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Força e Violência nos protestos

Ainda não é possível dizer se a série de protestos e indignação que invadiu as ruas do país acabou, apenas pode-se afirmar que ela perdeu intensidade e capacidade de mobilização de massas, restando agora movimentos temáticos e focados espalhados em vários lugares e aqueles motivados pela Copa das Confederações, que acaba neste domingo. Muito ainda há a ser dito e aprendido de toda essa turbulência que, como jamais visto na nossa história, fez o país inteiro tratar de política e nossos problemas como assunto mais importante. De certo já podemos dizer que o uso da linguagem foi deturpado como nunca e dois conceitos importantíssimos foram confundidos: os de Força e Violência.

Quero crer que era por precaução e evitar injustiças que toda reportagem e cobertura dos telejornais brasileiros sobre os protestos insistia em dizer que tratavam-se sempre de protestos “pacíficos” e, mesmo diante das mais bárbaras cenas de destruição e combate, era repetido que aquilo sempre era coisa de uma “minoria infiltrada” ou gente que não representava o legítimo movimento de manifestações. Essa crença foi diversas vezes abalada quando, em cenas muito mais isoladas e raras de brutalidade policial, a condenação era genérica, ampla e irrestrita: a PM era despreparada, a PM estava se exaltando ou a PM estava reagindo de forma desproporcional (?). Havia uma regra não declarada de que uma parte errante só servia para condenar o todo quando se tratava das Polícias Militares espalhadas pelo Brasil. Não há dúvidas que, por ser a PM um órgão do Estado e portanto a serviço da população, a exigência para que atue sob parâmetros rígidos de qualidade seja uma prática cada vez mais louvável tanto por parte da imprensa quanto da população. Só que, neste como em todos os casos envolvendo a PM, digamos que a má vontade contra as instituições de segurança do país foi “desproporcional”.BandeiradoBrasilQueimada

A diferença no trato dos excessos ocorridos misturou e embaralhou conceitos que, bem observados, deixariam as coisas mais claras. A PM, por ser um órgão formalmente instituído para manutenção da ordem e da lei, tem plenos direitos de fazer uso da Força. Em sua essência, a polícia é um órgão de Força. Por outro lado nós temos os manifestantes, insuflados e convocados inicialmente por grupos de extrema-esquerda e revolucionários. E qual é a tradiçao de atuação histórica desses grupos?

Violência e força não são sinônimos. Até poderia ser dito que a violência é um recurso que, na maioria dos casos, é manifestado quando há ausência de força ou essa força está sob ameaça. A violência é o uso de energia de forma destrutiva. Grupos revolucionários são, historicamente, formados por minorias que se proclamam visionárias o bastante para reformar radicalmente a ordem vigente. A violência com que se manifestam e combatem no espaço público é parte da estratégia usada para ganharem notoriedade, serem mais expostas e, eventualmente, tornarem-se grupos mais representativos e… fortes! Cabe aqui dizer que essa estratégia do uso da violência para ganhar ou mostrar uma força que não se tem não se restringe a grupos político-ideológicos.

Talvez passar para exemplos seja mais didático. Mundialmente, são muitos os casos de organizações revolucionárias, terroristas, com inspiração religiosa ou nacionalista, que com o tempo foram se institucionalizando até virarem partidos políticos ou serem absorvidas e extintas pela normalidade: Fatah, IRA, Black Panthers são alguns. No Brasil temos a história dos grupos de esquerda que atuaram contra o regime militar e, com a queda deste, renunciaram às armas e viraram múltiplos partidos. Também  aqui perto estamos vendo agora mesmo uma tentativa de encerramento de atividades terroristas das FARC através de negociações “pacíficas” com o governo colombiano.

Um outro exemplo claro da distinção entre força e violência fora do âmbito meramente político está nas atividades do PCC. O PCC, no meio em que age diretamente, é um órgão de força e como tal não precisa recorrer à violência sob seus domínios. Com efeito, muitos teóricos atribuem à não existência de facções tão fortes como o PCC a queda acentuada de assassinatos no Estado de São Paulo observada nos últimos 15 anos. Em seus domínios, ou seja, os pontos de tráfico e notadamente as favelas, o PCC não precisa matar a esmo, não há disputas por pontos de droga. A “instituição” está tão avançada em seus territórios que já são conhecidos os “Tribunais do PCC”, reuniões em que líderes da facção resolvem conflitos ocorridos sob seus domínios. Porém, fora do submundo do crime e das drogas, o PCC é um grupo “fraco” e minoritário. Nesses casos, como é que agem quando têm suas reivindicações? Partem para a violência com ataques e incêndios a ônibus espalhados por todo o Estado, ataques a PMs fora do horário de serviço. Como não há possibilidade do PCC se institucionalizar abertamente virando ONG ou partido político, todas as vezes que a organização se sentir ameaçada e acuada ela partirá para ações de violência fora de seus domínios, e isso jamais terá fim enquanto eles existirem.

Defensor do uso da violência como método político, era admirado por Mussolini e Lênin

Defensor do uso da violência como método político, era admirado por Mussolini e Lênin

Importa aqui dizer que a Violência como prática política é parte do manual básico dos grupos revolucionários, extremistas e de visão utópicas. Grupos que se inspiram por exemplo nos ensinamentos de Georges Sorel em seu “Réflexions sur la violence”. Pensando no vandalismo e depredação vastamente vistos como atos organizados e premeditados (afinal de contas, os principais vândalos estavam sempre mascarados e prontos para o confronto), há que se eliminar de início a hipótese de que essas pessoas agiram apenas devido ao impulso momentâneo gerado pela adrenalina, excitação e irracionalidade típicos das multidões. Resta então perguntar quais grupos violentos estariam atuando ali, tendo como base grupos políticos violentos mais frequentes ao redor do mundo ultimamente… Seriam grupos ultranacionalistas? Este momento flagrado na Avenida Paulista, repleta de pessoas bradando contra a classe média e a bandeira nacional indicam que não . Se fossem grupos ultranacionalistas, estariam ligados a quem? Quais grupos seriam esses? Ligados aos militares? A hipótese não se sustenta, restando então apenas o que é um tanto óbvio: grupos de esquerda. Grupos como o próprio MPL.

