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Luciano Huck não é nenhum Tiririca. Infelizmente

A virtual candidatura de Luciano Huck à Presidência da República representa a “terceira época” de aventura de artistas e/ou celebridades no mundo da política desde a redemocratização.

A primeira delas é na verdade uma pré-história, algo que não se concretizou, a candidatura de Sílvio Santos em 1989. Com a euforia da primeira disputa no voto depois de décadas de eleições indiretas, o empresário e apresentador era um dos virtuais favoritos quando havia pouquíssima referência política – há um ano das eleições pesquisas nacionais incluíam os nomes de Xuxa, Pelé e Roberto Carlos ombreando com Paulo Maluf, Lula, Brizola, Quércia e Ulysses Guimarães. A história do que se fez para evitar o que parecia ser uma vitória inevitável de Sílvio Santos é mais um dos nossos túmulos políticos que foram abaixo da terra com o corpo vivo e que ninguém ousa reabrir.

A segunda época é bem mais recente. Poderia ser simbolizada pela passagem fulminante de Clodovil Hernandez na Câmara dos Deputados, mas teve sua grande expressão com a candidatura do palhaço Tiririca em 2010. Por ser bem recente, me lembro bem da minha indignação contra aquilo. Tiririca é um comediante de humor simples, visual e foi olhado com desconfiança pela falta de estudos- ele foi submetido a uma prova para comprovar que era alfabetizado. Pior, sua campanha fazia humor no Horário Eleitoral, eram peças muito boas.Pessoas que nunca deram importância ao voto legislativo e que facilmente se esquecem em quem votaram tinham agora uma opção de pessoa “familiar”, com número fácil de lembrar. Tiririca foi o deputado mais votado e por pouco não chegou ao recorde de votos.

O sucesso de Tiririca incentivou outros, incluindo muitos que não se elegeram. O nome mais notável de celebridade eleita para a Câmara na última disputa é o de Sérgio Reis. Uma análise sobre o mandato desses dois focando nos votos das questões mais importantes mostram um saldo muito positivo para quem não vê a política puramente com olhos ideológicos. Por terem um prestígio fora do mundo da política, Tiririca e Sérgio Reis não precisam se curvar para pessoas desprezíveis que têm prestígio porque têm poder e têm poder porque têm um feudo político. Os “políticos artistas” prestam muito mais contas ao cidadão comum, seu público, do que à classe política. Numa época de comunicação instantânea e constante por conta das redes sociais, se mostram muito mais sensíveis ao apelo popular. No caso do combate à criminalidade política, Tiririca e Sérgio Reis votaram pelo impeachment de Dilma, apesar do palhaço ter sofrido pressão de seu partido e do próprio Lula para fazer o contrário. Os dois também votaram pelo afastamento de Eduardo Cunha, mostrando que não têm rabo preso a grupos poderosos da Câmara. E por fim os dois votaram pela investigação de Michel Temer nas duas denúncias oferecidas por Rodrigo Janot após nosso presidente receber clandestinamente na residência oficial um empresário investigado que recebeu bilhões dos governos PT-PMDB.

Uma candidatura de Luciano Huck representaria algo que é, ao mesmo tempo, oposta ao que representava a candidatura abortada de Sílvio Santos e o que têm sido até aqui as boas carreiras de Tiririca e Sérgio Reis. O apresentador global não seria usado por caciques de partidos médios para alavancar a legenda, mas um arranjo de forças políticas muito poderosas, que não dão as caras nas urnas mas agem nas sombras e justamente por isso precisarão pouco de um partido. Sua ligação com os políticos nunca foi numa via em que aqueles iam a ele em busca de prestígio, como o apresentador e dono do SBT, mas o contrário, ele quem ia atrás de autoridades por deslumbramento para mostrar força e influência. A quantidade de fotos sorridentes de Huck em suas mansões ou iates com autoridades e empresários agora presos é grande demais para ser ignorada.

