Da Cia

@da_cia

O que é a esquerda hoje?

Uma maldade que estamos acostumados a lidar é com as geralmente desonestas definições dadas pela esquerda do que seriam os ideais defendidos por todos aqueles que não partilham das mesmas idéias políticas e filosóficas deles. Como é esforço vão pedir a cada um desses um pouco mais de informação e sinceridade para reconhecer os diferentes pontos de vista existentes, cabe a nós sabermos bem com quem estamos lidando quando ousamos debater e contra-argumentá-los. E então, o que seria um esquerdista hoje?

A pergunta não é relevante apenas para quem não se diz esquerdista. Socialistas de diversas partes põem-se a pensar o que é o papel da esquerda e quais são os desafios dela no mundo de hoje. Embora não admitam, isso se faz necessário após um século inteiro de experiências fracassadas, previsões catastróficas jogadas no lixo e erros que, para sorte da humanidade, foram superados por ideais mais justos economicamente, em termos práticos e morais.

De forma resumida, o ideário de esquerda começou a ser desenhado em bases teóricas como uma análise crítica do capitalismo, e segue desde sempre tendo-o como inimigo. Nos termo de T.J. Clark, influente pensador marxista da atualidade, ainda hoje “Por “esquerda”, entendo uma oposição radical ao capitalismo” .O que a História nos mostrou é que todas as alternativas ao “Capitalismo” são desastrosas e ofensivas às liberdades que hoje a esquerda diz defender. Mas chegarei a esse ponto mais adiante. Importa aqui dizer que mesmo com tantos erros e catástrofes provocados, a esquerda mundial não percebeu que capitalismo é o que acontece quando o Estado não é totalitário ao ponto de ditar os meios econômicos que as pessoas devem dispor. O capitalismo não é uma ideologia, um saber filosófico planejado em laboratórios e posto em prática aos poucos até se tornar predominante: é pelo contrário um sistema nascido e fortalecido pelas infinitas possibilidades naturais que cada ser humano busca para acumular as riquezas. O acúmulo de bens por um “possessive individualism”, como dito por Paul Johnson, é a base do capitalismo que leva a um termo muito comum hoje para definir e criticar a esquerda: o seu “coletivismo”, que age em oposição e enfraquecendo o “indivíduo”.

Um dos problemas históricos dessa crítica ao capitalismo é o enorme superficialismo ou mesmo desconhecimento de como se dão as trocas comerciais, as negociações e transações no mundo conforme as práticas capitalistas evoluem e expandem-se. Analisando as crises financeiras e quebras de bancos, veja como um pensador brasileiro desconhece por completo um termo central em sua afirmação e defende que plebiscitos devem decidir operações como empréstimos estatais para entidades financeiras:

Um Estado não pode emprestar bilhões para massa financeira falida sem uma manifestação direta daqueles que pagarão a conta

Oras, empréstimo, como o nome já diz (diria Chauí explicando preconceito), é algo que deverá ser devolvido por aquele tomador. Se isso não será pago por quem o tomou, então não se está falando de empréstimo, mas transferência de bens, pura e simplesmente. Transferência de recursos como por exemplo o pagamento absurdo para um filósofo trabalhar 15 minutos por mês ou tudo o que é jogado em organizações não-governamentais, artistas amigos do sistema…

Países que experimentaram o Socialismo não o querem de volta

Lembrança do legado comunista

Abandonada a luta no campo econômico após o fiasco inegável de todos os Estados comunistas, a esquerda parte então para a crítica por outros caminhos. Como derrotada e humilhada, ainda que insistindo em negar e ocultar a montanha de corpos vitimados, restou escolher como alvo os objetos de seu ressentimento. Dentre eles, os Estados Unidos, símbolo maior do triunfo da democracia liberal. Um dos grandes pensadores da esquerda brasileira, o mesmo que sugere plebiscitos para questões do Tesouro Nacional acima, tão logo ocorreram os atentados terroristas do 11 de setembro escreveu sem pudor:

Verdade seja dita: a terça-feira negra mostrou como a ação política mais adequada para a nossa época é o terrorismo.

O ódio aos Estados Unidos não encontra limites. Mesmo gente que, supostamente, importa-se com direitos humanos, direitos civis, causas feministas e gays encontra coragem para, diante duma visita de sabido inimigo de tudo isso, bradar:

Bem vindo, Ahmadinejad.

