Da Cia

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A lei contra abuso de autoridade é puro casuísmo

O Senado de Renan Calheiros aprovou ontem a urgência da tramitação de um projeto de Lei para tratar sobre abuso de autoridade. Existente desde 2009 e nascido de uma iniciativa promovida pelo ministro do STF Gilmar Mendes, com aval de Teori Zavascki (ele ainda não era ministro do STF naquela época) e sob autoria de Raul Jungmann, o projeto foi resgatado dos arquivos do Congresso recentemente. Membros da força-tarefa da Lava Jato, assim como o juiz Sérgio Moro, associações de magistrados e o Procurador Geral da República Rodrigo Janot se posicionaram radicalmente contra o projeto, vendo nele graves riscos para o andamento das investigações em andamento contra políticos. Do outro lado da balança, políticos e jornalistas ligados a partidos políticos dizem que a Lei é urgente e necessária, que representaria um enorme avanço institucional.

Quem quiser entrar em minúcias deve fazer um exercício: ler o Projeto de Lei endossado entusiasticamente por Renan Calheiros neste link e compará-lo com os artigos 3o e 4o da Lei 4898/1965, neste link. Porém, para quem não tiver tanto tempo, sugiro um raciocínio básico que vale para o debate desta Lei e de qualquer outra proposta, um mínimo que deixa de ser observado nessa urgência contemporânea que há de se opinar sobre tudo.

Leis não nascem do vácuo. Especialmente as que lidam com tipos penais, devem ser uma resposta da sociedade a algo que se condena, se quer proibir ou evitar. Como não cabe ao legislador e ao Estado criar em lei prêmios ao bom comportamento, resta-lhe coibir o que é prejudicial à vida em comunidade. E é assim que elas são criadas combinando um equilíbrio entre a filosofia por trás delas e a aplicação prática temporal. Como exemplo, não é correto a priori que um governo obrigue os cidadãos a se protegerem de determinados males mas, quando tais são tão recorrentes e há formas simples de coibi-los, abre-se exceção e a sociedade aceita de bom grado essa tutoria. São assim por exemplo as leis que tratam do consumo e comercialização de drogas, do abuso de álcool, do controle de determinados remédios, da comercialização de alguns componentes químicos e até mesmo a obrigatoriedade de se usar o cinto de segurança. Se algum dia os veículos automotores deixarem de ser usados, então todas as leis de condução e segurança deles se tornariam obsoletas, esquecidas.  Este ajuste entre a filosofia por trás da lei, a situação temporal  e a aplicabilidade não é fácil de equilibrar e é daqui que nascem as maiores polêmicas. Mas isto não é tudo.

Uma outra evidência sobre a temporalidade das leis e sua resposta aos problemas é que não as criamos para problemas que não existem e não se apresentam como possibilidades problemáticas. É óbvio, por exemplo, que leis que tipificam criminalmente certos comportamentos na internet só se tornaram urgentes quando a internet passou a ser algo comercial e acessível. Esta é a razão pela qual não temos legislação para tráfego aéreo individual em grandes cidades. Se um dia inventarem carros e motocicletas que se locomovem a poucos metros do solo será então necessário criar um novo Código de Trânsito, verificar também a ocupação do espaço aéreo por carros estacionados no ar ou coisas do tipo.

Se a filosofia em que se baseia a lei é boa e em determinado local e tempo há uma necessidade de se instituí-la para combater algo de ruim que acontece e que não é coberto pelas leis atuais, ela então é perfeita como resposta institucional.

Voltemos então ao caso desta lei para combater abusos de autoridades. A existência de algo assim só é justificável pelo fato de nossas autoridades não respeitarem outras leis e códigos de conduta. Logo, é muito claro que esta lei é inspirada num bom princípio, o de combater maus funcionários públicos. O que não se justifica na proposta acelerada por Renan Calheiros e pela classe política é a temporalidade dela. Afinal de contas, desde quando se passou a ter novas modalidades destes abusos que tenham criado tal urgência? Qual é o fator novo para acelerar um projeto de 2009 que estava esquecido? Quem se deu ao trabalho de ler a nova lei e compará-la com a atual verá que não há nada de novo objetivamente, apenas citações subjetivas que PODEM ser usadas contra juízes e promotores. Por exemplo, o artigo 9o tipifica a punição para quem “ordenar ou executar captura, detenção ou prisão fora das hipóteses legais ou sem suas formalidades”. Oras, há alguém sendo preso abruptamente nos últimos tempos fora das hipóteses legais? Aliás, do artigo 9 ao 38, que tratam das penas e sanções, só há casos aplicáveis a juízes e promotores.