Por que os porta-vozes do MPL não se manifestam, em hipótese alguma, para condenar os atos de vandalismo? Por que os membros do MPL, mesmo diante de tantas evidências, afirmam que todos os atos violentos existiram como reação à “truculência” da PM? A admissão da violência como forma de expressão política está tão enraizada em suas mentes que são incapazes mesmo de se portarem de forma política para dizerem o que é óbvio e seria dito por qualquer cidadão normal: que vandalismo, depredação e ataque a pessoas, ainda que elas estejam trajando um uniforme de trabalho, é algo inaceitável.

Somente o medo explica a total ausência dessas considerações sobre o papel histórico da violência nos movimentos de esquerda para levantar a hipótese altamente provável de que os atos criminosos partiram de grupos políticos bem definidos. O clima de animosidade da esquerda nacional em relação à imprensa é nítido e pode ser visto em qualquer site governista, de esquerda ou mesmo publicações especializadas. Durante os atos, não foram poucas as vezes em que a imprensa foi vítima da turba (aquiaqui e aqui).

Quanto à sociedade e ao Estado brasileiro, a mesma pusilanimidade é inaceitável. Atos de vandalismo têm sim de ser coibidos, independente de quem os pratica e em quais ocasiões. As pessoas devem ser informadas das reais intenções e métodos de movimentos que, por terem servido de exemplo para que tantos outros saíssem às ruas protestar, estão sendo agora legitimados, louvados e inflados. As legítimas manifestações vistas nas ruas do país não podem servir para acobertar a onda de violência depredatória. A sociedade brasileira mostrou sua força ao ir às ruas reclamar de diversos temas que nos incomodam e precisam ser melhorados. É hora dessa mesma sociedade ter força para resistir aos que, pela violência, querem chocar e impôr uma guinada à esquerda que somente acentuaria os problemas que já temos.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

FGTS: ele não serve mais

Na semana passada publiquei um post inicial sobre o amplo problema do “Custo Brasil“, focando numa realidade perversa da nossa situação: o funcionário brasileiro custa caro para a empresa mesmo sem ter o dinheiro em mãos. Foi necessário trazer dados bem básicos sobre a carga tributária para enriquecer a demonstração de que há quase um salário inteiro entre o que a empresa gasta e o que o funcionário recebe. Porém, o ponto central daquele post precisa ser desenvolvido: Por que temos tantos confiscos na folha salarial? Por que tanto dinheiro que obrigatoriamente deve sair das contas dos empregadores não vai à conta do trabalhador, mas fica confiscado ora nas mãos do próprio empregador (13o e férias) ora nas mãos do governo? No caso mais gritante, o do FGTS, por que devemos ter nas mãos do governo um dinheiro que é do funcionário, que só pode usá-lo quando apresentar justificativas, e ainda o vê parado numa aplicação que não ganha da poupança e quando muito supera a inflação? Se esse dinheiro já é gasto pelo empregador, e portanto não faria nenhuma diferença a ele se depositaria em uma conta sua ou do governo, por que não mudar permitindo ao menos que o trabalhador tenha o direito de administrar esse dinheiro mensalmente?

Primeiro de tudo é necessário entender a origem do FGTS e todas as suas funções. O responsável por sua criação foi talvez o mais competente trabalhador de governos federais do século passado, criador de várias políticas e engenharias financeiras necessárias para os períodos em que serviu ao poder público: Roberto Campos. O FGTS foi um mecanismo necessário em seu tempo para reduzir os danos de uma política anterior também ruim. Mas falar do Fundo de Garantia é lembrar de coisas como o BNH, o Sistema Financeiro de Habitação, da herança de Vargas, do governo Castello Branco… Nada melhor do que trazer as palavras do mentor da coisa, Roberto Campos, publicadas em seu belíssimo livro de memórias “A Lanterna na Popa“. Seguem então alguns trechos em que Roberto Campos trata do FGTS, seu debate, sua concepção, seu uso e sua implantação:
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Sobre Criar o FGTS Para Suportar o Sistema Financeiro De Habitação:

“O aporte de recursos mais estável e fundamental (nota: Do Sistema Financeiro de Habitação) veio através do FGTS, criado em Setembro de 1966, e implantado a partir de 1967. A finalidade do FGTS era criar um pecúlio financeiro permanente, em substituição ao instituto da estabilidade no emprego, que previa uma indenização somente no caso do desastre da despedida. Sua utilização como base financeira do sistema de habitação foi uma brilhante idéia de Luiz Gonzaga do Nascimento e Silva, segundo presidente do BNH, e de Mário Trindade, que lhe sucedeu(…)”

Na década de 60 o déficit habitacional era enorme, nosso sistema financeiro era precário, a inflação era alta (não absurdamente alta como em outras décadas posteriores) e havia muita instabilidade política. Neste cenário, as políticas habitacionais eram a grande esperança para milhões de brasileiros terem suas casas próprias. O mecanismo de então era o SFH, Sistema Financeiro de Habitação. Hoje nosso sistema financeiro é bastante desenvolvido, a inflação só escapa ao controle quando o governo consegue errar demais (como nos últimos meses), temos estabilidade política e financeira

A Necessidade Do FGTS Para Substituir A “Estabilidade” No Emprego

“A criação do FGTS foi uma das reformas sociais mais importantes, e mais controvertidas, do Governo Castello Branco. Havia o “mito da estabilidade”, tido como a grande “conquista social” do governo Vargas. Mito, porque a estabilidade, após dez anos de serviço na empresa, se havia tornado em grande parte uma ficção. Os empregados eram demitidos antes de completado o período de carência, pelo receio dos empresários de indisciplina e desídia funcional dos trabalhadores, quando alcançavam a estabilidade. Os trabalhadores, de seu lado, ficavam escravizados à empresa, sacrificando a oportunidade de emigrar para ocupações mais dinâmicas e melhor remuneradas. Os empresários perdiam o investimento no treinamento; as empresas mais antigas, que tinham grupos maiores de empregados estáveis, eram literalmente incompráveis ou invendáveis por causa do “passivo trabalhista”. Muitas empresas não mantinham líquidos os fundos de indenização de despedida, ou sequer os formavam, criando-se intermináveis conflitos na despedidade de empregados.
Foi precisament um desses casos típicos de rigidez estrutural nas relações de trabalho que deflagrou a busca de uma solução mais flexível, tipo FGTS. Era o caso da Fábrica Nacional de Motores (FNM) em Xerém, Rio de Janeiro.(…) Havia 4000 funcionários, na grande maioria estáveis. Quem a comprasse, compraria um imenso passivo trabalhista.(…)”