Fora desses absurdos extremos, há ainda os que advogam um novo esquerdismo nascido de um Golpe Militar fracassado e depois perdoado na Venezuela. São os apologistas de Hugo Chávez, bucha de canhão de todas as piores teorias gestadas numa organização de partidos de esquerda da América Latina (o Foro de São Paulo) que jamais se envergonhou de ter, em suas fileiras, representantes de organizações criminosas. Para esses, e para boa parte da esquerda contemporânea, o novo ideário socialista inverte a importância da substância econômica e filosófica, enfatizando então algo abstrato que poderia simplesmente ser resumido em “fazer o bem” através das divisões e confrontos. Por outro lado, abdica-se momentaneamente do internacionalismo para investir, em cada país, na construção de um nacionalismo inspirado nas raças e povos originários dos países. Michael Lebowitz é um desses pensadores de primeiro mundo com taras terceiro-mundistas diante do regime chavista. Sobre seu recente livro “Build it now: socialism for the twenty-first century”, comentou de forma elogiosa um fã:

“Build It Now helps us transcend the impasse created by the implosion of statist socialism. It provides a new vision of the collective worker ‘as human beings with needs rather than as competitors.’”

O próprio Michael Lebowitz, em artigo, expressou o ideal dessa esquerda. Vejam o que diz referindo-se a esse novo socialismo:

I suggest that it is a society in which the explicit goal is not the growth of capital or of the material means of production but, rather, human development itself—the growth of human capacities

Após todos os fiascos na construção artificial de uma nova sociedade e um novo homem, restou então esse discurso puramente emotivo, a dizer que tudo o que a esquerda quer é fazer o bem, que tudo o que está fora da esquerda é por definição o Mal. Uma religião sem a firmeza dos propósitos transcendentes só pode ser isso: uma péssima religião! Compreender isso ajuda a perceber a disposição esquerdista em abraçar causas tidas hoje como modernas: o casamento gay, luta contra o racismo e o feminismo.  Historicamente todos esses temas foram atropelados em países socialistas. Há um mea-culpa, reconhecimento da história nefasta deles diante dessas causas? Oras, quem não se vê obrigado a pedir desculpas por mais de 100 milhões de pessoas vitimadas, em sua maioria, pelo próprio governo em períodos de paz, por que pediria desculpas por “alguns” desses mortos?

Dito tudo isso, é claro que eu devo aqui deixar aberto um espaço para reconhecer qualquer injustiça que eu possa ter cometido nesse texto e nessas definições. Caso eu esteja errado, ou me tenha escapado alguma motivação ou verdadeira aspiração da esquerda, estarei pronto para reconhecer. Não é um grande gesto mas eu prefiro não chegar nem próximo de ser confundido com esse pessoal que ainda tem coragem de se dizer socialista.

P.S.: Conheçam mais sobre o Memorial às Vítimas do Comunismo em http://www.visitar-praga.com.pt/guia/017-monumento-vitimas-do-comunismo.html

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

Quanto vale o show de Emir Sader?

Emir Sader não é pouca coisa. Como intelectual, é um importante pensador petista e tido como um dos maiores intelectuais brasileiros vivos segundo a esquerda brasileira. Como militante, tem contato direto com o ex-presidente Lula e é prestigiado ainda hoje pela Presidente Dilma Rousseff. É também funcionário público, professor universitário. Já como político deve em breve assumir uma cadeira no Senado Brasileiro pelo PT do Rio de Janeiro, já que é o segundo suplente de Lindberg Farias, que deve se candidatar a Governador no ano que vem. Há a possibilidade de Lindberg não se candidatar ano que vem por impedimentos da Lei de Ficha Limpa (leia aqui), o que não seria novidade nessa chapa-quente eleita para o Senado Federal – o primeiro suplente já foi barrado pela Ficha Limpa.

O que não se sabia até agora era que Emir Sader também é um empresário muito bem-sucedido. A informação inicial surgiu no blog “Coturno Noturno“, vejam só:

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Somente em 2013, conforme reproduções acima do Portal da Transparência, a empresa de Sader já faturou mais de R$ 90 mil. Ganha, por exemplo, R$ 18 mil por entrevista com dirigente estrangeiro que realiza para o Repórter Brasil, programa com audiência zero da EBC.