A Lei está batizada como combate ao abuso de autoridade e diz na introdução ser voltada também a punir legisladores mas, a bem da verdade, não menciona um ato sequer de abuso que seja possível de praticado por deputados e senadores. Mas o exemplo mais estranho é o artigo, passível de múltiplas interpretações:

“Promover interceptação telefônica, de fluxo de comunicação informática e telemática, ou escuta ambiental, sem autorização judicial ou fora das demais condições, critérios e prazos fixados no mandado judicial, bem assim atingindo a situação de terceiros não incluídos no processo judicial ou inquérito”.

Oras, quer dizer que uma interceptação telefônica ou escuta ambiental só será válida se os dois que estiverem conversando forem alvos do mesmo inquérito? Neste caso, a nova lei proposta fala em prisão de um a quatro anos. O artigo 28 é outro criado perfeitamente sob encomenda para proteger políticos e autoridades:

Reproduzir ou inserir, nos autos de investigação ou processo criminal, diálogo do investigado com pessoa que, em razão de função, ministério, ofício ou profissão, deva guardar sigilo, ou qualquer outra forma de comunicação entre ambos, sobre fatos que constituam objeto da investigação:

A punição para este caso variaria de seis meses a dois anos de prisão.

Não há como mentir. A lei de abuso de autoridade tem todas as características de ação casuística para proteger bandidos, especialmente da delação da Odebrecht que deve arrastar para a lama toda a elite política to país e também muitos jornalistas. O pedido de urgência conduzido por alguém como Renan Calheiros só facilita o trabalho de reconhecer como pilantragem aquilo que tem cara de pilantragem, é conduzido por pilantras e defendido com argumentos pilantras. Quem não fala isso de pronto é porque está comprometido demais para falar.

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

E se Hillary Clinton tivesse vencido as eleições dos EUA?

A vitória de Donald Trump na eleição presidencial dos EUA, por ter tantos aspectos elucidativos de certas doenças do nosso tempo, ainda precisa ser mais esmiuçada. Do meu ponto de vista, o mais interessante é ainda tratar da imprensa. Vendo o desenrolar das notícias nos últimos dias após o choque inicial que sofreram com a derrota, me veio à cabeça um exercício: imaginar o que teria dito a classe jornalística caso Hillary fosse a vencedora.

Antes de mais nada, é interessante ressaltar que, aqui no Brasil, com as recentes derrotas humilhantes sofridas pela esquerda, jamais se deu tanto espaço e desculpa esfarrapada para os derrotados. Haddad em São Paulo e Freixo no Rio de Janeiro perderam no voto popular mas em espaço na imprensa e paixão dos jornalistas eles seguem sendo campeões unânimes, o que só ressalta o já tão falado universo paralelo em que vivem esses profissionais da mentira. Encerradas as eleições, ambos deram longas entrevistas aos jornais e foram tratados sem nenhum perversidade, nenhuma ironia ou gracinha que seria de esperar caso os derrotados fossem os outros. Uma rápida busca nos arquivos da internet permite comprovar este aspecto comparando reações no portal UOL em 2012 e 2016. Vejam abaixo:

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“Haddad cresceu na reta final” – Imprensa paulistana buscando um consolo

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Ao noticiar derrotado de 2012, UOL fez graça com Serra

Ressaltado este conforto oferecido ao derrotado quando benquisto, desnecessário dizer que isto não teria muito sentido em relação a um candidato de outro país. Não há a proximidade, a relação interpessoal entre jornalista e político que reforça ainda mais os laços ideológicos já pré-existentes. É por isso que não se viu por aqui grande esforço em tratar do futuro de Hillary, de suas qualidades na derrota, de tentar mostrar para o povo que deveriam tê-la escolhido por ser melhor.