Embora celebridades bem-sucedidas e queridas, havia no olhar dos fãs para Sílvio, como há no dos eleitores de Tiririca e Sérgio Reis, a impressão de que lidam com pessoas reais ou “gente como a gente”. Luciano Huck, pelo contrário, é o intangível. É o playboy bom de negócios, em fazer contatos e bajular. Sua popularidade não serviria para representar os valores do povo mas para impor-nos as idéias de uma casta que se iguala à dos políticos na insensibilidade, falta de escrúpulos e abuso de recursos públicos que é a classe artística.

O PT sempre foi linha de frente na representação dos interesses de atores (da Globo) e jornalistas. Sua queda abrupta e o despertar da revolta popular contra os valores de esquerda podem fazer com que Huck seja a única cara apresentável para esta gente se reposicionar de forma rápida no comando dos rumos do país – embora o PSOL tenha se fortalecido, só terá força para disputar cargos majoritários importantes talvez na próxima eleição. Um governo Luciano Huck muito provavelmente seria menos corrupto e aparelhador do que os governos de Temer e PT e, até por isso, se apresentaria com maior legitimidade para aumentar o fosso que separa o sentimento e as necessidades do povo daquilo que nossas autoridades decidem. Não precisaria se submeter ao Foro de São Paulo, o que lhe permitiria uma maior racionalidade econômica. Mas como solução contra a crise de banditismo das gerações de FHC, Renan Calheiros, Jader Barbalho, Temer, Lula, Aécio, Dirceu, Genoíno e tantos outros, Luciano Huck aumentaria a crise de representatividade sendo a cara palpável de arranjos de bastidores de determinados grupos e suas taras ideológicas, sejam elas pró-mercado ou progressistas.

Lewandowski e a defesa do imoralismo

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski teve um artigo publicado hoje na Folha de São Paulo que reforça um ponto de vista que tenho defendido há algum tempo em conversas e redes sociais: o problema brasileiro não é cultural nem burrice, mas moral. O destacado ministro da tropa de choque do petismo, agora aliado ao acordão “salva todos” que também beneficia Aécio e Temer, atacou o moralismo. Não o falso moralismo, mas moralismo mesmo. Um trecho do artigo é reproduzido ao fim desse post.

Lewandowski deve ser capaz de entender, e pode ter estudado, que a vida política de qualquer país saudável institucionalmente sempre apresentou críticas a falsos moralistas, pessoas que pregariam certas virtudes sem praticá-las. De certa forma isto é a projeção natural de um debate que nasceu na filosofia. Como poderia o filósofo, uma pessoa que usa o conhecimento em busca da verdade, apontar algo que vale para os outros mas que não seria válido para si? Verdade conhecida é verdade aceita. Algumas sociedades se desenvolveram com uma organização em que realmente determinados grupos teriam direito a certos privilégios, mas não é o caso daquelas sob a herança das três grandes religiões monoteístas: criados partindo de Adão, todos os homens devem seguir as mesmas regras em honra e gratidão ao Criador e o que determinará os bem-aventurados será aquilo que fizerem respeitando a santidade de sua vida, a de seus semelhantes e a de Deus. Esses são os fundamentos básicos sobre o qual se ergueu a moralidade no mundo.

Sendo o STF um dos mais enojantes símbolos do regime de castas em que se transformou nossa República, não é de surpreender que Lewandowski faça uma crítica ao moralismo em vez do “falso moralismo”. Aceitar que existem valores universais que independem da posição social, política ou profissional levaria uma pessoa de espírito saudável no posto do ministro a perceber todos os dias o quanto é privilegiado e como tais privilégios se fazem necessariamente contra os cidadãos comuns e mais necessitados. Que o dinheiro que sustenta seus passeios, mordomias, bônus e centenas (sim, centenas) de assessores poderia ser usado para comprar remédios ou fornecer água que garantisse uma subsistência mais digna aos muitos miseráveis e mendigos de nosso país ,para ficar em um exemplo rápido.