Como visto, o FGTS foi um mal menor. Foi a forma possível para quebrar o ciclo ainda pior da estabilidade no emprego. Assim como quando estamos com a garganta inflamada tomamos antibiótico mesmo alguns dias após a cura e fim da febre para afastar o mal de vez, mas depois devemos abandoná-lo, o FGTS do jeito que foi desenhado e para a finalidade que foi aplicado já não é mais necessário. Mas há mais motivos…

A Fórmula Do FGTS

“Daí se originou a fórmula do FGTS, de substituição da estabilidade por um pecúlio financeiro, em conta nominal do empregado, que ele poderia transportar de empresa para empresa. Não haveria encargo adicional para as empresas e nenhum empuxe inflacionário, pois a contribuição de 8% do empregador, para a formação do FGTS, era compensada pela eliminação de vários encargos sociais que representavam 5,2% da folha e pelo Fundo de Indenização Trabalhista, quer representava 3%(…) “

Em sua origem o FGTS substituiu impostos. Acontece que, de lá para cá, a carga tributária praticamente dobrou. Se na origem havia a justificativa do FGTS ficar em mãos do governo pois esse estaria sofrendo perda de arrecadação, hoje a situação é totalmente diferente pois o governo arrecada demais. O gigantismo tributário do Brasil torna nosso Estado um sócio pesado tanto para empregadores quanto trabalhadores e, no caso do confisco praticado pelo FGTS, faz com que o trabalhador perca dinheiro. Ainda que ressaltemos que muito do crescimento da carga tributária no total do PIB deve-se à evolução das tecnologias de arrecadação, de qualquer forma isso não altera o fato de que o peso tributário é exagerado e não necessita mais desse apoio confiscatório sobre o dinheiro dos trabalhadores.

OS Opositores Ao FGTS

“Como era de esperar, a inovação despertou grande oposição da Igreja, dos sindicatos e da mídia, com derramada preocupação emocional e nenhum embasamento analítico. (…) A despeito do esforço pessoal de Castello, que ele considerava humilhante, de barganhar com alguns políticos concessões clientelísticas ( felizmente de pequena monta), foram tantas as emendas deformadoras do projeto que o governo teve de recorrer a táticas dilatórias para que fosse editada por decurso de prazo, em 13 de setembro de 1966, transformando-se na Lei N.5.107. Reconhecendo a validade de algumas emendas aproveitáveis, houve um fato bizarro: no dia seguinte, 14 de setembro, foi baixado um decreto-Lei, incorporando-as ao texto. Assim, uma das medidas reconhecidamente mais fundamentais para a modernização capitalista do país teve origem controversa e inglória!”

Uma nota importante: nessa época a Igreja no Brasil era dominada pela ideologia marxista,até porque aqui é Brasil e muita coisa não fazem mesmo sentido, apenas são. Assim, seguramente podemos dizer que a esquerda da época foi contra o BNH. A esquerda de hoje ainda só se refere a Roberto Campos com ódio e ofensas, mas hoje é justamente a esquerda (o que restou de Igreja esquerdista, sindicatos, parte da mídia) quem acha que o Fundo de Garantia deve manter-se intocável. Roberto Campos tem a honestidade e coragem de deixar bem claro que o FGTS foi baixado na base da esculhambação, de acordos espúrios e malandragens regimentais. A esquerda de hoje, que domina todas as principais forças e órgãos políticos, age assim rotineiramente no trato de Medidas Provisórias e Projetos-de-Lei. É natural que não tenham também nenhuma objeção ao que está descrito aqui. Talvez até achem Roberto Campos um tanto ingênuo por abrir-se dessa forma, quase que se desculpando…

Sobre Como O BNH Perdeu O Rumo Até Ser Extinto:

“Ao longo dos anos, até sua equivocada extinção no governo Sarney, o BNH trouxe importante contribuição para a solução do problema habitacional. Operou em escala limitada entre 1964 e 1967. A partir desse ano, teve seus recursos reforçados pelo FGTS e pelas cadernetas de poupança. A partir de 1971, ampliaria suas funções, tornando-se um banco de desenvolvimento urbano, engajado também em operações de Saneamento Básico.
Gradualmente sofreu os efeitos da “lei da entropia” burocrática. O segmento de habitações de baixa renda, que era a motivação principal, perdeu terreno, ao longo dos anos, comparativamente a operações mais rentáveis em habitações de classe média e construções comerciais. (…) A absorção do BNH pela Caixa Econômica Federal, em novembro de 1986, não redundou em economias administrativas e deixou inaproveitada boa parte da expertise criada em 22 anos de funcionamento.”

Esse foi o triste fim de um dos pilares da implantação do FGTS.

Concluindo…

Leis, impostos e normas governamentais têm suas motivações temporais, quando em resposta a circunstâncias novas, ou duradouras, quando baseadas em princípios. No caso do FGTS, todas as justificativas para mantê-lo como foi desenhado estão datadas e obsoletas. A única necessidade real do FGTS hoje seria para o cálculo da multa em caso de demissão sem justa causa e para isso não há nenhuma necessidade de seguir como hoje, deixando o dinheiro parado nas mãos do governo em uma conta com rendimento ridículo.

O que sugiro para cada um é pensar: E se o FGTS continuasse sendo cobrado ao empregador, continuasse indo para uma conta especial mas essa conta fosse de livre acesso e uso do trabalhador? E, tal como hoje, os 8% mensais continuariam sendo acumulados e sob mesmo rendimento atual do FGTS, mas apenas para efeitos de cálculo de rescisão? O dinheiro do FGTS já é do trabalhador, nunca será tomado dele e já sai mesmo das mãos do empregador. Esse novo desenho só afetaria um ente: O governo, essa estrutura imensa, atrofiada e incompetente. Ou você acha que o governo é melhor para administrar o seu dinheiro do que você mesmo?

Admito que o que proponho soa radical e teria muitos impactos imediatos. Então vamos lá, que tal um meio-termo: Crie-se um novo FGTS em que metade do “Fundo” estaria na conta do governo bloqueada e a outra metade disponível para os trabalhadores. O cálculo para fins rescisórios seria o mesmo. As regras para sacar o dinheiro confiscado pelo governo seria o mesmo. Apenas teríamos o efeito imediato de ver o rendimento dos trabalhadores crescer de imediato. E que tal estimularmos o debate e decisão de todos os brasileiros deixando como padrão o FGTS  do jeito que está hoje, sendo 100% confiscado e administrado pelo governo, cabendo àqueles que se sentirem maduros, responsáveis e conscientes o bastante para lidarem com um crescimento de renda de 4% (metade do FGTS), optarem pelo direito de usarem mensalmente o dinheiro que já é deles?