A empresa individual de Emir Sader é um sucesso! Tanto que seu contrato inicial com a EBC, Empresa Brasileira de Comunicação, estatal fundamental para difusão de informação e conhecimento para nossa sociedade, já ganhou alguns aditivos. Se estádios, estradas e hospitais custam mais do que o contratado inicial, por que não a empresa de tão notório pensador? Vento que bate em empreiteiro também bate em twittêro!

A empresa de Emir Sader foi contratada inicialmente no dia 07/08/2012, com limite de gastos de até R$180 mil. Zelosos pelo dinheiro público e pela honestidade, EBC e a “Sader Assessoria e Participações LTDA.” não gastaram tudo isso, apenas R$165 mil (aqui).

ContratoOriginal_EmirSader É importante dizer que a figura ímpar de Emir Sader e sua indubitável credibilidade foram fundamentais para sua escolha, bem como para a “inexigibilidade de licitação”. A nota de inexigibilidade de licitação foi emitida no mesmo dia 07/08/2012, tudo totalmente transparente http://www.jusbrasil.com.br/diarios/39502886/dou-secao-3-13-08-2012-pg-2:

EXTRATOS DE INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO
ESPÉCIE: Ato de Inexigibilidade de Licitação. Objeto: Contratação de serviços de consultoria, produção de conteúdo e comentário sobre política internacional para o programa jornalístico “Repórter Brasil”, a ser firmada entre a Empresa Brasil de Comunicação S.A. – EBC e a Sader Assessoria e Participações Ltda. Fundamento Legal: Lei n° 8.666/93, art. 25, caput, e Decreto nº 6.505/08, art. 64, III. Comunicação de Inexigibilidade em 07/08/2012. Virgilio Sirimarco. Diretor de Administração e Finanças. Ratificação de Inexigibilidade em 07/08/2012. Marco Antonio Fioravante. Diretor Jurídico, em razão de delegação de competência realizada por meio da Portaria-Presidente nº 327-A/2011. Valor Global: até R$ 180.000,00 (cento e oitenta mil reais). Processo nº 1.289/2012.

Após o grande sucesso e repercussão das participações de Emir na nossa TV Pública a EBC renovou o contrato de Emir Sader, aumentando o prazo e a remuneração. O valor subiu para R$279 mil:

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Não sabemos desde quando existe essa empresa de Emir Sader. O que esperamos é que, como todo empresário honesto e trabalhador, ela siga em frente e tenha muito sucesso. Hoje ela já é uma empresa de excelente status, tanto que tem sua sede num endereço que o pensador Emir chamaria de “elitista”: Avenida Moema, em São Paulo. Deve haver razões comerciais e mercadológicas para o filósofo e suplente carioca ter escolhido tal endereço para sediar sua empresa, mas quem somos nós para entender a mente dos grandes?

Em 2010, quando foi segundo suplente na vitoriosa chapa barra-pesada (em termos de Ficha Limpa) para o Senado Fluminense, Emir Sader possuía como bens apenas um apartamento avaliado em R$700 mil (Na Avenida Visconde de Albuquerque, Leblon) e um carro Golf. Muito pouco para um showman como ele.

Por que showman? Vejamos o que diz a regra de assinatura de contratos públicos que dispensam licitação. Para facilitar foram ocultados os trechos que claramente não teriam a ver com as qualificações de Emir:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8666cons.htm

Art. 25. É inexigível a licitação quando houver inviabilidade de competição, em especial:
II – para a contratação de serviços técnicos enumerados no art. 13 desta Lei, de natureza singular, com profissionais ou empresas de notória especialização, vedada a inexigibilidade para serviços de publicidade e divulgação;
III – para contratação de profissional de qualquer setor artístico, diretamente ou através de empresário exclusivo, desde que consagrado pela crítica especializada ou pela opinião pública.
§ 1o Considera-se de notória especialização o profissional ou empresa cujo conceito no campo de sua especialidade, decorrente de desempenho anterior, estudos, experiências, publicações, organização, aparelhamento, equipe técnica, ou de outros requisitos relacionados com suas atividades, permita inferir que o seu trabalho é essencial e indiscutivelmente o mais adequado à plena satisfação do objeto do contrato.
Quanto ao item II, Emir Sader só se enquadraria nas características da linha destacada em negrito abaixo:
Art. 13. Para os fins desta Lei, consideram-se serviços técnicos profissionais especializados os trabalhos relativos a:
I – estudos técnicos, planejamentos e projetos básicos ou executivos;
II – pareceres, perícias e avaliações em geral;
III – assessorias ou consultorias técnicas e auditorias financeiras;
III – assessorias ou consultorias técnicas e auditorias financeiras ou tributárias; (Redação dada pela Lei nº 8.883, de 1994)
IV – fiscalização, supervisão ou gerenciamento de obras ou serviços;
V – patrocínio ou defesa de causas judiciais ou administrativas;
VI – treinamento e aperfeiçoamento de pessoal;
VII – restauração de obras de arte e bens de valor histórico.