Tivesse Hillary Clinton vencido a eleição, o humor do jornalismo seria bem outro. Porém, seriam inevitáveis certas abordagens apocalípticas quanto ao risco representado pelo derrotado e sua expressiva votação – os presidenciáveis dos dois grandes partidos dos EUA sempre têm votação expressiva, afinal de contas. Hillary derrotada, o grande risco para quem mentiu é que seu público, tendo acesso aos fatos como serão, percebam o quanto foram enganados com as análises que mostravam Trump e os republicanos como fascistas ou nazistas – cabendo aqui destacar o papel vulgar da VEJA nesta mentira espalhada.

Mais fácil do que mentir ao seu público sobre o que é inacessível pela distância é mentir sobre o que não aconteceu e jamais ocorrerá. E então diriam que Trump deportaria milhões de latinos, ilegais ou não. E diriam que os muçulmanos seriam marcados, tal como os nazistas fizeram com os judeus. Poderiam dizer que os negros seriam perseguidos, que as mulheres perderiam direitos e que os homossexuais seriam párias na estrutura legal do país. Diriam que Trump escolheria para a Suprema Corte algum juiz “supremacista branco”. Que Trump criaria barreiras comerciais contra países africanos, pois ele é racista. Que Putin tomaria conta da política externa dos EUA. E os textos terminariam com uma sacadinha inteligente a lembrar que o risco destes absurdos acontecerem está logo ali, na pequena margem construída para derrotar todo este atraso – esses imbecis sempre usam atraso, velhice ou antiguidade como a maior desqualificação possível em oposição a moderno.

No fim das contas, uma vitória do campo revolucionário em qualquer eleição serve sempre para aumentar ainda mais  a lente de distorção que impõem aos fatos e à realidade. Quando vencem uma eleição, vêem a recompensa pela mentira e sentem-se impulsionados a aumentar a dosagem pelo reforço criativo que somente a impossibilidade da realização pode oferecer a um jornalista desonesto.

A vitória de Trump presta este duplo serviço contra o jornalismo desonesto: trará a realidade como prova incontestável que derruba as mentiras contadas e impede um alarmismo ainda maior para reforçar a ojeriza que tentam criar contra aqueles que discordam.imprensahillary

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

O jornalismo brasileiro é desprezível

Eu comecei a ler jornais por causa do Corinthians. Toda vez que meu time era campeão, pedia aos meus pais que comprassem a edição especial, fosse do Notícias Populares, a Gazeta Esportiva ou o Jornal da Tarde, que eram mais baratos, mas certamente trariam o pôster. Passei depois a ler o caderno esportivo em outras épocas e gostava das crônicas do Armando Nogueira, até que comecei a me interessar por outros temas. Meus pais traziam jornal no domingo, geralmente o Estadão, depois a Folha. Quando fui me isolar para estudar para o “vestibulinho” em 1995 na casa da minha avó, levei edições da Folha, Estadão e Jornal da Tarde, pensava em ler as famosas colunonas que vinham nos primeiros cadernos e tratavam de temas mais complexos. Por orientação da minha mãe, me interessava pelos textos de Delfim Netto e Roberto Campos. Conheci então alguns colunistas que por um tempo eu seguiria lendo: Matinas Suzuki Jr, Celso Pinto (ou Ming?), Jânio de Freitas, Clóvis Rossi, Fernando de Barros e Silva. Naquele tempo de estudo eu anotava cada palavra que não conhecia para depois pesquisar no dicionário. Lembro certamente de uma palavra que conheci naquele período e jamais esqueci o significado: inverossímil (se eu pesquisar nos arquivos do Estadão ou da Folha é capaz que encontre o artigo de Roberto Campos, meu preferido desde o princípio). E foi assim que comecei a ler todo o jornal, a pedir para meus pais comprarem. O hábito duraria muitos, muitos anos.

Acho que foi por volta de 2005 que parei de guardar edições de jornais que eu considerava históricas. Talvez a última edição que eu tenho guardada seja aquela de junho de 2005 em que Renata Lo Prete entrevistava Roberto Jefferson e deflagrava o escândalo do Mensalão. Em algum lugar de minha casa ou da de minha mãe estão lá as pilhas de encartes especiais sobre Copas do Mundo, grandes tragédias, morte de ídolos e até algumas eleições, além claro dos já citados títulos corintianos.