O mundo muda, quase tudo muda, pessoas e idéias evoluem, transformam-se, adaptam-se ou tornam-se obsoletas. Acho curioso ver a esquerda brasileira como guardiã da obra de um dos maiores pensadores e cronistas liberais brasileiros, respeito essa admiração um tanto fora-de-lugar. É para retribuir a gentileza que serei utópico: tenho certeza que minha ideia será adotada e que, neste dia, nos uniremos todos reconhecendo tanto os princípios que guiavam Roberto Campos quanto suas ações corretivas necessárias apenas para a época.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

Holodomor – 80 anos de um terrível genocídio comunista

Uma das formas mais terríveis de se morrer é por fome. Seja pela interrupção abrupta ou gradual de alimentação, o ser humano passa por estágios que o levam ao total estado de bestialidade. Ao se acentuar a falta de nutrientes, o corpo começa a consumir partes menos “importantes” para poder suprir o sistema nervoso central e o miocárdio. É assim que aos poucos vão sendo eliminadas todas as reservas de gordura. Em paralelo, o corpo começa a consumir a musculatura. A consequência imediata é que o ser humano se torna cada vez mais fraco. A redução de atividades motoras colabora para a queda na temperatura, que já se daria naturalmente pela perda de gordura e pelo pouco estoque de energia. O indivíduo começa a sentir constantes e insuportáveis dores estomacais, acompanhadas de diversas dores musculares por todo o corpo. Há um acelerado processo de queda de cabelos, a pele ganha uma aparência cada vez mais pálida, há diarréias. Os olhos parecem saltar do rosto, tonturas são cada vez mais constantes, até que a capacidade de concentração começa a se perder e junto com ela o raciocínio se debilita. Os mais sortudos morrem logo devido à infecção de qualquer doença que encontre terreno fácil para desenvolver-se diante desse corpo debilitado e sem resistências imunológicas. Todos os outros vão sofrendo aos poucos, têm convulsões cíclicas, alucinações constantes, perdem o contato com a realidade até que morram definitivamente pela perda de massa corporal, queda da temperatura ou ausência de proteínas.

Se na conta individual a morte por inanição já é terrível, tente imaginar essas característias sendo desenvolvidas em uma comunidade inteira. Pessoas até pouco tempo saudáveis, produtivas e levando uma vida normal começam a ver seus vizinhos e parentes morrendo lentamente, e a perceber que eles serão os próximos. Não demora e, na ausência de alimentação para sua subsistência, dão vazão aos instintos mais severos de sobrevivência e começam a praticar canibalismo. Pela resistência de outros seres a se sujeitarem a servir de refeição, buscam cada vez alvos mais fáceis para a auto-preservação, e é então que começam a atacar os mais indefesos: as crianças!

Todo esse processo acima é importante para explicar um dos atos mais nefastos já vistos na História da humanidade, provocados tanto pelo ódio desumano do regime comunista como pelos procedimentos e ações pregados por tal ideologia. Estou falando da Grande Fome imposta por Stálin ao até então próspero povo da Ucrânia. Há 80 anos, nesta mesma época, entrava na fase final de inanição a população camponesa ucraniana e cossaca.

Por ser uma região fértil, produtiva e com fortes sentimentos nacionalistas, a Ucrânia foi uma das que mais bravamente resistiu às políticas de coletivização da produção implantadas por Stálin. O ditador não perdoava a região por isso, e irritava-se sobremaneira com os “problemas” gerados por ali. A resistência da população fazia com que o assassino acelerasse ainda mais o processo de coletivização e expropriação da produção, reduzindo a proporção da produção dos camponeses para consumo próprio e replantio. Era necessário suprir o aparelho repressor soviético, seu enorme exército e sua rede de abastecimento.

Síntese do pensamento totalitário comunista

Síntese do pensamento totalitário comunista

Quanto mais Stálin aumentava os confiscos da produção em nome de suas políticas insanas, piores eram os resultados da colheita. E não haviam mais vozes a gritar: Artistas, jornalistas, escritores, todos contra a coletivização haviam sido deportados, presos ou assassinados. Temendo por suas vidas e fracos, os ucranianos não resistiam mais. Com a redução da colheita, maiores eram as necessidades de confisco pelo Estado soviético. Esse círculo vicioso gerava paranóias persecutórias típidas de regimes totalitários. Os fiscais do partido nas lavouras, os responsáveis pela distribuição e também as autoridades policiais acusavam-se mutuamente de incompetência e corrupção, em busca de livrarem a si próprios de condenações do aparelho opressor central. Toda essa fúria desaguava nos camponeses, cada vez mais pressionados. Muitos eram torturados e presos por não conseguirem corresponder às expectativas dos planejadores, enterrar espigas de milho ou escondê-las em casa para sobrevivência, sonegando-as ao Estado. A polícia soviética fazia rondas noturnas nas plantações pois sabiam que muitos produtores agiam na escuridão para tentar reservar o produto de seu trabalho para a própria subsistência Até que chegou-se o momento em que as prisões e campos de concentração não suportavam mais produtores e esses começaram a ser devolvidos a suas lavouras. Mas quando voltavam o cenário não era animador, as outrora áreas produtivas encontravam-se degradadas.

Diante da subnutrição as famílias começavam a tomar medidas drásticas. Pegavam seus filhos crianças e fugiam para perto das cidades, abandonando-as ali mesmo à própria sorte na esperança de que fossem resgatados e alimentados por benfeitores ou pelo aparelho estatal. Os camponeses voltavam à lavoura para esperar a própria morte e acreditavam que era melhor não ter as crianças por perto e abandonadas no campo quando morressem. Só que as crianças não eram salvas por ninguém, mas sim recolhidas para delegacias. Das delegacias elas eram levadas a postos ferroviários em caminhões. Nesses postos, médicos separavam as que ainda tinham alguma condição de subsistência das que já estavam inchadas e em estado final de inanição. As que tinham alguma resistência iam a acampamentos, verdadeiros campos de concentração, como Holodnaia Gora, enquanto as outras eram levadas para longe da cidade e abandonadas na beira da estrada, para que morressem por ali mesmo e longe dos olhos da população. Nos locais em que as crianças eram despejadas, cavavam grandes fossas para enterrar ali mesmo as que já chegavam ao local mortas, ou aparentemente mortas (muitas foram jogadas nas fossas mesmo estando respirando).