Embora o twitter de Emir Sader seja bem divertido e trate de “temas em geral”, não é possível imaginar que tenha sido contratado por essa qualidade. Sendo assim, resta a outra hipótese, do III item, “profissional de qualquer setor artístico, diretamente ou através de empresário exclusivo, desde que consagrado pela crítica especializada ou pela opinião pública.“.

Aproveitando a renovação e ampliação do contrato, fica aqui nossa sugestão: Que Emir Sader comente também futebol. Expertise ele já demonstrou que tem, como poderá ser visto nas imagens abaixo. Ou será que R$280 mil não valem?

 

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Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

 

Aurora Dourada – Sempre há espaço pro nefasto

Como explicar o partido Aurora Dourada?

Como revolucionários de esquerda, culpam os bancos pela crise e odeiam o que chamam de capitalismo financeiro;
Como os nacionais socialistas, são xenófobos;
Como boa parte da esquerda mundial, odeiam judeus e os Estados Unidos;
Um líder do partido diz que eles devem seguir o modelo de atuação do Hezbollah;
Como Ahmedinejad, o maior líder do partido minimiza o Holocausto;
Como amplos grupos da esquerda brasileira, acusam a mídia de manipular informações e estar a serviço de obscuros interesses internacionais;
Como quaisquer grupos revolucionários, não se envergonham de praticar atos violentos;
São ferrenhos defensores de bandeiras ecológicas;
Defendem barreiras protecionistas contra produtos estrangeiros, assim como o empresariado brasileiro;
Se autoproclamam “o novo” contra os velhos esquemas políticos do país;
Como os líderes autoritários e populistas recentes da América Latina, dizem que é preciso um novo regime para quebrar os esquemas de corrupção que “se perpetuam” no país;
Idolatram um líder grego que imitava ações de Mussolini (inclusive no campo trabalhista, ao estabelecer jornada de 8h diárias, dar seguidos aumentos no valor do salário mínimo e criar um Instituto de Seguridade Social), mas que entrou em guerra contra a Itália Fascista após uma invasão italiana. Esse líder era um germanista que admirava Hitler mas caiu no lado oposto na II Guerra Mundial e, se sua morte demorasse mais alguns meses, teria visto seu país ser invadido pelos nazistas;

O movimento político capitaneado pelo partido “Aurora Dourada” traz em suas características e discursos um grande apunhalado do que há de pior na história política do Ocidente nos últimos 100 anos. E tem sido bem-sucedido! De um partido minúsculo, com 19 mil votos nas eleições de 2009 (0,29%, abaixo até dos nossos partidos de extrema-esquerda como PCO e PSTU), em apenas 3 anos teve um crescimento expressivo para as eleiçoes de Maio de 2012, quando atingiram 7% do eleitorado.

O partido, fundado em fevereiro de 1983 por Nikos Michaloliakos, tem crescido sob argumentos e desculpas semelhantes a muitos movimentos extremistas e totalitários já vistos na história, como resultado de um caldeirão que contém recessão (perda de 18,5% do PIB em 6 anos!), insolvência do Estado, corte de gastos públicos, corte de “benefícios sociais” (que geraram a crise de insolvência), perda do poder aquisitivo, descrédito de toda a classe política, perda de confiança no poder público e descontentamento com a qualidade dos serviços públicos.

