticos. Do outro lado da balança, políticos e jornalistas ligados a partidos políticos dizem que a Lei é urgente e necessária, que representaria um enorme avanço institucional.

Quem quiser entrar em minúcias deve fazer um exercício: ler o Projeto de Lei endossado entusiasticamente por Renan Calheiros neste link e compará-lo com os artigos 3o e 4o da Lei 4898/1965, neste link. Porém, para quem não tiver tanto tempo, sugiro um raciocínio básico que vale para o debate desta Lei e de qualquer outra proposta, um mínimo que deixa de ser observado nessa urgência contemporânea que há de se opinar sobre tudo.

Leis não nascem do vácuo. Especialmente as que lidam com tipos penais, devem ser uma resposta da sociedade a algo que se condena, se quer proibir ou evitar. Como não cabe ao legislador e ao Estado criar em lei prêmios ao bom comportamento, resta-lhe coibir o que é prejudicial à vida em comunidade. E é assim que elas são criadas combinando um equilíbrio entre a filosofia por trás delas e a aplicação prática temporal. Como exemplo, não é correto a priori que um governo obrigue os cidadãos a se protegerem de determinados males mas, quando tais são tão recorrentes e há formas simples de coibi-los, abre-se exceção e a sociedade aceita de bom grado essa tutoria. São assim por exemplo as leis que tratam do consumo e comercialização de drogas, do abuso de álcool, do controle de determinados remédios, da comercialização de alguns componentes químicos e até mesmo a obrigatoriedade de se usar o cinto de segurança. Se algum dia os veículos automotores deixarem de ser usados, então todas as leis de condução e segurança deles se tornariam obsoletas, esquecidas.  Este ajuste entre a filosofia por trás da lei, a situação temporal  e a aplicabilidade não é fácil de equilibrar e é daqui que nascem as maiores polêmicas. Mas isto não é tudo.

Uma outra evidência sobre a temporalidade das leis e sua resposta aos problemas é que não as criamos para problemas que não existem e não se apresentam como possibilidades problemáticas. É óbvio, por exemplo, que leis que tipificam criminalmente certos comportamentos na internet só se tornaram urgentes quando a internet passou a ser algo comercial e acessível. Esta é a razão pela qual não temos legislação para tráfego aéreo individual em grandes cidades. Se um dia inventarem carros e motocicletas que se locomovem a poucos metros do solo será então necessário criar um novo Código de Trânsito, verificar também a ocupação do espaço aéreo por carros estacionados no ar ou coisas do tipo.

Se a filosofia em que se baseia a lei é boa e em determinado local e tempo há uma necessidade de se instituí-la para combater algo de ruim que acontece e que não é coberto pelas leis atuais, ela então é perfeita como resposta institucional.

Voltemos então ao caso desta lei para combater abusos de autoridades. A existência de algo assim só é justificável pelo fato de nossas autoridades não respeitarem outras leis e códigos de conduta. Logo, é muito claro que esta lei é inspirada num bom princípio, o de combater maus funcionários públicos. O que não se justifica na proposta acelerada por Renan Calheiros e pela classe política é a temporalidade dela. Afinal de contas, desde quando se passou a ter novas modalidades destes abusos que tenham criado tal urgência? Qual é o fator novo para acelerar um projeto de 2009 que estava esquecido? Quem se deu ao trabalho de ler a nova lei e compará-la com a atual verá que não há nada de novo objetivamente, apenas citações subjetivas que PODEM ser usadas contra juízes e promotores. Por exemplo, o artigo 9o tipifica a punição para quem “ordenar ou executar captura, detenção ou prisão fora das hipóteses legais ou sem suas formalidades”. Oras, há alguém sendo preso abruptamente nos últimos tempos fora das hipóteses legais? Aliás, do artigo 9 ao 38, que tratam das penas e sanções, só há casos aplicáveis a juízes e promotores.