A Fome foi ação deliberada e consciente

A Fome foi ação deliberada e consciente

As fugas de camponeses criavam um ambiente desolador nas cidades, e foi então que Stálin ordenou que se fechassem e controlassem todas as estações de trem das regiões atingidas pela fome, para evitar mais e mais famintos vagando nas metrópoles locais. Os mortos de fome acumulavam-se na cidade, toda noite dezenas de corpos eram recolhidos. Nestas coletas de corpos, começou-se a perceber cada vez mais casos de defuntos com a barriga aberta. Mais tarde, alguns dos “amputadores de defuntos” presos confessaram que arrancavam o fígado para fazer patês vendidos nas feiras locais.

Quando entrou o mês de Junho de 1933, Stálin e todo o Politburo já tinham claro que o castigo estava de bom tamanho, que os impactos já se faziam sentir no racionamento nacional e que não era mais possível seguir com a política de extermínio. Foi então que começou, aos poucos, a liberar grandes lotes de grãos para ucranianos, cossacos e cazaques. Obviamente, os efeitos do ataque genocida não foram eliminados de imediato e centenas de milhares continuaram a sofrer os efeitos da provação vivida. Estima-se que o déficit populacional total tenha superado os 10 milhões de habitantes. Somente na Ucrânia, é certo que mais de 3 milhões de pessoas morreram por consequência das mazelas da fome. A somar-se toda a região, os números ultrapassam 7 milhões. 7 Milhões de mortos por fome em pouco mais de um ano de progressão de políticas socialistas.

Os historiadores da Ucrânia atribuem os atos puramente ao ódio de Stálin aos ucranianos. Essa visão narra a grande fome imposta à Ucrânia como um ato de guerra. Porém, é necessário dizer que, não obstante esse motivo, o extermínio representa a pura ação político-econômica pregada pelo socialismo. Ainda que se tenha a particularidade de uma URSS paranóica sob a desculpa de uma inevitável guerra vindoura, e que portanto precisava sempre estocar alimentos para prováveis dificuldades futuras, tudo isso só aconteceu por uma tentativa inconsequente de implantar políticas planejadas em bancos acadêmicos por pessoas que crêem ser possível redesenhar e planificar toda a sociedade, incluindo seus meios produtivos.

A coletivização, o confisco da produção, o controle total pelo Estado dos meios produtivos e distributivos são políticas totalmente condizentes com o que prega o comunismo. O ódio de classe aos camponeses produtivos e prósperos, tidos por reacionários, o bloqueio e a calada de todas as vozes contrárias às ações do Estado e tornar inimigos inaceitáveis todos que não enxergam o Estado como ente supremo de razão também são características típicas da mentalidade socialista. Após 80 anos, se não a totalidade, ao menos algumas dessas políticas continuam a gozar de prestígio. Grandes erros que resultaram em crimes horrendos contra a humanidade não deveriam ser esquecidos.

Para Mais Informações:

Documentário “HOLODOMOR” feito pela Radio Quebec, disponível no YouTube;
Holodomor – O Genocídio Ucraniano – artigo de Luís de Matos Ribeiro para a Associação Internacional de Estudos Ibero-Eslavos, disponível no SCRIBD;
Livro “The Harvest of Sorrow: Soviet Collectivization and the Terror-Famine“, de Robert Conquest
Livro “Execution by Hunger: The Hidden holocaust“, do sobrevivente Miron Dolot;
Diversas fotografias de vítimas da Fome por toda a União Soviética aqui.

 

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

Custo Brasil – Chamamos confiscos de “benefícios trabalhistas”

Volta e meia o termo “Custo Brasil” é abordado como justificativa para a falta de competitividade de produtos e mão-de-obra brasileiras em relação ao mundo. Também se usa o bordão para justificar os altíssimos preços que pagamos para produtos e serviços. Há também quem veja no Custo Brasil apenas uma desculpa para que empresários “gananciosos” se esbaldem no mar de fartura de suas empresas. O assunto é enorme, envolve muitos detalhes não tão óbvios, até mesmo pela farta legislação a respeito. Por ser tão grande, tratarei do tema em mais de um post. Neste inicial falarei aqui de um aspecto que certamente não é o principal mas ajuda a aumentar de forma desnecessária este preço que todos pagamos: O Custo-CLT. Sim, a nossa legislação trabalhista, cuja base foi criada há 70 anos sob a ditadura varguista, custa muito para as empresas e ainda mais para os funcionários.

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Para iniciar é preciso, como na maior parte dos debates políticos daqui, falar o básico mais básico. Neste caso, que uma empresa busca o lucro. Se isto ofende sua sensibilidade, melhor não ler o resto . O mundo seria lindo se todos trabalhássemos para nos entreter e se as empresas existissem para pagar salários, mas esta realidade maravilhosa não existe. Empregados buscam o equilíbrio na relação trabalho/esforço/remuneração e empresas buscam o maior lucro possível, que virá da relação entre receitas e despesas. Não é condenável a priori que um empregado queira ganhar o maior salário, da mesma forma como é correto uma empresa querer ter o maior lucro possível.

Embora pagar menores salários possa aparentemente acarretar maior lucro para uma empresa, isto provavelmente terá um custo à mesma: ela poderá perder empregados ou ter gente menos qualificada. Mas um grande problema na relação empresa-empregado e que faz com que ambos saiam perdendo, evitando que a empresa pague mais e o empregado também ganhe mais é a excessiva e bizarra tributação sobre a folha de pagamento. Pior, o governo faz crer que são benefícios os diversos confiscos que são feitos junto ao pagador e não vão para as mãos do trabalhador.