Cartaz do Aurora Dourada em defesa do Meio Ambiente

Cartaz do Aurora Dourada em defesa do Meio Ambiente

Embora esse caldo contenha elementos da ascenção de muitos comunistas ou mesmo “socialistas do século 21”, é com o nacional socialismo que o paralelo é mais preciso. Há na Grécia um sentimento de humilhação nacional diante das interferências do FMI como condição para ajuda financeira. Há na Grécia também o sentimento de identidade histórica nacional, a “helenística”. O Partido Aurora Dourada abomina os comunistas e também considera que os conservadores falharam na proteção da identidade e soberania nacional. A simbologia adotada pelo partido é muito semelhante à nazista (que por seu turno adotava estética stalinista).Ainda assim, os partidários negam que sejam nazistas ou neo-nazistas.

O Aurora Dourada só começou suas atividades de fato em 1993: “Nós começamos de uma forma Leninista: Decidimos lançar um jornal, Aurora Dourada, e a construir um partido ao redor dele. Nos anos 80, flertamos com todos os tipos de ideias do entreguerras, inclusive o Nacional Socialismo e o Fascismo. Mas, nos anos 90, nós resolvemos nos posicionar em favor do nacional populismo“. (Entrevista de N. Michaloliakos em 2012). Seus documentos públicos indicam uma ideologia que visa estabelecer um Estado fundado no nacionalismo, que chamam a “terceira maior ideologia da história”. Planejam também fazer uma engenheira social para criar uma nova sociedade com um novo indivíduo e criticam a sociedade contemporânea por possuir falsos valores sociais. “O nacionalismo é a única absoluta e genuína revolução pois busca o nascimento de novos valores morais, espirituais, sociais e mentais“.

No jornalismo mundial e nas poucas referências e notícias que temos sobre o partido, o Aurora Dourada é chamado sempre de Partido de Extrema-Direita pois convenciona-se atualmente chamar de extrema-direita a todo tipo de movimento político nacionalista. Curiosamente, na América Latina, Brasil incluso, o nacionalismo é uma bandeira da esquerda. Um nacionalismo diferente, que se faz muito mais pela negação e confronto das heranças européias após a colonização, um nacionalismo que elogia o imaginado “bom selvagem” destruído pelos invasores que estavam mais de um milênio à frente em termos de conhecimento e organização social. O ódio dos partidários do Aurora Dourada aos estrangeiros é a exacerbação do ódio dos Socialistas do Século 21 na América Latina aos ‘brancos de olhos azuis culpados pela crise mundial’, como disse certa vez um presidente da região tido por moderado e equilibrado.golden-dawn-greece-members

O distanciamento das situações às vezes leva à criação de rótulos para qualificar e facilitar a compreensão. O Aurora Dourada é um partido de ideais nefastos e temerosos mas que, olhando nas minúcias e somando várias características, podem ser vistos em muitos outros lugares. Todos nós abominamos o nazismo e nem mesmo o aceitamos como ideologia válida e legítima, daí deriva o assombro com que observamos o crescimento de um partido tão semelhante ao nazista. Causa assombro também ver o povo de um país com bons indicadores de educação e qualidade de vida se apegar a ideias tão absurdas. Cabe aqui dizer que isso foi visto e dito da ascenção nazista no entre-guerras, mas poderia ser dito também da Argentina de várias épocas, inclusive recente, sempre tão afeita a autoritarismos populistas.

O Aurora Dourada deixa claro que, embora a história não ande em círculos, velhos erros podem ser repetidos desde que criadas as condições para tal. Nos parece assombroso ver algo parecido com o nazismo crescer num país civilizado europeu, mas não ligamos muito para a ascenção de vários movimentos de esquerda e extrema-esquerda serem bem-sucedidos na América Latina. Não há a menor condição da Grécia, mesmo que seja administrada pelo Aurora Dourada, causar o estrago imposto pela Alemanha sob Hitler, da mesma forma como tomamos por inofensivos os inúmeros países pobres da América Latina que vão, aos poucos, assumindo feições de comunismo internacionalista e comunitário. As características comuns que unem o fortalecimento de movimentos totalitários e historicamente abomináveis devem ser observadas sempre com atenção para que possamos apreender o que pode ser feito para evitar o sucesso dos que, na primeira oportunidade, acabariam com a democracia e, mais adiante, começariam seus grandes expurgos.

Sábios políticos costumam dizer que grandes crises são oportunidades boas demais para serem desperdiçadas. Políticos totalitários também são sábios.