A Lei está batizada como combate ao abuso de autoridade e diz na introdução ser voltada também a punir legisladores mas, a bem da verdade, não menciona um ato sequer de abuso que seja possível de praticado por deputados e senadores. Mas o exemplo mais estranho é o artigo, passível de múltiplas interpretações:

“Promover interceptação telefônica, de fluxo de comunicação informática e telemática, ou escuta ambiental, sem autorização judicial ou fora das demais condições, critérios e prazos fixados no mandado judicial, bem assim atingindo a situação de terceiros não incluídos no processo judicial ou inquérito”.

Oras, quer dizer que uma interceptação telefônica ou escuta ambiental só será válida se os dois que estiverem conversando forem alvos do mesmo inquérito? Neste caso, a nova lei proposta fala em prisão de um a quatro anos. O artigo 28 é outro criado perfeitamente sob encomenda para proteger políticos e autoridades:

Reproduzir ou inserir, nos autos de investigação ou processo criminal, diálogo do investigado com pessoa que, em razão de função, ministério, ofício ou profissão, deva guardar sigilo, ou qualquer outra forma de comunicação entre ambos, sobre fatos que constituam objeto da investigação:

A punição para este caso variaria de seis meses a dois anos de prisão.

Não há como mentir. A lei de abuso de autoridade tem todas as características de ação casuística para proteger bandidos, especialmente da delação da Odebrecht que deve arrastar para a lama toda a elite política to país e também muitos jornalistas. O pedido de urgência conduzido por alguém como Renan Calheiros só facilita o trabalho de reconhecer como pilantragem aquilo que tem cara de pilantragem, é conduzido por pilantras e defendido com argumentos pilantras. Quem não fala isso de pronto é porque está comprometido demais para falar.

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

E se Hillary Clinton tivesse vencido as eleições dos EUA?

A vitória de Donald Trump na eleição presidencial dos EUA, por ter tantos aspectos elucidativos de certas doenças do nosso tempo, ainda precisa ser mais esmiuçada. Do meu ponto de vista, o mais interessante é ainda tratar da imprensa. Vendo o desenrolar das notícias nos últimos dias após o choque inicial que sofreram com a derrota, me veio à cabeça um exercício: imaginar o que teria dito a classe jornalística caso Hillary fosse a vencedora.

Antes de mais nada, é interessante ressaltar que, aqui no Brasil, com as recentes derrotas humilhantes sofridas pela esquerda, jamais se deu tanto espaço e desculpa esfarrapada para os derrotados. Haddad em São Paulo e Freixo no Rio de Janeiro perderam no voto popular mas em espaço na imprensa e paixão dos jornalistas eles seguem sendo campeões unânimes, o que só ressalta o já tão falado universo paralelo em que vivem esses profissionais da mentira. Encerradas as eleições, ambos deram longas entrevistas aos jornais e foram tratados sem nenhum perversidade, nenhuma ironia ou gracinha que seria de esperar caso os derrotados fossem os outros. Uma rápida busca nos arquivos da internet permite comprovar este aspecto comparando reações no portal UOL em 2012 e 2016. Vejam abaixo:

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“Haddad cresceu na reta final” – Imprensa paulistana buscando um consolo

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Ao noticiar derrotado de 2012, UOL fez graça com Serra

Ressaltado este conforto oferecido ao derrotado quando benquisto, desnecessário dizer que isto não teria muito sentido em relação a um candidato de outro país. Não há a proximidade, a relação interpessoal entre jornalista e político que reforça ainda mais os laços ideológicos já pré-existentes. É por isso que não se viu por aqui grande esforço em tratar do futuro de Hillary, de suas qualidades na derrota, de tentar mostrar para o povo que deveriam tê-la escolhido por ser melhor.

Tivesse Hillary Clinton vencido a eleição, o humor do jornalismo seria bem outro. Porém, seriam inevitáveis certas abordagens apocalípticas quanto ao risco representado pelo derrotado e sua expressiva votação – os presidenciáveis dos dois grandes partidos dos EUA sempre têm votação expressiva, afinal de contas. Hillary derrotada, o grande risco para quem mentiu é que seu público, tendo acesso aos fatos como serão, percebam o quanto foram enganados com as análises que mostravam Trump e os republicanos como fascistas ou nazistas – cabendo aqui destacar o papel vulgar da VEJA nesta mentira espalhada.

