Sem cristianismo, não há civilização!

Em um saudoso encontro com ex-colegas do curso de sociologia – os poucos que restaram – a temática da fé e da religião tomou conta da conversa. Deus e sua melhor criação, a mulher, sempre habitam as conversas das quais, muito tempo depois, ainda teremos lembranças.

E lembro-me de meu amigo Rodolfo, de formação trotskista, declarar de forma altissonante, como se fosse uma constatação um tanto óbvia, que quem despreza a tradição cristã sofre de uma pobreza intelectual, espiritual (no sentido profundo do termo), cultural e literária.

Ele tem toda razão. Não posso deixar de notar, contudo, sua coragem em fazer tal afirmação em uma época na qual a moda nos círculos intelectuais é o desdém calculado contra o cristianismo, a tradição sob a qual erigimos nada menos do que a nossa civilização!

Hoje não existe preconceito moderno mais arraigado no meio intelectual do que aquele que deprecia o cristianismo como uma força repressora e o Ocidente como um projeto de sociedade que falhou, por supostamente esmagar a liberdade individual.

Uma absoluta mentira – do ponto de vista histórico, sociológico e religioso.

Vamos aos fatos: não existe outro caso tão afortunado na História da humanidade de uma sociedade na qual indivíduos portadores de diferentes crenças e praticantes de distintos modos de vida puderam se reunir para conviver sem abrir mão de suas identidades.

Isso já foi dito, com vocabulários conceituais diferentes, por filósofos e sociólogos como Karl Popper, Max Weber, Norbert Elias, entre outros.

A civilização ocidental é singular em sua capacidade de agregar e acomodar indivíduos, apesar das suas “cosmovisões em conflito”, para usar uma expressão do teólogo protestante Ronald Nash, que sintetiza o fato de que o Ocidente é um modo de vida que abriga diversos modos de vida, a partir de uma base comum que é a herança cristã.

Sim, lamento informar aos ateus militantes de plantão: as instituições modernas ocidentais em sua combinação sofisticada de liberdade e responsabilidade individual, em sua visão madura de que as escolhas individuais devem ser respeitadas, mesmo que delas discordemos, é um reflexo de uma criação genuinamente cristã, que é a própria ideia de indivíduo.

Em outras palavras, quero lembrar que o cristianismo marca o nascimento do indivíduo e da tradição de liberdade do Ocidente. Foi o cristianismo que reconheceu a soberania do indivíduo, a sacralidade da sua consciência e seu inviolável livre-arbítrio.

Nenhuma outra tradição religiosa havia reconhecido o status existencial dilemático do homem, ou seja, o fato de que existir, para nós, seres dotados de consciência, significa enfrentar dilemas de toda sorte e fazer escolhas na solidão de nossas consciências.

A descoberta desse paradigma existencial gerou uma mudança cultural profunda, que foi reconhecida e consolidada como um novo modo de organização civil na forma de instituições como o habeas corpus, os direitos civis e as liberdades de expressão e de crença.

Ao ateu militante, sugiro a leitura deste artigo de João Pereira Coutinho que aborda um estudo acadêmico (e agora livro) interessantíssimo, “Inventing the Individual: The Origins of Western Liberalism” (inventando o indivíduo: as origens do liberalismo ocidental), de autoria do erudito historiador e filósofo político (e ex-aluno de Isaiah Berlin) Larry Siedentop.

Siedentop, como sintetiza Coutinho, demonstra em sua pesquisa histórica um fato desagradável aos detratores do cristianismo: a origem do nosso “mobiliário” institucional moderno, dos nossos direitos civis e liberdades individuais está na tradição cristã.

O liberalismo herdou do cristianismo “uma particular concepção de indivíduo: um ser dotado de certos direitos inalienáveis, a começar pelo direito de acreditar no credo que entende”.

As noções cristãs de livre-arbítrio e de responsabilidade pessoal deram substância às instituições e dispositivos que construímos ao longo da História para organizar a vida civil.