É preciso trazer os números para explicar como é absurda a nossa legislação trabalhista e como ela prejudica a competitividade de nossa mão-de-obra ao encarecer o trabalhador sem que o mesmo ganhe mais. As empresas estão corretas quando reclamam da CLT, o que não se percebe é que elas perdem com ela mas os trabalhadores perdem muito mais! Para isto, vou dividir o problema em 3 partes, sempre tomando como base um hipotético salário de R$1000,00 sobre o qual incide a alíquota mínima de Imposto de Renda. Vamos aos custos:

1) Impostos puros:

Muito tempo atrás, nossos tributaristas devem ter acreditado que, quanto maior a empresa, maior o número de empregados, e que ter o controle sobre isso era mais eficiente do que sobre os ganhos reais da empresa. Pode ser daí que nasceu a exagerada tributação que temos sobre a Folha de Pagamento: 20% de INSS. Ainda na folha de pagamento, há uma taxa que varia de 1% a 3% de Risco de Acidente de Trabalho (esta até faz sentido pois quanto mais funcionários, maior o risco de acidentes que os vitimem). Há também a “contribuição” que a empresa tem que dar ao chamado “Sistema S”, que varia de 0,60% a 1,5%. A carga tributária completa pode ser vista com mais detalhes neste link mas, para efeitos simplificadores, usarei como base apenas esses 3 impostos obrigatórios.

Até aqui, se o empregado ganha R$ 1.000,00, a empresa já gastou com ele entre R$ 216,00 e R$ 245,00, ou seja, entre 21,6% e 24,5% a mais, vindos das somas de impostos do INSS, Risco de Acidente de Trabalho e pro Sistema S.

  • Salário mais impostos puros: R$ 1.216,00 – R$1.245,00

2) Os Confiscos:

Nossa CLT, bem antiga e inspirada na Legislação da Itália sob Mussolini, chama diversas “poupanças compulsórias” de benefícios. 13o salário, 1/3 de férias e férias remuneradas parecem benefícios mas são na verdade dinheiro do assalariado que ficam confiscados nas mãos do empregador que tem que pagá-los do mesmo jeito, ou do Governo, que com muito atraso e trabalho o entregam. Empresas que competem no mercado internacional não têm como base o salário mensal, elas calculam o seu custo anual na hora de compará-lo ao de outros países. As porcentagens confiscadas junto ao empregador são:

8,33% de décimo terceiro (cálculo básico sobre 1/12 do salário mensal );
8,33% de férias remuneradas (cálculo básico sobre 1/12 do salário mensal);
2,77% de 1/3 de férias (cálculo sobre 1/3 dos 1/12 das férias remuneradas);

Os confiscos acima fazem o empregado que ganha R$ 1.000,00 custar à empresa mais R$ 194,43, ou seja, 19,43%  ( 8,33% + 8,33% + 2,77% = 19,43% ). Só que como décimo terceiro e as férias são parte da folha de pagamento, há que se acrescentar que eles também entram para o montante de impostos sobre a folha, Então aqueles 21,6% a 24,5% a mais devem ser calculados não sobre R$ 1.000,00, mas sobre R$ 1.194,30 que é o salário do empregado mais poupança do empregador para pagar 13o e férias anualmente, transformados em base mensal:

  • Salário Mensal + Custos anuais represados da Folha (13o e férias) = R$ 1.194,30
  • Salário Mensal + impostos corrigidos (após acréscimo de 13o e férias) = R$ 1.452,26 – R$ 1.486,90 

Há também um confisco que é tomado do empregador e vai diretamente pras mãos do Governo, que só o repassa ao seu verdadeiro dono, o trabalhador, se você se explicar e enfrentar uma chatíssima burocracia. São os 8% de FGTS, que são aplicados sobre a base de pagamento. Como o FGTS não incide sobre o benefício das férias, tomarei para seu cálculo não a base mensal pura, mas a base mensal composta pelo salário mais o 1/12 do 13o, equivalente ao custo mensal levando em conta o que o empregador tem que poupar para o pagamento anual do benefício:

  • FGTS = 8% de R$ 1.083,33 = R$ 90,27
  • Salário + impostos corrigidos + FGTS = R$ 1.542,53–  R$ 1.577,17 

3) Os descontos:

Peguei R$ 1.000 pra facilitar os cálculos, mas quem ganha isto não paga imposto de renda. Ainda assim, usarei então a menor alíquota de imposto possível, 7,5%. Também no caso do desconto para vale-transporte, cujo limite superior é 6%, usarei 3% para o caso imaginário em que a empresa é muito legal com o empregado. O Imposto de renda pode ser deduzido ao final do ano caso comprovem-se gastos que têm isenção ou caso o montante anual não ultrapasse o mínimo. Neste caso, mais uma vez estamos falando de uma poupança compulsória feita pelo Governo. Ignorando isto, vamos ao que ficará com o empregado ao final do mês contando INSS, IR e vale-transporte:

  • Descontos = 8% de INSS + 7,5% de IR + 3% de VT = 18,5%;
  • Salário Final do Trabalhador = : R$ 1.000 – R$ 185,00 = R$ 815,00.

CONCLUSÃO

Este post serve apenas para ilustrar o quanto de dinheiro é retido e deixa de circular por culpa da CLT e outros confiscos. Os funcionários com carteira de trabalho incorretamente crêem que é benefício o dinheiro extra que, na verdade, faz caixa de poupanças compulsórias! É como se o governo acreditasse que você cidadão não sabe como administrar seu dinheiro e precisasse de uma data-base anual para tê-lo em mãos (no caso de 13o e férias) ou de uma bela desculpa e justificativa para usá-lo (FGTS).  Agora, vejam o quanto do salário “anual” do trabalhador é confiscado e depois distribuído como se fosse benefício (13o e férias e 13o):

  • Salário anual ( + benefícios) = R$ 14.331,6;
  • Salário anual ( – descontos de 8% de INSS, 7,5% de IR) = R$ 12.110,20;
  • Salário anual ( – descontos de VR 3% de R$12.000 [ R$ 360 ] ) = R$ 1.1750,2;
  • Como seria o Salário mensal sem os confiscos chamados de benefícios = R$ 979,18

Ou seja, até aqui o trabalhador já teria um ganho real de R$ 164,18 por mês, após aplicarem-se os impostos a esses confiscos que ele deixa de ganhar. Mas há mais, há o confisco que não fica “guardado com o empregador”, mas depositado nas mãos do Governo, mesmo sendo do trabalhador.