Não parece ser casual a redução de um termo abrangente ao seu emprego em um ramo restrito como a política feito pelo ministro do Supremo. Seria presunção de minha parte, e também muito provavelmente inocência, dizer que ele escreveu o artigo por ter pouca cultura – falar que nenhum moralista jamais foi absolvido pela posteridade é um absurdo inominável. Muito mais alarmante, porém factível, é perceber que a mediocridade de sua atuação foi agora também exposta em artigo, e ambas dão pistas daquilo que um homem de seu tempo e meio como ele é e representa. O ataque à moralidade é uma prioridade, questão de sobrevivência para os comissários e mantenedores de nossa República de aparências que partem agora para uma nova etapa em que os mais serviçais e descartáveis se apresentam à frente para o serviço mais pesado. Defender a imoralidade foi a parte que lhe coube.

Trecho do artigo de Lewandowski:

“A crônica da humanidade é pródiga em desvelar o trágico fim de moralistas que empolgaram o poder e exercitaram aquilo que consideravam direito a seu talante. Basta lembrar a funesta saga do monge Girolamo Savonarola (1452-1498), o qual, com pregações apocalípticas, extinguiu o virtuoso capítulo do Renascimento florentino. Acabou seus dias ardendo numa fogueira.

Ou a do deputado jacobino Maximilien de Robespierre (1758-1794) que, durante a libertária Revolução Francesa, mandou executar arbitrariamente centenas de opositores reais ou imaginários. Terminou guilhotinado, abrindo caminho para Napoleão Bonaparte (1769-1821).

Quer tenham sobrevivido por mais tempo ou deixado a vida precocemente, os moralistas jamais foram absolvidos pela posteridade.”

 

 

O devastador depoimento de Palocci, o bandido preferido da elite brasileira

O surpreendente depoimento de Antônio Palocci ao juiz Sérgio Moro é, nesta semana, o fato de maior impacto político no país, mesmo sendo uma semana repleta de fortes concorrentes. Relembre o que já vimos nessa semana curta de feriado da Independência:

As especulações sobre uma delação do ex-ministro de Dilma e Lula circulam já há algum tempo nos sites com melhores acessos aos bastidores da Lava Jato. Falava-se na possibilidade dele mostrar desde relações com a Rede Globo ao envolvimento da elite do sistema bancário – até aqui, surpreendentemente longe de quaisquer investigações de vulto. Em vez disso, em seu depoimento sobre as investigações que apontam o prédio do Instituto Lula como pagamento de propina pela Odebrecht, Palocci falou tudo o que era imaginado sobre a relação da empresa com o ex-presidente, e foi até além. O termo “pacto de sangue” teve forte impacto e estampou todas as capas de jornais do dia seguinte.

Vejam as reportagens do Jornal Nacional sobre seu depoimento:

Palocci: ‘Lula pediu para que pré-sal financiasse campanha de Dilma’

Palocci diz a Moro que Lula tinha pacto de sangue com a Odebrecht

Há muita especulação sobre os reais motivos dessas revelações. O “italiano” das planilhas da Odebrecht estaria tentando vender ainda mais cara a sua delação premiada, ainda não fechada com o MPF? Ele estaria tentando conquistar a confiança de Sérgio Moro, esperando que sua colaboração seja levada em conta como amenizadora das penas que virão para esta e futuras condenações? Sérgio Moro reduziu significativamente as penas de Léo Pinheiro e Agenor Medeiros no processo em que Lula foi condenado pelo tríplex no Guarujá – os dois forneceram documentos e foram fundamentais para provar a tese do MPF.

Mesmo em poucas horas de depoimento, Palocci conseguiu sintetizar o sistema de pagamento de propinas, mencionou as datas e participantes de reuniões que fechavam os acordos, deu um exemplo cristalino de atuação do governo em consonância com os bandidos da Odebrecht no caso da concessão do aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, confirmou que o “italiano” das planilhas só poderia ser ele, embora jamais tenha sido chamado pessoalmente por esse apelido, e confirmou que Lula só poderia ser o “Amigo” daquelas planilhas.