Para além da vida civil, livre-arbítrio e responsabilidade pessoal se projetaram como questões centrais da política moderna. Tais noções foram reinterpretadas, em suas versões modernas, como direitos e deveres, mas sua origem é inegavelmente cristã.

No cristianismo, desobedecer a Deus é sempre uma escolha possível. E bastante utilizada pelos personagens bíblicos. Mas existem conseqüências. E todos arcam com elas. Essa ideia fundamental informou a consciência ocidental em sua busca de ordem e liberdade.

A ideia de que cabe ao indivíduo fazer suas escolhas e arcar com elas é uma legítima herança cristã. O Deus dos cristãos jamais impôs suas leis morais ou transgrediu a esfera privada de decisão dos homens, mesmo quando suas decisões os levaram às ruínas.

O cristianismo pautou o Ocidente com suas noções fundamentais de livre-arbítrio e de responsabilidade pessoal. O indivíduo é livre para fazer todas as suas escolhas e, na mesma medida, é responsável pelas consequências de cada uma delas.

Legado em perigo

Hoje este legado está em perigo por conta do fenômeno descrito por José Ortega y Gasset, em “A Rebelião das Massas”, que é a ascensão violenta do homem-massa, colonizado pelos novos paradigmas mentais do coletivismo social.

E mais: as ideologias políticas, por seu turno, querem destruir este legado para apagar o indivíduo da História, substituindo-o pela classe, raça, congregações por gêneros sexuais ou qualquer outra abstração tribal.

No lugar do indivíduo, querem o homem-massa, selvagem, disforme, reduzido ao salário que recebe ou à sua origem social, o que o torna indissociável de uma classe, turba ou categoria.

As ideologias interditam a consciência moral à qual o cristianismo faz constantes referências e reinterpretam os dilemas morais individuais (que permeiam as parábolas bíblicas) como meras “questões políticas”, “econômicas” ou imperativos de classe.

O cristianismo colocou o indivíduo no trono, mas fez sua cabeça pender com toda a sorte de dilemas morais, existenciais e religiosos. Somos reis intranquilos, submetidos ao que Cristo apontou como nosso bem maior, mas fonte de nossas tragédias: o livre-arbítrio.

As ideologias modernas, por sua vez, prometem paz e tranquilidade desde que nos livremos desta coisa ultrapassada que é consciência individual, substituindo-a pela consciência tribal.

Nós nunca mais sentiremos culpa, pois a culpa é um estado da consciência individual. Todos os nossos atos poderão ser explicados e justificados por causas externas, pela nossa origem social, nosso status econômico, etc.

Nesta troca diabólica, jogaremos fora não apenas nossa vida interior, nossa capacidade de agir moralmente, como também a rica experiência de liberdade e soberania individual que funda o Ocidente para embarcamos no trem das doutrinas coletivistas, do tribalismo, do igualitarismo que nos transforma em uma pasta humana indiferenciada.

Querem que sejamos todos servos para que não existam mais reis.

Defesa da Civilização 

Voltemos ao encontro dos amigos sociólogos. O nosso ritual anual de choque de perspectivas políticas e filosóficas, precedido de um torneio bem humorado de insultos. Mas, daquela vez, estávamos falando a mesma língua.

Quatro sociólogos falando sobre religião, uma constatação geral: a falta de sensibilidade religiosa é uma praga da modernidade, que deixa as pessoas intelectualmente mais pobres e iludidas com a sua orgulhosa ignorância.

Eis o meu adendo: o cristianismo não apenas é intelectualmente mais rico e profundo do que qualquer ideologia: ele é, também, moralmente superior.

A cosmovisão cristã é de uma riqueza comovente – e de uma complexidade que escapa ao olhar apressado dos seus críticos arrogantes –, pois abrange várias áreas do pensamento humano: teologia, antropologia, epistemologia e a ética.

Poderia elencar outras, mas acredito que este é o núcleo duro da fé cristã: uma visão sobre o homem (antropologia) em sua busca por Deus (teologia), seu fracasso em encontrá-Lo por meios próprios e sua chance de se redimir pela graça (ética).

