Da Cia

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O expurgo dos haitianos do Acre e o silêncio das ONGs

Uma das minorias mais bem organizadas e estruturadas em termos de representação social no país, sem dúvidas, é aquela defendida pelos movimentos negros. Os negros do país, que representam 7,6% do total da população (segundo dados do IBGE), podem reclamar de desproporcionalidade na representação em cargos públicos e comandos partidários, alegar todas as dificuldades enfrentadas historicamente no país, mas dificilmente poderiam dizer que, no Brasil, têm pouca organização social e espaço no debate político.

Tanto é assim que tornou-se comum vermos representantes de ONGs ligadas ao movimento negro serem consultados para comentar fatos, ou mesmo gerarem fatos, com certa frequência. A adoção cada vez mais ampla das políticas de cotas raciais é outra prova da eficiência desses movimentos pois elas avançam mesmo havendo grande divisão da população quanto ao tema. Dada essa introdução, cabe perguntar por qual motivo o movimento negro, as inúmeras ONGs da causa e os incontáveis artistas ligados à questão não deram uma palavra sequer a respeito do grande expurgo de haitianos executado pelo governo petista do Acre?

O resumo da história é: devido à crise e desesperança no Haiti, seus habitantes têm entrado no Brasil pelo Acre. O governo estadual de lá, comandado pela oligarquia petista dos Viana, diz não ser mais possível recebê-los. O normal seria pedir socorro ao governo federal, também comandado pelo PT. Não houve tal apelo e os alojamentos para imigrantes ficaram superlotados. Para superar a crise, o governo do Acre simplesmente despachou os haitianos para outros lugares. Sendo mais correto: para o Estado de São Paulo.

Pastoral do Migrante em SP oferece ajuda humanitária a haitianos

Pastoral do Migrante em SP oferece ajuda humanitária a haitianos

A descrição dada por um dos haitianos expurgados é enojante: o governo do Acre colocou as pessoas num avião da FAB e levou-os a Porto Velho, Rondônia, de onde partiram em ônibus rodoviário para São Paulo. Mais de 400! Onde estão as manifestações das organizações de esquerda brasileiras? Mesmo os jornalistas brasileiros, como é que não foram atrás dessa história? Será que o governo do Acre forneceu dinheiro para que eles se alimentassem durante os quase 3 dias de viagem pelas sofridas BRs do caminho? Ofereceu-se um mínimo de dignidade e conforto? Eles tinham direito de negar a passagem oferecida, ou foram obrigados? Quais foram os destinos oferecidos a eles? Por que não foram enviados para estados mais próximos, ainda que fosse para uma parada temporária?

Mas não é só isso. Chegando a São Paulo, quem os acolheu foram padres do centro da cidade. Toda a multidão de subjornalistas e comentaristas de internet que se indignou com uma ação de prisão da Polícia Civil na crackolândia por ela ter sido feita “de surpresa”, silenciou diante do despejo surpresa. O prefeito de São Paulo, o já enfraquecido e pouco influente Fernando Haddad, do mesmo partido da oligarquia Viana, foi traído pelos seus companheiros e coube a seu Secretário de Direitos Humanos reagir, chamando a ação do governo do Acre de “despejo”. Quanto à esquerda brasileira, que tem São Paulo como sua principal base de operações, não ofereceu nada aos miseráveis. CUT e entidades sindicais ligadas à extrema esquerda não apareceram até agora para oferecer ajuda para que encontrem empregos. Os milionários do PT, que arrecadaram fortunas para os criminosos do Mensalão, ainda não abriram vaquinha para ajudar os expurgados. A revista Carta Capital, que em sua versão online tem um “especialista na causa negra”, não exibe uma linha sequer em condenação ao enxotamento. MV Bill, Mano Brown, Facção Central e Criolo, supostos porta-vozes das causas do movimento no RAP, também estão quietos. Já os oligarcas Viana aproveitaram a situação para fomentar ódio anti-paulista no resto do Brasil: São Paulo estaria reclamando do despejo por ter uma “elite insensível”.