Lula e os petistas ainda não devem ter se recuperado do impacto. Até uma semana atrás, Lula falava bem do aliado e afirmava não temer nenhuma delação dele pelo fato de serem amigos e confidentes de longa data. Diferente dos guerrilheiros Delúbio, Dirceu e Vaccari, Palocci desvinculou seu futuro do de Lula e do PT. Como isso não ocorreu até agora nas figuras de vulto do partido, é um mistério saber o que acontecerá com ele daqui para frente. O PT não está no poder central do país mas conta com inúmeros simpatizantes nas cortes supremas, no Ministério Público e na imprensa… Como este exército de pessoas traídas reagirá?

Se por um lado Palocci se desabrigará do PT, ele terá refúgio tranquilo no restante da elite do país. Para muitos, de FHC aos editorialistas da Veja e do Estadão, ele era o melhor dos petistas. Mesmo após ter feito tudo o que fez contra o caseiro e das surubas com a máfia de Ribeirão Preto, esta gente não cansava de elogiar o que seriam suas qualidades de gestor econômico e promotor de boas práticas no equilíbrio das contas públicas. O que Haddad representa hoje, ou seja, uma possível ponte de união entre a esquerda tucana e o PT, Palocci foi por muitos anos entre os tecnocratas do partido, os grandes bancos e mega-empresários. Era o melhor dos políticos para esta gente e portanto o pior castigo para a população. Para continuar gozando das facilidades deste mundo, é vital que Palocci se mantenha fiel a eles, silenciando sobre o que sabe.

Palocci era um fio de ligação entre dois mundos de criminosos e inimigos do povo:  os burocratas e bilionários do sistema financeiro e dos meios de comunicação de um lado, os revolucionários ideológicos do PT de outro. Ao trair os petistas Palocci fez uma escolha que já lhe rende frutos numa ala mais imoral e imbecilizada do anti-petismo que o tem elogiado. Para que o homem de fala mansa de Ribeirão Preto se redima diante do povo brasileiro ele precisa dar um passo além e cortar o outro fio, denunciando o que sabe das relações inescrupulosas dos meios de comunicação e dos grandes bancos com o dinheiro público.

O incrível mundo dos micheleiros

Tenho tentado acompanhar nas redes sociais algumas opiniões dos micheleiros. Para quem não conhece o termo, se refere às pessoas que se interessam por política e acreditam que nosso atual presidente é digno de confiança. Embora seja praticamente impossível encontrar quem veja em Michel Temer grandes virtudes, essas pessoas justificam o súbito amor pelo fato de Temer evitar o PT, ou ao menos não ser o PT.

Em se tratando de política brasileira, o primeiro fator a ser levado em conta é a criminalidade. Ou seja, onde está o roubo e o bandido nessa história? Dos que acompanho e interajo, não creio que algum deles seja pago para tal militância, embora alguns de meus amigos não tenham dúvidas que um outro estejam sim recebendo dinheiro do PMDB ou do governo para se rebaixarem dessa forma – em lugar dos “blogueiros progressistas” da época do PT estaríamos vendo agora os “twitteiros de resultados econômicos”.

Pulando os aspectos meramente criminosos, que repito não ter elementos para apontá-los, é preciso citar a questão do estilo. Alguns o fazem de forma franca, o que é algo bem honesto. Encontram conforto em suas próprias consciências ao dizerem que o país está caminhando bem economicamente, que os rumos foram corrigidos, que as contas estão se reequilibrando e o desemprego diminuiu.

Há um grande número de micheleiros discretos. Em vez da defesa aberta, a fazem cirurgicamente. Abraçam a agenda de defesa de Michel Temer: não tratam das qualidades pessoais e condições que envolvem diretamente o Presidente em atos vergonhosos, mas atacam quem seria interessante apresentar como antagonista dele. Não se trataria da honra de quem ocupa o cargo mais importante do país, importante mesmo seria falar de quem o está incriminando. Joesley Batista? Um bandido. Janot? Um petista. Todas as notícias que fortaleceriam essas impressões são comentadas com doses de ironia.