Mais fácil do que mentir ao seu público sobre o que é inacessível pela distância é mentir sobre o que não aconteceu e jamais ocorrerá. E então diriam que Trump deportaria milhões de latinos, ilegais ou não. E diriam que os muçulmanos seriam marcados, tal como os nazistas fizeram com os judeus. Poderiam dizer que os negros seriam perseguidos, que as mulheres perderiam direitos e que os homossexuais seriam párias na estrutura legal do país. Diriam que Trump escolheria para a Suprema Corte algum juiz “supremacista branco”. Que Trump criaria barreiras comerciais contra países africanos, pois ele é racista. Que Putin tomaria conta da política externa dos EUA. E os textos terminariam com uma sacadinha inteligente a lembrar que o risco destes absurdos acontecerem está logo ali, na pequena margem construída para derrotar todo este atraso – esses imbecis sempre usam atraso, velhice ou antiguidade como a maior desqualificação possível em oposição a moderno.

No fim das contas, uma vitória do campo revolucionário em qualquer eleição serve sempre para aumentar ainda mais  a lente de distorção que impõem aos fatos e à realidade. Quando vencem uma eleição, vêem a recompensa pela mentira e sentem-se impulsionados a aumentar a dosagem pelo reforço criativo que somente a impossibilidade da realização pode oferecer a um jornalista desonesto.

A vitória de Trump presta este duplo serviço contra o jornalismo desonesto: trará a realidade como prova incontestável que derruba as mentiras contadas e impede um alarmismo ainda maior para reforçar a ojeriza que tentam criar contra aqueles que discordam.imprensahillary

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

O jornalismo brasileiro é desprezível

Eu comecei a ler jornais por causa do Corinthians. Toda vez que meu time era campeão, pedia aos meus pais que comprassem a edição especial, fosse do Notícias Populares, a Gazeta Esportiva ou o Jornal da Tarde, que eram mais baratos, mas certamente trariam o pôster. Passei depois a ler o caderno esportivo em outras épocas e gostava das crônicas do Armando Nogueira, até que comecei a me interessar por outros temas. Meus pais traziam jornal no domingo, geralmente o Estadão, depois a Folha. Quando fui me isolar para estudar para o “vestibulinho” em 1995 na casa da minha avó, levei edições da Folha, Estadão e Jornal da Tarde, pensava em ler as famosas colunonas que vinham nos primeiros cadernos e tratavam de temas mais complexos. Por orientação da minha mãe, me interessava pelos textos de Delfim Netto e Roberto Campos. Conheci então alguns colunistas que por um tempo eu seguiria lendo: Matinas Suzuki Jr, Celso Pinto (ou Ming?), Jânio de Freitas, Clóvis Rossi, Fernando de Barros e Silva. Naquele tempo de estudo eu anotava cada palavra que não conhecia para depois pesquisar no dicionário. Lembro certamente de uma palavra que conheci naquele período e jamais esqueci o significado: inverossímil (se eu pesquisar nos arquivos do Estadão ou da Folha é capaz que encontre o artigo de Roberto Campos, meu preferido desde o princípio). E foi assim que comecei a ler todo o jornal, a pedir para meus pais comprarem. O hábito duraria muitos, muitos anos.

Acho que foi por volta de 2005 que parei de guardar edições de jornais que eu considerava históricas. Talvez a última edição que eu tenho guardada seja aquela de junho de 2005 em que Renata Lo Prete entrevistava Roberto Jefferson e deflagrava o escândalo do Mensalão. Em algum lugar de minha casa ou da de minha mãe estão lá as pilhas de encartes especiais sobre Copas do Mundo, grandes tragédias, morte de ídolos e até algumas eleições, além claro dos já citados títulos corintianos.

O principal motivo do fim deste hábito foi a óbvia substituição do papel impresso pela possibilidade de consultar a qualquer momento tais reportagens. Comprar jornais nos domingos foi um hábito que eu manteria ainda por alguns anos, além de eventualmente assinar um jornal e por muitos anos assinar a Veja. Mas ficou também cada vez mais claro para mim, como para tantos outros que se interessaram por política nos últimos 10 ou 15 anos, que a imprensa está contaminada pelo mesmo mal de nossos políticos. Que seu compromisso não é com a verdade, pluralidade e honestidade, mas sim em vender a si mesmos e aquilo que noticiam como o que querem que seja verdade. Assim como os políticos fingem ser pessoas normais, os jornalistas fingem falar de pessoas normais e para pessoas normais, quando estão controlando cada detalhe do que é passado como forma de controlar o que se passa.