* Mais informações sobre a História do Aurora Dourada, leiam “The rise of the Golden Dawn – The new face of the far right in Greece

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

Dilma faz politicagem baixa diante do Papa

É demais pedir que o Governo brasileiro pare de fazer politicagens brasileiras cotidianas como trocar apoio às suas políticas por cargos comissionados que abrem oportunidades de negócios aos partidos e líderes partidários? Sim, parece ser demais.

É demais pedir ao Governo brasileiro parar de avançar sobre os recursos públicos, criando cargos e mais cargos, fazendo viagens desnecessárias e nababescas? Sim, parece ser demais.

É demais pedir que o Governo brasileiro NÃO faça uso da religião como arma política rasteira, sempre ao lado de figuras notáveis cuja fé parece ser instrumento de objetivos bastante mundanos? Sim, parece ser demais.

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Dilma fazendo campanha em Aparecida do Norte/SP

Inocentes úteis e subordinados ao Governo atual diriam que isto tudo é culpa do nosso sistema político, que não há como governar sem alianças amplas. Há um amplo arco cínico de argumentos governistas a ignorar que a coalisão governista atual é o mais poderoso ajuntamento político já visto na nossa história democrática e ainda assim posicionam-se como vítima do sistema, não predadores do mesmo.

Porém, há coisas simples, gestos que bastariam um pouco de inteligência e respeito para transmitirem bons sinais. Ninguém obriga uma Presidente a dizer nada em público. Nem mesmo essa Presidente, que adora ser submissa ao ex-presidente. Sendo assim, é à Dilma e somente ela que devemos criticar e menosprezar diante da politicagem rasteira cometida na presença do Papa.

Seu discurso foi abominável, vergonhoso. O Papa é Chefe de Estado mas o Vaticano importa no cenário internacional muito mais pelo seu simbolismo e importância religiosa do que econômica. A comoção à visita do Papa existe por ser ele a mais importante figura de uma religião histórica, fundamental para a trajetória da nossa civilização e presente na vida milhões de brasileiros que seguem seus ensinamentos. Pois eis que, diante do Papa, Dilma transformou seu discurso em horário eleitoral, palanque eletrônico.

Mais uma vez, Dilma repetiu que o Brasil só presta nos últimos 10 anos. Mais uma vez, repetiu que o Governo do PT ajuda os pobres. Pior ainda, tentou novamente reverter o efeito negativo de suas más respostas diante dos protestos, tratando as manifestações como consequência do sucesso das políticas petistas (Lula também tentou isso contando mentirinhas, leiam aqui).

A justificativa para puxar esses temas está nesse trecho do discurso presidencial:

Em seu discurso de 16 de maio, Vossa Santidade manifestou preocupação com as desigualdades agravadas pela crise financeira e o papel nocivo das ideologias que defendem o enfraquecimento do Estado, reduzindo sua capacidade de prover serviços públicos de qualidade para todos. Manifestou sua preocupação com a globalização da indiferença, que deixa as pessoas insensíveis ao sofrimento do próximo.

O discurso referido foi feito pelo Papa aos embaixadores dos seguintes países: Kyrgystão, Antígua e Barbuda, Grão Ducado de Luxemburgo e Botswana. Um prêmio a quem encontrar metade deles num mapa em menos de um minuto.

A equipe de Dilma buscou em todas as atividades do novo papa uma justificativa qualquer para fazer sua politicagem rasteira e tudo o que encontraram foi isso. Em um discurso dirigido a países como tais, fazia todo sentido o papa falar de aspectos econômicos, tanto mais por serem eles embaixadores, representantes de seus Governos. A visão que o Papa apresenta da Economia no discurso faz todo o sentido no âmbito do pensamento misericordioso católico. Já o corte histórico feito pela petista para o Papa mas na verdade de olho na sua populariade eleitoral é um ato baixo e inoportuno.