Há por fim os micheleiros de resultados. Diante de tantas incertezas do cenário e pensando em sua própria recolocação profissional do que sobrar de estrutura política do país, fazem do silêncio a grande sacada. Embora comentem as minúcias de um fato ocorrido em cidades do interior dos EUA com menos de 20 mil habitantes, alegam que ainda é muito precipitado emitir juízos sobre tudo que está acontecendo. Aproveitando o já bem estabelecido mercado de críticas ao PT, suas opiniões são extremamente corajosas contra quem já não está mais no poder, como Dilma, Lula e seus ministros. Exposição de números do estrago petista realizado até pouco tempo atrás é sempre usado como contraponto aos resultados ruins de agora, embora a competição de grandeza das incompetências não seja declarada, ficando a cargo dos leitores complementarem o raciocínio ajeitado para mostrar que Temer é bom pois melhor que o PT.

Trecho da conversa comprometedora de Joesley que os micheleiros fingem ter existido

Desde a revelação de áudios comprometedores contra os dirigentes da JBS, os micheleiros fazem de conta que alguma das novas informações inocenta Temer de qualquer uma das muitas acusações que recaem sobre ele. Embora nenhuma tenha participação de Janot, usam o fato também contra o Procurador-Geral. Quando criticam Janot, não o fazem pelo que Janot fez de errado, ou seja, sua lentidão para investigar os petistas. Cínicos, atacam Janot por ter sido com Temer o que deveria ter sido com todos: rápido, eficaz e distante de acertos de bastidores. Torcem para que todas as informações fornecidas pela JBS sejam invalidadas, o que aliviaria a vida de diversos bandidos políticos – não importa, salvar Temer é a ordem do dia.

Não ouso argumentar com a maior parte dos micheleiros, embora o faça com alguns. Certa classe dessa gente, que desfila regiamente por Brasília ou empina as narinas (cansadas) mesmo sob ventos frios, não vale qualquer bate papo por serem mercadoras de opinião. Foram assim em campanhas de Alckmin, Serra, Aécio e agora entregam o serviço para Temer. É nítido o desconforto daqueles que incomodo quanto tento tratar da pessoa de Michel Temer e seus atos. Nenhum comenta o papel dele, de cúmplice e apoiador de todos os roubos e desmandos do PT. Também não elaboram nenhuma justificativa para o encontro com Joesley, mesmo xingando o dono da JBS de pior bandido do mundo. Acham natural que a pessoa que defendem tenha tido um relacionamento tão próximo com tantos que eles gastam energia para xingar. Não falam sobre Temer ter preenchido 1/5 de seu ministério com gente que também foi ministro dos governos petistas.  Se distinguem de Reinaldo Azevedo, maior fonte de seus próprios argumentos, porque não são profissionais do descaramento, não recebem ligações nem visitas, quem sabe o quê mais, do Presidente. Ao contrário da maior parte das pessoas que quer ver políticos que roubaram presos, essas pessoas se calam diante das ações atípicas de Gilmar Mendes e até mesmo tentam elogiá-lo de vez em quando. Há até quem diga que algumas personalidades importantes desse novo nicho econômico do anti-petismo estudam na “empresa” de Gilmar Mendes.

Evitando juízos mais severos, que tratariam das pessoas verdadeiramente bandidas e canalhas a serviço de outros bandidos, a verdade é que os micheleiros criaram sua identidade política na internet dos últimos anos tendo como norte a crítica à roubalheira do PT. Odiar bandidos é uma reação espontânea e natural de pessoas comuns, e foi assim que boa parte desses se consagrou ao canalizar um sentimento que estava disperso por aí. Caído o PT e desde que o partido deixou de ser, ainda que momentaneamente, o maior predador público do país, essas pessoas ficaram sem rumo. A existência do PT como ameaça os tornou dependentes. Sendo sua essência caracterizada pela negação de algo, vêem ameaçadas a própria continuidade em um mundo em que não tenham um PT para sustentar os personagens que criaram. O tempo de combate aos vícios do PT não os levou, ainda, a perceberem que há um problema acima da ideologia ou da filosofia econômica, e que na maioria das vezes utiliza esses domínios como arma: a criminalidade, a imoralidade geral de quem acha que tudo lhe é permitido. Não percebem que o objetivo de um povo na história humana não pode ser enriquecer ou seguir essa ou aquela ideologia, mas respeitar a dignidade e os costumes de seus cidadãos, promover os bons atos e reprimir os vícios.