O cristianismo também nos fala uma verdade poderosa: somos todos estruturalmente falhos e pecadores. Mas Cristo nos ama e veio nos salvar mesmo assim. E é por isso que devemos suportar uns aos outros, conviver e compartilhar, apesar dos erros alheios.

A cultura do “perdão e da ironia”, da qual fala Roger Scruton.

O cristianismo nos apresentou ao universo moral do livre-arbítrio, nos presenteou com uma civilização fundada na liberdade, no perdão e na generosidade.

Em uma época de relativismo moral disseminado, de “desconstruções” de tradições e costumes, é preciso que afirmemos que o cristianismo é o grande e insubstituível pilar sob o qual construímos nossa civilização.

Apaguemos da História a separação que Cristo fez entre igreja e o Estado, esqueçamos da advertência atemporal de que um dia prestaremos contas dos nossos atos a Deus, deixemos de lado os deveres de caridade que o próprio Cristo ensinou, e o que restará da nossa sociedade será apenas uma massa humana formado por estranhos e inimigos.

Creia você ou não em Cristo, saiba que o conjunto de liberdades civis do qual você desfruta é produto do conceito cristão de livre-arbítrio. Reconhecer a tradição cristã, portanto, significa reconhecer este modo de vida civil do qual você é beneficiário.

Mais do que reconhecer a tradição cristã como uma espécie de “patrimônio histórico da humanidade”, devemos lembrar que nosso modo de vida não durará muito tempo se o cristianismo – enquanto força social e cultural – deixar de existir.

Estaremos em perigo se jogarmos fora nossa identidade cultural para fazer tábula rasa da nossa História, a fim de salvar nossas cabeças dos intolerantes – vide as crises gravíssimas que atormentam a Europa pós-cristã.

É um erro fatal negar nossa História, nossa fé e a verdade sobre nós mesmos, em nome dos dogmas do multiculturalismo, do relativismo e do politicamente correto.

Nós, inquilinos da modernidade, devemos lembrar-nos disso como um alerta de vida e de morte: sem cristianismo, não existe civilização.

Feliz Natal!

 

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9 comentários para “Sem cristianismo, não há civilização!

  1. Dagoberto Goltz

    Importante notar que o articulista, em nenhuma parte do texto, menciona uma “religião cristã”: ao contrário das religiões ( a palavra religião vem de religar, ou seja significa a tentativa desesperada e vã do homem em se voltar ao Criador) o cristianismo é uma forma de viver, aliás Viver com “V” maiúsculo, com princípios simples, mas que exige compromisso daqueles que querem seguir a Cristo, em que ritos e tradições não tem valor, e a iniciativa de religar sempre pertence a Cristo. Interessante que tudo o que está ocorrendo no mundo atualmente já foi previsto e está registrado em um livro milenar: sugiro que o leiam com urgência, pois, segundo a Bíblia, estamos vivendo o Tempo da Graça ou Apocalipse. Ainda bem que temos livre arbítrio, é pegar ou largar!

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  2. Marco

    Alguns “comentaristas” do blog esqueceram de escovar os dentes: Senti cheiro de pão, mortadela (talvez seus benfeitores globalistas estejam lhes dando “foie gras” com “croissant” ). Seus mentores devem ser sacerdotes de celtas, druidas e… ah! deixa pra lá. Lenha para o Lago de fogo!!!

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  3. Adilson Marques

    Tanto o Comunismo como o Liberalismo usam o pensamento do Cristianismo e o deturpam, destorcem, desfocam. Por isso são Sistemas opressores e falhos. Somente o Cristianismo e a Igreja Católica podem trazer o verdadeiro sentido do Homem.

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    • Flavia

      O cristianismo não surgiu na Europa. Mas a retirada do cristianismo da civilização europeia, onde outrora foi berço da sua expansão, tem trago efeitos trágicos e devastador para sua origem e raíze. A Europa está chegando ao fim.

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  4. Raquel

    Após colocar o cristianismo num pedestal e desprezar as maiores e mais antigas religiões do mundo, numa ALIENAÇÃO total da identidade das religiões, me resta parar de seguí-los.

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