Como ser um conservador (em tempos de barbárie)

Foi providencial terminar a leitura de “Como ser um conservador”, de Roger Scruton, quase no mesmo momento em que foi divulgado o vídeo em que um professor universitário confessa seu desejo de fuzilar conservadores e poucos dias depois que jovens racialistas invadiram uma sala de aula da USP para vomitar seu ódio contra quem cometeu o crime de nascer branco.

Os dois episódios revelaram muito para o público em geral.

O fato de terem sido protagonizados, o primeiro, por um professor e, o segundo, por estudantes universitárias desnuda a causa e o efeito perversos da doutrinação ideológica nas escolas e universidades do Brasil: o mestre instila o ódio e este é reproduzido com devoção pelos jovens pupilos.

Além disso, tais flagrantes de ódio iluminam a verdadeira motivação da esquerda em sua guerra contra nossas tradições, instituições e regime político: o desejo de destruir a civilização através do uso instrumental da barbárie.

Mauro Iasi, o doutrinador, em ação: causa e efeito

Mauro Iasi, o doutrinador, em ação: causa e efeito

É contra a barbárie que Roger Scruton escreveu uma das obras contemporâneas mais assertivas em defesa do conservadorismo. Com uma prosa sofisticada, mas sem afetações, Scruton demonstra que a filosofia conservadora representa justamente a defesa da civilização contra as hostes de bárbaros que já vivem entre nós e lutam pelo fim de tudo que amamos.

Defender os valores civilizacionais nos nossos dias – quando nos defrontamos com professores que desejam nos fuzilar e estudantes que exigem a nossa alma – é uma missão que demanda coragem, resiliência e, acima de tudo, sabedoria.

E sabedoria é o que Scruton tem para nos oferecer.

A começar por trazer à luz os equívocos filosóficos e as mentiras políticas que sustentam o frágil arcabouço teórico dos militantes do ódio e da barbárie, estes que se travestem de humanistas com a finalidade exclusiva de nos emboscar em nossa própria casa, escondidos no Cavalo de Tróia das boas-intenções.

É necessário enfatizar, de saída, que Scruton não é um intelectual engagé e não está interessado em guerrilha política; o filósofo britânico não está entre aqueles que acreditam que devemos lutar contra o Diabo usando as armas do Diabo.

Muito pelo contrário, o autor parece nos dizer que é no campo das ideias, e também por meio do exemplo, ao adotarmos uma postura civilizada e instrutiva, expondo as mentiras políticas e morais dos que nos odeiam, que vamos derrotar o Diabo.

Scruton lembra algo de muito valoroso: o modo de vida civilizado demanda uma habilidade para conviver e dialogar com quem pensa (diametralmente) diferente de nós – civilização é convivência ou não é nada. E isso só pode ser alcançado por meio da empatia, ou seja, a capacidade de se colocar no lugar do outro.

De forma magistral, Roger Scruton constrói toda a cadeia argumentativa dos seus adversários para, em seguida, desconstruir tudo o que merece ser desconstruído. Antes, contudo, ilumina o que há de valor nos princípios e pensamentos dos seus adversários.

Scruton: a filosofia conservadora representa a defesa da civilização

Scruton: a filosofia conservadora representa a defesa da civilização

Com um didatismo elegante, Scruton identifica o que há de verdadeiro no socialismo, no liberalismo, no multiculturalismo, no ambientalismo e no internacionalismo. Da mesma maneira, o autor expõe tudo o que há de falso nessas correntes políticas e culturais.

É um exercício filosófico por excelência que consiste em separar o joio do trigo. Há insights relevantes no campo adversário e apenas o sectarismo nos impede de enxergá-los. Isso não significa, é claro, comprar todo o pacote ideológico de quem quer que seja.

Roger Scruton se colocou no lugar daqueles que estão no extremo oposto de tudo aquilo em que ele acredita. Fez isso para melhor compreendê-los, mas também para conceder a eles a legitimidade intelectual que um adversário merece em um verdadeiro debate.

É claro que este nível de respeitabilidade intelectual não merece ser concedido aos advogados da violência, como Mauro Iasi , e aos militantes do ódio racial, como as jovens da USP que pretendem roubar nossas almas quando, na verdade, o que lhes falta é cérebro.

Mas existem certos ramos e certas figuras da esquerda que, embora equivocados sobre economia e outros temas, não podem ser colocados entre os bárbaros. Recusar esta verdade elementar é aderir ao barbarismo que enxerga o mundo por meio de uma empobrecida visão binária, que nos divide entre nós e eles.