  • Distribuindo mensalmente o FGTS para o salário mensal = +R$ 90,27
  • Total de confiscos mensal (pelo empregador + Governo) = R$ 194,30 + R$ 90,27 = R$ 284,57

Chegamos então ao resumo abaixo, que mostra o quanto o custo de um empregado vai muito além do mísero dinheiro que lhe resta ao fim do mês:

  • Salário Mensal NOMINAL do Trabalhador: R$ 1.000,00
  • Impostos retidos na Folha: R$ 185,00
  • Salário Mensal Real do Trabalhador: R$ 815,00
  • Dinheiro Mensalmente confiscado do Trabalhador: R$ 284,57
  • Dinheiro gasto pelo empregador com o Trabalhador: Entre R$ 1.542,53 e R$ 1.577,17
  • Impostos pagos pelo empregador: Entre R$ 257,97 e R$ 292,60
  • Diferença entre o gasto pelo empregador e o dinheiro que vai ao trabalhador = Entre R$ 727,53 e R$ 762,17

Custo_CLT

Há um Governo entre a empresa e o trabalhador. Entre a empresa e o trabalhador há um Governo…Há quase um salário real do trabalhador que se perde entre o que o empregador tem de gastar com o empregado e o que este efetivamente recebe. Não bastassem os impostos, há essa enormidade de confiscos vendidos como “benefícios” (como visto acima, o trabalhador teria 31% a mais em dinheiro mensalmente não fossem essas políticas). Com tanto dinheiro confiscado, não é de se estranhar que o povo brasileiro seja tão endividado e tenhamos índices de poupança tão baixos. E toda vez que um inocente diz que seu salário é baixo por culpa da “ganância” dos empresários, o governo agradece.

Quem acredita na independência das pessoas e na capacidade dos brasileiros de gerir seus recursos deveria lutar por mudanças na CLT e nessa tributação. Da forma como estão hoje, os benefícios confiscados do salário mensal do trabalhador só ajudam as empresas que fazem contratos temporários de trabalho e, por não terem um ano de vínculo, conseguem escapar dessas obrigações. Mas deve-se pensar mais: Quanto não teríamos a mais de dinheiro em circulação se, digamos, ao menos metade do FGTS deixasse de ser confiscado pelo governo e fosse entregue mensalmente aos trabalhadores? O quanto isto não ajudaria especialmente os mais pobres, que sofrem com os pesados juros bancários? Será que não há uma relação direta entre excesso de confiscos-população endividada-juros altos? Pensem nisso. Daqui a algumas semanas retomarei esse tema.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

A lógica de mercado no combate às drogas

Diante do constante aumento da criminalidade e suas vítimas, vozes aqui e ali no Brasil começam a pedir, como parte da solução, liberar o consumo e comercialização irrestritamente das drogas. Desde pensadores da extrema-esquerda, passando por libertários, há também o ex-presidente FHC e alguns editorialistas de jornais brasileiros. Não caberia aqui expôr tantos variados argumentos usados, mas deixo aqui para contradizê-los todos que, quem sabe no dia em que estivermos com a mesma renda per capita, IDH ou nível educacional dos pequeníssimos países que supostamente tiveram boas experiências com a liberação do consumo das drogas, possamos fazer algo a respeito. Enquanto esse dia não chega, o certo é combater impiedosamente a entrada das drogas no Brasil. Elas estando aqui, conseguir bloquear a distribuição. Elas estando nas ruas, impedir a comercialização. É sobre este último ponto que tratarei aqui.

A nossa realidade tanto legal quanto prática não pune mais os usuários de drogas, havendo bastante tolerância tanto de policiais militares quanto delegados em relação ao porte de drogas. Voltar atrás e re-adotar medidas mais restritivas contra usuários e “pequenos traficantes” parece algo totalmente inviável, seja pela lentidão do nosso sistema judiciário ou pelas superlotações em distritos policiais. O que trago a seguir são algumas medidas bem-sucedidas que tinham como base uma análise “de mercado” para o problema das drogas e que, de certa forma, vêm sendo adotadas ao longo dos anos em muitos lugares. Talvez coordenar essas ações, inicialmente nas médias e pequenas, seja um caminho para verificar a eficácia e adotá-las também nas metrópoles.

Reuben Greenberg tornou-se comandante da polícia em Charleston, Carolina do Sul, no distante ano de 1982. Judeu, foi o primeiro negro chefe de polícia em seu Estado. Pelos excelentes resultados obtidos em sua comunidade, Greenberg ganhou notoriedade nos EUA e influenciou muitas políticas de segurança pública adotadas ao longo dos anos seguintes. Em 1989 organizou suas bem-sucedidas experiências no livro “Lets take back our streets“. Apenas pelo título já fica claro que suas anotações serviram de base para a bem-sucedida experiência seguida em Nova Iorque, por exemplo. Mas Greenberg também inovou pela sua abordagem do problema do consumo de drogas a céu aberto.

Reuben M. Greenberg

Reuben M. Greenberg

Ao assumir seu posto como chefe de polícia, Greenberg tinha diante de si um grande problema: As ruas, especialmente dos bairros mais pobres, estavam tomadas por traficantes e consumidores de drogas. Como consequência, não só as “pessoas de bem” eram vitimizadas, ao perderem o espaço público seguro e limpo para eles mesmos e seus familiares, como mesmo a polícia e o poder haviam entregado à própria sorte essas regiões. A tomada territorial pelo crime também dificultava a ação policial pois os bandidos, sentindo-se donos do pedaço, agrupavam-se por ali com maior frequência tornando-os até mais fortes em eventuais confrontos com a polícia e aumentando o risco de ferir inocentes. Não bastasse isso, a legislação da época não garantia a prisão de traficantes, a maioria dos autuados estavam de volta às ruas após 4 horas dentro de uma delegacia de bairro. Era fácil fazer os flagrantes dos traficantes nas ruas, difícil era mantê-los atrás das grades. Segundo Greenberg, havia casos de traficantes autuados com mais de 12 processos por venda de drogas correndo ao mesmo tempo. E mesmo assim eram mandados de volta às ruas.

Mesmo a prisão “temporária” dos traficantes não diminuía o consumo das drogas. Notou-se que os pontos eram tão lucrativos e com cultura de drogas tão enraizado que bastava a polícia sair com um traficante preso e logo já havia outro na redondeza a oferecê-las novamente. A solução adotada foi, como num mercado qualquer, “atacar” não o vendedor, mas os consumidores do produto, evitando que esses dois elementos necessários para a efetivação de uma operação comercial se encontrassem. A ideia era dificultar de tal forma o comércio que não só a atividade deixasse de ser convidativa para os traficantes, pelos altíssimos lucros, como também para os consumidores insaciáveis. Foi então que a polícia do chefe Greenberg começou a ter patrulhas mais constantes nos pontos em que atuavam os conhecidos traficantes. Não com veículos que apenas passam pela região, mas com corpo efetivo e constantemente na região. Ainda que fosse apenas um policial a pé, o importante era sempre ter alguém ali para dar aos traficantes e aos moradores a impressão de que o poder público estava presente.