Se aqui não fazemos politicagem eleitoreira e partidária, também não fugimos à Política. Baseado no mesmo discurso do Papa que a equipe de Dilma inspirou-se, trago sem cortes e com negritos as partes importantes e diretamente relevantes que Dilma e sua equipe deveriam ter absorvido. São lições simples e rápidas que tratam tanto de problemas práticos  dos cidadãos (inflação, endividamento) quanto distorções e crimes que foram também combustível para as manifestações recentes que vitimaram o Governo:

O endividamento e o crédito, outrossim, distanciam os Países e a sua economia real e os cidadãos do seu poder de aquisição real.Além do mais, pode-se acrescentar a tudo isso uma corrupção tentadora e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. O desejo de poder e de posse tornou-se ilimitado.
Atrás desta atitude oculta-se a rejeição da ética, a rejeição de Deus. Como a solidariedade, também a ética incomoda; ela é considerada contraproducente; como muito humana, porque relativiza o dinheiro e o poder; como uma ameaça, porque rejeita a manipulação e a submissão da pessoa.
A ética conduz a Deus, que se aliena das categorias do mercado. Deus é considerado, pelos financeiros, economistas e políticos, como incontrolável ou até perigoso, porque induz o homem à sua plena realização e à independência de qualquer tipo de escravidão. A ética – uma ética naturalmente não ideológica – permite, na minha opinião, criar um equilíbrio e uma ordem social mais humanos.
Neste sentido, encorajo os peritos financeiros e os governantes dos seus Países a refletirem sobre as palavras de São João Crisóstomo: «Não compartilhar com os pobres os próprios bens é roubar deles e tar-lhes a vida. Os bens que possuímos não são nossos, mas deles» (Homilia sobre Lázaro, 1, 6 : PG 48, 992D).

Leiam aqui o discurso completo do Papa aos embaixadores do Kyrgystão, Antígua e Barbuda, Grão Ducado de Luxemburgo e Botswana: http://papa.cancaonova.com/discurso-do-papa-francisco-aos-embaixadores-160513/

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

Jean Wyllys – A distância entre discurso e prática

JeanWyllysContigoQuando o amigo Leonardo Lopes se indignou com a reclamação de Jean Wyllys por receber salário baixo diante do tanto que trabalha, talvez não imaginasse até onde esse tema nos levaria. A exposição de alguns gastos do “Pobre Jean” e alguns cálculos simples de seus rendimentos expuseram a insensibilidade do ex-BBB e seu juízo auto-condescendente. Jean Wyllys julga-se superior moralmente e intelectualmente a seus pares do Congresso e seus críticos da sociedade (isso está registrado em vídeo aqui) . Baseado nessa própria fantasia, acredita não ter explicações a dar sobre suas incoerências.

As reações de Jean às perguntas foram as mesmas dadas aos fantasmas que Jean imagina combater. Como sempre, Jean teve de apelar a uma autoridade própria diante da insignificância ou ilegitimidade de quem o critica. O esquema mental do ex-BBB só funciona ao categorizar a si e aos críticos em castas e grupos homogêneos bem definidos. Ele, o líder de uma minoria que tem suas justas lutas, julga-se imaculado por essa posição. Os críticos são agora reacionários,  e na maioria das vezes para ele, “fundamentalistas cristãos”. Tudo para fugir dos incômodos.

Mais absurdo ainda, como suposto líder e representante de uma minoria, Jean Wyllys deveria entender que a identidade é uma importante característica afirmativa necessária para grupos de pessoas que têm interesses e gostos semelhantes, e jamais deveria ele, como não pertencente a um grupo, querer julgar quem deve ou não deve ser um verdadeiro representante desses grupos. Estou me referindo às inúmeras vezes em que o ex-BBB critica seus inimigos chamando-os de falsos cristãos ou, no limite de sua capacidade irônica, chamando-os sempre de “cristãos” entre aspas.

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Imagine uma pessoa que vá criticar o deputado e refira-se a alguma característica determinativa dele colocando-a entre aspas. Digamos que alguém fale “Jean Wyllys, o líder e representante do partido ‘Socialista’“, de forma a ironizar essa característica ou duvidar das credenciais de socialista do deputado? Oras, se Jean Wyllys é do Partido Socialismo e Liberdade, se diz admirador de Gramsci e socialista, quem somos nós, não socialistas, pra julgá-lo? Ainda que o mesmo seja um deputado, uma pessoa pública, é uma questão de foro íntimo sua preferência por regimes que, onde implantados, levaram às vezes a fome e genocídio (mais informações aqui), outras vezes a perseguição de minorias (aqui e aqui). As preferências íntimas de uma pessoa, se não levarem à violência de outras pessoas ou quaisquer crimes, são livres e dignas de respeito.