Pensando serem inteligentes e mais sabidos que as raposas da política, os micheleiros são corrompidos cada dia mais, correndo o risco de fazerem um buraco do qual jamais conseguirão sair, o da corrupção da alma em nome de projetos políticos. É muito provável que estejam manifestando agora os mesmos sintomas que algumas décadas atrás atacaram os petistas, com a diferença que sem redes sociais, a metamorfose se dava no escuro.

 

 

Lula é o primeiro ex-presidente acusado de chefiar uma quadrilha. O acordão PT-PMDB-PSDB será exposto?

A denúncia de Rodrigo Janot demorou, mas chegou. Não havia como a Procuradoria-Geral da República deixar de denunciar Lula e demais petistas pelo comando da cadeia criminosa do Petrolão. Lula se tornou o primeiro ex-Presidente brasileiro denunciado por chefiar uma quadrilha responsável por desvio de recursos públicos.

A denúncia ocorre quase um ano após o dia do Powerpoint da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba. A apresentação conduzida por Deltan Dallagnol praticamente forçou Rodrigo Janot a envolver Lula na investigação – até então, Lula não era objeto dos inquéritos na PGR. Contamos essa história no post “O efeito do Powerpoint de Dallagnol“. Relembrem o cronograma:

  • 17/03/2014 – Tem início a Operação Lava Jato
  • 29/07/2016 – Lula vira réu no STF por tentar obstruir a operação;
  • 14/09/2016 – Força-tarefa da Lava Jato inclui Lula em denúncia por favorecimento ilegal: foi o dia da apresentação em PowerPoint de Deltan Dallagnol
  • 20/09/2016 – Sérgio Moro aceita integralmente a denúncia apresentada pela força-tarefa da Lava Jato;
  • 28/09/2016 – Finalmente Rodrigo Janot envolve Lula entre os investigados no inquérito conduzido contra as pessoas que têm foro privilegiado;
  • 06/10/2016 – Teori Zavascki aceita a inclusão de Lula na investigação. A esta altura das investigações, o ministro estava praticamente incluindo Lula no banco dos réus também ali no Supremo Tribunal Federal

É muito provável que a Procuradoria-Geral da República tenha divulgado a denúncia hoje como forma de amenizar as críticas a Rodrigo Janot, decorrentes das novas gravações da JBS. A apresentação da denúncia também evita críticas de partidarização da instituição e ajuda o trabalho da nova Procuradora-Geral, Raquel Dodge: se a denúncia fosse apresentada por ela, poderia ser dito que Janot não o fazia por favorecer o PT e que ela só o fez para prejudicar o PT.

O próximo passo da denúncia é sua aceitação ou não pela Segunda Turma do STF, onde está o trio de ministros que tem operado fortemente contra a Lava Jato: Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Lewandowski. O Brasil inteiro suspeita que exista um acordão sendo operado e que envolveria a salvação de Lula em troca da salvação de Temer e Aécio. Como disseram Sérgio Machado e Romero Jucá “É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional. Com o Supremo, com tudo”.

O julgamento da aceitação ou não dessa denúncia deverá ser acompanhada muito de perto. É mais um duro golpe contra a imagem pública de Lula e deve facilitar o trabalho de condenação do ex-presidente em outros processos e outras instâncias – Lula já foi condenado por Sérgio Moro e agora será julgado em segunda instância pelo TRF-4.

Diante de tantas denúncias e instabilidade política nos dias recentes, é pouco provável que a nova denúncia tenha algum efeito na popularidade de Lula. Mais do que os efeitos eleitorais, ela servirá mesmo  para notarmos os movimentos de instituições e algumas notáveis figuras da República.

 

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