O principal motivo do fim deste hábito foi a óbvia substituição do papel impresso pela possibilidade de consultar a qualquer momento tais reportagens. Comprar jornais nos domingos foi um hábito que eu manteria ainda por alguns anos, além de eventualmente assinar um jornal e por muitos anos assinar a Veja. Mas ficou também cada vez mais claro para mim, como para tantos outros que se interessaram por política nos últimos 10 ou 15 anos, que a imprensa está contaminada pelo mesmo mal de nossos políticos. Que seu compromisso não é com a verdade, pluralidade e honestidade, mas sim em vender a si mesmos e aquilo que noticiam como o que querem que seja verdade. Assim como os políticos fingem ser pessoas normais, os jornalistas fingem falar de pessoas normais e para pessoas normais, quando estão controlando cada detalhe do que é passado como forma de controlar o que se passa.

Quando em 2014, aqui mesmo no Reaçonaria, criamos talvez o maior marco da crítica ao jornalismo marrom esquerdista na internet (1), foi para mim como um grito. Aquilo era preciso  e teve enormes proporções. Depois daquele dia, jamais a minha relação imaginária com o mundo das notícias seria o mesmo, especialmente quando meses depois um grupo de jornalistas, que se comunica em grupinhos de e-mail de tudo fez para buscar contra nós algum revide, até que ele veio de uma forma mentirosa, apelativa e atingindo terceiros. Mais recentemente temos usado este site também para apontar a “reviravolta” em uma persona jornalística chocante(2), algo tão gritante que não consigo tratar do tema sem falar muitos palavrões.

Acontece que minha completa desilusão com o jornalismo brasileiro chegou ao máximo neste dia seguinte à vitória de Donald Trump nas eleições dos EUA. Eu até já me conformava com o fato do jornalismo brasileiro hoje lutar não por descobrir coisas por si próprias, mas por ter bons contatos nos órgãos oficiais de investigação (Polícia Federal e Ministério Público) para tratar com alarde aquilo que eles apenas divulgam em primeira mão. Eu já me conformava em saber que o jornalismo era dominado, primordialmente, por petistas, seguido por extremistas de esquerda (Psolistas) e esquerdistas esnobes e oportunistas (tucanos). Em saber que no meio jornalístico o brasileiro normal, meio religioso, que odeia bandidos e preza a família, é visto como uma aberração. O cinismo com que trataram o próprio fiasco e desonestidade durante a cobertura da campanha dos EUA foi um momento ímpar na história da profissão, um dia realmente atípico para se acompanhar o maior número possível desses profissionais.

Os jornalistas brasileiros não se desculparam, não admitiram que torceram, em vez de reportar, e assumiram o erro de toda a categoria como justificativa para os próprios erros. Fizeram da opinião de manada de sua classe a justificativa para os próprios atos, ignorando a possibilidade de seus semelhantes serem tão falsos como eles mesmos. Como se não fosse obrigação do jornalista questionar o que lhes chega e buscar a verdade. Falaram do erro da classe como algo totalmente avulso a eles mesmos. Em alguns casos, dobraram a aposta no erro, insistindo que Trump é racista e se assemelha a Hitler.

No meio dos anos 90, quando eu comecei a comprar jornais para ler além do caderno de esportes, as suas capas traziam impressa a tiragem da edição, sempre acima de um milhão – que ainda era pouco se pensarmos num povo que já passava de 150 milhões de habitantes. Hoje esses números não são mais exibidos e, pesquisando, descobre-se que muito sofregamente chegam a 200 mil exemplares. Eu deveria estar triste e apresentar algum sintoma de saudosismo mas é o contrário, há é mesmo um sentimento de raiva. Afinal de contas, será uma coisa nova na profissão apresentarem tantos vícios cada dia com mais intensidade? Aquilo de que tanto gostei e que me satisfazia fora o tempo inteiro criado por safados inescrupulosos e desprezíveis? A pilha de lembranças que ainda guardo nos armários são o resultado temporariamente agradável de profissionais da mentira?

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Luciano de Rubempré – Personagem principal de “Ilusões Perdidas”.  O poeta e jornalista era um completo imoral e picareta movido pela desejo de triunfar na “sociedade” parisiense. Na pintura, com seu “amigo” Daniel D’Arthez. Ilustração de Adrien Moreau.