Por que a morte de Amarildo mobiliza mais do que tratar gente como carga? Por que a UNEGRO tem um post do dia 25/04 sobre refugiados no Brasil, mas não reclama da crueldade do governo do Acre e da falha do governo federal? E a Educafro, que tanto alarde faz nas São Paulo Fashion Week, o que tem a oferecer aos haitianos? Jean Wyllys, tão esforçado para ganhar destaque no noticiário, por que não toma a frente exigindo ação do governo federal e do Acre? E toda essa gente incomodada com a inteligente ação de Daniel Alves e Neymar para combater o racismo das torcidas, por que silencia quanto ao sofrimento de negros estrangeiros? Se a justificativa é de que só defendem “negros brasileiros”, isso também não se sustenta pois cedo ou tarde esses haitianos ganharão cidadania brasileira…

A verdade é que não há nada de novo na gigantesca omissão dessas ONGs e engajados. Segue-se aqui um padrão já bastante claro e algumas vezes mostrado aqui neste portal de como agem as ONGs de esquerda. Relembrem por exemplo como acabou a mobilização anti-Feliciano tão logo ele propôs uma troca que constrangia o PT. Vejam também esse post, sobre o financiamento das ONGs de esquerda. Não quero com este post dizer como devem ou não agir ONGs às quais não pertenço. O que é preciso ser mostrado sempre que possível é como causas de apelo popular são manipuladas e comandadas por partidos políticos de esquerda. Não é exclusividade do Brasil, mas é aqui talvez o lugar em que essas ações são mais indecorosas por envolverem dinheiro e dependência do poder público. Simula-se a popularidade de uma causa, esta causa é alinhada à pauta do governo que retribui com convênios e repasses de verba, em troca de total silêncio toda vez que este governo falhar.

São coisas totalmente distintas se opor a uma causa e condenar entidades que supostamente se dedicam a lutar por ela. A omissão de todas as ONGs e “celebridades” aqui citadas deixa muito claro que elas se importam muito mais com agendas partidárias do que com o bem-estar dos que dizem proteger. Não é que 500 haitianos valham menos do que um Amarildo ou que o marginal amarrado num poste, pra ficar em exemplos emblemáticos. O que há é apenas um abominável cálculo político-partidário.

Vejam alguns links sobre o caso:
http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2014/04/governo-promete-montar-estruturas-em-4-cidades-para-receber-haitianos.html
http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/04/secretario-critica-acre-por-despejar-haitianos-em-sp-sem-aviso-previo.html
http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,acre-deporta-para-sao-paulo-400-refugiados-do-haiti,1157704,0.htm
http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,haitianos-estao-sendo-despejados-em-sao-paulo-diz-secretario,1159640,0.htm

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

2014 – A eleição da violência

Existem muitos critérios que podem definir o voto presidencial em países democráticos, porém é seguro dizer que o mais presente sempre terá algo a ver com a economia. Recessão, desemprego e inflação são exemplos de como as mais importantes variáveis na equação do voto são do grupo econômico. Num país com povo (ainda) tão pobre como o nosso, é natural que ela tenha uma importância ainda maior.

Foi assim que, após o caos inflacionário da era Sarney, o desespero econômico mais o desencanto com “tudo que está aí” abriu alas para projetos presidenciais radicais: um arrivista (Collor), um projeto comunista (o PT de então) e outro socialista-caudilhesco (Brizola, que por muito pouco não foi ao segundo turno). A vitória contra a inflação proporcionada pelo Plano Real levou um até então desconhecido do povão à Presidência ainda no primeiro turno, feito que foi consolidado 4 anos mais tarde com a reeleição também no primeiro turno. Apagão e cansaço em relação ao estilo tucano em 2002 pavimentaram o caminho do lulismo, que em 2006 e 2010 seguiu em frente após uma extraordinária época de oportunidades para o Brasil (crescimento gigantesco de China e Índia, aumentando demanda por commodities).

É extremamente difícil para o grupo disforme que se aglomera no termo “direita do Brasil” vencer eleições tratando de temas econômicos. Nem mesmo a perspectiva de crises, inflação alta ou baixo crescimento ajudam pois o mais fácil seria a população responder às políticas econômicas que nos levaram a esses problemas escolhendo gente que acentuaria as medidas responsáveis por isso. Em termos econômicos, o povo brasileiro é totalmente de esquerda.

Não há aqui nenhum juízo quanto à preferência do brasileiro pelas políticas econômicas de esquerda. Da mesma forma que em termos de costumes o mais natural e “seguro” para essa mesma população seja adotar opiniões conservadoras, é bem claro que o discurso de esquerda fala mais ao povo, ainda mais voltando ao mote do início deste texto, um povo tão pobre – que por consequência estuda menos, se instrui menos, consome menos cultura. Também é natural que pessoas com poucos bens duráveis e propriedades tenham menores noções de respeito à propriedade, dêem menos importância ao tema. E imaginem então explicar que políticas de gatilho salarial alimentam o ciclo inflacionário, que cada benefício e novo gasto que se peça ao governo deve necessariamente exigir fontes de financiamento e que essas só existem via impostos… Os mais pobres e com subempregos também não “vêem” o pagamento de impostos via retenção na folha de pagamento ou pagando carnês no final do ano. Pessoas com pouco dinheiro mais dificilmente abrem legalmente seus negócios, tendo então que sentir na pele o peso, os custos e a ineficiência da imensa burocracia estatal que se justifica consumindo-se a si mesma. Por fim, a narrativa revanchista e de ódio econômico aos ricos tem fácil absorção num país tão pobre e historicamente com disparidade social tão grande como a nossa.