O primeiro efeito foi rápido. Com um policial sempre próximo aos mais conhecidos vendedores de drogas nas ruas, os usuários evitavam aproximar-se do traficante. Pessoas aproximavam-se vagarosamente com seus carros para efetuar a compra e, quando percebiam a presença do policial, afastavam-se. Muitos desses retornavam, na esperança que não houvesse mais a presença da polícia por ali, e novamente iam embora. Para constranger ainda mais esses consumidores, a polícia começou a também fotografar os veículos que se aproximavam dos traficantes. A primeira medida dos traficantes e consumidores para tentarem driblar a proximidade da polícia foi mudar os pontos de droga. Uma quadra mais pra cá, duas mais pra lá… Porém, como em qualquer negócio, quando você muda seu ponto é necessário comunicar seu público consumidor, de preferência antes da mudança. Como a ação da polícia era feita repentinamente e o contato do pequeno traficante de rua com os usuários é mínimo, a maioria deles nem mesmo tinham o contato de seu “público”. E os consumidores, ao notarem que a polícia estava na cola do traficante, evitavam contatá-los por telefone por medo de estarem grampeados. Por tudo isso os “novos pontos” de droga nunca eram muito distantes dos já estabelecidos e conhecidos.

Essa medida repentina e trabalhosa logo fez com que a polícia notasse outra peculiaridade: Não era necessário, após a implementação dessas políticas, manter a vigilância nesses pontos 24 horas por dia e 7 dias por semana. Havia horários e dias em que a procura era muito maior e, com base nesses dados levantados, as novas tomadas de pontos de droga e espaços públicos eram mais pontuais. O período de procura era muito maior entre quarta-feira e sábado. E a polícia começou então a cobrir as regiões nesses dias entre 6:00h e 2:00h do dia seguinte.

A tomada de rua por policiais é tanto parte da política de Tolerância Zero adotada em Nova Iorque (com a diferença que Nova Iorque tinha espaço para múltiplas prisões de pequenos delitos e por isso promoveu este trabalho paralelo) como do modelo de UPPs adotado pelo governo do Rio de Janeiro ou do governo de São Paulo no combate à Crackolândia. Com o detalhe que o método do Governo do Rio de Janeiro assemelha-se muito mais por não promover grandes prisões, apenas tomar o ponto. Lógico que é um caso muito diferente pois estamos falando de quadrilhas super equipadas e estruturadas, mas é uma boa ação sim. Talvez fosse mais correto não “avisar” previamente a tomada do espaço, o que permite aos chefes do tráfico providenciarem suas mudanças para novas favelas. Nos termos das políticas de Greenberg, a medida do governo fluminense só poderá ser realmente bem-sucedida quando todas as favelas estiverem tomadas e não houver mais onde as gangues possam se estabelecer, causando então um verdadeiro sufocamento das práticas, ou quando essas tomadas forem combinadas com aprisionamento dos grandes chefes do crime. Ainda assim, já é um começo.

Outra medida adotada pela polícia sob o comando de Greenberg é algo que, para ser adotada aqui, precisaria ser totalmente adaptada à nossa realidade. Tratava-se de bloqueios feitos às casas populares, os complexos de lá que, por aqui, seriam nossos CDHUs e BNHs. Por serem os bairros mais pobres, com maior presença e poder dos criminosos, a polícia instalou bloqueios noturnos para as pessoas que se dirigiam para lá. Estavam lá os maiores pontos de comércio de drogas e muitas casas e quartos eram usados como depósito e local para troca das drogas, especialmente após a perda de espaço nas ruas. Essas batidas policiais também seguiam as regras e conhecimentos adquiridos quanto aos dias e horários de maiores transações comerciais das drogas. As pessoas que se dirigiam aos bairros precisavam indicar se eram moradores e, se iam visitar alguém, era necessário, como num condomínio fechado, obter a aprovação do visitante para entrar no bairro. Quando o visitado não tinha telefone para ser contatado, a pessoa era escoltada até seu destino. Aqui no Brasil esses lugares seriam as nossas favelas que em cidades litorâneas concentram-se nas proximidades dos morros e em outras cidades nas “franjas” e perto de córregos. Ainda assim, a maioria desses grandes complexos de favelas têm poucos acessos. O problema para adaptar essa atuação nas grandes cidades seria bloquear tantas favelas existentes, por isso que esse tipo de ação seria mais recomendável em cidades de médio porte para baixo.

A luta para combater a criminalidade na sua ponta final tem sido bem sucedida no Brasil em alguns aspectos e ações espalhadas conforme suas realidades locais. São Paulo investiu na construção de presídios e enorme aumento de efetivo policial, resultando em muito mais prisões e quedas sensíveis nos índices de criminalidade. O Rio de Janeiro não teve aumentos tão sensíveis em proporção de policiais/habitantes, mas equipou a polícia e atuou “psicologicamente” junto à população com a criação das UPPs. Diadema, uma cidade que já foi símbolo de violência e favelização, criou limites para os horários de funcionamento dos bares. Todas essas ações têm como efeito reduzir drasticamente o campo de ação dos traficantes, maiores promotores da violência urbana no Brasil hoje.

Enxergar o comércio de drogas como uma atividade lucrativa pode ser um caminho a ser seguido no combate às drogas. Se os nossos níveis de aparelhamento e organização da criminalidade são impeditivos para alguns aspectos das lições de Reuben Greenberg, o conceito em si é bastante útil. Especialmente em médias e pequenas cidades, que também hoje estão tomadas pelo consumo de crack, as forças do estado têm bom conhecimento sobre os principais pontos de comércio das drogas e é possível concentrar as forças da lei em ações localizadas. Dificultar a transação entre comerciante e consumidor das drogas é reduzir a margem de lucro da operação e aumentar o nível de risco, tentando torná-la uma atividade inviável. Ainda que hoje a punição aos usuários de drogas esteja fora do alcance, não se deve esquecer que eles permanecem sendo variáveis presentes nesta sinistra equação que resulta em mais crimes e mais inocentes vitimados. Seguir esse caminho seria muito mais lúcido do que experimentar efeitos de canetadas inspiradas em situações ideais muito distantes de nossa realidade.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

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