LINKS:
(1) – http://reaconaria.org/blog/reacablog/imprensa-golpista-12-jornalistas-do-pt-cobrem-protesto-anti-pt/
(2) – http://reaconaria.org/index.php?s=reinaldo+azevedo

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

Tá chegando a hora?

A prisão de Lula parece cada dia mais próxima. Antes de isso acontecer, é preciso lembrar que Lula já é réu em quatro inquéritos.

O mais antigo deles é o de obstrução de Justiça, baseado na delação de Delcídio do Amaral. A denúncia foi aceita no dia 29 de julho mas, por envolver figuras com foro privilegiado, deve ser um processo bem lento até o julgamento e condenação.

A segunda acusação mais antiga foi aceita por Sérgio Moro no dia 20 de setembro e trata Lula como beneficiário de prêmios de empreiteiras do Petrolão, notadamente o Tríplex do Guarujá.

A terceira acusação mais antiga é do inquérito principal da Lava Jato, aceita por Teori Zavascki apenas no dia 6 de outubro. Esta denúncia envolve um grande número de políticos com foro e, por isso, foi desmembrada  em núcleos: do PT, do PP, do PMDB do Senado (Renan) e do PMDB da Câmara (Cunha). Como também passa pelo STF, podemos esperar bastante lentidão.

A quarta acusação é a mais recente, consequência da Operação Janus, desdobramento do primeiro processo investigativo contra Lula, o de Tráfico Internacional de Influência. Lula virou réu no dia 13 de outubro.

Como visto, a condenação mais próxima de chegar é a que virá pelas mãos de Sérgio Moro, no caso do tríplex. Acontece que, assim que for condenado, os advogados de Lula devem apelar da decisão, levando-a para julgamento de um colegiado. Somente quando  condenado por essa segunda instância Lula poderá começar a “puxar cana”. Isto dificilmente ocorrerá antes do fim de 2017.

Há, porém, outras alternativas para a tão aguardada prisão de Lula. Uma delas é a Justiça entender que Lula pode fugir do país, evitando assim responder ao processo e punição. Neste caso, pode ordenar a prisão preventiva.

Outra hipótese é a dos investigadores perceberem que Lula continua se movimentando para obstruir as investigações, queimar provas, ameaçar peças-chave e influenciar autoridades. Neste caso, o mais comum é um pedido de prisão temporária, que tem prazo definido de cinco dias, podendo ser renovado o prazo ou transformada a prisão em preventiva. Como exemplo, vale lembrar que Marcelo Odebrecht já tem uma condenação por Moro mas é mantido preso por prisão preventiva há um ano e meio – Odebrecht já apelou da decisão de Moro e o caso ainda vai ser “novamente julgado”.

Bastante comum têm sido as prisões que combinam as duas alternativas citadas. Paulo Bernardo, ex-ministro de Lula e Dilma, foi um que não apenas continuou se movimentando para apagar provas, utilizando-se inclusive da residência oficial do Senado a que tem direito sua esposa Gleisi Hoffman, como também evadindo grandes volumes de recursos. Foi por conta desse conjunto de ações que o juiz Paulo Bueno de Azevedo pediu sua  prisão preventiva.

E quanto a Lula?

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Será que Lula está atuando para se evadir do país? Ontem soubemos que o filho de Lula já se mudou para o Uruguai.

Será que Lula está atuando para obstruir as investigações? Lula já apelou à ONU contra Sérgio Moro e a Justiça brasileira. Tem usado movimentos sociais para sugerir que, em caso de prisão, pode incendiar o país. Tem usado a imprensa para atacar a Lava Jato (aqui  e aqui).

Será que Lula está evadindo divisas, ocultando os bens que adquiriu como beneficiário da Organização Criminosa que atuava no país? Nos últimos dias, Emílio Odebrecht confirmou que o codinome “amigo” era usado para se referir a Lula nas planilhas de propina da Odebrecht. A conta de Lula em propinas da Odebrecht, segundo essas planilhas, é de R$ 23 milhões. Leiam aqui.

Enquanto aguardamos para descobrir se será pedida uma prisão preventiva ou temporária de Lula, continuamos a atualizar nosso “Bingo Lula Preso”, que é a forma mais resumida de controlar o andamento das acusações que já foram aceitas e as que ainda estão para chegar lá. Vejam abaixo em duas versões, uma resumida e outra mais detalhada, com as datas de cada movimentação da cartela.lulapreso_20102016_dt lulapreso_20102016

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

Os erros das pesquisas eleitorais

Contados os votos nas urnas, mais uma vez os graves erros dos institutos de pesquisa chamam atenção do grande público.