A cultura de repúdio

Scruton faz uma forte denúncia da causa do ódio na política e na cultura: os impulsos destrutivos que a esquerda multiculturalista manifesta em relação à própria civilização onde ela nasceu e permanece protegida – apesar da sua tentativa de destruí-la.

Talvez muitos leitores se surpreendam com o tom elogioso com o qual Scruton aborda a origem e o desenvolvimento do Iluminismo, mas ele o faz com toda razão e para provar que os valores ocidentais são singulares no mundo na medida em que incluem os não-ocidentais.

Como resultado do Iluminismo e de tudo aquilo que este significou para a civilização ocidental, comunidades podem ser absorvidas e integradas em nosso modo de vida, mesmo quando chegam trazendo deuses estranhos. Tal virtude de nossa civilização, no entanto, exibida de forma tão clara nos Estados Unidos, foi utilizada justamente para repudiar nossas pretensões de civilização com argumento de que, em nome do multiculturalismo, devemos marginalizar costumes e crenças que herdamos, e até descarta-los, para nos tornamos uma sociedade “inclusiva” em que todos os recém-chegados se sintam em casa.

No fabuloso capítulo dedicado ao multiculturalismo, Scruton expõe as raízes da agenda politicamente correta e sua degeneração em formas de censura e totalitarismo cultural. Em resumo, a esquerda multicultural acredita que para sermos inclusivos devemos denegrir “aquilo que mais sentimos, acima de tudo, como nosso”.

Scruton cita alguns casos, entre eles o diretor geral da BBC que, recentemente, condenou a própria emissora por fazer programas “para a classe média branca”, os acadêmicos que desprezam o currículo universitário definido por Dead White European Males (Homens brancos europeus mortos) e uma instituição de caridade britânica dedicada às relações raciais que condenou como “racista” a ideia de uma identidade nacional britânica.

Para Scruton, “a bondosa defesa da inclusão disfarça o desejo de repudiar o legado cultural que nos define”. É o que ele chama de “cultura de repúdio”, que surgiu da corrupção dos nossos valores, especialmente do valor fundamental da tolerância.

Como disse G.K. Chesterton, “o mundo moderno está cheio de velhas virtudes cristãs enlouquecidas. As virtudes enlouqueceram porque foram isoladas uma da outra e estão circulando sozinhas”. O enlouquecimento da tolerância gerou o multiculturalismo.

O Iluminismo, que parece conduzir por vontade própria uma cultura de repúdio, destrói a explicação ao debilitar as convicções sobre as quais foi fundada a cidadania. É o que temos testemunhado na vida intelectual do Ocidente.

Os jovens racialistas da USP, por exemplo, são completamente ignorantes do fato de que apenas no Ocidente podem realmente mudar o curso do seu destino porque são tratados como indivíduos e não como membros de uma raça ou de uma classe.

Tudo isso só é possível porque prosperaram entre nós os valores da tolerância cristã – exemplificados na parábola do Bom Samaritano – e da visão iluminista da natureza humana, que enxerga todos os indivíduos como autônomos e responsáveis por suas vidas.

Mas a tolerância cristã e o individualismo foram corrompidos de tal forma que hoje, em nome do reconhecimento do próximo (ou do outro), o establishment intelectual repudia aquilo que nos permitiu acolher diferentes culturas dentro da nossa: a liberdade intelectual.

A cultura de repúdio marca, de outros modos, a desintegração do Iluminismo. O espírito do livre exame está, agora, desaparecendo das escolas e universidades do Ocidente. Livros são inseridos ou retirados do currículo com base no politicamente correto; códigos de fala e serviços públicos policiam a linguagem e cursos são elaborador para transmitir uma conformidade ideológica.

Inflação de Direitos

Para Scruton, o multiculturalismo é fruto da incapacidade do liberalismo político resolver suas próprias contradições. O capítulo no qual ele aborda os dilemas liberais vale outro artigo. Mas em resumo o autor ensina que o conceito moderno de direito sofreu várias mudanças ao longo da História e hoje, irreconhecível, serve apenas para fins de agenda ideológica.

Em sua visão tradicional, o liberalismo concedia direitos negativos aos indivíduos. Hoje as  democracias são quase completamente pautadas pelos direitos positivos. No primeiro caso falamos, basicamente, de coisas que o Estado não deve fazer (torturar, perseguir, censurar seus cidadãos, etc) e no segundo caso falamos de coisas que o Estado deve fazer (conceder cotas, oferecer programas sociais, serviços públicos, etc).

É óbvio que o Estado se alimenta de direitos positivos como um carnívoro se alimenta de carne. Quanto mais direitos positivos, maior é o tamanho da máquina estatal.