Há casos de crimes horrendos históricos que, por questões humanitárias e respeito à memória, julgou-se por bem proibí-las de existirem como formas de expressão. São os casos do racismo (qualquer pessoa que defenda um ponto de vista racista está cometendo um crime inafiançável) e do nazismo (é proibido a existência de organizações políticas que se declarem nazistas). Felizmente para o deputado ele não vive num país de passado socialista como boa parte do Leste Europeu, onde fundar organizações ou mesmo reproduzir símbolos dessa ideologia são criminalizados pelos grandes estragos que eles impuseram a essas populações.

O que importa aqui não é o que Jean Wyllys pensa e sente, mas o que ele diz e pratica como homem público. Quando Jean Wyllys disse que ganhava pouco, foi preciso mostrar o quanto isso é irreal. Em vez de tentar desqualificar quem o acusa, Jean deveria explicar os dados trazidos no post, ser tão claro quanto possível e recomendável para alguém que realmente se crê superior.

Mas Jean Wyllys disse mais na entrevista a Marcelo Tas. Em determinado momento, o ex-BBB disse que “O cara que sonega o imposto de renda, está sendo corrupto, sabe? O cara que não dá a nota fiscal, ele está sendo corrupto” Tá aqui para quem duvidar  . Pois bem, qual não foi nossa surpresa constatar que há casos de despesas volumosas do deputado para as quais não foram apresentadas notas fiscais? Vejam os exemplos abaixo:

Gastos do Gabinete de Jean Wyllys sem Nota Fiscal

Gastos do Gabinete de Jean Wyllys sem nota fiscal

Como é possível nobre Deputado? Talvez seja o caso de Vossa Excelência conversar com seus assessores, temos certeza que tal atitude jamais passaria batida por seu crivo ético. Curioso: A empresa “Mandato” tinha recibo (não nota fiscal) em Janeiro de 2013, mas em Fevereiro, quando houve a maior despesa, não. “O cara que não dá a nota fiscal, ele está sendo corrupto”… Foram suas palavras.

Olhando também seus gastos, notamos que Vossa Excelência aluga veículos na “NEW CLASS-LOCAÇÃO DE VEÍCULOS LTDA ME“. Essa empresa só aluga veículos na Câmara para o nobilíssimo ex-BBB e um outro deputado. Em seu caso, são R$ 4.000,00 por mês. Em um ano o gasto com seu aluguel permitiria adquirir um veículo zero com airbag e ar-condicionado, pagar o seguro e também IPVA e licenciamento. Mas Ok, talvez não fosse um carro à altura de um deputado que diz ganhar pouco e, nos 3 dias que fica em Brasília (a se julgar pela média dos deputados), precisa de conforto. Só que tem uma outra coisa quanto a essa empresa: como ela emite poucas Notas Fiscais, não acha? Veja abaixo os números das Notas Fiscais emitidas nos meses mais recentes, repare como o salto numérico é muito pequeno:

001056 – Janeiro/2013
001069 – Fevereiro/2013
001087 – Março/2013
001100 – Abril/2013
001108 – Maio/2013

Não há nada de errado com a empresa preferida pelo deputado. Pode-se verificar que ela inclusive possui licença da ANTT para “prestação de serviço de transporte rodoviário interestadual e/ou internacional de passageiros, sob o regime de fretamento.”, conforme resolução Nº 3.662/11 , de 28 de abril de 2011. Talvez aqui seja apenas o caso de ressaltar a dificuldade que a empresa está passando, ao ponto de emitir 10, 11 Notas Fiscais por mês no período mensurado acima, mesmo sendo uma locadora de veículos que também tem autorização para o serviço de fretamento. Fique atento deputado, não abandone a empresa, a situação não está fácil para ninguém!

Não existem classes superiores e inferiores de pessoas. Não existem eleitores e contribuintes melhores e piores. Embora a sorte e o acaso do nosso sistema político tenham dado um mandato de deputado federal à ex-celebridade de reality show da Rede Globo, ele deve entender que desde que tomou posse pode e deve dar explicações sobre o que faz. Num regime socialista, alguém como Jean Wyllys estaria livre de prestar esclarecimentos pois estaria ao lado do poder inevitavelmente totalitário. Estando num país livre e com algumas boas ferramentas de transparência, o deputado tem uma chance única de mostrar que , independente de ideologia, ele é uma pessoa íntegra, transparente e de cabeça aberta ao diálogo.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

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