Acontece que 2014 tem tudo para ser a primeira eleição nacional em que o grande tema não será algo relacionado à economia, mas à sobrevivência mesmo da população: a violência. Se em outros tempos já tivemos piores índices de assassinatos e roubos, além duma eterna subamostragem da real gravidade desse problema, diversos fatores contribuem para que estejamos hoje vivendo o período de maior sensação de insegurança. Há um crescimento substancial no poder aquisitivo da população desde a chegada do Plano Real. Houve uma política ativa de incentivo ao consumo pela cessão de crédito, aumentando sua importância nos indicadores econômicos do país e criando uma sensação de, como dizem na esquerda, empoderamento dos mais pobres. Em paralelo e independente disso, houve uma aceleração enorme da evolução tecnológica no ramo da informática, tornando computadores e demais aparelhos que surgiram desde então meios importantíssimos de comunicação e busca de informação para pessoas de todas as classes. O fim da inflação trouxe maior possibilidade de ascenção econômica, o ciclo de prosperidade das novas potências econômicas aumentou o dinheiro circulando pelo país, o governo estimulou o consumo interno e então o que temos é um período jamais visto de inversão de papéis.

Não é difícil imaginar o descontentamento da pessoa que sonhou ter um carro, ainda mais num país cuja população tanto valoriza os veículos automotores,e quando finalmente pode tê-lo descobrir que tem de pagar caro para ter a sua nova propriedade segurada ou correr o risco de perdê-la em um momento. E quantos desses novos donos de carro não foram vítima de assaltos? Transporte essa situação para outros bens almejados pelos pobres: tv, notebook, celular, tênis de marca, relógios. Tudo isso chama atenção e, na lógica do crime brasileiro, tornam a pessoa uma potencial vítima. Também relacionado ao crescimento da sensação de violência, quantas pessoas não passaram a ser assaltadas ou a temer andar de noite devido à deterioração urbana causada pelo flagelo do crack e fortalecimento das organizações criminosas?

Somando o incremento no número de potenciais vítimas, do surgimento de pequenos objetos de grande valor e rápida venda no mercado negro (celulares, smartphones, tablets, notebooks) e o crescimento no número de micro-empresários com a mais fácil disseminação tanto de notícias de crimes quanto de indignação diante deles se chega à situação atual em que não passa um mês sem termos um crime chocante virando destaque nos telejornais noturnos, menos propensos a darem espaço a este tipo de notícia.

Para o PT e para a esquerda nacional, nada poderia ser pior. Há um enorme desencontro entre as propostas de esquerda para segurança nacional, e mesmo de leitura do fenômeno, e o senso comum. O governo tucano de São Paulo baixou muitos os índices de criminalidade aumentando enormemente o efetivo das polícias e construindo presídios numa velocidade muito acima da média nacional. O governo do peemedebista Cabral instalou bases no meio das favelas, as UPPs, e conseguiu retirar parcialmente o total domínio que os criminosos tinham dentro das favelas. Como seriam possíveis essas ações em um governo esquerdista? Oras, a esquerda daqui odeia a PM, pretende acabar com ela, sem falar ou dar qualquer idéia de como seria uma polícia desmilitarizada. Um petista chegou a dizer que nossos policiais “são homens do século XIX, inadequados para o enfrentamento da nova realidade”! O que fariam então com os policiais se fossem desmilitarizar a polícia, demitiriam a todos ou os tornariam “novos homens”? Eu não consigo imaginar como seria essa reforma, que deveria ser feita por legislação nacional, mas já consigo perfeitamente imaginar um governo estadual fatiando o orçamento e as diretorias duma nova polícia “social” entre partidos de sua base e repletos de militantes partidários. A esquerda daqui também acha que no Brasil “se prende demais”, repete que não devem ser feitos mais presídios e que deve-se mesmo é afrouxar o código penal, isso quando não apresenta propostas que praticamente inviabilizariam qualquer presídio no país, a menos que se liberte metade dos presos (ver projeto). E a esquerda nacional também discorda da ocupação de favelas pois eles crêem que polícia equivale a opressão ilegítima, e pensam que todo cidadão teme a PM, ou que os favelados prefeririam o velho domínio de bandidos nas ruas.

Cotidiano macabro

Cotidiano macabro

Quanto mais a violência for debatida até a eleição, mais difícil será a vitória do PT. Por mais que ações massivas do crime organizado, como ondas de ataques, possam prejudicar o governo paulista por exemplo, o PT deve pisar em ovos ao falar do tema, ainda mais por haver um histórico do PCC pedindo voto para político petista – político que, maldito destino, hoje encontra-se num lugar em que tal organização se estruturou: um presídio. E como o PT explicará, durante a campanha, que de tudo fez para evitar um projeto bastante razoável que aumentava a punição de crimes hediondos cometidos por menores de idade ( link ), enquanto a oposição era favorável ( link )? Como o governo dirá à população que sua base esquerdista impediu a tramitação de um projeto que sugere transferir o Auxílio-reclusão, benefício dado à família dos criminosos que contribuíam à Previdência, à família da vítima, quando essa ficar desamparada ( link )? Quanto tempo um esquerdista precisa para explicar suas teorias de que o crime existe “porque há muitos pobres”, sem ofender a todos os pobres que não cometem crimes? Como o PT explicará a criação de inúmeros ministérios insignificantes com gente desqualificada e a não criação de um Ministério da Segurança Pública, que aliás estava entre as propostas do candidato de oposição derrotado em 2010? Como a esquerda dirá que há criminosos porque os pobres estudam pouco sem ofender aos milhões de pobres brasileiros, que estudaram pouco e não estão no mundo do crime?

Para o cidadão comum que está distante da luta política, apenas vota e depois sofre as consequências das políticas públicas, é muito proveitoso que a segurança pública seja um tema eleitoral central nas eleições presidenciais. Pensar que segurança pública é coisa de governo estadual é reduzir demais o peso do problema e ignorar que as Leis são federais, que o Brasil não é grande produtor de drogas nem de armamentos, e que isto foge ao controle dos estados. Deixar segurança pública fora da agenda de governo federal é uma posição confortável por evitar os desgastes de um tema tão espinhoso e que prejudica linearmente todos os extratos da população: tanto pessoas de pequenas quanto de médias e grandes cidades; pessoas do campo e do meio urbano; pessoas ricas, de classe média e pobres; brancos, mestiços e negros; jovens e idosos; homens e mulheres Cabe aos politólogos de oposição e aos cidadãos que têm interesse em viver num país um pouquinho que seja mais próximo do razoável, não deixar que eliminem esse tema do debate eleitoral.. A violência como foco das eleições será mais um dos casos em que o que será ruim para o grupo no poder será bom para o conjunto da população.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

Brasil, um país acuado pelo medo da criminalidade

O Ministério da Justiça divulgou há uma semana os números da Pesquisa Nacional de Vitimização, levantamento destinado “a captar as ocorrências de eventos criminais junto à população com o fim de comparar os dados oficiais registrados pelas polícias com a ocorrência efetiva dos crimes, classificando-os por localidade, estrato social, cor da pele, idade, sexo, renda e outros critérios sociológicos de mensuração.

O resultado é terrível, e pode ser baixado aqui.A violência em nosso país leva o brasileiro a ter medo de morrer assassinado e medo de caminhar. E é tamanha a criminalidade que o brasileiro não se sente nem mesmo motivado a fazer o registro das ocorrências, o que prova que os números oficiais só não são ainda piores devido à normatizada e aceita ineficiência do Estado em lidar com tantos crimes.

Nosso convívio com a criminalidade é tão cotidiano que dá espaço a mitos amplamente difundidos que, com os dados da pesquisa, provam-se irreais. Quem nunca ouviu algo como “bandido não rouba de pobre”, “bandido não rouba o próprio bairro” ou “é bom quando tem um bandidão no bairro pois ele evita que haja crimes nas redondezas pra não chamar atenção da polícia”? Esse imaginário idealista do criminoso só é possível em um lugar em que o crime é visto com naturalidade.

O levantamento

A pesquisa foi bastante abrangente, ouviu “78 mil entrevistados em 346 municípios no período de junho de 2010 a maio de 2011 e junho de 2012 a outubro de 2012.”

Logo na apresentação da pesquisa, lê-se que “32,6% dos brasileiros que vivem em cidades com mais de 15 mil habitantes dizem ter sofrido ao longo da vida algum dos 12 tipos de crimes ou ofensas contemplados na Pesquisa Nacional de Vitimização.”. Isso só confirma o que já estava claro há muito tempo: a criminalidade não é gerada pelos bolsões de pobreza das áreas metropolitanas, mas um mal endêmico espalhado por todo o território nacional. Não que isso vá mudar a cabeça de bagre dos pensadores de segurança pública brasileira mas é mais uma evidência gritante de que as “desigualdades” ou “disparidades” sociais não são os fatores preponderantes neste triste fenômeno.

A ocorrência ou percepção dos crimes vem aumentando pois 21% afirmam que o crime de que foram vítimas aconteceu por pelo menos uma vez nesse período (últimos 12 meses). Esses números chegam a 46% no Amapá e 35,5% no Pará.

Desses crimes, 14,3% foram agressão ou ameaça nos últimos 12 meses. Os crimes aconteceram 38,3% dentro de casa e 33,3% na rua onde a pessoa mora. Agressões de policiais respondem por 2,2% das reclamações.

Dado impressionante é o de que 80,1% dos 12 tipos de crimes pesquisados que as pessoas declararam ter sido vítimas, não foram notificados. Na Bahia, apenas 13,7% das pessoas que se dizem vítimas de algum crime o notificaram à Polícia. No Rio de Janeiro, 14,6%. Esses números só não são ainda piores pois os roubos e furtos em automóveis (90% e 69,5%) e motocicletas (80,7% e 70,3%) puxam o índice de notificação bastante para cima, especialmente pela exigência das seguradoras.

54,6% das vítimas de assaltos se dizem satisfeitas com a atuação da Polícia no episódio. Na cidade do Rio de Janeiro a satisfação com a atuação da polícia atinge 69,4%. 77,6% dos brasileiros confiam na Polícia Militar, enquanto 79,1% confiam na Polícia Civil.

Apenas 22,5% dos brasileiros se sentem muito seguros para caminhar de noite. 45,4% sentem-se muito inseguros para caminhar por outros bairros de noite.

14,9% dos brasileiros sentem-se inseguros quando ficam sozinhos em casa. 52% temem ser vitimados por uma bala perdida e 50,7% estar no meio de um tiroteio. 26,2% temem ser vítimas de agressões sexuais. 49,6% têm muito medo de morrerem assassinados.

A violência extrema é coisa totalmente nossa. As tradicionais e erradas desculpas que buscam numa herança ibérica ou no imperialismo das grandes potências justificativas para nossos fracassos não se encaixam por aqui. Há países mais novos, mais pobres e mais desiguais que não têm os índices de criminalidade do Brasil, seguidamente apontado como dos destinos a se evitar no mundo por motivos de segurança (1, 2 e 3).

Não é normal convivermos com tantos crimes e termos tanto medo. Isso gera custos imensos, tanto materiais quanto morais ao espalhar uma cultura de convívio com o crime. Pensem no caso de um banco, que tem de investir em segurança armada, câmeras, empresa de segurança super equipada para vigiar e fazer a retirada de dinheiro, chumbar os caixas eletrônicos (pois senão os bandidos vêm com caminhões e até mesmo tratores que retiram todo o caixa do chão) e no monitoramento do estacionamento. E, algo que se não é exclusividade do Brasil, não teria outro lugar para ser mais útil: as “canetas à prova de roubo” que os bancos deixam disponíveis em seus caixas para que as pessoas possam preencher cheques e documentos? Isso é normal? Todos esses gastos são arcados pelos clientes do banco. Se os gastos de um banco não sensibiliza, pense então no quanto a segurança toma dos custos de pequenos empreendedores. Agora vá adiante e pense no cidadão, mesmo de periferia, que opta por um monitoramento noturno no bairro, geralmente feito por vigilantes sem treinamento que apenas passeiam de motocicleta; que paga seguro do veículo, além de botar alarme ou travas, e que evita sair e consumir de noite ou em dias em que há pouco movimento por temer ser assaltado. Que mesmo dentro de sua casa se sente inseguro! E quanto à “fuga de cérebros” promovida por pais com boas condições financeiras que incentivam seus filhos a estudar fora do país pela garantia tanto de uma educação de melhor qualidade quanto de uma passagem pelo período mais exposto à violência (idade universitária) em lugares mais seguros, geralmente correndo o risco de ver esses filhos ficando por lá mesmo?

Canetas à prova de roubo - Indústria próspera

Canetas à prova de roubo – Indústria próspera

A função mais elementar do Estado é preservar a vida de seus cidadãos, garantindo-lhes segurança. Estarmos nesse ponto absurdo, que não aconteceu de repente, mas foi avançando lentamente ao longo do tempo, mostra que estamos falhando miseravelmente em tudo. O que tem sido feito para dar mais segurança aos brasileiros? Há alguma ação emergencial ou de longo prazo com potencial de nos tirar desse poço sem fundo? Além dos discursos óbvios pré-eleitorais, que prometem sempre “mais inteligência, ação integrada entre as polícias e vigilância nas fronteiras”, o que tem sido feito ou proposto para melhorar a segurança dos brasileiros?

Estamos prestes a entrar em ano eleitoral, ou seja, a melhor época para pressionar políticos, a única em que eles estão abertos a ouvir e conversar com eleitores – ainda que na maioria das vezes o façam apenas de forma protocolar e falsa. Negar o tamanho do problema ou negligenciar a área com propostas vazias ou discursos ideológicos ultrapassados, que vêm falhando no país há anos, deve ser um dos critérios mais fundamentais na escolha de deputados, senador, governador e presidente. Ao contrário do vencedor bordão eleitoral de tantos anos atrás, a esperança está perdendo de muito para o medo da violência.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

Custo Brasil: um caso

Para tratar de certos temas, especialmente aqueles envoltos em muitos bordões e frases feitas, é preciso fazer uma visita breve aos conceitos básicos para resgatar o sentido original do problema e não cair nas armadilhas colocadas na evolução do debate.

Custo Brasil é um deles. De tão manjado, o tema é maltratado por gente que poderia ser classificada entre ingênuo desinformado ou mesmo cínico pilantra. Custo Brasil nada mais é do que destacar todas as desvantagens competitivas que o país impõe para a realização de negócios, definição de preços e bem estar da população. Assim, não há custo Brasil quando uma empresa paga imposto sobre seus rendimentos, uma vez que isso existe em praticamente todos os países que competem conosco em desenvolvimento econômico e humano. O nosso imposto de renda passa a ser um custo brasil se ele é maior do que a maioria desses outros países, se há complicadores que só existem por aqui e roubalheiras intransponíveis tipicamente locais. Quando temos o frete e armazenagem mais altos do mundo por problemas de infra-estrutura podre e criminalidade inaceitável, ao compararmos esses custos com outros países percebemos que há aí sim um custo Brasil. Quando vemos o quanto as empresas reservam para agradar fiscais de aduana, de posturas e tributários para conseguirem agilizar suas atividades, e isso é visto com a maior naturalidade, ao ponto de multinacionais terem capítulos especiais em seus códigos de postura ética reservados ao Brasil e seus costumes, estamos diante de outro custo Brasil. O acúmulo de impostos em cascata, o imposto antecipado (substituição tributária) pelo produtor, criado para vencer a sonegação na ponta final da cadeia produtiva, a escolta por satélite e por terra de mercadorias, por questões de segurança, a depender do trajeto a ser enfrentado pela carga… Há inúmeros exemplos de custo Brasil que afetam a cadeia produtiva, o tão endemoniado empresariado, mas cujas vítimas são parte de um grupo muito maior e indistinto: todos os brasileiros.

Para falar do custo Brasil é preciso ter parâmetros. Em economia há inúmeras unidades comparativas que são usadas para tentar comparar com a maior proximidade possível os diferentes custos de vida dos países. Tomemos o índice Big Mac: como o sanduíche leva os mesmos ingredientes em todo o mundo, a empresa é a mesma, ele pode servir. Porém, ele pode sofrer distorções… É muito provável que o hambúrguer do sanduíche seja muito mais barato em países exportadores de carne do que em países que a importam, para ficar no principal ingrediente. O ideal seria, para tratar do Custo Brasil, buscar um índice que não sofresse tais variações.

Um custo Brasil inegável é a absurda burocratização. Nossos preços são altíssimos porque nossa burocracia é extensa, burra, pesada e cara. A burocracia como a conhecemos hoje não é produtora de riqueza e já há muito deixou de ser um conjunto de medidas de segurança e validação das informações para se tornar meramente uma desculpa para aparelhar e agigantar o estado. A burocracia tem um custo principal, que toma praticamente 100% de seu preço: a validação de suas próprias regras e a manutenção dessa burocracia. Quando você paga para tirar um documento novo, como o passaporte, o dinheiro que você gasta está sendo mais usado para sustentar a superestrutura envolvida na produção do documento do que no armazenamento das informações e impressão do documento.

E se fosse possível achar um fator de comparação da burocracia mundial? Uma questão que fosse meramente burocrática, com os mesmos procedimentos na maioria dos países? Pois bem, isso é possível e será mostrado agora.

INTERNATIONAL DRIVING PERMIT

A Permissão Internacional para Dirigir é um documento reconhecido pela maioria dos países. Como as regras de direção são praticamente as mesmas, a esses países basta entrar no “grupo”, fazer uma validação das suas regras principais e pronto, está habilitado a emitir e reconhecer o documento.

Para emitir esse documento, não é preciso fazer uma prova, ou seja, não se se pode falar em custos diferentes entre os países, não se pode alegar que contratação da mão-de-obra e até a reserva de locais e compra de materiais para a realização da prova sofre distorções locais. Tudo o que o país precisa fazer é validar a carteira do solicitante, para verificar se está em dia, enviar os dados para um banco de dados central e então imprimir o documento. Tudo muito simples. Tão simples que em muitos países isso é feito por entidades privadas, como associações de motoristas. Pois bem, vejam quanto custa a emissão desse documento em alguns países pesquisados, com a transformação do valor de moeda local para Real:

  • Estados Unidos – DMV.Org, US$15,00 = > R$ 34,023
  • Inglaterra – PostOffice£5.50 => R$ 19,10
  • Índia – AutomobileIndia, 200 mil Rupias => R$ 38,00
  • Canadá – CAA – 25 dólares canadenses => R$ 52,25 
  • Austrália – NRMA – 39 dólares australianos => R$ 80,47
  • Espanha – Jefatura de Tráfico – 9,49 dólares => R$ 27,61
  • Chile – AutomovilClub – 39.900 pesos => R$ 173,92

Como pode ser visto, há uma variedade de países aí para compararmos. Desde a maior potência mundial, passando por alguns países ricos, um BRIC e um concorrente regional. E quanto ao Brasil?

Bem, no Brasil esses documentos são emitidos pelos DETRANs estaduais. Cada um pratica o seu preço sem dar muita satisfação. Vejam então agora os preços da emissão desse mesmo documento nos 3 estados mais populosos do país e na unidade que mais suga recursos do país, a burocratolândia do Distrito Federal:

  • São Paulo: Detran/SPR$ 224,07;
  • Minas Gerais: Detran/MG – R$ 122,58
  • Rio de Janeiro: Site fora do ar;
  • Distrito Federal: Detran/DFR$ 192,82.

Somente o Chile cobra um preço comparável aos nossos.

E então, qual a explicação para a emissão desse documento custar tão mais caro no Brasil do que em países muito mais desenvolvidos, alguns deles que até mesmo terceirizam a emissão do documento? Onde entra a estupidez do tal “Lucro Brasil” ou a ingenuidade debilóide que justifica os preços altos do Brasil com uma suposta ganância empresarial, que pelo argumento só existiria no Brasil?

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

A Guerra às Drogas foi um erro

Pouco importa seu posicionamento ideológico, intelectual, econômico ou moral: reconhecer o fiasco da declaração de guerra às drogas é inevitável.

As guerras estiveram e estarão sempre presentes na história da humanidade. Toda declaração de guerra é feita mirando um objetivo factível que, ao ser alcançado, findará a continuação dela. Sendo assim, é justo dizer que toda guerra é declarada com o intuito de se encerrar, que mais eficientes serão aquelas mais curtas e que, ao fim, apresentarem os menores números possíveis de perdas materiais e humanas.

Não são poucos os casos históricos de guerras em que, mesmo um lado tendo sofrido menos baixas e danos materiais, não se diz que esse foi o lado vencedor. A “Guerra do Vietnã” é um exemplo cristalino: morreram quase 20 vezes mais “nativos” do que soldados americanos e tanto o Vietnã do Sul, aliado dos EUA, quanto o Vietnã do Norte, apoiado pelos países comunistas, ficaram severamente destruídos. Ainda assim, esse é considerado ainda hoje uma das maiores derrotas em guerra dos grandes impérios da história da humanidade. Como os EUA não conseguiram o seu objetivo final, que era libertar o Vietnã do Sul da ameaça comunista e, pouco tempo após a retirada do suporte dos americanos o país foi tomado pelos forças do Norte, que depois seguiram com estupros e tortura contra o que sobrou do Sul, é mais do que correto dizer que os EUA perderam essa guerra. Foi uma derrota prática e moral.

Traficante preso: Vitória da Lei

Traficante preso: Vitória da Lei

Ao declarar “Guerra às drogas” em 1971, Nixon estava metendo o seu país em uma cruzada sem fim e arrastando junto todos os outros países que adotaram o lema. Uma das muit’as lições do manual básico e popular de guerra criado por Sun Tzu é que nenhum estado de guerra duradouro pode ser benéfico a uma nação. Não há e nunca haverá como eliminar dos seres humanos a necessidade de consumir drogas e, como se trata de um mercado lucrativo, sempre haverá força de trabalho disponível para produzir e distribuir o produto. A retórica da guerra pareceu útil no sentido de unir a população contra um inimigo comum muito claro e sem dúvidas danoso à sociedade, mas trouxe em si as cobranças e as naturais oposições “pacifistas” que, àquela altura, ele já deveria perceber que eram parte da sociedade de seu tempo.

Como não é possível terminar essa guerra, os seus opositores, com uma retórica muito semelhante à inocência dos pacifistas, sempre cantarão os males que ela produz. Mais ainda, seus argumentos estarão armados de um espírito muito parecido ao de soldados num front de batalha, dispostos a tudo fazer para derrotar o inimigo – no caso, o combate ao consumo e produção das drogas. As armas de quem é contra o combate às drogas não são bélicas, apenas canalhas: as estatísticas. Ao apresentarem os números e resultados do combate ao tráfico de drogas, todos os números existentes são jogados como contrários à continuidade da luta. Se são apreendidos milhões de toneladas de drogas, levando à prisão milhares de criminosos, os pacifistas da droga dirão que são números absurdos, lamentáveis, dirão que estamos perdendo força produtiva, dinamitando a liberdade econômica ou invadindo os direitos individuais. Se morrem milhares de pessoas no confronto entre as forças da lei e as forças do crime, não importa de que lado estejam as baixas, serão números lamentados. Se ainda assim o tráfico de drogas gira bilhões de dólares no mercado negro, encadeando uma série de crimes e práticas financeiras proibidas, também isso será colocado como culpa do combate às drogas, a supor que os traficantes são apenas empreendedores criminalizados.

Como discutir com quem está disposto a pegar todos os números da realidade, mesmo aqueles claramente desfavoráveis, para argumentar em favor de sua causa? Ainda passando por isso, há outra perversidade na argumentação que fala em fiasco da “Guerra às drogas”: apresentar o montante acumulado ao longo dos anos no combate e gritar de indignação pelos gastos. Quando a economia passa a ser um fim em si, não um meio de melhorar a vida e bem-estar das pessoas de acordo com os valores vigentes na sociedade, então abre-se o flanco para toda sorte de proposta maluca. Para ficar num exemplo rápido, não haveria como justificar economicamente a existência de albergues pois eles “só geram custos” ao aliviar a vida de pessoas que já nada produzem. Mas esse é um outro ponto, que deverei abordar futuramente em um post específico… Voltando às drogas, não há parâmetro algum para dizermos se o que se gasta/gastou combatendo as drogas é pouco ou muito. Primeiro, porque nessas horas não se faz um paralelo quanto aos custos gerados pelo uso ou abuso de outras drogas permitidas, como o cigarro e a bebida, levando em conta a proporção de usuários. Nesse ponto, ainda que se levasse em conta que o cigarro e a bebida pagam impostos e geram empregos, eles também geram custos marginais por conta da corrupção, falsificação e sonegação. Segundo, porque não há como saber quanto seria gasto na recuperação, tratamento e na perda de eficiência ou inutilização da força de trabalho das pessoas beneficiadas pela facilidade de acesso ao que hoje é proibido. Por fim, também se ignora que, ainda que liberadas todas as drogas possíveis e imagináveis, existirão plantações clandestinas, fábricas de transformação e pontos de consumo ilegais, gerando tudo isso a necessidade de ação policial e custos, mesmo aqueles custos marginais decorrentes de corrupção policial e propinas a quem fiscaliza a cadeia produtiva. Ou seja, se sempre fosse permitido o consumo de todas as substâncias, haveriam gastos enormes iguais aos que existem para quaisquer produtos lucrativos e legais que existem hoje.

Ao falar em “Guerra às drogas”, Nixon criava um lema maldito para uma boa causa: minimizar e desincentivar o consumo de substâncias nocivas. O uso incorreto das palavras permitiu coisas bizarras como se vê hoje em dia, em que temos mais gente a se levantar contra a “Guerra às drogas” do que contra políticas que se proliferam pelo mundo que visam diminuir o consumo de alimentos que são muito menos nocivos. Chega até a ser engraçado hoje vermos certas correntes de pensamento de esquerda num dia pedirem o afrouxamento no combate às drogas e no outro um aperto no cerco ao catchup, aos BigMacs, às batatas Ruffles e  às coxinhas de lanchonetes em escolas privadas.

Chesterton certa vez descreveu o verdadeiro soldado como aquele que combate não pelo ódio ao que está à sua frente, mas pelo amor do que lhe fica atrás. Somente como inspiração retórica seria justificável a adoção desse lema para tal combate legítimo, que pode ser feito de diversas formas. Na política as palavras importam, o efeito delas é devastador e quase irreversível. A declaração de guerra às drogas aglutinou contra si bandidos, intelectuais, idealistas e pessoas bem-intencionadas mas, pior ainda, igualou a todos no uso de argumentos desonestos. O fracasso era inevitável.

Revisado por Maíra Adorno

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