Scruton observa que a inscrição dos direitos positivos na Declaração Universal de Direitos Humanos resultou na emergência do Estado moderno como um ativista incansável que está diuturnamente criando novas trincheiras de conflitos políticos com a desculpa de promover o apaziguamento das tensões sociais, e se esmiuçando sobre a vida dos indivíduos, sempre escudado pela mentira segundo a qual está promovendo a liberdade.

A igualdade perante a lei foi jogada no lixo em favor da agenda das minorias. Hoje o membro de um determinado grupo étnico pode desfrutar do direito que é negado aos demais em nome de uma falsa e vulgar noção de igualdade e do surrado discurso de justiça social.

A “inflação de direitos”, que é como Scruton chama o resultado da epidemia de reivindicações dos tais grupos minoritários, resulta em divisões e tensões cada vez maiores na sociedade moderna, embora os defensores de tais políticas se apresentem como paladinos da tolerância, da igualdade e da paz social. Scruton desmascara suas premissas e intenções.

Conservadorismo contra a barbárie

É sabido que os conservadores, ao contrário dos liberais, não caem no erro de encarar com o otimismo a natureza humana. O pessimismo antropológico os afasta da tentação progressista de elaborar quaisquer políticas que dependam da evolução de seres guiados pelo autointeresse, limitados em virtudes e conhecimento, em criaturas angelicais.

O negócio do conservadorismo não é corrigir a natureza humana ou moldá-la de acordo com alguma concepção ideal de um ser racional que faz escolhas. O conservadorismo tenta compreender como as sociedades funcionam e criar o espaço necessário para que sejam bem sucedidas ao funcionar. O ponto de partida é a psicologia profunda da pessoa humana.

A maior prova de tolerância do pensamento conservador é o de reconhecer e aceitar o ser humano como ele é, ao invés de negá-lo em nome de abstrações ou promessas utópicas.

A esperança conservadora não reside em um programa político, em um líder carismático, em um partido ou governo. O conservador é, antes de tudo, um cético. E como tal resiste à tentação de depositar sua fé em políticos, por mais bem intencionados que pareçam.

Mas, então, o que sobra? A própria sociedade.

Na visão conservadora – que não é pautada por dogmas, mas pela realidade – os seres humanos ao longo da história, e de forma bastante natural, se associam livremente e formam meios de ajuda mútua para enfrentar os desafios da sobrevivência.

"Como ser um conservador": apologia da civilização

“Como ser um conservador”: uma importante e necessária apologia da civilização

Scruton observa, em uma belíssima passagem, que “da matéria-prima do afeto humano construímos associações duradoras com regras, ocupações, cerimônias e hierarquias que atribuem às atividades um valor intrínseco”.

Não é por acaso que a esquerda, majoritariamente, se levanta contra igrejas, clubes, fraternidades e tudo o mais que esteja fora do raio de ações do Estado. É o caso, lembrado por Scruton, da organização de escoteiros de Boston, nos EUA, que perdeu o direito de utilizar um prédio público porque supostamente “promove a homofobia”.

Scruton chama de “esferas de valor” a religião e a família, pois nelas e delas são produzidos valores que estão fora do alcance da esfera estatal e que transcendem qualquer possibilidade de engenharia social.  É por isso que tais instituições são constantemente atacadas.

Mas a livre associação não pode ser sufocada, pois emerge de todos os segmentos sociais sem nenhuma necessidade de grandes estruturas ou financiamento. É a na vida comunitária, no espírito civil, no modo de vida descentralizado, na religião, na família e nas associações de ajuda mútua que construímos nossas trincheiras de resistência.

A verdade no conservadorismo repousa nessas ideias. A livre associação nos é necessária não só porque “nenhum homem é uma ilha”, mas porque os valores intrínsecos surgem a partir da cooperação social. Não são impostos por alguma autoridade externa ou incutidos pelo medo. Crescem de baixo para cima por relações de amor, de respeito e de responsabilidade.

Scruton lembra que mesmo aqueles dentro de nós que não têm qualquer crença religiosa – e o conservadorismo não é monopólio de nenhuma fé – devem ser amigos da religião, pois ela representa a maior barreira de defesa contra a engenharia social estatal.

Os valores são produtos das tradições, dos costumes e das instituições, e a primeira dentre essas tradições e instituições é a religião, afirma Scruton, “que faz brilhar a luz de nossos sentimentos sociais”.

A nossa luta contra a barbárie passa, necessariamente, pela afirmação da nossa identidade e pela defesa vigorosa da nossa herança espiritual atemporal.

Loading...

Um comentário para “Como ser um conservador (em tempos de barbárie)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *