Um país em transe

Estamos mesmerizados pelos escândalos em série da Petrobrás. É um descalabro de tal monta que, mesmo longe de conhecermos sua real amplitude, absorve praticamente a totalidade das atenções da opinião pública, da imprensa e dos órgãos de controle. A desastrada saída de Graça Foster, que não aceitou repetir, na presidência da Petrobrás, o papel degradante de gestor embalsamado vivido por Mantega no Ministério da Fazenda, é apenas o capítulo mais recente de uma tragédia que drenou bilhões dos cofres públicos para viabilizar um projeto de poder e garantir a boa vida de seus mentores.

Também fomos capturados pelas incompetências em série de Dilma e seu ministério de não-notáveis. Todo dia há um resultado negativo, uma barbeiragem, um acacianismo, uma picaretagem oriunda do executivo federal que, pela quantidade e ritmo de seus anúncios, embotam nossa capacidade de indignação, tornando-nos cínicos sado-masoquistas, que buscamos sentido e conforto na derrocada de um governo há muito prevista por aqueles que ainda preservam algum senso crítico. Vamos todos para o brejo, mas pelo menos alguns sabiam disso há mais tempo.

O presente eterno instituído pelos petistas, na qualidade de atuais donos do poder, retirou-nos a capacidade de olhar de forma objetiva para o passado e pensar o futuro com alguma ambição. Vivemos um constante “é o que tem para hoje”, contentando-nos com o fato de que “Com Aécio seria pior”. É o que nos oferecem os petistas, enquanto enfiam suas garras cada vez mais fundo nas entranhas do Estado.

São tantos os desmandos, são tão amplas as corrupções, que não há mais como absorver e compreender tudo. O cenário de anomia estendeu-se também para a vida privada, onde é cada vez mais difícil encontrar um fornecedor ou prestador de serviços confiável, que entregue o combinado sem muita briga e cobrança. A qualidade, confiança e excelência de produtos e serviços existe apenas nas propagandas.

O campo de confiança mútua é cada vez mais estreito na sociedade. Somos uma nação de oportunistas, com um estado parasitário e uma iniciativa privada letárgica e negligente, tudo permeado por uma selvageria normalizada que nos faz viver uma vida cada vez mais paranóica e fechada, pelo medo da criminalidade disseminada, responsável pela façanha de 50 mil homicídios anuais, absorvidos por nós da mesma forma que absorvemos a derrota do time do coração na última rodada.

Não bastasse tudo isso, o fantasma do racionamento de água e luz já é a mais assustadora realidade para muitos, explicada pelos governos federal e estaduais como meros resultados das variações climáticas. É muito clima ruim de uma só vez.

Desistimos de fato do direito de ambicionarmos sermos melhores, de projetarmos um futuro um pouco mais auspicioso, ou é apenas um sono longo demais?

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4 comentários para “Um país em transe

  1. Pingback: Ridendo Castigat Mores, Ridendo Dicere Severum | Reaçonaria

  2. João

    O conjunto de notícias é tão espantoso qua o estarrecedor anúncio da volta do professor Mangabeira Unger ao ministério Dilma passou praticamente desapercebido.

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  3. Roberto

    Nossa! O autor desse texto foi capaz de compô-lo usando de uma capacidade ímpar de síntese e objetividade. Parabéns! Concordo em gênero, número, grau e tempo com tudo o que foi escrito. E, lendo a pergunta escrita no final, não pude deixar de pensar em Matrix: a maioria prefere adormecer na ignorância, enquanto poucos, muito poucos, se dispõe ao sacrifício da libertação.

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