Em São Paulo, causou enorme estranheza a diferença entre resultados do Ibope e do Datafolha, que divulgaram pesquisas um dia antes da votação.  O Ibope trouxe diferença de nove pontos em votação de Doria comparado com Datafolha. O caso do Ibope é ainda mais alarmante por estar errado em todas as candidaturas, exceção feita à de Haddad: Russomanno aparecia com 23%, Marta com 19% e Haddad com 15%.  Um erro assim deve ser definitivo para se ignorar os números do instituto daqui para frente.

O Datafolha chegou mais próximo do resultado de São Paulo, apontando Dória com 44% e já próximo de vitória no primeiro turno – o neotucano obteve 53% Quanto aos outros candidatos, o erro do instituto em relação ao resultado foi menor. Abaixo, um quadro apresentando a última pesquisa Datafolha em número de votos válidos, o resultado da urna e a discrepância:

PESQUISA URNA ERRO
Dória 44% 53% -20,45
Haddad 16% 16,68% -4,25
Russomanno 16% 13,58% +15,13
Marta 14% 10,10% +27,86

No Rio de Janeiro, o Datafolha de véspera também errou gravemente contra Flávio Bolsonaro. Vejam a figura abaixo, publicada por Felipe Moura Brasil:

Transformando os números do último Datafolha em votos válidos e fazendo o quadro comparativo, o resultado foi:

PESQUISA URNA ERRO
Crivella 32,53% 27,78% +14,60
Freixo 15,66% 18,26% -16,60
Bolsonaro 8,43% 14,00% -66,07

Olhando esses desvios e ignorando a possibilidade de ter havido má-fé, é preciso tentar encontrar um denominador comum. Para mim está muito claro, e já há muitos anos, que o erro das pesquisas é não levar em conta o número de abstenções por faixa de renda. Nos quadros acima, o Datafolha apresentou números maiores para candidatos bem votados entre as classes mais pobres ou de menor instrução (Crivella, Marta e Russomanno) e números menores para os bem votados entre as pessoas  de maior renda e instrução (Dória, Haddad, Freixo e Bolsonaro).

É de se notar que o erro pouco tem a ver com posição ideológica: se um candidato é de esquerda ou de direita e tem melhores índices entre extratos mais pobres, ele mingua nas urnas. A minha suspeita é que os mais pobres e menos instruídos são super valorizados nas pesquisas de opinião.

Os institutos precisam fazer levantamentos mais precisos sobre abstenções e votos anulados por extratos de renda e instrução, e aplicar isto nas pesquisas. Não dá para saber exatamente o que faz com que o voto dos mais pobres e menos instruídos esteja menos presente nas urnas, mas tenho minhas suspeitas:

  • Talvez os mais pobres se desloquem mais pelo país, mudando de zona eleitoral sem regularizar a situação;
  • Provavelmente os mais pobres “morrem mais”, comparecendo menos às urnas – os dados do TSE são muito defasados, muitos mortos contam ainda como abstenção;
  • Provavelmente os mais pobres têm mais dificuldades de locomoção para as zonas eleitorais no dia da eleição, o que pode levar a maior abstenção;
  • Pode ser também que os menos instruídos errem mais  o número do candidato na hora do voto, ou digitem-no incorretamente;
  • Provavelmente os menos instruídos têm voto menos ideológico, o que torna suas escolhas mais voláteis e portanto propensas a se deslocarem na reta final como voto útil.

Que há problemas com institutos de pesquisa no país, isto não há dúvidas. A Lava Jato mesmo está avançando sobre alguns desses, notoriamente ligados ao PT. Além da suspeição de entrega de números conforme a encomenda, é nítido que os números que trazem na véspera das eleições estão errados e podem sim estar influenciando o resultado nas urnas.

É de interesse público a existência de pesquisas de opinião. Diante da grande desconfiança quanto ao que elas vêm apresentando, nem mesmo o Datafolha conseguiu apresentar uma explicação razoável. Uma atualização em sua metodologia é o mínimo que precisam fazer para justificar sua existência.

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

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