Quando em 2014, aqui mesmo no Reaçonaria, criamos talvez o maior marco da crítica ao jornalismo marrom esquerdista na internet (1), foi para mim como um grito. Aquilo era preciso  e teve enormes proporções. Depois daquele dia, jamais a minha relação imaginária com o mundo das notícias seria o mesmo, especialmente quando meses depois um grupo de jornalistas, que se comunica em grupinhos de e-mail de tudo fez para buscar contra nós algum revide, até que ele veio de uma forma mentirosa, apelativa e atingindo terceiros. Mais recentemente temos usado este site também para apontar a “reviravolta” em uma persona jornalística chocante(2), algo tão gritante que não consigo tratar do tema sem falar muitos palavrões.

Acontece que minha completa desilusão com o jornalismo brasileiro chegou ao máximo neste dia seguinte à vitória de Donald Trump nas eleições dos EUA. Eu até já me conformava com o fato do jornalismo brasileiro hoje lutar não por descobrir coisas por si próprias, mas por ter bons contatos nos órgãos oficiais de investigação (Polícia Federal e Ministério Público) para tratar com alarde aquilo que eles apenas divulgam em primeira mão. Eu já me conformava em saber que o jornalismo era dominado, primordialmente, por petistas, seguido por extremistas de esquerda (Psolistas) e esquerdistas esnobes e oportunistas (tucanos). Em saber que no meio jornalístico o brasileiro normal, meio religioso, que odeia bandidos e preza a família, é visto como uma aberração. O cinismo com que trataram o próprio fiasco e desonestidade durante a cobertura da campanha dos EUA foi um momento ímpar na história da profissão, um dia realmente atípico para se acompanhar o maior número possível desses profissionais.

Os jornalistas brasileiros não se desculparam, não admitiram que torceram, em vez de reportar, e assumiram o erro de toda a categoria como justificativa para os próprios erros. Fizeram da opinião de manada de sua classe a justificativa para os próprios atos, ignorando a possibilidade de seus semelhantes serem tão falsos como eles mesmos. Como se não fosse obrigação do jornalista questionar o que lhes chega e buscar a verdade. Falaram do erro da classe como algo totalmente avulso a eles mesmos. Em alguns casos, dobraram a aposta no erro, insistindo que Trump é racista e se assemelha a Hitler.

No meio dos anos 90, quando eu comecei a comprar jornais para ler além do caderno de esportes, as suas capas traziam impressa a tiragem da edição, sempre acima de um milhão – que ainda era pouco se pensarmos num povo que já passava de 150 milhões de habitantes. Hoje esses números não são mais exibidos e, pesquisando, descobre-se que muito sofregamente chegam a 200 mil exemplares. Eu deveria estar triste e apresentar algum sintoma de saudosismo mas é o contrário, há é mesmo um sentimento de raiva. Afinal de contas, será uma coisa nova na profissão apresentarem tantos vícios cada dia com mais intensidade? Aquilo de que tanto gostei e que me satisfazia fora o tempo inteiro criado por safados inescrupulosos e desprezíveis? A pilha de lembranças que ainda guardo nos armários são o resultado temporariamente agradável de profissionais da mentira?

lucienderubempre

Luciano de Rubempré – Personagem principal de “Ilusões Perdidas”.  O poeta e jornalista era um completo imoral e picareta movido pela desejo de triunfar na “sociedade” parisiense. Na pintura, com seu “amigo” Daniel D’Arthez. Ilustração de Adrien Moreau.

LINKS:
(1) – http://reaconaria.org/blog/reacablog/imprensa-golpista-12-jornalistas-do-pt-cobrem-protesto-anti-pt/
(2) – http://reaconaria.org/index.php?s=reinaldo+azevedo

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

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